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24 de julho de 2013

A livraria Sá da Costa : um centenário gorado


A triste notícia do encerramento da Livraria Sá da Costa faz-nos viajar pela sétima arte. Lembra-se Fahrenheit 451 e a proibição da leitura.. A desobediência, na narrativa ficcionada, conduz à condenação máxima, a pena de morte. Há quem, na longa metragem referida e no auge do desespero, memorize livros, acreditando em tempos futuros de liberdade , a permitir a  reescrita de tudo quanto ficou registado na mente dos  que amam a literatura. O filme é aqui referido a título metafórico... Poderá mesmo ser considerado uma hipérbole (mais do que metáfora). Lembrando uma recensão que há pouco fez parte das atribuições pessoais sobre a biblioteca digital, ainda se é do tempo em que os estudiosos do passado , para consultar preciosidades literárias distantes, solicitavam autorização especial para, na Biblioteca Nacional, ter acesso a textos em microfilme. Defende-se (em consenso, acredita-se) a democratização da leitura: em casa, através de plataformas digitais, pode-se hoje consultar obras literárias e científicas que se encontram, do ponto de vista geográfico, inacessíveis quando, antigamente, eram privilégio de alguns “happy few” . Fica a  nítida noção de que a hipérbole apresentada – conteúdo do filme Fahrenheit a visar um regime ditatorial que veda o conhecimento –  pode parecer excessiva. No entanto, não se deixa de sentir a perda de mais uma casa em que se foi feliz. A livraria completaria, no presente ano, um século de existência.

23 de junho de 2013

Semelhanças




















Faz lembrar alguém, não faz? Legumes e fruta em Tavira, antes dos livros e das revistas em Lisboa!

27 de janeiro de 2013

Memórias de Mafra ou porque fomos felizes num local


Há terras onde fomos felizes. Um dos motivos, terá sido a descoberta de um jovem poeta. Capaz de criar imagens fortes com as palavras, este rapazinho começou, em gesto de provocação, a trazer para as aulas as folhas arrancadas à antologia, fingia-se não entender. O que interessava eram os textos literários em estudo, desde que as páginas coincidissem… Com o avançar do ano, o Horácio veio e revelar-se, tendo conquistado o prémio literário (modalidade poesia) que, então, foi criado na secundária. Com um nome assim, as expectativas quanto à sua escrita  eram de responsabilidade. Chegou, por essa altura, a decisão pessoal de entrar em período de tréguas com os livros daquele que viria a ser o nosso Nobel… É que, até à data, nada parecia conseguir ficar à altura de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Constituiu experiência única a leitura do romance então recente – Baltasar e Blimunda ganhavam vida sempre que, num horário com inúmeros buracos entre tarefas e a incluir o sábado, se encontrava, sob as árvores, um banco convidativo, a escapar ao bulício da escola. Corriam pela vila  histórias exageradas pela imaginação popular: os ratos tomavam conta do espaço deslocando-se, em profusão, por caminhos subterrâneos que atravessavam o local… Na secretaria da secundária, os roedores apareciam, quase fossilizados, dentro de pastas de arquivo. O convento, na sua ostentação de oiro dos brasis, assenhoreava-se do espaço, excessivo no estilo arquitetónico. Chegou o dia ansiado – uma autorização especial para visitar a biblioteca do palácio, até então vedada ao público. Mesmo tratando-se de tempos diversos, a sensação de entrar num espaço proibido do saber conduziu à associação a outro grande título : O Nome da Rosa. Na imagem, um detalhe de outro compartimento do palácio, utensílio cuja finalidade conseguirão indicar.

