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23 de outubro de 2012

Quiosque

"O homem do quiosque acabava de tirar os taipais e expunha a mercado-ria: jornais, revistas e folhetos, cautelas, a lista da. Santa Casa. [..] Dentro do quiosque, era ainda noite escura, Cheirava a limão, capilé, café requentado, charuto de picar, e o garoto aspirou com delícia estes aromas. O homem agachou-se, saiu pela portinhola debaixo do balcão, e continuou a pendurar a fazenda. — Olha o Texas-Jack. Este ainda a gente não leu. Oh, paizinho, compre-nos o Texas-Jack!"



 Escola do Paraíso, José Rodrigues Migueis
Fotos do Arquivo Municipal de Lisboa

24 de agosto de 2011

Quem escreveu?

"Sabia já, por carta amiga, que eles estavam a chegar por via marítima, em grupo, para erguer, montar e o pavilhão português da Feira Mundial, a ser inaugurada em breve. Ausente havia cinco anos, e num estado de nervos que lhe exacerbava todos os afectos, a notícia trazia-o alvoroçado e impaciente: Se eles queriam vê-lo? E como o acolheriam se...? Por isso, naquela tarde, o telefonema, sem o surpreender, foi uma surpresa: pela coragem do alto funcionário que ousava infringir a regra do ostracismo. «Já cá estão! — disse ele. — Venha vê-los esta noite ao Martinique!» (hotel algo suspeito, mas tal fora a decisão oficial...). Correu a procurá--los logo depois de jantar. O encontro foi eufórico. Receberam-no rindo, de braços abertos, como amigos velhos. O Bernardo e a Ofélia, o Fred e a Astrid, o Zé Rocha e a Selma enfim unidos, o Carlos (sem a Dona Brites, que pena!), e além deles Anahory, celibatário. Estavam os mesmos, pareciam felizes, e o Ontem fez-se Hoje de repente. Só faltava o Arquitecto, que seguia à risca as instruções do Chefe. Este, ainda a bordo, reunira-os e falara assim: «Eu sei que vocês são todos amigos do Expatriado, e hão-de querer encontrar-se com ele. Mas, pelo amor de Deus, façam-no discretamente, onde isso não dê nas vistas! Eu admiro-o muito, mas o sorriso dele, o nariz bicudo, bastam para o tornar subversivo!» E a primeira coisa que eles faziam, queridos, era chamá-lo. Ainda mais enternecido ficou ao sabê-lo. Tomaram uns drinks, ele bebeu com sofreguidão as impressões da Pátria, depois subiram aos quartos, no décimo quinto andar. O Bernardo, ao ver da varanda corrida as ruas desertas àquela hora, empalideceu: «Que silêncio!» "

José Rodrigues Migueis, A Amargura dos Contrastes, Edição O Independente

23 de maio de 2011

Declaro votar na novela...



Encontro este livro numa pilha, onde entre tantos outros, aguarda um possível dono.Encontrou-a.
Não conheço a colecção Amanhã, mas acho graça à iniciativa, ""Dez novelas, dez novelistas". A colectânea é dirigida por Miguel Cruz, a capa é de Bernardo Marques e corre o ano de 1934
O projecto é interessante: o leitor nomeia o melhor autor, enviando o boletim de voto para a editora e o autor premiado recebe mil escudos. O próximo volume previsto é o "Dez Repórteres, Dez Reportagens". Terá sido publicado? Entre os colaboradores contavam-se Norberto de Araújo, Reinaldo Ferreira e José Gomes Ferreira.
Entre os dez novelistas,  logo me encanta um muito jovem  José Rodrigues Migueis,  a um ano  de partir para o exílio, que escreve a novela "A A mancha não se apaga", que inicia assim: 
"“"Obrigado, doutor, estou bem aqui Está-se aqui bem. Doutor, eu sinto-me doente. Venho pedir-lhe um conselho, um remédio, uma palavra que me dê a calma, se a cura não é possível Há dois anos, há dois anos que sofro... Calado, escondendo o meu remorso e a minha dor. Dois anos! Não posso mais. Onde, me levará esta obsessão? Quero explicar-lhe.... Só dez minutos. Tem dez minutos para me ouvir? Ouça -me então. Seja indulgente. Eu não estou louco, ainda não estou louco. Não se trata duma aventura imaginária. Eu tenho a prova, trago-a sempre comigo, a horrível prova do meu erro ou do meu crime... Bem, bem, ouça-me então... Eu tinha um amigo, talvez o doutor se recorde, Norberto Mata, conheceu-o? Esse mesmo Quem o não conheceu? Pois bem, foi ele o meu melhor, talvez o meu único amigo. Conhecemo-nos em Gand, onde fizemos lado a lado os nossos estudos, ele o direito, eu a engenharia Não sei bem que nos ligou, talvez os contrastes dos  nossos caracteres, dos nossos interesses(...)"

