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5 de novembro de 2011
27 de julho de 2011
Cine Teatro Farense
22 de julho de 2011
18 de julho de 2011
Teatro Covilhanense
Eu estou em crer que esta bela esplanada com cinema e variedades, publicitada em 1935 na revista Cinéfilo, já não existirá. Alô Covilhã!
18 de março de 2011
Os cinemas desmontáveis
Vasculhando memórias de infância e juventude, fica-se a pensar como não prevalecem lembranças destes cinemas desmontáveis, mais concretamente do de Colares, aqui publicitado, já que era prática corrente os passeios de domingo em família numerosa e alargada até à bela localidade.
A legenda que acompanha esta reprodução, faz referência ao ainda felizmente vivo Jornal de Sintra, na sua edição de 11 de Junho de 1939: «inaugura-se hoje a época de Verão com o magnífico filme O mais forte. Devem verificar-se sempre enchentes, tendo em vista o fim para que se destinam e os enormes adeptos que há da sétima arte nesta Vila». Os cinemas desmontáveis eram uma das atracções de Verão. O Salão de Galamares, o Cine-desmontável de Colares e o Cine-desmontável Araújo e Filhos na Praia das Maçãs eram disso exemplo.
Provavelmente alguns se lembrarão destas provisórias salas de cinema...
Fonte: Nuno Gaspar e Miguel Gaspar, Um passeio de Cintra até ao mar
3 de agosto de 2010
papelada j.
quando regresso de férias a lisboa preciso de uns dias para estar com as minhas coisas sobretudo com os caixotes com a letra do meu irmão a dizerem “papelada j.”. abrir um caixote daqueles é regressar ao passado e cada fotografia, cada papelinho, cada desenho tem uma historia. foram talvez os ultimos tempos do condes. nos vagueavamos pela cidade todas as noites e por vezes decidiamos entrar no cinema... não me recordo o que vimos neste mês de fevereiro de 97...
29 de abril de 2010
O Eden
16 de dezembro de 2009
28 de novembro de 2009
Nem frio, nem calor
22 de novembro de 2009
O transformista
Um anúncio publicado num anuário publicitário de 1913.
O Olympia tinha pouco mais de um ano de actividade.
A legenda da fotografia - "Robinet transformista", deixou-me curioso.
Será que se refere a Jean-Baptiste Robinet?
Texto e imagem de Pedro Ferreira
17 de novembro de 2009
OS CINEMAS TAMBÉM SE ABATEM
Os primeiros filmes viu-os em cinemas de bairro, vulgo “piolhos”. Não esquecerá nunca a participação de toda aquela malta, miúdos e adultos, choros, gargalhadas, bater de palmas, assobios, asneiradas da grossa dirigidas aos “maus das fitas, um vibrar desmedido pelas imagens a correr. Éramos parte do espectáculo.
O andar dos tempos levou-o a outros cinemas da cidade. O “Condes” faz a transição dos “piolhos” para as salas que poderá apelidar de referência. Gostava do “Condes” e espectador, sempre, do 2º Balcão. Se lamenta todas as mortes de salas de cinema, guarda a do “Condes” com um pouco mais de luto. Coisas assim difíceis de explicar…
O “Condes” gozou de grande popularidade nos anos 60/70. Fechou portas já na segunda metade dos anos 90. Como edifício foi alvo de múltiplos apetites imobiliários e passou por diversos projectos de remodelação. Após várias e rocambolescas peripécias, em Junho de 2003, o Cinema Condes dava lugar ao “Hard Rock Café” em português. Pedro Santana Lopes, então presidente da Câmara de Lisboa, selou o acontecimento partindo uma guitarra.
Ainda hoje é “Hard Rock Café”.
O “Hard Rock Café” é o fruto nostálgico de dois judeus norte-americanos que a viverem na Europa sentiam saudades da “fast food”. Conta a lenda que Eric Clapton, habitual cliente do Hard Rock em Londres, pediu a um empregado que o deixasse pendurar a guitarra na parede, para personalizar o lugar que mais lhe agradava no bar. Pete Townshend dos “Who” enviou a sua guitarra para o restaurante com uma nota: “A minha guitarra é tão boa como a do Eric.”
Hoje as diversas lojas “Hard Rock”, espalhadas pelo mundo, ostentam nas suas paredes os mais diversos instrumentos dos mais diversos artistas.