15 de janeiro de 2013

A República das Piiiiiiiiiiiiiii


























Sexta-feira li no Público um artigo de que gostei bastante, intitulado ‘A República das Piiiiiis’ de João Magueijo , o 12º da série ‘Que Valores para 2013?’.
O artigo fez-me pensar.
É uma visão da situação portuguesa/europeia quase coincidente com a minha. Vejamos:
“Como Skvorecky notava, as "piiiiiis" que tinham antes vendido o seu país aos nazis eram as mesmas que agora acolhiam os soviéticos (e mais tarde, muito depois de o livro [A República das Piiiiiis] ser publicado, acolheriam o capitalismo selvagem, sem que ele o soubesse). O mesmo se passa no nosso caso: não tenham dúvidas de que em tempos de fascismo os nossos primeiros-ministros teriam sido rapazes de sucesso. Mas de certa forma estamos a bater no ceguinho. Se eles (e nós, por extensão) fizeram figuras tristes e agora estamos a pagar por isso, houve quem fez pior e se está agora a rir. Os usurários mundiais nem sequer construíram túneis inúteis: construíram castelos de valores inexistentes, que continuam a crescer e a alimentar a sua ganância. Até isto se resolver falemos de tourada, porque não faz muito sentido discutir o estado da nossa sociedade, e o demais, em 2013.”
E continua:
“Sim, éramos um país de pobres que passou temporariamente a um país de novos-ricos. Mas agora somos um país de novos-pobres: miúdos cheios de talento desempregados há dois anos, pessoal de ponta a emigrar para o estrangeiro, médicos educados cá a colmatarem as faltas de sistema de saúde inglês... um desperdício óbvio de uma geração. Em vez de usarmos estas fontes de rendimento, deixámos os tanques financeiros entrar pelo país, para aumentar os impostos e baixar os salários, já de si entre os mais baixos da Europa.”
E conclui:
“Muita da nossa dívida, e consequente austeridade, não é legítima, em perfeita analogia com as dívidas contraídas pelas prostitutas, e que as mantêm nas malhas dos seus donos. Se a nível mundial algo tem de ser feito para refrear os chulos financeiros, a nível nacional um corte com o passado seria um primeiro passo. Ou então que se dê o Prémio Nobel da Economia à Dona Branca. E viva a República das Piiiis.”
Infelizmente a versão online do artigo está reservada a assinante.

16 de dezembro de 2012

Os melhores livros com narradores adolescentes

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(imagem de uma edição de Catcher in the Rye de Salinger)

 O The Guardian divulgou, na presente semana, aqueles que – em opinião do autor da peça – se inscrevem na categoria de êxitos literários cujos narradores são adolescentes. De um conjunto de dez obras, são de destacar algumas das traduzidas para português e por cá também tornadas famosas, a saber:
- O diário secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4 da autoria de Sue Townsend, cujo narrador personagem provém de uma família disfuncional da classe média. Nos últimos números da série, Mole muda-se para Londres, é auxiliar num restaurante do Soho, acabando por encontrar emprego num alfarrabista da cidade;
 - As aventuras de Huckleberry Finn (como foi lido e relido na juventude!) de Mark Twain… Huck é o típico adolescente «outsider» (não encontro palavra em português que expresse tão bem a ideia, as desculpas aos puristas da língua). A viagem que faz pelo coração da América com Jim – o escravo em fuga – representa o caminho para a liberdade, ao longo do Mississipi. Finn teima em continuar a jornada, na tentativa de impedir a tia Sally de o sivilizar (‘sivilize’, de acordo com o texto original);
 - Jan Eyre de Charlotte Brontë. Os limitados horizontes de Jan Eyre, a par das esperanças frustradas da narradora, não deixam de exercer fascínio entre os adolescentes que com ela se identificam. A resignação patente nas últimas linhas do romance «leitor, casei-me com ele» inscrevem-se, na perfeição, no arquétipo da ficção vitoriana;
- À espera no centeio de JD Salinger. Holden Caulfield começa por despertar o leitor na aproximação a Huck Finn . Lança a questão: será interessante para o leitor saber onde nasceu e se a infância miserável se cruza com a de Hucleberry Finn?. Escreve-nos a partir de uma instituição a escancarar portas, permitindo-nos entrada. Destinado a um público adulto, o romance de Salinger tornou-se popular entre os jovens, pela abordagem muito pessoal da desorientação adolescente, da alienação, da angústia e da revolta;
 - A ilha do tesouro de Louis Stevenson. Jim Hawkins, o narrador adolescente, abre a peça de ficção com uma fórmula apelativa aos olhos do leitor: «Num certo dia do ano de mil setecentos e tantos, um velho marinheiro moreno, com uma cicatriz no rosto, bateu com o seu bordão ferrado à porta da estalagem Almirante Benbow…»;
 - A Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Clássico distópico, a comemorar 50 anos de existência, dá voz a um adolescente impetuoso, abrasivo e romântico de nome Alex. Passado numa Inglaterra em tempos de «um futuro próximo», o protagonista adolescente acompanha o grupo (os «Droogs») em rituais de violência, durante a noite. Os membros do grupo têm diversas características: Dim, o de raciocínio lento; Georgie, o ambicioso; Pete, a deliciar-se com a alegria sádica dos elementos. Alex revela um gosto sofisticado pela música, com destaque para as sinfonias de Beethoven.

