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7 de janeiro de 2012

O sonho

"Pela vasta janela junto da qual trabalho avista-se o Tejo e um dos seus cais de embarque. Neste dia de radiosa primavera, em que o sol derrama sobre as coisas uma alegria serena, tenho visto passar-se a pouca distância dos meus olhos uma larga série de pequenos dramas. Toda a manhã têm estado a embarcar emigrantes. O cais está completamente invadido por gente pobre, sobraçando pacotes e trouxas, tendo aos pés, em pequenas caixas e em sacos de ramagens, os miseros trapicalhos que constituem seus haveres. Ao longe, o fumo dum grande vapor inglês acena-lhes, chamando-os. Pouco a pouco vão-se atulhando as fragatas e rebocadores, que por fim largam, rio abaixo, a encostar ao transatlântico, De bordo vão-se agitando lenços brancos e barretes. Em terra ficam mulheres chorando, crianças que mal entendem o que se passa e dizem também adeus. E, sobre o Tejo, liso como um espelho, sob a luz cegante de um céu sem nuvens, os que abalam em cata dum sonho, á busca duma vida de felicidade que a Pátria lhes não dá, devem sentir no coração uma angustia torturante, gémea daquela que, encostada ás pedras dos cais, vê afastarem-se os entes queridos roubados pela má fortuna. E todas as segundas feiras é um espectáculo semelhante. Cada grande steamer que entra no Tejo furta-nos umas centenas de portugueses, que vão á aventura, fazer nem sabem o quê, para ganharem o pão que Portugal lhes nega. Quantos voltarão desse sonho para o qual embarcam cheios de tristeza, mas com uma luz de esperança ? Tripulantes da armada da miséria, quantos vencerão nesse combate para o qual apenas levam aprestados os braços nus ? "
André Brun, Sumário de várias crónicas

16. Março 1914.
Fotografia de Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa

12 de dezembro de 2011

Chegou-me hoje pelo correio. O Namoro alfacinha de André Brun com capa de Stuart de Carvalhais. Promete-me um tempo de leitura agradável.

18 de julho de 2011

Bem quero

Bem quero a quem me quer bem, desenho de Alberto de Souza para a segunda edição do livro Cada vez pior de André Brun, 1916

9 de maio de 2011

Sobre a má-criação


Minhas Senhoras 
Meus Senhores
Antes de mais nada, distingamos. Não se confundir grosseria com má-criação. Ir a uma casa de cerimónia e, na altura do chá, cuspir dentro do bule e assoar-se às torradas, é uma grosseria. Dizer a um cavalheiro, que casou com uma velha ferrugenta por causa do dinheiro, que ela tinha: Esta serpente é que é o asilo de V. Ex.a ? — não é grosseria. Como é a verdade nua e crua, chama-se-lhe má-criação. Sujeito malcriado é aquele que, em homenagem à verdade, esquece as regras de hipocrisia torpe a que se convencionou chamar boa educação. As crianças, que ainda não tiverem tempo de aprender essas regras são o protótipo da má-criação. Assim, qualquer de nós pode estar aflitíssimo numa reunião que, para parecer bem-criado, não se atreverá a perguntar onde é que se satisfazem certas necessidades tudo quanto há de mais naturais. Uma criança gritará logo. Ó mãe, quero fazer chichi.
À sociedade dirá que a mãe não lhe dá educação, mas, ao menos, o petiz não desabafará nas calças o  que lhe oprime a consciência.
Quando a má-criação é cometida por pessoas que são temidas por qualquer razão, chama-se-lhe impertinência e toda a gente a repete como um exemplo de espírito sarcástico. Quando um impertinente leva uma bofetada, todos dizem em coro: Bem feito, para não ser malcriado.
As pessoas bem-educadas são, como disse, de uma hipocrisia torpe. Na rua indagam da saúde de pessoas indiferentes; perdem uma hora a ouvir histórias aborrecidas; respondem a cartas insípidas; felicitam por cartão de visita famílias, a quem no íntimo, não ligam a menor importância; elogiam os insignificantes; estão de acordo com os tolos; mudam de opinião para agradar; atraiçoam os amigos para dizer ámen aos inimigos; mentem trinta vezes ao dia; aturam maçadas com um sorriso nos lábios; vivem, em resumo, uma vida artificial.
Os mal-educados gozam o prazer infinito de dizer a verdade nas bochechas de quem a não espera. Um burro é para eles um burro e vivem libertos da grilheta, que se chama o código da civilidade.
Não gozam dessa estima que os bem-educados buscam grangear pela doblez do seu proceder e do seu pensar. Em compensação, têm sempre dois ou três amigos, malcriados da mesma força, com quem se regalam, divertindo-se à custa da sociedade em que vivem. Estão livres dos importunos, dos educados, dos hipócritas e dos parvos. Vale a pena. "