Entrou no “Hard Rock” uma só vez. Não é cliente de hamburgers e coca-colas, já está velho para grandes barulheiras e ajuntamentos. Ainda mais, aquele espaço era um dos seus cinemas, porra!
O programa do “Condes” refere "butch Cassidy e o Kid", um divertido filme de George Roy Hill, com Paul Newman e Robert Redford.
No programa podia ler-se que a música ambiente navegava nas ondas da música popular brasileira.
30 de outubro de 2009
O Sinal do Zorro
A Sonora Filme
A propósito do Gin e da sua crónica, segue o anúncio da primeira exibição do filme Rebecca no São Luís, exibido pela Sonora Filme. É um dos meus filmes de culto sem dúvida. Corria o ano de 1941 e ia acontecer um ciclone em Portugal.
6 de outubro de 2009
OS CINEMAS TAMBÉM SE ABATEM
O “Éden”, um lindíssimo edifício concebido pelo arquitecto Cassiano Branco,
abriu as portas no dia 1 de Abril de 1937 e durante a 2ª guerra Mundial foi o cinema mais concorrido de Lisboa. No dia 31 de Dezembro de 1989 exibiu “Os Deuses Devem estar Loucos-II” e não mais voltou a ser cinema.
A 1 de Outubro de 1996, o IPPAR considerou o edifício como Imóvel de Interesse Público.
A Câmara Municipal de Lisboa tentou, por diversas vezes, manter o “éden” como espaço para iniciativas de carácter cultural, mas não havia dinheiro e os mecenas não apareceram.
O edifício veio a ser recuperado pelo arquitecto Frederico Valsassina.
Em 28 de Novembro de 1996 foi inaugurada uma megastore da “Virgin”, mas foi sol de pouca dura. A “Virgin” viria a fechar, não resistindo ao tsunami da FNAC que secou tudo em sua volta – livrarias, discotecas… mesmo a “Virgin”, coisa que o Sr. Richard Branson ainda está para saber como lhe aconteceu…
Hoje é um hotel de luxo e por lá também se encontra a Loja do Cidadão.
O antigo edifício, na sua parte térrea, albergava a “Livraria Clássica Editora”, o Café e restaurante “Aviz” – apenas servia café de Timor, como se podia ler em placards nas paredes - e era poiso de gente ligada aos meios tauromáquicos e aos sportinguistas, que são gente conhecida pelo seu existencialismo torturado, e ali se reuniam. Os lampiões designavam o local como o “muro das lamentações”. Ao lado, a caminho do Palácio Foz ficava o “Cinema Restauradores”, um verdadeiro “piolho”. Fechou ainda antes do “Éden” deixar de ser cinema e no seu lugar a CUF abriu uma loja destinada à venda de carpetes e alcatifas.
O “Éden” não terá sido dos mais amados cinemas de Lisboa. Uma assistência, principalmente nas matinées, a atirar para o manhoso, afastavam algum público.
Mas no “Éden” viu inúmeros filmes, mas um não esquece: “Bonnie & Clyde” de Arthur Penn, na sessão nocturna de 15 de Dezembro de 1967.
Infelizmente não tem nem o programa, nem o bilhete. Pensa que já aqui contou a história: quando saiu de casa dos pais, deixou na despensa uma série de caixas de sapatos com bilhetes de futebol, cinema, outras coisas. Passados anos, a mãe pensando que aquilo era lixo, para o lixo deitou as caixas, e no lixo ficou uma enorme fatia da sua vida de cinéfilo e benfiquista.
Não recorda outro filme que, ao tempo da sua estreia em Portugal, tivesse provocado tanta polémica. Envolveu os críticos da especialidade e também alguma intelectualidade, como José Régio, Eduardo Prado Coelho, Mário Dionísio, Nuno Bragança, Natália Nunes, Bernardo Santareno. Até a circunspecta e silenciosa Agustina Bessa Luís desceu a terreiro. Em artigo, publicado no "Diário Popular"de 18 de Janeiro de 1968, começava por dizer:"Eu não pensava dedicar a este assunto uma só linha, mas acho injusto e leviano não o fazer."
Curiosamente, ou não, a polémica deixou praticamente de lado o brilhante filme de Arthur Penn (espantosas interpretaões de Faye Dunaway e Warren Beatty) para incidir sobre o seu carácter violento – “Eles são jovens, estão apaixonados e matam gente” – e a cena final, uma das mais espantosas que o cinema encenou, a morte de Bonnie e Clyde, cravejados de balas de metralhadora, caindo em câmara lenta, horrorizou as mentes das ratas de sacristia, que acusaram o filme de instigar os jovens ao crime e à violência..No fundo, a velha querela entre o Bem e o Mal.
