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4 de março de 2014

O imbondeiro


Viajar através de fotografias é também viajar no tempo. Uma passagem por África, os inúmeros alunos, os passeios com as turmas pelo parque, em frente à escola, a terra vermelha, uma manada de elefantes que, de súbito, decide atravessar-se no asfalto, palavras incompreensíveis em línguas locais (como ensinar em Português?). Canções, jogos de ritmo, palmas a marcar cadências, muitos risos. Lembranças de uma cidade perdida, junto ao mar. A acentuar a distância, o isolamento, voos domésticos cancelados, dias a fio. Permanece na lembrança a árvore, testemunha silenciosa, quase perene.

29 de setembro de 2013

Lembro outros tempos: apontamento em dia de autárquicas

Lembro outros tempos: os cuidados com aquilo que se dizia e a quem. Lembro outros tempos: alguns discos ouvidos em casa, às escondidas, sobre o absurdo de uma guerra (de todas as guerras). Lembro outros tempos quando, no liceu, uma colega de dezasseis anos desapareceu, durante uns dias, (para ser ouvida numa esquadra, dizia-se, pois o irmão mais velho distribuía propaganda dita subversiva). Lembro outros tempos: testemunhos de familiares que, ao saírem do trabalho, num qualquer dia 1 de maio viram, pelo chão do Rossio, panfletos com a simples frase «aguentas, Zé?» e, compondo o cenário, uma carga policial cega, sobre quem passava. Por lembrar outros tempos, mesmo em dias de desencanto e de incerteza, tanto valorizo a existência do direito ao voto (branco, azul, anulado, útil), seja qual for a opção de cada um, mesmo em tempos nos quais pouca confiança nos inspiram muitos dos candidatos. Quanto mais não seja, por isso, mesmo em desconforto, nunca deixei de votar.

Poetas andaluces

19 de abril de 2013

Da utilidade dos marcos de correio




Arredados, cada vez mais, do quotidiano das gentes, levam-nos a estabelecer outras associações como, por exemplo, a das cabines telefónicas  ou a dos telefones que, com contador, podíamos utilizar no interior de estabelecimentos comerciais na era a.TM (antes do telemóvel).
Guardada desde uma caminhada através de Alfama, a imagem veio à lembrança a partir do post deixado pela T. As palavras gravadas traduzem a zanga das pessoas do bairro, relativamente às interdições de estacionamento, embora seja uma dor de cabeça trazer o carro para algumas zonas da cidade… Quando as coisas vão perdendo a função inicial, acabam por ser utilizadas ao sabor da criatividade. Acontece que a realidade não é só a que de imediato apreendemos em meio urbano e, mesmo cruzando a cidade todos os dias, reparo que, perto de casa, os moradores mais idosos recorrem à carrinha dos CTT que, sempre à mesma hora, estaciona no largo da aldeia ou ainda deitam a correspondência (quem sabe se para os seus mais novos a viver longe) nas caixas de correio públicas,  à porta do café ou da mercearia.
Os marcos podem não conter – como na canção romântica do tempo dos meus pais – tantas mensagens de teor vário. A maior parte de quem nos escreve, fá-lo para cobrar a água, o telefone, e não por ‘gentilezas’ várias de cariz pessoal. Quanto aos marcos de correio,  que os não deixem morrer, a fim de também servirem de interessante pretexto para dois dedos de prosa com as gerações que já trocam mensagens em tempo real e ao alcance de uma ou várias teclas.

19 de março de 2013

Palavras leva-as o vento?