Em modo de encerramento, fica a questão: quais serão os clássicos da literatura nacional com narradores adolescentes a marcar os leitores (mais ou menos) compulsivos através de gerações?

3 de novembro de 2012

Os 10 títulos de mais difícil leitura

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(imagem: Stefano Bianchetti/Corbis)


O The Guardian de hoje publica uma rubrica intitulada «os 10 títulos de mais difícil leitura». Desconhecendo-se os procedimentos que terão conduzido à conclusão, o artigo, em tom bem humorado, felicita os leitores que conseguiram concluir as obras apresentadas. Do conjunto, fazem parte alguns autores contemporâneos, alguns (ainda) não traduzidos em português, sendo outros considerados clássicos do ensaio e da ficção. Por ordem de apresentação, a listagem é a seguinte:

 1- Will Self, Umbrella
 2- Walter Abish, Alphabetical Africa
 3- Baruch Espinoza, Ética
 4- Kazuo Ishiguro, Os Inconsolados
 5- Robert Musil, O Homem sem Qualidades
 6- Karl Marx, O Capital
 7- Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão
 8- James Joyce, Finnegans Wake
 9- Thomas Pynchon, Arco-íris da Gravidade
 10- B.S. Johnson, The Unfortunates

 A ilustrar o tom do artigo, transcreve-se a observação associada à escrita ficcional de Robert Musil «obra em três volumes e de difícil leitura, apresenta-nos um protagonista em busca de um sentido para a realidade, a personagem revela uma atitude ambivalente , oscilando entre moral e indiferença, o que a reduz ao estado de “homem sem qualidades”». O autor da peça jornalística conclui a apreciação a este extenso texto, referindo que «para alguns leitores, Musil teve a faculdade de fazer com que Proust acabasse por ficar equiparado a Agatha Christie».

Fonte: The Guardian/The Observer (adaptação)

27 de setembro de 2012

J.K.Rowling: The Casual Vacancy

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O primeiro romance de J.K.Rowling destinado a adultos, foi hoje posto à venda e pensa-se que será um best-seller mundial. Já conta com um milhão de exemplares vendidos antes do lançamento, embora não tenha provocado a corrida às livrarias britânicas, à semelhança do sucedido com Harry Potter. The Casual Vacancy, título da obra, foi hoje posto à venda na Grã-Bretanha, rodeado de algum secretismo. "Harry Potter ocupou, a título pessoal, um lugar importante no que diz respeito à experiência do crescimento" - comentou uma das primeiras compradoras do novo título numa livraria londrina. "Poderá não ter grande elegância de estilo, mas trata-se de uma grande contadora de histórias" - acrescentou a entrevistada de 29 anos. O ponto de partida deste texto de ficção que se desenrola em Pagford, aldeia imaginária do sudoeste de Inglaterra, é a morte de um membro da autarquia local. A partir daí, os habitantes encetam diligências para encontrarem um substituto que defenda a sua causa comum – livrar a aldeia de uma gestão menos adequada. J.K.Rowling pensou, de início, no título Responsáveis pois, tal como informa em entrevista ao New Yorker, “trata-se de um livro sobre responsabilidade, acerca da nossa própria responsabilidade, em sentido lato, para com os estratos sociais desfavorecidos”. Surgem, portanto, no presente livro, temas afastados do universo dos jovens feiticeiros, já que aborda temas como a toxicodependência, a prostituição, as famílias monoparentais e a sexualidade adolescente. O romance já recebeu críticas iniciais, a equipararem a sua  mensagem social a uma fórmula «Charles Dickens». O Daily Telegraph descreve-o como um livro “por vezes divertido, muitas vezes a refletir uma observação lúcida, plena de crueldade e de desespero”. “Terminei com a saga de Potter, a não ser que me surja uma ideia extraordinária” – informa a autora. De acordo com o Sunday Times, com uma fortuna associada a 560 milhões de livros (703 milhões de euros), esta mãe de três filhos é detentora de um império, se pensarmos que Harry Potter deu ainda lugar a 8 filmes de sucesso, a brinquedos e a videojogos. Em relação ao presente título, a escritora afirma ter sido influenciada pelo início da década de 90, quando escreveu o primeiro Harry Potter, viveu em diversos apartamentos alugados, sofria de depressão e educava sozinha a única filha que então tinha . De momento, encontra-se a escrever dois romances para a juventude.