O programa do “Éden” aqui apresentado, regista a reposição, em 3 de Junho de 1976, de “Quo Vadis” de Mervyn Leroy, com Robert Taylor, Deborah Kerr, Peter Ustinov. Num fim de página podia ler-se que sua exibição não era aconselhável a menores de 13 anos.
8 de setembro de 2009
SÍTIOS POR ONDE ELE ANDOU
Este calor de ananases que tem feito das noites lisboetas um inferno sufocante, fez com que se lembrasse de histórias antigas, que tem contado ao longo dos dias da vida , mas em que muito poucos acreditam.
Ele está no alto da Penha de França. Atrás tem o enorme depósito de água, ao lado a igreja. Naquele tempo esse prédio verde que se vê, quase em primeiro plano, na fotografia, não existia. Então podia ver-se o edifício da Cervejaria Portugália onde pelas noites de Verão, se exibiam filmes na esplanada. Lá ao fundo podem ver-se as árvores da Pascoal de Melo.
Não havia televisão e as noites quentes, convidavam as pessoas a vir para as portas das casas, para os miradouros, para os jardins. Mas dezenas de pessoas encostavam-se ao muro para ver as imagens que, lá longe, passavam no écran. Apenas as imagens. Nem som, nem leitura de legendas, apenas as imagens a correr.
Simples e comovente…
De tudo se serviu para que um dia explodisse o gosto pelo cinema. Ele e a malta do bairro.
Curiosamente nunca viu um filme sentado na esplanada da Portugália. E tanto que, em miúdo, o desejou. Quando a possibilidade de o fazer chegou, já não exibiam filmes.
Também havia filmes na esplanada do “Capitólio” no Parque Mayer. Nunca viu nenhum. Num Verão, pelas festas da cidade, aconteceu um “drive-in” no Jardim do Tabaco. Deliciado voltou a ver um dos seus filmes da vida – “Do Fundo Do Coração” de Coppola e já perdeu o conto às vezes que o viu. Sabe também de exibições de filmes, ao ar livre, no estádio do Inatel. Nunca por lá passou. Mas é cliente habitual das sessões da Esplanada da Cinemateca, que ocorrem em Julho e Setembro. Em Julho passaram filmes de piratas, por Setembro estão a ser exibidos alguns filmes de James Bond. Por vezes acontece um friozinho arrepiante, mas nada que uma boa bebida não resolva.
Ainda hoje sente o calor, o cheiro daquelas noites dos seus oito/nove anos a olhar os filmes da Portugália. O regresso a casa. As janelas abertas a respirar o fresco, as pessoas a conversar nas ruas. Um perfume de cravos e sardinheiras. O tempo da inocência total. Os caminhos para o Cinema Paraíso.
Tantas coisas que ele gostava de escrever. Se soubesse…
21 de julho de 2009
OS CINEMAS TAMBÉM SE ABATEM
No ponto da cidade onde cresceu, o “Império” era o cinema de estreia que estava mais à mão, os outros eram cinemas de reprise. Pelos domingos, o ir ao “Império”obedecia, pela malta da rua, ao ritual de vestirmos a melhor roupinha e pôr gravata. O Dudu tinha uns sapatos prteas que exigiam que passasse parte da manhã a pôr-lhes cré branco Os olhos do Dudu gargalhavam quando saía a porta de casa, ajeitava o nó da gravata, puxava as mangas da camisa, e assumia um ar imperial.
O “Império” é um belo e imponente edifício da responsabilidade de Cassiano Branco, começado a construir em 1947 e concluído em 1952.
Dizia-se que era a sala, em Lisboa, com melhor som e imagem.
Em 1955 era inaugurado o “Café Império” com entrada pela Avª Almirante Reis e mais tarde, no topo do edifício, virado para a Alameda D. Afonso Henriques, surgiu o “Estúdio” de que aqui já se falou no dia 16 de Novembro de 2008.
Hoje, onde foram os cinemas, está por lá uma seita religiosa, mas o Café ainda subsiste. Há uns três anos atrás, sofreu , por parte da seita religiosa, uma tentativa de apropriação, chegaram a aencerrá-lo, mas um movimento de empregados do café, apoiados pelos clientes e pela Câmara Municipal de Lisboa, impediram o consumar do crime e, hoje, continua a servir o seu ex-libris: os "bifes à Império".