13 de dezembro de 2009

O NATAL DO CLANDESTINO

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“ O Natal do Clandestino “ é um belíssimo conto de Natal de José Rodrigues Migueis.
Poucos, como ele, sentiram na pele o que foi viver fora do seu país.
 Um exílio voluntariamente assumido, é certo, mas imposto pelos entraves
que o salazarismo lhe colocou.
O viver amargo dos dias, principalmente os de Natal.
O cenário deste conto é Baltimore.
Escreve Migueís:
“Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas do mar;
onde este está sempre presente, em convívio com os homens”
Era véspera de Natal e um navio “um desses navios que podiam ter
 inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou Pierre Mac Orlan”,
atracou pela manhã num cais de Balrimore. A bordo viajara um passageiro
que não constava dos “livros de navegação”, que entrara a bordo
com a cumplicidade de dois tripulantes.
Terminada a descarga do navio, o “silêncio escorreu sobre os molhes e hangares”.
O passageiro clandestino aguardou a altura de sair do canto do porão para o cais.
“Há quantos anos ele sonhava com a América! Vinha em busca dela como, quatrocentos
 anos antes, e mais, os seus antepassados, mais felizes, tinham vindo em demanda
 da Terra Firme, do Eldorado e de Xipango”.
Já no cais surge-lhe a figura de um polícia, um hálito quente, de tabaco e de whisky,
uma manápula forte a cair sobre os fracos ombros. Ficaram frente a frente.
“Que pode um homem dizer em tais circunstâncias? Tinham-lhe recomendado:
 “Haja o que houver”, não abra bico, Faça-se de trouxa.”
O polícia disse qualquer coisa que ele não conseguiu entender mas
colocou-lhe a mão nas costas e empurrando-o gritou
“- Run!
O homem não precisou de entender e correu, correu sem saber
 aonde ia nem o que pensava, se o agente lhe ia dar um tiro pelas costas
como a um ladrão das docas que desobedece à ordem de “Alto”, ou se
ealmente o mandava embora, livre, sem o prender nem obrigá-lo a
 voltar para bordo. Correu às cegas, a rir e a chorar, mastigando palavras
sem tom nem som, e tropeçando a cada passo em obstáculos, esbarrando
em paredes, em caixotes, em fardos, em cordames, em máquinas, confuso
 e perdido, incapaz de encontrar a saída daquele labirinto.
A voz do polícia atirou-lhe a distância no escuro:
- Merry Christmas!
O clandestino deteve-se, compreendendo vagamente, e só nesse instante
se lembrou de que era noite de Natal. Então, com a garganta estrangulada,
pulou uma vedação de rede, transpôs umas calhas ferroviárias, e deitou a correr
em campo aberto.
De longe, o clarão agora mais vivo da cidade guiava-lhe os passos, como o
reflexo de misteriosa estrela oculta ou de lareira acesa, chamando-o à consoada.”

Este livrinho foi composto para ser vendido pela Estúdios Cor no Natal de 1957.
em capa e ilustrações de Bernardo Marques.
Todos os anos a editora Estudios Cor” escolhia um autor para escrever um conto de Natal.
Mais tarde José Rodrigues Migueis há-de inclui-lo, mas com o título de
“O Viajante Clandestino, no livro de contos “Gente de Terceira Classe”,
 publicado em Novembro de 1962, também pela “Estúdios Cor”.

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21 de março de 2009

TAMBÉM PELA BELEZA DAS CAPAS



“Os paquetes atracam logo em baixo, ao cais, e a rua deve talvez o nome à saudade que para sempre ficou flutuando no sítio: a saudade dos que ficam, e dos que partem e querem prender-se à terra, de braços, olhos e almas alongadas.”

“A Escola do Paraíso”
José Rodrigues Migueis
Capa de Manuel Correia
Colecção Latitude Nr. 45
Estúdios Cor
Lisboa, Dezembro de 1960

A avenida e o escritor... de seu nome:

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Encontrei casualmente este texto numa colectânea da Gulbenkian que, se a memória não me falha, terei comprado há tempo considerável num alfarrabista. Há autores que, não tendo integrado os nossos clássicos em breve- opinião pessoal - deles farão parte. Pouco tenho lido do escritor em questão, mas tem-me vindo a despertar para a sua escrita. Acontece que a avenida apresentada de modo tão pessoal no excerto que irei transcrever foi também a primeira morada que tive (o hospital de Sta Maria não conta) o que terá reforçado a empatia.
Desta avenida lembro bem a infância e as correrias com o meu irmão J. - ano e meio mais novo - e sob vigilância de uma empregada (a minha mãe leccionava em Santarém e tínhamos de ficar bem entregues), na praça arborizada e com um lago. Lembro ainda o miúdo, filho da porteira, que partilhava connosco pão com cebola, isto para desespero da minha mãe dado que em casa não queríamos a comida que nos era dada com os mimos dedicados à infância mais acompanhada. No rés-do-chão que habitávamos, os vizinhos eram família. A senhora do andar de cima, a quem eu carinhosamente chamava "avó Francelina" era realmente uma avó, mesmo que o ADN o não comprovasse.
E deixando-me de divagações, pois as obrigações chamam, vou deixar-vos dois desafios:

1)- Qual a avenida retratada na imagem e na prosa do escritor?
2)- De que escritor se trata?