André Brun, Sem Cura Possível, Prosas Originais e adaptadas, Casa do Livro, Lisboa, 1941

8 de maio de 2011

As escolas são tristes, as casas são tristes, as ruas são tristes


Um texto maravilhoso e actual de André Brun: nobilite-se o riso!

"Uma gazeta da tarde, celebrando com os tropos devidos o aniversário da morte de Sacadura Cabral, concluía dizendo que os homens de acção como ele eram os únicos a sacudirem Portugal da apagada e vil tristeza em que vegeta de longa data.
A tristeza é sempre triste; mas, quando acresce que seja apagada e vil e nela se fale como um mal incurável, é caso digno de ponderação e estudo.
Somos um povo apagado e vilmente triste. Mas porquê? Embora a muitos pareça tolice, dir-vos-ei que tristeza e alegria são, principalmente questão de meio e de educação. Muita vez tenho pensado que o meu fundo de optimismo, a minha perpétua confiança na vida apesar de todas as desilusões que ela oferece, o meu bom humor, enfim, tudo isso devo
a ter nascido numa casa alegre. Meu pai trabalhava todo o dia cantarolando, minha mãe tinha a propósito de tudo ataques de riso infindáveis e eu cresci, formei o meu espírito numa atmosfera de boa disposição, que tratei cuidadosamente de conservar sempre em torno de mim.
Noventa e cinco por cento dos portugueses provém de pais que, não sabendo rir, detestam que as crianças riam alto e passam os dias a gemer diante delas sobre as pequenas e fúteis misérias da vida. As escolas são tristes, as casas são tristes, as ruas são tristes. Evidentemente neste meio o povo tem que ser duma tristeza apagada e vil.  Mas não se conforma com isso, creiam.  Haja em vista a fúria com que ele se precipita para os teatros onde o divertem e fazem rir quase á força.
E se nós reagíssemos metodicamente contra esse mal por tantos apregoado incurável? Comecemos por criar nas escolas cadeiras de alegria. Porque se há-de ensinar aos meninos álgebra e topografia e não se lhes há-de ensinar a procurar nos factos, nos sentimentos, nas circunstâncias da vida o lado menos pior? Porque não se há de proporcionar às crianças, a par da história e da aritmética, uma filosofia amena que os habilite ao riso?
Se eu fosse ditador proibia durante dez anos nos teatros, os dramas, melodramas e tragédias. Mandava apreender nas livrarias todas as obras lamechas e lacrimogéneas que nelas abundam. Por uma nova lei de imprensa forçava as gazetas a publicarem cada  dia pelo menos cinco colunas de boa laracha portuguesa.
A própria secção de necrologia havia de ser redigida o com o seu quê de patusco. Todo aquele que inventasse ou praticasse qualquer meio de aborrecer os outros, levaria chibatadas na praça pública.
Dir-me-ão se, com estes meios simplistas, eu tenho a pretensão de abolir o sofrimento, eterno como o mundo.
Evidentemente não. Os alegres sofrem como os tristes. Sofrem, porém, dum modo diverso e não se instalam na amargura. Mais facilmente lhe resistem e melhor encontram meios e motivos de consolação. Vêm mais claramente a pouca importância de certas mágoas e desprezam-nas.
E da Alegria nasce o Trabalho exercido, não como uma escravidão contra  a qual todas as revoltas parecem justas, mas como uma função natural e necessária ao equilíbrio físico e moral. Já que falámos em físico, vem-se fazendo há anos entre nós um grande esforço no sentido de o melhorar. Vulgarizaram-se os desportos. Gente nova faz a diligência por criar músculos. Porque se não há-de fazer um esforço similar para tornar saudável o espírito, principalmente pela Alegria?
Bem hajam, portanto, as raríssimas gazetas de Portugal onde o humorismo escrito tem acolhimento. Agradeçam-lho os leitores. É um passo dado, que precisa ser ajudado e completado por outros. Já é alguma coisa"
André Brun, O  Domingo Ilustrado, 1926