Tudo vai mudando, os bifes já não têm o “glamour” de outrora, as coisas são mesmo assim, ele próprio já não é o mesmo, mas os bifes que hoje servem, mantém uma honestidade que, por exemplo, os da “Portugália” e os da “Trindade” já não apresentam.
O cinema Império também funcionou como teatro. A partir de 13 de Novembro de 1961, e durante três anos, segundas-feiras, à tarde, ali esteve o Teatro Modrno de Lisboa, de que também por aqui se falou em 17 de Janeiro de 2009.
Em 1996 o IPPAR classificou o imóvel de utilidade pública.
Com o pai assistiu no “Império” à estreia de “The Young Ones”, que em português se chamou “Uma Rapariga nos Teus Braços", com Cliff Rochard e os Shadows, um filme completamente datado, mas que por aqueles tempos provocou um encantamento divertido.
Em 1965 pediu prenda de Natal antecipada para, nesse mesmo mês de Dezembro, embasbacado, assistir na plateia do “Império” à actuação de Cliff Richard com “The Shadows”
As sessões clássicas do “Império” proporcionaram-lhe o conhecimento de filmes que ficaram a marcar a história do cinema.
Quem, no primeiro 1º de Maio, subiu a Avenida Almirante Reis pôde ver o enorme cartaz com “Couraçado Potemkin”, filme de Sergei Eisenstein.
O programa que tem para mostrar regista “O Implacável”, filme de Philippe Labro
com Jean-Paul Belmondo, estreado a 25 de Novembro de 1976 e aconselhado a menores de 18 anos. “Toda a sua vida, diz um dos protagonistas do filme, “foi um caçador de feras. Um dia descobriu que a única caça que ainda o poderia interessar era o homem.”
Antes do filme era exibido o documentário “No Reino das Aves”.
8 de julho de 2009
OS CINEMAS TAMBÉM SE ABATEM
O “Cinema Avis” ficava no Arco do Cego, frente à estação de recolha da CARRIS. Antes chamava-se “Palácio”. Foi demolido e, no seu lugar, encontra-se agora um enorme bloco residencial, onde também está o “Café Princesa”, restaurante, griil, self-service e, ao lado uma loja do “Pingo Doce”. No espaço onde era a estação de recolha da CARRIS encontra-se um parque de estacionamento para automóveis e um jardim, iniciativa de Pedro Santana Lopes, enquanto Presidente da Câmara de Lisboa.
(foto enviada por José Leite e adicionada a este post)
Nunca gostou muito de ir ao “Avis”. Vive de empatias, pancadas, gestos malucos e dali nunca veio nada disso, ou algo que se parecesse…
Mas neste 25 de Maio de 1979 foi (re)ver “O Sargento Negro” (“Sergeant Rutledge”) de John Ford, ele que gosta mesmo de ser um fordiano e houve o tempo em que, mal via um filme em reprise, ala que se estava a fazer tarde.
No meio do programa em baixo pode ler-se que “nos intervalos ouve-se música de discos fornecidos por DISCOTECA ROMA”. A Discoteca Roma foi uma estupenda discoteca, principalmente na área de Música Clássica. Já não existe e, no seu lugar, está por lá uma agência bancária.
Por detrás do “Avis”, com entrada pela Rua Dona Estefânia, havia uma fábrica de gelo e sorvetes, e o que ele gosta desta palavra sorvete. No Verão ia com os rapazes da rua buscar um bloco de gelo para os bailes de domingo no quintal do Vidrinhos.
Recordações ternas, suaves, os anos da inocência, que lhe apetece (re)contar:
Tudo girava em redor do Vidrinhos: a casa, o quintal, o gira-discos (um portátil em que a tampa era o alti-falante), a maior parte dos discos.
Os pais do Vidrinhos não eram ricos mas tinham aquela pequena porção de dinheiro, que por aqueles tempos, fazia toda a diferença…
No Verão, os bailes eram no quintal do Vidrinhos, onde havia uma densa e bem cheirosa parreira de uva americana. Nos bailes dos finais de Setembro, amiúde, caíam alguns bagos que sujavam as blusas de seda barata das raparigas.
