
"O meu filho mais velho anda as aranhas com a Matemática. Enquanto a Helena se preocupa seriamente, pela minha parte sinto uma alegriazinha muito secreta.
Então não é verdade que nós, gloriosos e felizes pais do reino, desejamos encontrar nos nossos filhos um bocado de nós próprios?
É evidente que de modo nenhum dou a entender à criança que eu, quando estudante, era razoavelmente pior.
Pelo contrário, costumo estimulá-lo, incutir-lhe confiança, demonstrar-lhe (sabe Deus como!) que a Matemática é uma coisa encantadora e que ele deve, para seu bem, procurar compreender o que o professor lhe explica.
Mas o rapaz não esta absolutamente nada convencido. Só ainda não declarou, peremptoriamente, que decide abandonar de vez o estudo, porque o dispensamos de tomar decisões dessa natureza, desde o dia em que resolveu comprar os cromos e a caderneta da descaradona Cleópatra utilizando, para a transacção, as três moedas de vinte e cinco tostões da sua colecção de quatro.
De modo que, por via das regras estabelecidas a partir da ‹‹Cleópatra››, o António Manuel evita tomar decisões importantes.
Ele continuará, portanto, a estudar Matemática até porque me parece de extrema importância resolver problemas que, no futuro, lhe serão de imensa utilidade.
Por exemplo. «Uma dona de casa comprou por 14 escudos uma ração de carne de 21$5O cada quilo. A carne comprada contém l/5 do seu peso de ossos, que são retirados. A parte limpa é transformada em 7 bifes, perdendo 3/l0 do seu peso, na frigideira. Quanto pesa cada bife feito?». Eu não fui capaz de resolver.
Como vêem, trata-se, em primeiro lugar, de um problema desmoralizante. Não posso explicar a criança, nem mesmo com muito boa vontade, que 14 escudos de carne, com l/ 5 de ossos, só pode dar 7 bifes em casa do senhor professor que inventou o problema. Como também não me é possível ajudá-lo naquele outro exercício, segundo o qual três autocarros partem à mesma hora da mesma paragem. Ora todos nós sabemos, cá em casa, que o rapaz ia tem ido a pé para a escola por não partir nenhum autocarro dentro do horário e na mesma paragem.
Mas eu resisto. Até mesmo quando se põe o caso do empregado que comprou uma mobília de quarto por 3.6OO$OO para ser paga em 24 prestações.
Se eu explicar, calmamente, ao rapaz o tremendo problema, estou a ver a sua cara de infeliz ignorante quando um dia puder tomar decisões e verificar que no custo da mobília só as 24 prestações é que estavam certas.
Só tenho um caminho: solidarizo-me com o professor e insisto para que ele resolva as questões. É preciso que alguém resolva estes problemas.
Não obstante eu ter sido um espectacular falhanço na Matemática, creiam que ficaria muito feliz ao saber que o meu filho, loira criancinha coleccionadora da «Cleópatra››, tinha resolvido os problemas da carne, dos autocarros e das mobílias de quarto".
Um belo texto dum grande jornalista português, António Rolo Duarte (pai). Gostaria de ler as suas crónicas publicadas em livro.
1966
Um belo texto dum grande jornalista português, António Rolo Duarte (pai). Gostaria de ler as suas crónicas publicadas em livro.
1966