(Fonte: L'Internaute Magazine)

25 de julho de 2012

Quem não lê, chapéu...

 Quem não lê, chapéu. A colecção Unibolso era assim publicitada em 1973  e lançada numa iniciativa conjunta da Bertrand, Livros do Brasil, Verbo, Ática e Ulisseia. Eram livros baratos e a colecção tinha muitas das obras indispensáveis ao leitor. Muitos sobreviveram até hoje, meios surrados e desirmanados mas ainda cumprindo a sua função:democratizar a leitura pois  tratar o livro com excesso de respeito pode afastá-lo de muita gente, como dizia o publicitário. De capa branca e grafismo e papel  simples são ainda uma das grandes colecções básicas de bolso sobreviventes.

1 de julho de 2012

Coisas do passado: um jantar de cerimónia

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A arrumar livros antigos, sou atraída por uma curiosa passagem do Tesouro das Cozinheiras. Ainda do tempo em que se defendia o mito «vinho branco acompanha peixes, vinho tinto acompanha carnes», espanta-me o complexo ritual (com destaque para a profusão de vinhos e bebidas espirituosas) que, segundo este manual de instruções, deverá fazer parte de um jantar de cerimónia. Tentando abreviar o texto (retirei-lhe o «substituem-se pratos e talheres» presente em cada ponto), fica a parte ilustrativa da questão:
 1)- 10 minutos antes do jantar servem-se os «cocktails» […]
 2)- Serve-se a sopa. Vinhos para acompanhamento: Madeira seco ou Xerez;
 3)- […] serve-se o primeiro prato. Vinhos para acompanhamento: Bordéus ou qualquer branco nacional;
 4)- […] oferece-se o segundo prato. Vinhos para acompanhamento: Borgonha ou qualquer tinto nacional;
 5)- […] serve-se o assado. Vinhos para acompanhamento: Champanhe ou qualquer espumante;
 6)- […] servem-se taças de sorvete, gelados ou salada de frutas […]. Vinhos para acompanhamento: Porto, Malvasia ou Málaga.;
7)- […] trazem-se os lavabos pousados sobre outros pratinhos forrados com panos bordados ou de renda;
 8)- Serve-se o doce;
 9)- Substituem-se os pratos […] e servem-se as frutas. Terminado o jantar, os convidados devem lavar as pontas dos dedos nos lavabos e limpá-las aos guardanapos, que se colocam na mesa, sem dobrar;
 10)- A dona da casa levanta-se, os cavalheiros puxam a cadeira da senhora que lhes fica à direita e todos seguem a dona da casa para o salão;
 11)- Serve-se, então, o café, e, terminado este serviço, apresentam-se os diversos licores.
 Fica-se a pensar que um repasto com tais regras, pressupõe que os convidados tenham motorista abstémio que os possa conduzir a casa.

12 de junho de 2012

O haiku das palavras perdidas de Andrés Pascual

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Fotografia: Michael Kenna

“Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo – entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal”. – Almeida Garrett, Viagens na minha terra