São estes os moinhos de vento da região (de modelo mediterrânico, diz-se). Testemunham, mesmo os que se encontram em derrocada, tempos de artes e ofícios. Vingou por mais tempo um deles, em funcionamento até há pouco, na freguesia de S. João das Lampas. As crianças visitavam-no, vendo o velho moleiro, a trabalhar para que guardassem na memória profissões de tempos distantes, para que não pensassem que a farinha ‘nascia’ em sacos, à semelhança dos que, espantados e já crescidotes observam , pela primeira vez, galinhas a debicar a terra ou maçãs a pender das árvores não conseguindo, de imediato, estabelecer associação com o que figura nas secções dos supermercados. Não se pense que, com saudosismo, se lamenta ver hoje as velas, despidas dos panos que as revestiam. Fica-se a imaginar moleiros fazendo deles casa e local de trabalho, à semelhança – estes em maior isolamento – dos faroleiros. O risco reside, sim, no facto de poderem vir a cair no esquecimento. Vem a reflexão a propósito do 80.º aniversário que hoje completa o escritor Philip Roth e da sua afirmação do dia,  no suplemento do jornal Le Monde “posso prever que dentro de trinta anos, ou mesmo mais cedo, haverá nos Estados Unidos tantos leitores de verdadeira literatura, como há hoje leitores de poemas em latim”.

13 de fevereiro de 2013

«Radio days»


Imagem: ricksantiqueradios

Na data de hoje viaja-se no tempo , reavivando memórias trazidas por um amigo dos meus avós. Contou-nos, na infância, sobre a festa em Lisboa, na data em que foi transmitida, em público, a primeira emissão no Rossio, a praça enfeitada de inúmeras bandeiras, povoada por uma multidão entusiasmada. Os transportes despejavam centenas de ouvintes incrédulos, que se acumulavam aos milhares. Narrou a efeméride com o tal «brilhozinho nos olhos», o Victor Hugo, que nos cantava árias de ópera, quando aparecia lá por casa, a dedicar boa parte do seu tempo de homem idoso, com uma cultura invejável, a atrair a nossa atenção - a minha e a dos meus irmãos -  na entrega dedicada às coisas que o apaixonavam. Considerávamo-lo algo excêntrico e detentor de uma personalidade cativante.
Não sei há quanto tempo se deu a efeméride, mas relembrei-a quando, há alguns anos, vi «Radio Days», de Woody Allen. É nestas lembranças que se vê utilidade na existência de datas rotuladas, por nos trazerem memórias de pessoas e de acontecimentos.

Um trecho da banda sonora do filme de Woody Allen aqui.

27 de janeiro de 2013

Memórias de Mafra ou porque fomos felizes num local


Há terras onde fomos felizes. Um dos motivos, terá sido a descoberta de um jovem poeta. Capaz de criar imagens fortes com as palavras, este rapazinho começou, em gesto de provocação, a trazer para as aulas as folhas arrancadas à antologia, fingia-se não entender. O que interessava eram os textos literários em estudo, desde que as páginas coincidissem… Com o avançar do ano, o Horácio veio e revelar-se, tendo conquistado o prémio literário (modalidade poesia) que, então, foi criado na secundária. Com um nome assim, as expectativas quanto à sua escrita  eram de responsabilidade. Chegou, por essa altura, a decisão pessoal de entrar em período de tréguas com os livros daquele que viria a ser o nosso Nobel… É que, até à data, nada parecia conseguir ficar à altura de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Constituiu experiência única a leitura do romance então recente – Baltasar e Blimunda ganhavam vida sempre que, num horário com inúmeros buracos entre tarefas e a incluir o sábado, se encontrava, sob as árvores, um banco convidativo, a escapar ao bulício da escola. Corriam pela vila  histórias exageradas pela imaginação popular: os ratos tomavam conta do espaço deslocando-se, em profusão, por caminhos subterrâneos que atravessavam o local… Na secretaria da secundária, os roedores apareciam, quase fossilizados, dentro de pastas de arquivo. O convento, na sua ostentação de oiro dos brasis, assenhoreava-se do espaço, excessivo no estilo arquitetónico. Chegou o dia ansiado – uma autorização especial para visitar a biblioteca do palácio, até então vedada ao público. Mesmo tratando-se de tempos diversos, a sensação de entrar num espaço proibido do saber conduziu à associação a outro grande título : O Nome da Rosa. Na imagem, um detalhe de outro compartimento do palácio, utensílio cuja finalidade conseguirão indicar.