Mas o Vidrinhos não tinha frigorifico. As garrafas de vinho branco “Valdor” ou “Camilo Alves” (a cerveja não estava vulgarizada) eram colocadas em grandes alguidares coloridos, oferta do “Omo” ou do “Tide”. Para as pequenas havia gasosa, para misturar, produzida e engarrafada em Pizões de Moura, mesmo gasosa, nada a ver com “7Up” ou demais javardices que por aí se vendem.
O gelo íamos buscar a essa fábrica atrás do “Cinema Avis”. Embrulhado em jornais e serapilheira, transportávamos o gelo. O Dudu dizia para se cortar o gelo aos bocados porque se transportava melhor, mas o Arolas dizia que inteiro não derretia tão facilmente. Caminhada a pé da Penha de França ao Arco do Cego e volta, uma razoável distância, a íngreme subida da Calçada do Poço dos Mouros, uma magote de pacholas a revezarem-se, transportando o gelo para os bailes da vida.
Os comes reduziam-se a umas sandes de pão de forma. O queijo e o fiambre compravam-se no Jaquim da Mercearia, deixavam muito a desejar e hoje colocaria os cabelos em pé à rapaziada da ASAE. Mas disso ninguém morreu!
Também bolinhos secos da “Fábrica Triunfo” de Coimbra, as raparigas a ficarem com os de chocolate e as bolachas de baunilha, delicadeza dos rapazes que elas retribuíam com sorrisinhos cúmplices. Mas a grande festa era a torta de cenoura que a mãe do Vidrinhos fazia. A D. Lourdes, para as meninas, disponibilizava também uma garrafa de capilé. Acabadas as garrafas de vinho branco – não eram muitas - atacava-se no capilé. Uma casquinha de limão, gelo do alguidar. Não mais os capilés lhe souberam como os daqueles bailes de Verão.
Diga-se que os bailes eram rigorosamente vigiados da janela da marquise pelo pai do Vidrinhos. Recordaque quando se punha o Alberto Cortez a cantar “El Vagabundo”, o Sr. Mateus descia até junto do gira-discos e por uns instantes ficava ali a fumar o seu cigarrinho “20-20-20” – “que importa saber quem sou e de onde venho e para onde vou, tu me desprezas por ser vagabundo”.
Alguém teria desprezado o pai do Vidrinhos, mas não necessariamente por ser vagabundo.
Ou será que ele gostaria de ter sido vagabundo?
22 de fevereiro de 2009
SÍTIOS POR ONDE ELE ANDOU
Sabia que o “Quarteto” tinha fechado em Novembro, estavam, no entanto, a tentar uma qualquer reinvenção, um projecto que recuperasse o espírito original do espaço, a tentativa de a Câmara classificar o “Quarteto” como espaço de interesse cultural. Mas nunca mais ouviu falar desses projectos, o maldito silêncio que neste país cai sobre tudo o que a cultura diga respeito.
Ao descer a Avenida dos Estados Unidos calhou olhar à esquerda, sim para a Rua Flores Lima e, na porta do Quarteto viu o letreiro: “VENDE-SE”. Assim como um murro no estômago a doer muito.
A inauguração das quatro salas do “Quarteto” em 21 de Novembro de 1975 foi um acontecimento, uma lufada de ar fresco Foi ali que conseguiu ver os filmes que não passavam nos outros cinemas, foi ali que descobriu outros cinemas, cinematografias alternativas até então desconhecidos, era ali que nos encontrávamos, sessões duplas da meia-noite, “matávamos” a fita e íamos para os comes, bebes e conversatas para a Avenida de Roma, até às tantas, quase “directas”. Pertencer a uma geração que se rodeava de vinhos, cigarros, livros, musicas e cinema, acima de tudo o cinema, algibeiras cheias de sonhos e utopias
Vão desaparecendo os espaços, vão desaparecendo os amigos, as coisas são mesmo assim…Não há poesia que salve este andar inexorável para ali… a travessia que se tem de fazer…apenas isso, ou se calhar nem isso… sabe lá o quê… em Fevereiro de 2009, ferido de nostalgia, apetece-lhe dizer, como o Eduardo, que naquelas quatro salas estarão alguns dos melhores anos da sua vida.
Não sabe que há-de escrever mais, mas apetece-lhe finalizar, sabe lá ele porquê – ou sabe? - com as palavras de um telegrama na “Cidade Branca” do Tanner:
“Volto à superfície, stop; Rosa partiu não sei para aonde, stop; o único país de que gosto verdadeiramente é o mar, stop; amo-vos, stop; amo-te, stop; beijo-te ternamente, stop; o corpo duma mulher é demasiado grande, stop; a recordação e o esquecimento têm a mesma origem, stop; as mulheres são demasiado belas, stop; os comboios não partem à tabela, stop; não sei mais do que dantes. Stop.