A leitura é ânsia de evasão, seja ela fugaz, a poucos quilómetros de casa ou distante, levando a esquecer o correr das horas. Em fase de leitura compulsiva – lamentando que nem todos os dias do ano, assim sejam caracterizados –  penso que ler é também viajar, interiorizando como perturba o ritmo do tempo, por trazer ao pensamento a pretensão de percorrer a totalidade dos livros, de concretizar todas as jornadas, isenta de constrangimentos. De um livro de navios afundados e tesouros quase esquecidos, passa-se ao universo do Japão, com duas gerações presentes no enredo (a de Nagasáqui e a do recente terramoto). A escolha é também feita pelos afetos – o escritor, presente há dias numa palestra no nosso país, deixou – por motivos que não vêm à colação – a oferta do seu romance traduzido, com uma dedicatória sentida, a uma das minhas filhas que pretende viver de e para a escrita, intuito ousado, nesta era tecnológica em que, por contradição, tanto deixamos desperdiçar. País distante, acerca do qual efabulamos, têm-me espantado relatos credíveis de amigos que o visitaram, um pouco à margem de circuitos turísticos «sentimo-nos em casa» (a expressão surpreende, por considerar a cultura tão diversa e longínqua). Recordo ainda comentários de japoneses que passeiam pelos bairros típicos de Lisboa «somos parecidos, também estendemos roupa à janela», referem-me ainda o bolo que descende do nacional pão de ló (disso já todos temos conhecimento), a par de algumas palavras por nós deixadas, aquando da expansão. Tendo-me alongado sobre um livro que só hoje irei encetar, deixarei unicamente como abertura a epígrafe que antecede o início do romance:
 Nasci para o mundo/ e deixo-o com a minha morte. /As pernas levaram-me a mil aldeias /e a infinitos lares. /O que são?/ O reflexo da lua na água, uma flor que flutua no céu… /Oh!
Gizan Zenrai

8 de maio de 2012

Maurice Sendak: where the wild things are

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Há dias, tive como tarefa a transcrição de uma entrevista a uma ilustradora de livros, cidadã do mundo. Ao longo da interessante conversa, um dos destaques ia para o ilustrador Maurice Sendak, como referência, até ao presente, para o trabalho que executa. Hoje, verifiquei na imprensa diária, que este criativo autor tinha falecido aos 83 anos. A sua carreira teve início no final da década de 40, tendo ilustrado mais de 100 livros e escrito cerca de 20. A obra prima que o lançou internacionalmente e se tornou sucesso de vendas, foi Where the wild things are, publicado em 1963. No passado, Sendak referiu em entrevista ter respondido – consta que não deixava cartas sem resposta – a uma criança, com um dos seus desenhos de monstros, sensibilizado com o texto entusiástico que lhe tinha sido enviado. A mãe do rapazinho enviou-lhe um bilhete, dizendo que o filho tinha apreciado de tal forma o «boneco» que o tinha comido. Sendak redigiu novo postal, referindo ter sido o maior elogio alguma vez recebido. O autor não apreciava a designação de ilustrador infantil, pois – segundo o próprio – o rótulo inferiorizava-lhe o talento. «Tenho de aceitar este papel. Nunca me irei suicidar como Van Gogh, nem pintar nenúfares como Monet. Não consigo fazê-lo.» Recebeu importantes prémios no mundo da ilustração infantil, tendo sido agraciado com a distinção Hans Christian Andersen, entre outras de igual prestígio.

16 de fevereiro de 2012

A arte de viajar no quotidiano

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É difícil apreciar correrias automobilísticas (quem respeita os limites de velocidade, que ponha o dedo no ar). Pelo exposto, torna-se quase que terapêutico – diria - utilizar o comboio,  sentada e ler sem regras e em diversidade (o que é incompatível com a condução). Assim acaba a leitura da obra cuja passagem se transcreve. Ao terminar o parágrafo, descobre-se, pela primeira vez em anos, as hortas ("prósperas", como diria o meu pai sempre a referir-se à arte hortícola) que se avistam da janela, ao longo do «empolgante» IC19… Poderiam , os pequenos arranjos agrícolas, dar uma boa fotografia. Na impossibilidade, fica uma imagem de outras paisagens verdes, a enquadrar-se no trecho desta obra que alia a viagem a interessantes reflexões sobre escrita, pintura e filosofia, associadas aos locais visitados pelo autor. E não se pense que as observações dizem respeito a grandes viagens em exclusivo...
«Há sempre no mundo mais coisas do que as que podem ver os homens, ainda que caminhem muito devagar; não as verão melhor por andarem mais depressa. As coisas realmente preciosas são uma questão de pensamento e de visão, não de velocidade. Uma bala não passa a ser boa por ser rápida, e o ritmo lento não diminuirá um homem, que seja realmente um homem, uma vez que a glória deste não está no seu andar, mas no seu ser».
Alain de Botton, A arte de viajar
Imagem: Abadia de Kylemore, Irlanda

18 de novembro de 2011

14 de novembro de 2011

O Monte dos Vendavais

Foi um dos romances que iniciou a minha paixão pela leitura. Adequadamente. Um dos  personagens masculinos que mais me impressionou. Heathcliff criado por Emily Bronte. Talvez às vezes ainda  sonhe com ele. Este é o início de O  Monte dos Vendavais, Editorial Inquérito.


