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25 de janeiro de 2015

Feira de vaidades


Um dos efeitos da crise é: nunca esteve a feira da ladra tão cheia de oferta de roupa em segunda mão. . Lembro-me que dantes só via gente muito nova à procura de modelos vintage, e de gente com muito mais idade à procura duma peça barata. Agora é um fenómeno completamente atípico, todos compram a roupa que sai no caso, de um bonito baú um tanto surrado. Aboliu-se o preconceito pelos artigos em segunda mão em geral.

24 de janeiro de 2012

A Feira da Ladra

"Para além do passadiço de S. Vicente de Fora é outro mundo. O tempo não teve ali a mesma velocidade que no resto da cidade. Enquanto Lisboa. se alargava pela ribeira do Tejo e crescia pelas avenidas, alastrando pelos terrenos da Ajuda e Benfica, de Telheiras. de Alvaiade, da Charca, do Arneiro, da Fonte do Louro, do Vale Escuro, desde Algés até Sacavém; enquanto fervilhava na azáfama das construções : enquanto as novas ruas se rasgavam nas quintas dos arrabaldes de outrora : enquanto se multiplicavam os trilhos dos eléctricos e as carreiras de autocarros; enquanto se esventravam as avenidas recém-construídas na abertura das galerias do metropolitano — para lá de S. Vicente de Fora. o Campo de Santa Clara ficou esquecido. É verdadeiramente o Campo do tempo esquecido. S. Vicente de Fora cujo nome lhe adveio de estar fora da cerca moura da cidade e fora da jurisdição do Arcebispo assinala o limite dum campo e duma feira que estão fora do tempo : o Campo de Santa Clara, a Feira da Ladra. Atravessamos o Largo de S. Vicente. Deixamos á direita a mole seiscentista, mandada construir por El-Rei D. Filipe I sobre o templo que o antepassado Afonso Henriques deixara a assinalar o cemitério dos cruzados alemães seus aliados na conquista de Lisboa. À esquerda, o muralhão branco coroado pelas casas nobres dos Teles. Avançamos pelo boqueirão entre a parede lateral da Igreja e o muro de suporte da antiga cerca do mosteiro. Cruzamos o Arco Grande, a unir por sobre a rua o edifício da igreja e o desafogo dos campos seus pertencentes e logo a vista se espraia no largo terreiro inclinado, com o casario lá do fundo a deixar ver uma nesga azul do Tejo, em plena curvatura do rio, fronteira às larguezas do Mar da Palha. Estamos no Campo de Santa Clara. Dum lado, à esquerda de quem desce, uma correnteza de prédios nobres. testemunhas caladas de grandezas desfeitas: os palácios dos Viscondes de Barbacena, dos Sinel de Cardes, dos Marqueses de Lavradio. Ao fundo, rodeada de casinhas antigas a, velha Fábrica de Armas, no lugar onde fora, desde os fins do século XIII até ao terramoto de 1755, Convento das Freiras de Santa Clara. À direita, o muro do pátio de S. Vicente, onde se recolhem, desde tá poucos anos, em barracas, as mercadorias da Feira da Ladra; o Palácio los Condes de Rezende, Almirantes do Reino; e ao dobrar urna esquina surpreende-nos o velho, enorme edifício da Igreja de Santa Engrácia, cujas obras nunca terão fim. Ao descermos o Campo de Santa Clara encontramos, primeiro, uma placa arborizada a entestar com o mercado construído há 80 anos pelo mau gosto da época e mantido pela inércia subsequente; depois