5 de janeiro de 2009
Nada lhe valeu
Apesar de ter morado perto, eu também já morei por todo o lado, nunca foi cinema que me apetecesse. Em 1973 o Castil era um must porém. E lembro-me bem deste filme What's Up, Doc?
Crónica Feminina, nº 847, 15-2-1973
16 de novembro de 2008
SITIOS POR ONDE ELE ANDOU
Pelos primeiros dias de Outubro, na caixa de comentários, falou com Politikos acerca do “Estúdio” do “Império” e prometeu trazer aqui o programa do filme “Uma Abelha na Chuva” de Fernando Lopes.
Já por aqui deixou escrito que o cinema foi o seu segundo amor. O primeiro terá sido o Benfica
No “Estúdio” do “Império” viu centenas de filmes mas este ficou-lhe bem presente na memória, motivos vários, mas acima de tudo porque, é um belíssimo filme num impressionante preto e branco fotografado por Manuel Costa e Silva.
Naquele tempo, nos cinemas de estreia, e não só, eram distribuídos programas. A maior parte eram simples folhas com a ficha técnica do filme e uma série de anúncios a lojas do comércio local do cinema e marcas generalistas de produtos. A distribuição era gratuita mas existia um “gentelemen agreement” que terminava em dar uma moeda ao arrumador em troca do programa..
Mas o programa de “Uma Abelha na Chuva” não era uma mera folha, mas sim um trabalho cuidado e bem feito: oito páginas ilustradas, um artigo de António Pedro Vasconcelos a contar das dificuldades do novo cinema português, uma selecção de declarações de Fernando Lopes sobre as filmagens, a montagem do filme., um artigo de Eduardo Prado Coelho fazendo a ligação entre o livro e o filme, uma breve biografia de Carlos de Oliveira e, na contracapa, um extracto do poema “Cinema” de Carlos de Oliveira, extraído do livro “Sobre o Lado Esquerdo”
Nesse artigo do António Pedro de Vasconcelos, constante do programa, a certo passo, pode ler-se: “Apanhámos um táxi e já o Fernando encadeava para a “Abelha” que ele sonhava fazer, sem saber muito bem o que iria dar enquanto ia dizendo que lhe apetecia fazer a “Abelha” porque via um filme que abrisse com um tipo que atravessa uma praça de madrugada, entra num café, pede um “brandy” volta a sair e vai entregar uma carta a um jornal de província. Devíamos estar em 1963.”
É o começo do livro que ontem foi publicado.
Eram os anos 70 na Lisboa convencional de então, perdida entre uma primavera marcelista, se é que isso alguma vez existiu, se o foi finou-se rapidamente, e o caminhar, lento, muito lento, quase invisível, para uma certa madrugada.
Tanto Carlos de Oliveira como Fernando Lopes eram declarados oposicionistas do regime. Não espanta por isso que a exibição do filme tenha sido, sistematicamente, boicotada pelas distribuidoras. A “Lusomundo” , desculpando-se (?) dizia que o filme era “hermético”.
A todo o tamanho da 1ª página do Suplemento Literário do “Diário de Lisboa” de 7 de Abril de 1972, poderia ler-se:
“Onze mil metros de fita revelada para dois mil a ver na tela; oito semanas de filmagem para mais um ano de montagem; cerca de oitocentos contos de custo total, com os juros e mais os gastos de uma produção que não tinha à partida os capitais suficientes; um filme português arrancado a ferros: “Uma Abelha na Chuva”; gente do filme a ganhar cem escudos por semana na Figueira da Foz, almoçando sandes: máquina Arriflex por empréstimo; a pensão por pagar; duas cópias para circulação comercial do filme de filme de Fernando Lopes que vai aparecer em Lisboa; um discurso filmico que se inspira num texto de Carlos de Oliveira; ou uma proposta decisiva para a modernidade que nós, os de hoje, exigimos do cinema português.”
Fazendo a crítica ao filme, em “A Capital” de 17 de Abril de 1972, escreveu Afonso Cautela:
“Uma Abelha na Chuva”: “de como o cinema pode mostrar o que se não vê, dizer o invisível, escutar o que não se ouve.”
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