"Acabo de regressar duma visita ao meu senhorio, o único vizinho que perturbará a minha solidão. Estes sítios, na verdade, são maravilhosos! Creio que, em tôda a Inglaterra, não poderia encontrar refúgio tão completamente afastado da agitação mundana. Um verdadeiro paraíso para misantropos! E o Sr. Heathcliff e eu constituímos o par ideal para a partilha dêste deserto. Que homem extraordinário! Nem êle suspeita da simpatia que me inspirou quando, ao estacar o meu cavalo, lhe surpreendi os olhos negros que se escondiam, desconfiados, sob as sobrancelhas, e os seus dedos que, num gesto esquivo, mergulhavam profundamente nos bolsos do colete, ao anunciar-lhe o meu nome. — É o Sr. Heathcliff? — interroguei. Respondeu com um aceno de cabeça. — Sou Lockwood, o seu novo inquilino. Pensei que devia vir visitá-lo, logo que cheguei, para lhe exprimir a esperança de não ter sido impertinente com a minha insistência para habitar Thrushcross Grange. Ouvi dizer, ontem, que o senhor tivera certas apreensões... — Thrushcross Grange — interrompeu êle — é minha propriedade. Não permito que ninguém me aborreça quando posso opor-me a isso... Entre! Êste «entre» foi pronunciado com os dentes cerrados e queria dizer: «vá para o diabo!» A própria cancela a que se apoiava não denunciou o menor movimento de acordo com o convite, e foi esta circunstância, creio, que me impeliu a aceitá-lo"

28 de agosto de 2011

Pechinchas

Sou uma leitora compulsiva. Com as reduções orçamentais torna-se complicado muitas vezes satisfazer este gosto. Por isso, recorro a alfarrabistas e não tenho vergonha de pedir emprestado um livro a um amigo, porque os devolvo sempre. Mostro-vos aqui a minha compra por cinco euros ontem, no total. Um euro por cada um.

18 de junho de 2011

belated bloomsday

of what did the duumvirate deliberate during their itinerary?

o dia 16 de junho já foi muitas vezes comemorado nesta casa.
umas vezes no dia, outras nem por isso.

music, literature, ireland, dublin, paris, friendship, woman, prostitution, diet

ulisses é o livro que eu passei mais horas a ler. durante alguns anos era quase uma espécie de apêndice que transportava sempre que viajava. como tem um estilo de escrita diferente em cada capítulo era como se transportasse um saco de livros que podia escolher para me deliciar.

the influence of gaslight or the light of arc and glow-lamps on the growth of adjoining paraheliotropic trees

este ano, em dublin, o bloomsday teve uma forma original de ser celebrado, para além da tradicional peregrinação por todo o trajecto de um pouco mais de 24 horas de leopold bloom: através da rede twitter (@11ysses), um conjunto de apaixonados por este apaixonante livro, enviou as mensagens necessárias para completar o texto completo e assim poder ser lido. como comentava alguém no twitter, podia ser lido como poesia.

he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes i said yes iwill yes.

13 de junho de 2011

Emprestar?

Este era um conselho prático da Agenda do Lar de 1974. Eu não sei se acredito neste método..

14 de abril de 2011

Textos, imagens, memórias...

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A terminar a leitura de D’este viver aqui neste papel descripto, cartas de guerra enviadas por António Lobo Antunes do interior de Angola à sua jovem mulher, cruzam-se caminhos: o terem-se conhecido na Praia das Maçãs, local a trazer gratas lembranças e o facto de, por mero acaso, ter recentemente comprado um livro com memórias fotográficas do concelho de Sintra, com destaque para esta praia aqui tão perto.
Leio avidamente o texto de Lobo Antunes, não como devassa da intimidade, mas na qualidade de documento histórico de uma guerra absurda que, a par da realidade documental ultramarina, acaba por trazer por arrasto instantâneos da nossa varanda sobre o mar.
Saltando para o livro de memórias fotográficas, é interessante descobrir edifícios de uma existência até há pouco desconhecida.
A praia, baptizada devido ao rio que a cruza, foi também cenário de fins de tarde onde, em casa de uma amiga e sentada sobre um telhado fronteiro ao mar, ia pondo em dia a leitura. O meu amigo L , sempre fascinado por fotografia deixou-me, como memória, uma imagem em que mergulho nos livros empoleirada nas telhas antigas, mas seguras. Ele que também teve de participar nessa mesma guerra, precisamente no Luso, uma das paragens de onde estas cartas são enviadas.
Das cartas de guerra, uma breve passagem: «O que me faz falta é o mar, e, por isso, ele aparece tanto nesta pobre e ridícula história que escrevo, o mar do litoral, as praias[…]. A praia das Maçãs visita-me muitas vezes, a Várzea de Colares, a estrada a partir de Sintra, o frio especial de depois das 6 horas, a língua estreita da praia Grande. Outra coisa que me lembra muito é a estrada Marginal à noite, com a sua feira de luzes, Cascais, a baía e os barcos».