do mercado, um pequeno jardim sustentado em paredão na parte sobranceira ao terreno arborizado, defronte do Hospital da Marinha, onde foi outrora lugar da forca, Em dias que não sejam de feira, o Campo de Santa Clara é um lugar romântico, refúgio em rampa sobre o cais e sobre o Tejo, as costas voltadas à cidade que se transforma. Foi nos princípios do século passado lugar de passeio para a nobreza legitimista que habitava o sítio. Não seria preciso esforço grande de imaginação para se lobrigar a casaca do Conde de Rezende, já muito doente, a descer duma sege, ou para su-preender o vulto do Padre José Agostinho de Macedo, quando se acoitava em casa dos Lavradios, fugido às justiças do Convento da Graça onde estava a cumprir pena de prisão. Nos dias de feira a célebre Feira da Ladra enchem-se passeios e placas de quantos objectos velhos e novos seja possível imaginar. Enche-se a rua de gente que sobe, de gente que desce, de gente que pára defronte dos lugares de venda — com uns vagares de pasmaceira, na descontraída calma de quem está longe do que se passa no resto da cidade : a multidão febril que se acotovela na Baixa, a pressa dos automóveis, os eléctricos e autocarros apinhados de gente, todo um correr absurdo a que só as luvas brancas dos sinaleiros dão um pouco de disciplina. Quem veja agora a Feira e a tenha visto há quarenta anos, não repara em diferenças essenciais. Menos candeeiros de petróleo à venda — aqueles enormes candeeiros de suspensão, com a sombreira de loiça branca!— substituídos agora pelas diferentes peças de instalações eléctricas. Mas a mesma gente. Este homem que está aqui a mostrar-me os restos duma durindana, não será o mesmo que eu vi discutir com o Júlio Mardel—há mais de quarenta anos... — o preço duma gravura antiga? Na Feira da Ladra vende-se tudo. logo à entrada, passante o Arco, os vendedores ambulantes estendem-nos tabuleiros de bolos, bilhetes da lotaria, cabides de madeira. Sentados em bancos baixos, cegos tocam harmónios. Ao lado velhas que apregoam tremoços, amendoins. pevides e alfarroba. Principiam os estendais. Objectos usados, de latão — ou novos com aspectos de usados, para engano de compradores menos entendidos. Artefactos de madeira. Armas de todos os feitios e de todas as origens, desde lanças gentílicas a chanfalhos de polícia. Bugigangas novas, entre cintos de plástico, porta moedas e canivetes. Livros, quadros. estampas, campainhas, máquinas de escrever, frascos vazios, restos de todos os móveis e de todos os objectos, coisas que parecem completa mente inúteis e para as quais há sempre — com certeza!-  pelo menos, quem pergunte o preço. Para que diabo serve urna luva desirmanada? Agora são ferramentas, de todos os tamanhos e de todos os ofícios. Um  operário velho estende a mão com a chave de parafusos que deseja e estende o beiço inferior em jeito de interrogação. O comerciante arqueia o sobrolho com o ar importante de quem esteja a vender uma herdade:   São seis mil reis. Nem no contar do dinheiro o tempo é o mesmo. O escudo há-de  passar e os mil-reis continuarão na Feira da Ladra. Agora uma voz vibrante de mulher:   São trinta, mil reis cada casaco! Estou a acabar! "

