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21 de janeiro de 2026

a balada da praia dos cães

volto aos 100 anos do josé cardoso pires.



a balada da praia dos cães é uma das obras mais emblemáticas do cardoso pires, inspirada num crime real ocorrido em 1960, numa vivenda de rio de mouro.

através da estrutura dum romance policial, é recriado o assassinato do capitão de cavalaria almeida santos, e um dos cérebros organizadores da revolta da sé, em 1959, para construir uma crítica profunda à sociedade portuguesa dos últimos anos da ditadura.

a história desenrola-se num portugal dominado pelo autoritarismo e pela repressão política, onde até os que se opõem ao regime trazem consigo as marcas da sua mentalidade.

cardoso pires utiliza a intriga criminal para expor a podridão moral de um país paralisado entre o poder e o medo, entre a obediência e o desejo de mudança.


o centro do romance é ocupado pelo chamado “quadrado”: o capitão de cavalaria almeida santos, a sua companheira maria josé, o aspirante-médico jean jacques e o cabo antónio gil, sendo que, no romance nao têm estes nomes, nem os postos militares:

são o major luis dantas castro, filomena ataíde, o arquitecto renato fontenova e o cabo bernardino barroca.

este grupo nasce sob o signo da resistência, homens e mulheres unidos por ideais de oposição ao regime fascista, mas dentro dele reproduzem-se as mesmas estruturas de dominação e de submissão que caracterizavam o próprio estado que pretendiam combater.


o major é a figura autoritária, orgulhosa da sua formação militar, impregnada de uma ética de comando e obediência. 


a sua companheira, mulher de familia da burguesia saudável do porto, é uma mulher dividida entre o fascínio pela autoridade e a humilhação constante.


a relação entre ambos é marcada por um patriarcalismo brutal, que transforma mena numa extensão do poder e da vontade do major.

mena, oprimida, torna-se ao mesmo tempo vítima e cúmplice, reproduzindo, nas suas atitudes em relação à namorada do arquitecto, a mesma violência simbólica e moral que sofre do capitão.

o modo como mena trata a namorada de fontenova é um dos pontos de ruptura emocional que precipita a ruptura.

a opressão que a mena sofre transforma-se em violência subsidiária, exercida sobre outra mulher, mais frágil, como reflexo do domínio do capitão. 


a cadeia de poder descendente do major para mena e desta para a outra mulher, mostra como o patriarcalismo se reproduz dentro das relações pessoais, corroendo-as.

a sua crueldade e desprezo pela jovem expõem, aos olhos do arquitecto, o caráter degradado e desumano do ambiente em que vivem.

ele percebe que, sob a capa da resistência e do idealismo, aquele grupo reproduz os valores do inimigo: a autoridade cega, a hierarquia inquestionável e a humilhação dos mais frágeis.

é este despertar moral que o leva a quebrar a “sagrada #lealdade militar e oposicionista” e a chamar para o seu lado o cabo barroca, outro subordinado humilhado à ordem do major.

a aliança entre fontenova e barroca marca a inversão total da hierarquia: os inferiores desafiam o superior, e a estrutura do poder implode a partir de dentro.

o assassinato do major não é apenas um acto de rebeldia pessoal: é o colapso simbólico de uma hierarquia construída sobre o medo e o patriarcalismo. 


cardoso pires transforma a intriga criminal numa alegoria da própria decomposição do regime e das suas formas de autoridade.


o romance mostra que o autoritarismo da ditadura não se limitava às instituições políticas, nas estendia-se à vida privada, às relações amorosas e ao inconsciente colectivo.

a relação entre o major e mena é o espelho íntimo desse poder: uma mulher reduzida à condição de posse, dominada pelo ciúme e pela culpa, e um homem que vê o amor como prolongamento da hierarquia militar. 


mesmo entre os que se dizem opositores do fascismo, sobrevive o espírito conservador, a mentalidade castrense e o código patriarcal de honra e domínio.

cardoso pires expõe, com lucidez quase cruel, que a libertação política não basta se persistirem as velhas estruturas morais. 


a tirania doméstica é a continuação simbólica da tirania política.


o gesto de fontenova e de gil, a rebelião e o assassinato, tem um peso profundamente simbólico. 


ao matarem o major, eles matam também a figura do “pai” autoritário, o chefe, o comandante, o modelo do poder que portugal cultivara durante décadas.

mas a revolta, embora libertadora, é também ambígua: ela nasce do ódio e do ressentimento, não de uma nova visão moral. 


o que se destrói é o velho mundo, mas o novo ainda não tem forma. 