5 de maio de 2011

A vizinha do lado



A CRIADA DE CIMA E JERÓNIMO 

A CRIADA DE CIMA (Varrendo e descendo):
Varre, varre, linda vassourinha...
 Abana, abana, meu abanador...
 Sempre, sempre em movimento (bis-) Vassourinha varre o chão...  E o abano faz o vento (bis)
Para acender o fogão...
 Rica vassoura, quando serás minha?
Tu queres de abano passar a varredor?
Varre, varre, linda vassourinha!
Abana, abana, meu abanador...
 (durante a cantiga tem-se visto aparecer do lado inferior, Jerónimo, guarda-portão dos seus cinquenta anos e pico, cara bonacheirona, blusa de riscado e boné de pala, que vem pachorrentamente puxando o lustro ao corrimão e, de caminho, limpando. os ferros da escada. Ao ver  a criada, detém-se a ouvi-la até que com um sorriso. ..) 

JERÓNIMO — Ora viva a menina Joaquina!...
A CRIADA DE CIMA (parando de varrer e debruçando-se no corrimão) Viva lá, Sr. Jerónimo!...
JERÓNIMO-  Está boa? Vive com gosto?
A CRIADA DE CIMA (Rindo) Eu cá vou... E vossemecê?
JERÓNIMO  Não há remédio senão ir puxando pela vida... As suas patroas estão bem?
A CRIADA DE CIMA  A  senhora está boa….E a menina também está boa, muito agradecida. (…)

29 de março de 2011

André Brun

Anunciava-se o livro de André Brun, "Dez Contos de Papel". Li-o há pouco, foi a primeira obra que li de Brun e que fez de mim uma leitora fiel deste autor. Seria uma boa reedição, pegar no acervo deste escritor e fazer umas obras completas.

2 de fevereiro de 2011

André Brun

Um grande escritor muito injustamente esquecido. Como ele próprio reconhece, os escritores humoristas são preteridos e subestimados. Relê-lo é urgente. Porque não o reeditam?


Clicar para ampliar e saber mais sobre André Brun, com ilustrações do seu amigo Valença.





24 de outubro de 2010

Felix Pevide

A Filosofia de Felix Pevide é o livro de André Brun que me anda a acompanhar e que me deixa divertida. Mais, é um livro portátil. Bom para quem gosta de aproveitar todos os pedacinhos para ler. E a capa é muito bonita.

14 de novembro de 2009

A minha rua

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 Gosto da minha rua. É uma destas ruas perpetuamente adormecidas, onde é raro ouvir o pregão duma colareja ou o rodar vibrante dum trem passando a trote. Não tem loja de vendas e as suas duas fileiras de casas são, condizentes com ela, tranquilas e quase soturnas. Ao rebentar da Primavare começam germinando entre as pedras da calçada tufozinhos de erva tenra, que, um dia, a vassoura da limpeza corta cerce e brutalmente. Não é de senhoras vizinhas e conversas de soalheiro. Os que a habitam são de génio pacato e acomodado, recolhem cedo e saem logo de casa para os seus afazeres, É uma rua boa para tristes e pessoas de idade, para quantos precisam de repouso e temem a perturbadora agitação dos outros.

André Brun, "Dez contos em Papel", Livraria Editora Guimarães, 1925

1 de novembro de 2009

Não a mim...

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Quando se elege um motivo de interesse, surgem catadupas de coincidências e uma série de  elementos novos de todo o lado.
 A comprar dois livros a cinquenta cêntimos cada, da autoria de Alice Ogando com o pseudónimo de Mary Love, deparo-me com esta dedicatória que me faz sorrir. Da Delia para o senhor Doutor.
Beijo-te ternamente, diz ela.
Reinava o ano de 1948.

Entretanto espera-me o livro de contos do André Brun, marido de Alice.