30 de outubro de 2012

Entre bruxas, queimadas e conjuros (não confundir "com juros")

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Já por aqui se tem mencionado essa festividade das américas, a dar pelo nome de Halloween. O que pelas aldeolas da vizinhança se tem vindo a deixar extinguir, é o Pão-por-Deus: a campainha quase cessou de tocar no tal feriado em vias de extinção, a ponto relegar para uma nebulosidade amnésica , a compra de rebuçados com que se saudava a criançada . Em tempos, percorrendo um livro da biblioteca municipal verificava-se, com algum espanto, uma referência do senhor Noam Chomsky ao facto de aquilo que temos como tradição, nem sempre (quase nunca) o ser … Não se duvida de que no mais recôndito do nordeste transmontano se seja mais tradicional do que na tribo suburbana à qual se pertence (mesmo sonhando-se, no íntimo, com o não alinhamento…). Fazendo de advogada do diabo (t’arrenego, te esconjuro!), declara-se ser fascinante encontrar pontos de contacto em relatos de diversas latitudes – assim acontece com uma rainha que , sem o esperar, viu o pão que transportava na clandestinidade convertido em rosas, maravilha reivindicada por distantes países do velho continente. O mesmo sucede com os temas do romanceiro tradicional, recitados junto ao fogo da lareira, em cozinhas de paredes enegrecidas e que, em eras longínquas, eram levados pela tradição dos viajantes que, a cavalo, percorriam montes e vales detendo-se para descansar «contando um conto, acrescentando um ponto»… Parece que, nesse nordeste mais tradicional, também se comemoram noites de bruxaria, com pragas à mistura num caldeirão que, na vizinha Galiza, serve para o preparo das tão célebres queimadas. Apesar de tudo, receia-se a perda de algumas características talvez mais genuínas, não sendo confortável à escriba a descaracterização por imitação. É que nem sempre o mais fácil e transmitido por enlatados da tv (videojogos e afins) a determinada faixa etária , se extingue por aí: há conceitos que se enraízam, apagando o que, na génese (e aqui as desculpas ao senhor Chomsky), aparentavam ter cimentado um pouco a nossa identidade (ideia peregrina num mundo a perder fronteiras), mas talvez seja isto uma divagação (sem rumo, como vai sendo hábito) ao correr das teclas, tentativa de náufraga a agarrar-se à tábua de salvação, fazendo coro com o sociólogo (dizem alguns, “para que servem eles?”) : “tenho o direito a ser igual sempre que a diferença me inferioriza; e tenho o direito a ser diferente sempre que a igualdade me descaracteriza”

7 de agosto de 2012

Do 203 ao 403 ou porque nos desperta um anúncio

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Era assim que a marca Peugeot e o seu revendedor lisboeta eram publicitados na «Eva de Natal», corria o ano de 1955. Motivos para ter digitalizado a imagem? Despertou-me de imediato a atenção pelo facto de, na infância, terem sido estes os dois modelos – em sequência temporal e adquiridos em segunda mão – os escolhidos para os meus pais visitarem regularmente familiares e amigos durante o fim de semana. O 403, de boa memória e da cor do da foto, ficou entre nós até alcançar o estatuto de peça de museu, tendo chegado a transportar um barco de cerca de 100 quilos no tejadilho, rumo à Lagoa de Óbidos. Ao fim da quinta ou sexta tentativa (içar barquito a motor até ao topo e proceder ao movimento contrário), lá chegámos à conclusão que navegar em tais condições era um esforço comparável à subida ao Everest (exageros à parte).


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O primeiro bólide desde que vim ao mundo foi o 203, foi nele que fiz – não a conduzi-lo, convém esclarecer – as chamadas “voltinhas dos tristes” pela Marginal, sendo essa a legenda da segunda imagem, retirada de um álbum de infância.

7 de julho de 2012

Aldeia da Luz: o passado é um lugar estranho

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Fotografia de Eurico Palmeira em Luz do fim da luz