Texto de Barradas de Oliveira Fotografias de A Peres Rodrigues

Revista Panorama,1958




6 de novembro de 2010

O fascínio pelas fardas


Derrubo os sacos e vou ver as fotos. Porque vos quero apresentar a minha loja favorita do Mercado de Santa Clara. Mas antes esta fotografia tirada en passant

28 de agosto de 2010

O taxista existencialista


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Cheia de sono, agarro nos sacos de revistas que comprei na Feira da Ladra (avisada pela TR que devia ir lá num ápice) e olho para um livro que ficou no chão do táxi. E digo ou penso alto, mas este livro não é meu. Pois não, diz o taxista. Mas se quiser ofereço-lhe, já li. Era a Náusea de Sartre.

10 de maio de 2010

Feiras saloias - II

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(Leal da Câmara: óleo sobre madeira, 1940)

Realizada com maior regularidade do que a anterior, descobre-se facilmente os dias em que tem lugar pela confusão no trânsito. Típica e muito conhecida.
Que feira será esta?
«Feira de S. Pedro de Sintra», acertou a Felicidade, realizada aos 2ºs e 4ºs domingos de cada mês - acrescento esta informação.

Feiras saloias - I

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(Leal da Câmara, óleo sobre madeira, 1940)

A feira aqui representada ainda hoje se realiza. Para além das especialidades próprias que por lá continuam a ser servidas, ganhou (ou perdeu) com o barulho dos altifalantes e com diversões comuns que a vão tornando menos típica... que o diga quem mora perto do local... Na infância já tinha carrosséis, hoje terá crescido em barulho e distracções próprias deste locais. De que acontecimento se trata?

Feira das Mercês, acertou o Mário Clipper e o que se mantém típico é a «carne de porco às Mercês» e as pêras pardas cozidas (também às Mercês).

28 de abril de 2010

É na Quinta

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Que começa de novo. A ver se dou lá um salto, de mão dada com a pequenita que gosta de escolher livros demoradamente. Ou seja vai ser dose de livro infantil e alfarrabistas. Talvez só veja metade da feira, quem sabe. Logo se vê.
Estas são imagens da feira antigas, que neste artigo se realizava no Rossio.

14 de março de 2010

Sol na rua, gente fora de casa

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Sábado é dia de saltar cedo da cama e ir a correr feirar. Um 35 cheio de gente com ar feliz, o sol brilha com força e num instantinho estou lá. Dou com uma pilha de revistas ABC e Repórter X e vão todos arrematados.
Muito mais contente, cirando um bocado, arremato um Fialho de Almeida com uma lombada a precisar de ajuda e vou à lojinha do Zé e da Nélia. Como sempre entusiasmo-me e saio de lá com duas outras boas sacadas.  Acho graça ao para-quedista finlandês que compra alegremente uns alfinetes da área portugueses, bem bonitos por sinal. e aos vários clientes que circulam .
Quando saio, a polícia está a retirar os vendedores clandestinos todos e a feira está ao rubro, cheia de gente.
Um belo dia. O chão da minha sala está assim.

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27 de fevereiro de 2010

Sábado é dia de feira



Uma ida à feira de Almoçageme é sempre um momento de festa. Especialmente em manhãs como a de hoje, com o vento a assobiar e alguma chuva a pingar timidamente. Para os vendedores, não será decerto propícia a meteorologia , mas para quem aprecia percorrer o espaço sem chocar a todo o momento com os fregueses habituais, alegra a sensação de termos um mercado só para nós, convertido em atenções redobradas para com os clientes, no desespero de se salvar um dia de vendas.
«Pode levar à confiança que isto é tudo meu, menos estas coisas aqui e aquelas (aponta o tomate cherry e os morangos a ostentar um ar de acidez e de estufa pouco convidativo). O feijão é da minha lavra, as maçãs da várzea de Colares e os ovos são das minhas galinhas, tenho cinquenta, e dou-lhes da nossa comida lá de casa». A minha amiga R. tinha acabado de me informar que o irmão vem de propósito de Lisboa para comprar os ovos, acabei por não resistir, apesar da questão da alimentação das aves galináceas me ter feito pensar se teriam as ditas sido convertidas em animais carnívoros ou, pior ainda, prestes a devorar os semelhantes…
As flores do campo deixaram, no interior do carro, um cheiro adocicado que me fez regressar aos passeios campestres da infância.

