Um texto maravilhoso e actual de André Brun: nobilite-se o riso!
"Uma gazeta da tarde, celebrando com os tropos devidos o aniversário da morte de Sacadura Cabral, concluía dizendo que os homens de acção como ele eram os únicos a sacudirem Portugal da apagada e vil tristeza em que vegeta de longa data.
A tristeza é sempre triste; mas, quando acresce que seja apagada e vil e nela se fale como um mal incurável, é caso digno de ponderação e estudo.
Somos um povo apagado e vilmente triste. Mas porquê? Embora a muitos pareça tolice, dir-vos-ei que tristeza e alegria são, principalmente questão de meio e de educação. Muita vez tenho pensado que o meu fundo de optimismo, a minha perpétua confiança na vida apesar de todas as desilusões que ela oferece, o meu bom humor, enfim, tudo isso devo
a ter nascido numa casa alegre. Meu pai trabalhava todo o dia cantarolando, minha mãe tinha a propósito de tudo ataques de riso infindáveis e eu cresci, formei o meu espírito numa atmosfera de boa disposição, que tratei cuidadosamente de conservar sempre em torno de mim.
Noventa e cinco por cento dos portugueses provém de pais que, não sabendo rir, detestam que as crianças riam alto e passam os dias a gemer diante delas sobre as pequenas e fúteis misérias da vida. As escolas são tristes, as casas são tristes, as ruas são tristes. Evidentemente neste meio o povo tem que ser duma tristeza apagada e vil. Mas não se conforma com isso, creiam. Haja em vista a fúria com que ele se precipita para os teatros onde o divertem e fazem rir quase á força.
E se nós reagíssemos metodicamente contra esse mal por tantos apregoado incurável? Comecemos por criar nas escolas cadeiras de alegria. Porque se há-de ensinar aos meninos álgebra e topografia e não se lhes há-de ensinar a procurar nos factos, nos sentimentos, nas circunstâncias da vida o lado menos pior? Porque não se há de proporcionar às crianças, a par da história e da aritmética, uma filosofia amena que os habilite ao riso?
Se eu fosse ditador proibia durante dez anos nos teatros, os dramas, melodramas e tragédias. Mandava apreender nas livrarias todas as obras lamechas e lacrimogéneas que nelas abundam. Por uma nova lei de imprensa forçava as gazetas a publicarem cada dia pelo menos cinco colunas de boa laracha portuguesa.
A própria secção de necrologia havia de ser redigida o com o seu quê de patusco. Todo aquele que inventasse ou praticasse qualquer meio de aborrecer os outros, levaria chibatadas na praça pública.
Dir-me-ão se, com estes meios simplistas, eu tenho a pretensão de abolir o sofrimento, eterno como o mundo.
Evidentemente não. Os alegres sofrem como os tristes. Sofrem, porém, dum modo diverso e não se instalam na amargura. Mais facilmente lhe resistem e melhor encontram meios e motivos de consolação. Vêm mais claramente a pouca importância de certas mágoas e desprezam-nas.
E da Alegria nasce o Trabalho exercido, não como uma escravidão contra a qual todas as revoltas parecem justas, mas como uma função natural e necessária ao equilíbrio físico e moral. Já que falámos em físico, vem-se fazendo há anos entre nós um grande esforço no sentido de o melhorar. Vulgarizaram-se os desportos. Gente nova faz a diligência por criar músculos. Porque se não há-de fazer um esforço similar para tornar saudável o espírito, principalmente pela Alegria?
Bem hajam, portanto, as raríssimas gazetas de Portugal onde o humorismo escrito tem acolhimento. Agradeçam-lho os leitores. É um passo dado, que precisa ser ajudado e completado por outros. Já é alguma coisa"
André Brun, O Domingo Ilustrado, 1926