O que se extingue na voragem, não se consegue recuperar de modo genuíno: sempre que passo na casa da minha infância e recordo as árvores – a cerejeira japonesa que desapareceu, o jardim, o pequeno lago onde nadavam  peixes vermelhos que a cadela Laica tentava capturar – e hoje sou agredida por uma ruína que acredito desbitada, não posso deixar de estabelecer ligações. Passei um dia pela nova aldeia da Luz em vésperas de ser povoada, ainda a barragem do Alqueva se afigurava esventrada de águas. Como que num instantâneo, desfila na memória o grito da população, náufraga de um passado recente, tentando agarrar-se ao espaço ancestral prestes a desaparecer: o progresso traz destas coisas. Apesar de indiscutíveis vantagens, há sempre (ou quase sempre, lembrando a exceção das pinturas rupestres de Foz Côa), o impulso implacável do rio de onde derivam afluentes da memória. Em digressão geográfica através de pensamentos , evoco ainda Vilarinho das Furnas. Quanto a esta aldeia, sente-se especial comoção sempre que algum telhado assoma à superfície das águas. Desfechos diferentes – penso . Náufragos de um tempo extinto, o passado é uma linha ténue que tentamos reconstruir. É também nele que presente e futuro se alicerçam. Um vestígio de memórias da terra e das gentes, fica guardado no livro Luz do fim da Luz, quando decorrem dez anos da mudança da população para a nova aldeia, a tentar manter a traça da original.

Nove casas,/ duas ruas,/ ao meio das ruas um largo,/ ao meio do largo um pouco de água fria.

Tudo isto tão parado/ e o céu tão baixo/ que quando alguém grita para longe/ um nome familiar/ se assustam pombos bravos/ e acordam ecos no descampado. – Manuel da Fonseca

1 de julho de 2012

Coisas do passado: um jantar de cerimónia

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A arrumar livros antigos, sou atraída por uma curiosa passagem do Tesouro das Cozinheiras. Ainda do tempo em que se defendia o mito «vinho branco acompanha peixes, vinho tinto acompanha carnes», espanta-me o complexo ritual (com destaque para a profusão de vinhos e bebidas espirituosas) que, segundo este manual de instruções, deverá fazer parte de um jantar de cerimónia. Tentando abreviar o texto (retirei-lhe o «substituem-se pratos e talheres» presente em cada ponto), fica a parte ilustrativa da questão:
 1)- 10 minutos antes do jantar servem-se os «cocktails» […]
 2)- Serve-se a sopa. Vinhos para acompanhamento: Madeira seco ou Xerez;
 3)- […] serve-se o primeiro prato. Vinhos para acompanhamento: Bordéus ou qualquer branco nacional;
 4)- […] oferece-se o segundo prato. Vinhos para acompanhamento: Borgonha ou qualquer tinto nacional;
 5)- […] serve-se o assado. Vinhos para acompanhamento: Champanhe ou qualquer espumante;
 6)- […] servem-se taças de sorvete, gelados ou salada de frutas […]. Vinhos para acompanhamento: Porto, Malvasia ou Málaga.;
7)- […] trazem-se os lavabos pousados sobre outros pratinhos forrados com panos bordados ou de renda;
 8)- Serve-se o doce;
 9)- Substituem-se os pratos […] e servem-se as frutas. Terminado o jantar, os convidados devem lavar as pontas dos dedos nos lavabos e limpá-las aos guardanapos, que se colocam na mesa, sem dobrar;
 10)- A dona da casa levanta-se, os cavalheiros puxam a cadeira da senhora que lhes fica à direita e todos seguem a dona da casa para o salão;
 11)- Serve-se, então, o café, e, terminado este serviço, apresentam-se os diversos licores.
 Fica-se a pensar que um repasto com tais regras, pressupõe que os convidados tenham motorista abstémio que os possa conduzir a casa.

26 de junho de 2012

Sintra, S. Pedro e as alcachofras

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(foto: blogue incognitanodeserto)