21 de dezembro de 2009

No Jardim da Correnteza

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O sábado estava frio, mas de uma luminosidade especial. Presentes, os vendedores de sempre: livros, algumas revistas, o vinil : cantores de Abril, música francesa de 70, muitas antiguidades, algumas bugigangas… quanto a discos, não os comprei: o antigo gira-discos Maranz já nem agulha tem, e nunca se sabe dos LPs sai música, se unicamente ruído.
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As revistas eram poucas: um Século Ilustrado de 74 com fotos interessantes, mas já muito recortadas, muitas publicações anarco-sindicalistas (o que me pareceu curioso), a Crónica Desportiva que desconhecia, em exemplares da década de 50 , livros de teatro para a colecção pessoal e um espécime da literatura cor-de-rosa que nunca visitei na juventude: John Chauffeur Russo pois, na intolerância da idade, ria-me das colegas de liceu que devoravam estas histórias romanceadas então em voga Trouxe ainda o único Batman (versão brasileira, é claro) a que não resisti, por me lembrar Verões em que os meus amigos mergulhavam nas águas gélidas ou, sentados na areia, jogavam ao «Master Mind» até à zanga, quase a exigir intervenção judicial, enquanto ficava estendida na areia com pilhas destes exemplares de super-heróis que, para tristeza pessoal, levaram sumiço definitivo, certamente por terem feito parte de uma despreocupada «biblioteca colectiva». Reparei ainda numa colecção da Revista Tintin, mas essa ainda mora no sótão da casa paterna, ordenada por números e séries.
Os vendedores comentavam que às 5h iriam arrumar a bagagem, pois o frio era cortante e a noite, por esta altura do ano, cai subitamente.

5 de dezembro de 2009

Lisboa entre chuviscos

Numa corridinha à Feira. Perguntei pelas Modas e Bordados de 1935 e nada. Mas teremos que as encontrar. Vejo de relance vários volumes do Joaquim Paço de Arcos, em óptimo estado e bonita encadernação, a um euro cada. Mas eu já estou muito carregada. Um senhor com ar simpático leva-os a todos com ar de grande felicidade. Como o entendo, assim estou eu com a Revista Mundo, mais uns belos brindes que não posso fotografar de momento, mais um livro da Suzanne Chantal sobre Portugal, um belo roteiro e um delicioso livro de Fialho de Almeida, que mão assassina plastificou.
A feira estava belíssima, cheia de espanhóis. Começa a chover e corro para um táxi, onde uma simpática senhora me conduz até casa.
Tudo a correr, que daqui a pouco vou trabalhar. E até já.

27 de agosto de 2009

Despedidas de Agosto - a festa vizinha

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Por obrigações burocráticas lá tive de ir há pouco a esta localidade. Ainda bem que tal sucedeu, pois assim me lembrei de que hoje haverá ensaio para as cantorias de sábado...
Subitamente, a terra ganhou outro colorido: dois palcos no largo da igreja (um para os coralistas, outro para a fanfarra) e o recinto da feira - este com outros palcos e aparelhagens - o colorido carrossel e a pequena capela - não fotografei a igreja matriz - devidamente engalanada (nestes dias ninguém fala em crise).
Curiosamente, verifiquei que havia um post do Carlos a referir uma outra festa popular, essa mais nortenha. Penso que estas datas de finais de Agosto são como que uma despedida de Verão, embora ainda haja localidades a querer perpetuar a época com festividades no início de Setembro: na terça- feira, quando voltar a Montelavar ao fim de um ano, será difícil a concentração durante uma semana pois, durante o dia, os festeiros de S. Mateus irão manter a aparelhagem sonora ligada a fim de que não falhe nos momentos-chave.
Pergunto ainda se sabem qual o nome desta capela aqui representada e o local onde decorre a festa, pois esta coisa das adivinhas é (para mim e mais alguns, pois claro) um (benéfico) contágio:)
Para concluir, refiro datar esta capela do século XIV (podendo ser de finais de XIII) e ter como designação o nome do primeiro orago da terra cujo topónimo significa "terra fértil".

E acertaram a Ana Domingos (a festa decorre na Terrugem, Sintra) e o Z (a capela representada é a de S. Sebastião).

24 de agosto de 2009

Os vendedores

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Vendiam o quê e aonde?
Marco disse...
Faz me lembrar as bancas de queijadas de Sintra. E está certo. Em 1930 no Magazine Bertrand.