é uma revolta cega, tão violenta quanto o sistema que combate.


o colapso da hierarquia é inevitável, mas a liberdade verdadeira ainda está por construir.


uma das marcas mais fortes do estilo de josé cardoso pires é o distanciamento narrativo.  


ele escreve com uma frieza quase clínica, usando uma linguagem descritiva eobjectivaa, feita de relatórios, depoimentos, notas e observações.


essa estratégia de “ver de longe para ver melhor” tem uma função ética e estética: evita a tentação da dramatização e permite ao leitor observar o comportamento humano como num espelho, despido de sentimentalismo.

o autor não julga, mostra. 


não procura o efeito emocional, mas a clareza moral. 


é um olhar de anatomista sobre a decomposição de uma sociedade, um olhar que se mantém frio precisamente para poder ver mais fundo.


na balada da praia dos cães, o crime é apenas o ponto de partida de uma análise sobre o poder, a obediência e a decadência moral de uma geração. 


o “quadrado” que se desfaz reflete a desintegração de um país fundado na autoridade e na lealdade cega.

a rebelião nascida da humilhação e do desprezo, marca o fim de um ciclo: a morte do major é a morte simbólica do velho portugal, patriarcal, autoritário e incapaz de se libertar de si próprio.

com um estilo preciso e distanciado, cardoso pires constrói não apenas um romance policial, mas uma autópsia moral do país: um retrato frio e lúcido da lenta agonia de uma sociedade que confundia poder com verdade e submissão com fidelidade.


mais haveria para falar sobre a forma como o inquérito é feito e a obsessão quase pornografica de elias santana por nena,  mas isso é outro livro, e nao é sobre a lealdade.

20 de janeiro de 2026

e agora, carlos?, ou um exercio a imitar o cardoso pires

nos 100 anos do josé cardoso pires vamos ao escritor que mais me marcou, e o unico que durante algum tempo me levou a tentar escrever "ao estilo".

muitas vezes tentei, sem êxito,  diga-se.

hoje, sem pretender escrever como o mestre, escrevo a fantasiar como se fosse ele a fumar frente ao espelho, sem os dilemas do "e agora, josé?"



fumar quatro maços por dia não é vício, é vocação. 

há padres com o terço, eu tenho o isqueiro. 

cada um com o seu ritual, a sua missa privada. a diferença é que as minhas orações fazem fumo — e não prometem salvação nenhuma, só mais um pigarro a meio da madrugada.


as beatas — vejam bem o termo — são o rasto da devoção. 

uns deixam santinhos e velas acesas; eu deixo pontas de cigarro esmagadas no cinzeiro, como quem marca presenças numa ladainha de nicotina. 

e no fim, que resta? cinza. 

sempre cinza. 

no fundo, somos todos fogos breves à espera de se apagarem sozinhos.


há dias em que me olho ao espelho e vejo-me difuso, desfocado, como se o fumo me devolvesse a imagem em segunda mão, já usada. 

um rosto de filtro gasto. 

penso: "talvez esteja a tornar-me uma beata também — não daquelas de véu e rosário, mas destas, as outras, meio consumidas, meio ainda acesas, presas entre dois dedos que tremem do café e da insónia."


o curioso — ou o trágico, conforme o dia — é que as beatas, as santas de igreja, também ardem. 

só que nelas o fogo vem de dentro. 

eu, mais modesto, contento-me com o fósforo e o gesto repetido de acender outro cigarro, esse sacramento portátil do desassossego.


e volto ao espelho. 

tento ver se ainda há qualquer coisa atrás do fumo. 

um homem, talvez. 

um resto. 

mas a imagem dissolve-se, como a última tragada — e penso que, se há um deus para estas coisas, há de estar rindo-se de mim, lá do alto, com o pulmão limpinho e o hálito a menta, enquanto eu aqui abaixo lhe devolvo incenso de tabaco e ironia.


no fim, somos todos beatas: uns rezam, outros ardem.