Tendo mudado da cidade para o campo, hoje região suburbana descaracterizada, a infância e a primeira juventude foram épocas em que os santos populares se passaram a revestir de características próprias: a fogueira que se acendia do lado de fora do portão – a rua era então em terra batida, povoada por bicicletas de criança, carros de rolamentos e saloias que, em vestuário simples de mulheres do campo chegavam, de burro, para vender fruta e hortaliças da sua lavra. A inexistência de asfalto permitia-nos atear o lume a pilhas de lenha, sem que danos fossem provocados no pavimento. O toque citadino consistia em queimar fogo de artifício vendido – pasme-se – em papelarias da baixa lisboeta, de onde familiares nos traziam estes cilindros forrados a papel brilhante , o que trazia um toque festivo ao encerramento da comemoração, embora ficasse a pairar um aroma desagradável, a sobrepor-se ao da lenha queimada. Pela primeira vez, presenciei o ritual da queima de alcachofras colhidas nos campos (hoje substituídos por torres de cimento) deixando-as, de seguida, na terra do quintal, para ver se floriam – explicaram-me então que a floração significava amores correspondidos (o que mesmo a uma jovem causava perplexidade, por aqui não se encontrar ligação lógica com a crença, talvez ancestral...). A localidade mudou, a freguesia de Algueirão-Mem Martins é hoje a maior da Europa , diz-se... Acredito que sim, pois nesta estação de comboio , as carruagens esvaziam-se, levando menos passageiros do que dedos de uma mão até Sintra, término da viagem. A evocação dos festejos de outrora, prende-se com o facto de S. Pedro de Penaferrim – o concelho tem no dia deste santo popular o seu feriado municipal – já apresentar engalanado o terreiro da feira onde, há muito, é típica a comemoração do dia 29 de junho. Cruzo os campos em redor, e vejo-os povoados de alcachofras , a substituir as papoilas que, alegres, ainda há pouco enfeitavam a paisagem.

P.S.: à margem do post, fica a hiperligação para o novo blogómetro aqui, já que o antigo foi extinto.

6 de maio de 2012

Pensamentos em torno do dia de hoje

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A evocação ao dia, aqui deixada em posts e bonitas fotografias pela T, fez-me pensar um pouco na data que se comemora. É hábito passá-lo com a minha mãe, hoje houve concerto do grupo coral e a rotina foi quebrada. O dia faz pensar em duas vertentes – a de ter uma mãe e a de ser mãe. O festejo com as filhas teve de ser ontem, após convocatória, por motivo de viagem da mais velha para uma bonita cidade na Galiza, a deixar-me a pensar como gostaria de poder também fazer o mesmo percurso. O  lanche de sábado, em S. Pedro de Penaferrim (sem publicidade ao local), e a cantoria de hoje, acompanhada pela mais nova (e restantes elementos), trouxe-me este tema  ao pensamento. E ainda hoje estou grata a uma mãe por perceber que, na tenra infância (e às vezes pela vida fora), os sapatos são um incómodo.

3 de maio de 2012

Aconteceu em 1977...

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Um instantâneo captado à porta de um supermercado de Lisboa. Identifiquei-o de imediato, por recordar este local onde acompanhava a minha mãe às compras. Memórias de um ano em que houve racionamento de bens como o leite e o fiel amigo, o que explica a imagem. Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa via «A educação do meu umbigo».

17 de abril de 2012

A «Hermes»

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Lembranças da Hermes – bela designação mitológica para uma máquina de escrever : trabalhos académicos aqui teclados nos idos 70 (bom ter aprendido esta arte no ano do serviço cívico, que então precedia a entrada na faculdade), registo de algumas memórias, testes para os alunos passados a stencil… Nos testes, as ilustrações eram feitas de modo artesanal, com uma esferográfica que não escrevesse. Para corrigir qualquer erro, lembro-me de um verniz próprio, de cheiro tóxico.
Conservo a antiga máquina (já no meu tempo era uma peça de museu, embora funcional), como memória de uma época, afinal não tão distante assim, com uma certa nostalgia confessa do som que produzia, quando se passava nela qualquer texto.

7 de abril de 2012

Praça de Londres

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Passava alguns dias de Verão em casa de família, na primeira moradia do bairro, junto à Praça de Londres.
De boa memória, na avenida, as pastelarias Roma e Capri, uma de cada lado, hoje desaparecidas e ambas com os melhores garibaldis do mundo. Só a Mexicana, na Guerra Junqueiro, resistiu, deixando testemunho de uma época.
O ministério construído durante o Estado Novo, espantou por ter sido considerado um monstro a destacar-se da restante arquitetura da praça. Estranhava-se o seu estilo «americanizado», termo que lembra Carmen Miranda, embora, na juventude, fizesse pensar que, do alto, se deveria avistar magnífica vista.
Recordo assim a praça, com os automóveis e transportes públicos de então, contraste moderno a sobressair de uma cidade ancestral. Só para a geração dos meus pais, estreantes moradores da Av. de Roma, ficam gravados na memória os tempos em que ainda faltava colocar o asfalto e os motoristas de táxi se recusavam, com frequência, deixá-los à porta de casa.