30 de julho de 2009

Memória de festas e romarias

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(Algueirão-Mem Martins: antiga festa e capela da Sra. da Natividade)

As festas populares perdem sabor para quem as viveu na idade do encantamento. Tendo começado a frequentar a festa da Sra. da Natividade quando, muito cedo, fui morar para o Algueirão, lembro o terreiro junto à capela - hoje ladeado de prédios descaracterizados – e o tradicional evento em que cavaleiros com lanças tentavam furar rodas de papel penduradas bem no alto, entre enfeites coloridos, sendo esse o principal atractivo da festa. Quanto a ranchos folclóricos, passou posteriormente a existir o das «Mondadeiras do Algueirão» embora seja mais entusiasta de ranchos ancestrais, como o de Miranda do Douro que me parece até hoje manter o respeito por ancestrais tradições.
A propósito de rituais antigos, evoco uma visita a uns velhos amigos (já regressados ao continente) que , após terem comprado uma quinta em Marco de Canavezes (daquelas à séria, com pecuária incluída), chegaram à conclusão que o seu local de trabalho, cada ano a distanciá-los, afectando também os filhos, só cessaria com uma opção radical. E assim foram viver para a ilha de Santa Maria nos Açores. Quando os revi, ao fim de 20 anos de trabalho conjunto em África, o Zé Maria tinha acabado de chegar de uma digressão pascal (exclusivamente masculina) de romeiros pela ilha e , apesar de só o ter feito por motivos de viver a tradição, regressava radiante após a experiência de uma viagem de vários dias, conhecendo uma natureza em estado quase selvagem e – se a memória me não falha – pelo exclusivo prazer da companhia e da caminhada, pois uma das regras é a de praticamente não serem trocadas palavras durante a digressão de vários dias.
Hoje tudo mudou: fujo destas festas com música distorcida e invadidas por inúmeras diversões que tentam ser cópias mal conseguidas (opinião pessoal) de um qualquer luna parque. Os palcos com música – pelo menos por estes lados – não trazem qualquer atractivo, sendo espantoso quando nos apercebemos de quem são os músicos que por cá mais vendem (parece que actualmente é uma tal de Rosinha, e esta, hein?).
Onde moro actualmente, participo – por razões de me ser vital o processo de socialização quando ligado às tradições – no S. João Degolado, por ser necessário um grupo que “dê voz” às cantorias. O ganho foram algumas (poucas mas sólidas) amizades feitas no grupo. Para além desta prestação, tudo se me afigura ficcional: as senhoras desencantam roupas do fundo das arcas, parecendo dar abertura à temporada de ópera do S.Carlos e – pasme-se! - evola-se das indumentárias um aroma à velhinha naftalina a fazer espirrar os mais sensíveis -, os cavalheiros ostentam ares importantes usando, nesses dias, o antigo relógio de corrente amarela herdado dos antepassados e, sempre que as eleições se aproximam, os autarcas mais proeminentes marcam presença nas comemorações religiosas, fazendo-se, em tempos mais ‘discretos’, representar por assessores que vão (mais ou menos disfarçadamente) bocejando e olhando para os ponteiros do Rolex.

14 de julho de 2009

PARA A T. PORQUE HOJE É TERÇA-FEIRA

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"É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada

E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p'ra guerra
com os olhos na paz


É terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada


E a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria


E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p'ra guerra
com os olhos na paz


É terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p'ra guerra
com os olhos na paz"

Sérgio Godinho
__________________

A capa do LP "Canto da Boca" apanhou-a por aí. Constatou que o seu vinilzinho terá, algures, ido a banhos, levado por alguém.