imagem : Nuno e Miguel Gaspar, Um passeio de Cintra até ao mar a apresentar o Hotel Royal Belle-Vue, Praia das Maçãs. O hotel ardeu em 1920, as ruínas foram compradas por D. José de Mascarenhas. Hoje ainda existe a casa aqui construída, pertencente a António Vasão Trindade

10 de abril de 2011

Evasões ou pequenos grandes gostos

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Entrada num grande espaço, lembro-me de procurar um livro referido por uma amiga: Temor e Tremor, de seu título em português, traduz a experiência de uma competente executiva japonesa acabada de se radicar nos Estados Unidos.
Sendo o choque de culturas tema de particular interesse parece, o enredo, conter ingredientes bem condimentados, dado a protagonista, na tentativa de implementar parâmetros apreendidos no país natal, terminar funções na qualidade de empregada de limpeza das instalações sanitárias da firma.

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Não se encontrando o livro disponível no momento da procura, fixo-me nos DVDs. Fugitiva de locais fechados e sobrelotados e, algo limitada pela oferta do momento, acabo por fazer duas rápidas escolhas ditadas por boas memórias: Sunset Boulevard e A Rosa Púrpura do Cairo.
Ao chegar a casa, não posso deixar de sorrir ao estabelecer associação com as opções repentinas de compra. Sem o ter pensado, verifico que ambas se prendem com o fascínio exercido pela sétima arte, mesmo que de perspectivas diversas: no primeiro caso, a das estrelas (mesmo que decadentes), no segundo, a  da espectadora enquanto evasão para um mundo (aparentemente) mais apelativo.
O filme de Wilder continua inabalável ficando a pairar, por algumas horas, a expectativa em relação ao de Woody Allen.

24 de novembro de 2010

Os compassos do tempo



O cronológico, particularmente grato por trazer diversas reflexões de indiscutíveis afinidades com este blogue, renovou sorrisos quando, há pouco, a folhear um delicioso livro intitulado Charlas linguísticas da autoria do filólogo Raul Machado – conjunto de textos apresentados no ano 1958 em programas da RTP pelo autor - revestiu-se  de particular significado tal descoberta através das seguintes linhas retiradas do programa emitido a 1 de Abril desse mesmo ano:
« […] como se diz que o tempo corre, que o tempo voa, podemos dizer que corre, que desliza, com rapidez, que voa com grande velocidade, como o atleta na sua carreira, como o avião no seu voo, como o Sol no seu curso […]».
Continuando a ler as considerações do filólogo acerca da fugacidade temporal já referida na Antiguidade Clássica, remetem-nos as mesmas para o tempo psicológico quando, em tempos de preocupações, falta de saúde ou, simplesmente, de intermináveis dias de chuva, desejamos maior celeridade nos ponteiros do relógio…
Acontece que a lenta sucessão das semanas e dos meses também já foram pessoalmente experimentadas  em sociedades menos urbanas e periféricas: quotidianos simples, horários bem arrumados, vida pacata longe do velho continente, ficando-se a pensar que nem sempre são os contratempos a trazer ao cronómetro a tal falta de agilidade…
Não se pretendendo uma exaustiva listagem de situações, para além do delicioso livro de Raul Machado sobre o belo idioma que é o Português, surgiu também a divagação sobre o tempo após ter visionado documentos salvos, em cima da hora, de um antigo computador cuja existência acabou de findar e do qual se retirou a imagem aqui divulgada e recebida num passado remoto…

Oração ao tempo
The times they are a changing