18 de janeiro de 2026

han kang e a memória do massacre de gwangju




han kang nasceu em 1970, em gwangju, a cidade que, dez anos mais tarde, se tornaria o epicentro do massacre de maio de 1980.

a repressão militar contra o movimento pró-democracia deixou milhares de mortos cujos corpos muitas vezes desapareceram sem registo, e cuja memória foi silenciada durante anos pela censura.
han kang cresceu entre o peso desse trauma colectivo e o silêncio que o envolvia, um silêncio que a fez retornar à sua cidade, décadas mais tarde, a tentar entrevistar os sobreviventes dos massacres.
a sua prosa é de uma melancolia aparente: frases suaves, imagens delicadas, um ritmo quase contemplativo. o que "esperaríamos" duma escrita sul coreana.
mas sob essa superfície calma, as suas histórias carregam cortes abruptos e tensões insuportáveis.
n'a vegetariana, a decisão súbita duma mulher de deixar de comer carne rompe violentamente com o tecido das relações familiares, expondo camadas de opressão, desejo reprimido e alienação.
nos actos humanos, o massacre de gwangju é revisitado através de testemunhos ficcionais e reais, onde a censura e a repressão política tornam-se presença física: um peso no corpo e na linguagem.
na aula de grego, o desconforto é mais íntimo, mas igualmente persistente: o professor que perde a visão e a narradora que perde a voz vivem ambas as mutilações como consequência de um mesmo núcleo de dor, como se o corpo e linguagem fossem atingidos pelo mesmo golpe invisível.
o mundo que a han kang descreve é um lugar onde o desconforto não é excepção, mas estado permanente.
as personagens que vivem em casas geladas no inverno e sufocantes no verão, que multiplicam empregos para sobreviver, que se movem num espaço social onde as convenções são tão pesadas que deformam o corpo e a mente.
as tradições, longe de serem meros hábitos culturais, funcionam como mecanismos de contenção: regulam os desejos, impõem destinos, sufocam singularidades.
este contraste entre a beleza serena da forma e a brutalidade do conteúdo produz um efeito inquietante: avançamos por frases que parecem feitas de ar, mas que carregam o peso de chumbo.
a han kang escreve como quem toca a superfície duma água calma, sabendo que, logo abaixo, há correntes capazes de arrastar tudo.
a sua literatura não é apenas sobre personagens, mas sobre um país inteiro que vive dividido entre a aparência e a ferida, entre a quietude e a violência.
(espero que tenha convencido alguns a lerem a han kang)

14 de abril de 2016

morreu ontem arnold wesker

já aqui tinha falado de arnold wesker e do centre 42, que ele fundou e dirigiu.
wesker não foi apenas um dos nomes mais importantes da dramaturgia mundial do século 20.
ele foi determinante para a cultura britânica, para a participação activa dos artistas na luta e na vida dos trabalhadores, determinante para o que conhecemos como 'realismo britânico', para o renascimento da musica tradicional (mesmo que, penso eu, nunca tenha cantado)
arnoild wesker foi dos que sempre estiveram com 'os de baixo'
quando em 1960 o tuc (trade union congress) aprovou uma resolução extraordinária (a 42º da ordem de trabalhos), sobre a necessidade de um inquérito ao estado das artes no reino unido.
a resposta dos artistas britânicos não podia ser sido mais expressiva e mais generosa:
a nata dos jovens (e alguns menos jovens) escritores, dramaturgos, músicos, escultores respondeu ao movimento sindical que se eles estivessem interessados em tornar a arte popular entre as pessoas, eles estariam ao dispor para o que fosse necessário.
no ano seguinte, em 1961, estava então criado um dos mais influente movimentos artísticos dos anos 60. dirigido pelo dramaturgo arnold wesker e com gente como harold pinter, ewan mac coll, a.l. lloyd
o centre 42, tinha como principal missão encontrar uma audiência popular para as artes e foi isso que com o empenho e a direcção de arnold wesker conseguiu.
conseguiram a audiência e conseguiram uma imensa legião de escritores, pintores, músicos, que percorreram as ilhas britânicas num trabalho incansável de divulgação artística com a participação popular.
curiosamente, no começo deste novo empreendimento esteve a fundação calouste gulbenkian que financiou, em 1961, o projecto com 10 000 libras
3 anos depois estava 'sediado' na roundhouse: casa de uma lista infindável de acontecimentos artísticos, do teatro à música.
com a morte de arnold wesker vai um dos últimos sobreviventes da aventura inicial, mas mantém-se viva a actividade da roundhouse e do seu legado.