2 de junho de 2009

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" A feira, apoteose grandiosa do que se vendia e se comprava, andou pela Ribeira, esteve diante do Paço Real, esteve no actual Largo de São Domingos, no Campo de Santana, em São Bento, e nos Campos de Santa Clara, onde ainda hoje mora.
É na Feira da Ladra que se compram os candeeiros de metal adaptáveis a puxadores de portas, as bengalas que se transformam em molduras, compoteiras de cristal que um dia encontramos vestidas de apliques numa sala de gosto. É ali que se perdem os livros  semvalor, com cartas que valem ouro, esquecidas entre as páginas esfarrapadas"
Texto de Fernando Garcia e fotografia de autor não identificado. 
Publicado na revista  Panorama de Abril de 1944.

Nota: Enquanto transcrevo este texto a que achei graça, ouço o som do amola tesouras e facas. E fico assim a sonhar com outra Lisboa.

31 de maio de 2009

SÍTIOS POR ONDE ELE ANDOU

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Feira do Livro.

José Saramago: “Gosto do calor da primeira parte da tarde e da frescura que virá depois, sinto que certo lirismo me percorre o corpo, em mim que não sou lírico, mas sentimental. E penso que os livros são bons para a saúde, e também para o espírito, e que nos levam a ser poetas ou a ser cientistas, a entender de estrelas ou encontrá-las no interior da vontade de certas personagens, essas que às vezes, algumas tardes, se escapam das páginas e vão passear entre os humanos, talvez mais humanas elas.”
Feira do Livro.
Conheceu-a no Rossio em redor das taças de água, na Avenida da Liberdade, na Praça do Comércio/Rua Augusta, (um perfeito desastre!) no Parque Eduardo VII, onde ainda se mantém.
Anos houve em que ia lá todos os dias: para recolher catálogos, por causa dos “Livros do Dia”, quando estes ainda valiam a pena. Tem da feira o fascínio de andar à procura de livros e encontrar outros que o deixaram fascinado.
Voltou a andar por lá mas nada o surpreendeu, ou por outra surpreendeu-o – again, and again – a dificuldade que vai tendo em percorrer os stands e saber que em casa amontoam-se livros que ainda não os leu, apenas folheou no acto de os comprar.
Uma coisa tem como certa: nunca há-de entender os critérios – se é que os há! – dos editores do país. É, no mínimo, mirabolante que num país de analfabetos, os que não sabem mesmo ler e escrever, e outros, que aprenderam a ler e não lêem, esses sim os verdadeiros analfabetos, se publicam tantos livros? Repara nisso nas livrarias mas na feira o fenómeno ressalta mais.
A quem se destina toda esta livralhada? Duvida que se publiquem tendo em vista que alguém os vá ler, não se lhe afigura possível. Mas então por que se publicam?
Mistério.
Luís Sepúlveda numa recente entrevista: “ A vida em sociedade torna-se estranha quando nos aproximamos dos 60 anos; eu falo de livros que os outros não leram e os outros falam de livros que eu não tenho nenhuma vontade de ler.”
Mas é um prazer ir à Feira do Livro. Livros à parte, há a barraquinha dos churros, o rio lá ao fundo, o prazer dos jacarandás, ainda não completamente floridos daquele roxo único.

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Permitam-lhe ainda um pormenor de foro pessoal - sempre levou os filhos à Feira do Livro porque, entende, que o gosto pela leitura não se apanha como se apanha uma constipação ocasional.
A primeira Feira do Livro da filha ocorreu aos seis anos. O rapaz tinha então dez anos. Percorrido o espaço infantil deu-lhe para fazer uma daquelas perguntas idiotas que os adultos insistem em fazer às crianças, e indagou qual tinha sido a barraquinha de que ela mais gostara. Resposta na ponta da língua: “ a dos gelados Olá!”
O rapaz tem hoje 36 anos, a rapariga 31 anos. No momento em que encerra a prosa, imaginem uma lágrima furtiva.