Imagem: Dr. Marjay

27 de março de 2012

Os preços da comida

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O Século Ilustrado, 21 de abril de 1956

Porque abril se encontra à porta...

Abril em Portugal

Sim. Abril em Portugal é bem diferente do mítico «Avril au Portugal». Ventos, chuvas súbitas, variações bruscas de temperatura – eis a realidade. Mas o sonho, meus senhores, tem poderes mágicos. Podemos dizer o que quisermos. Podemos apregoar à vontade que Maio é, sob todos os aspectos, mais agradável, mais temperado, mais belo, que Outubro é um princípio de Outono verdadeiramente delicioso entre nós, quebrados os ventos, quebrados os grandes calores, as folhas das árvores a caírem lentamente e recortando-se no azul sem mácula de um céu cristalino e transparente. Podemos, neste sentido, dizer tudo o que quisermos: os turistas continuarão a afluir aos milhares a esta Lisboa, porto de Abril, à procura do seu sonho. Não há dúvida: uma canção revolucionou por completo o nosso calendário turístico. Impõe-se uma homenagem ao «Avril au Portugal», em nome dos comerciantes e hoteleiros para os quais Abril era um mês como outro qualquer…

«Um Lisboeta em Lisboa», O Século Ilustrado, 27 de Abril de 1957

19 de março de 2012

Família e amigos

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«Os amigos, temos o privilégio de escolhê-los, já quanto à família...» - frase recorrente ouvida a um pai que, talvez por valorizar o lema, lançou sólidos alicerces, convertendo até hoje em festa todos os momentos de reunião familiar: “sempre lá uns para os outros”, a não confundir com o conceito de famiglia, pois o principal legado terá sido o perene contributo na partilha de risos (muitos) e solidariedades, sempre que necessárias.

11 de março de 2012

«B» de bestial (ou brutal)*

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Nós, os de 70, herdámos da geração dos inovadores 60 o conceito de «bestial». No dicionário de José Pedro Machado encontra-se, para o termo, a seguinte definição: « relativo a bestas; brutal; grosseiro; estúpido; absurdo; selvagem; repugnante», sendo que os sinónimos apresentados não traduzem a ideia que, à época, associávamos à palavra.
Quando me soa aos ouvidos a expressão, «esta música é bestial», não deixo de esboçar um sorriso: sem que nos apercebamos, deixa-se uma parte do bilhete de identidade, ups… cartão de cidadão …
O ouvido já se habituou à expressão deste novo século e pronunciada pela juventude «esta música é brutal, é potente», termos igualmente interessantes para quem gosta e vive das (e com as) palavras.
O dicionário da Academia das Ciências integrou, há alguns anos, o verbete «bué», não o tendo por perto, desconheço se permite a fórmula «bué de …». E assim se fica a pensar na permanente novidade do léxico – alguns conceitos vingam por mais tempo no seu novo sentido, outros circunscrevem-se a uma época, acabando por cair no esquecimento entre as gerações mais jovens.

do bestial 

ao brutal


*E neste «b» de ‘bestial’, ‘brutal’, ‘bué’, deixaríamos, em justiça, muitos nomes começados por «B» , ficando uma aleatória imagem.

29 de fevereiro de 2012

Poema para Galileu

A 29 de fevereiro de 1632, Galileu Galilei publica, em Florença, o Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo. Dele fazem parte três participantes: o primeiro defende o heliocentrismo, o segundo o geocentrismo e o terceiro não toma partido. No ano seguinte, o processo de Galileu terá lugar perante a Inquisição, e o sábio será obrigado a retractar-se, sob pena de ser queimado. A condenação acabará por convencer Descartes a esperar algum tempo, antes da publicação do seu Tratado do mundo e da luz (1664) no qual defende opinião idêntica.

Poema para Galileu