12 de maio de 2009

COISAS DO SÓTÃO

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Há meia dúzia de anos houve a tentativa de encafuar a Feira do Livro num qualquer espaço fechado. Caiu o Carmo e a Trindade e, felizmente, a ideia não avançou.
Na Feira do Livro de 2004 as editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Gótica, Meribérica-Liber, Relógio D’Água, Teorema, publicaram um livrinho, “em defesa da localização da Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII”, em que reuniram um conjunto de textos de autores como António Barreto, Eduardo Prado Coelho, Hélia Correia, João Paulo Cotrim, Frederico Lourenço, Jorge Silva Melo, Jacinto Lucas Pires, Manuel Portela, José Salvador, José Ruy, Mário de Carvalho, um poema de Carlos Drummond de Andrade, uma citação de Bernardo Soares do “Livro do Desassossego", outra do “Mar da Prata” de Jorge Luís Borges.
Todos referem o carácter manifestamente solar, festivo, primaveril, dos livros no Parque. Mas ele não resiste a respigar qualquer coisinha dos textos da Hélia Correia, do Jorge Silva Melo, do Mário Carvalho, personalidades de que gosta mesmo muito:

Hélia Correia: “Temo às vezes que as árvores não pensem bem dos livros, que neles se vejam mortas. Depois lembro que os próprios seres humanos se consolam, prevendo as flores que hão-de nascer das suas cinzas. Posso então concluir tranquilamente que, quando as duas criações, plantas e escrita, ocupam um só espaço, isso se faz em pleno assentimento e harmonia.”
Jorge Silva Melo: “E um dia gostava de filmar, porque, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII
Mário de Carvalho: “Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa, este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar.”

No próximo domingo a Feira do Livros fecha os taipais. Se ainda não foi lá, não deixe de o fazer. Mesmo que não vá para comprar nada. Olhe os livros, mexa-lhes, leia uma ou outra passagem, pode ser até que encontre alguém que não vê há muito. Por fim, pode olhar aquela nesga de rio ao fundo e não se esqueça de sentir o roxo dos jacarandás.
Boa feira. Bons encontros.

9 de maio de 2009

Era Lisboa e chovia




Acordo e chove. Pouco importa, a ideia é ir para a rua. Está quente e abafado e a feira semi-coberta de plásticos. Desta vez não venho carregada, mas compro algumas coisas boas. Outras acho caras e rejeito. Não resisto aos bonecos da Olá. E a uns colares de pano que mostrarei noutra altura que acho deliciosos. O senhor das revistas em conta dá-me o telefone e convida-me para ir à Parede para ir ver as pilhas de revistas que tem na adega. Vai-me buscar à estação, diz ele. E volto a Arroios. Em busca de azeitonas Cordovil, não há porque não vinham em condições diz o simpático vendedor que suponho marido da filha do senhor do talho, mergulho o nariz num molho de poejos e compro favas. Meu Deus, quase que viro católica com a ideia das favas. Agora irei sofázar e ver o que comprei. Estou intrigada com aquele livro da Teresa Leitão de Barros sobre as mulheres escritoras. É só o segundo volume. Descubro uma necessidade imediata: comprar o primeiro. A vida é feita destas coisas. E geralmente elas aparecem sem se anunciarem primeiro.

Nota: Porque fazem todas as feiras em terreno inclinado? Serão os lisboetas masoquistas?

8 de maio de 2009

Amanhã

Amanhã não há Anchieta. Mas há Feira da Ladra. Também há Mercado de Arroios. Dizem os senhores que a chuva ainda não chega no sábado. Mas que domingo sim. Se for ao mercado vou tratar das azeitonas da Teresa. Se for à Ladra vou tratar de mais papel velho para encher a casa. Ando em modo de cansaço moderado. " A sua máquina fotográfica parece que andou na guerra". Pois parece, mas ainda tira fotos. E uma ligeira curiosidade leva-me a regressar a Pequim no ano de 1937. Fico feliz com a oferta do Século Ilustrado com o Incêndio de S. Domingos em 1959 e contente por a Anchieta ir durar quatro dias e prolongar-se pela noite. E porque não?