Acertaram a Luciana "Av. Almirante Reis" e a T. com referência 'linkada' a José Rodrigues Miguéis:)
Ponho-me a olhar a Avenida cá de cima, da minha água-furtada e meu refúgio, e digo-lhe, seu Apolinário: tudo isto levou uma grande volta. Antigamente vivia-se aqui como num céu aberto. Nem faz ideia. Onde isso vai, parece que não, os dias passam devagar, mas os anos vão-se depressa. A gente só dá por isso quando já não há remédio.
Foi nos começos da República, e eu, de calção, com os sapatos nas poças da chuva, travava os primeiros corpo a corpo com a gramática latina e o verbo Amar. A Avenida era então novinha em folha, como o regime. Começava lá em baixo, num boqueirão sinistro, um rio de lama onde às vezes havia inundações e gritos, entre ribanceiras e prédios esguios, e ia-se perder ao alto, nas quintas e azinhagas. As casas, modestas e limpinhas, tinham fachadas de azulejo de mau gosto, outras eram pintadas a cor. Havia as “terras”, lotes vagos de barro viscoso onde a gente ia “reinar”, e as carroças se atolavam até aos eixos, com muitas pragas de carroceiros. As árvores eram frágeis e verdes, de mocidade e esperança. Que sossego o desses dias agitados! Isto não era Avenida, era a Rua do Lá-Vai-Um. O mundo acabava-se ali no redondel da praça: um muro decrépito e, para além dele, era a poesia, o silêncio, o bucolismo e a Perna-de-Pau. As noites uma paz. A brisa trazia lá de cima um cheiro fresco de húmus, de estrumes, de águas e verduras. As meninas pensativas, cheias de Júlio Dinis e pescadinha frita, dedilhavam pianos langues, aguitarrados, com as janelas escancaradas, ou então escutavam pelas sacadas, em roupas leves, a voz dos Tenórios empregados em escritórios, gemendo o Fado nas ruas.

20 de fevereiro de 2009

Tesouros a cair no subway

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Segue uma pista literária marcante com os seguintes desafios:

1- Título e autoria

(a ilustração aqui apresentada é da Contexto & Imagem, na sua 50ª edição datada de 1983)

Ao longo dos passeios de Nova York, por sobre as estações e galerias do subway, abrem-se grandes respiradouros gradeados por onde cai de tudo: o sol e a chuva, o luar e a neve, luvas, lunetas e botões, papelada, chewing gum, tacões de sapatos de mulheres que ficam entalados, e até dinheiro. […]
O limpa-vias trabalhava há muitos anos no subway, sempre de olhos no chão. Uma toupeira, um rato dos canos. […] Sempre de olhos no chão, bisonho e calado, como quem nada espera do Alto, e não esperava. A vida dele vinha toda do chão imundo e viscoso.[…]
Ora à esquina de certa rua, no Uptown, há uma igreja, a de S.João Baptista, a todo o comprimento de cuja fachada barroca e cinzenta os respiradouros do subway formam uma longa plataforma de aço arrendado. Os casamentos são frequentes, ali, por ser chique a paróquia e imponente a igreja. O arroz chove às cabazadas em cima dos noivos[…]. Metade dele some-se logo pelas grelhas dos respiradouros[…]. Depois dos casamentos, o sacristão ou porteiro da igreja, de cigarro ao canto da boca, varre o arroz para dentro das grades[…] . Provavelmente é irlandês, o arroz não lhe interessa, nem se ocupa de pombos: pombos é lá com os italianos, que, apesar de se dizerem católicos, são uma espécie de pagãos.[…]
A primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a estalar-lhe debaixo das botifarras, o limpa-vias não fez caso; […]
Até que um dia, depois de olhar em roda, não andasse alguém a espiá-lo, abaixou-se, juntou os bagos com a mão, e encheu com ele os bolsos do macaco.[…]
O arroz vinha do Céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa-vias, tão pobre e calado, e mandava-lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos.[…]
O Céu do limpa-vias é a rua que os outros pisam.

(texto transcrito com supressões)

Obra: Arroz do Céu de José Rodrigues Miguéis

11 de dezembro de 2006

Vive la republique!




Começaram logo os vivas à República. A dizer a verdade, , foram eles que proclamaram a República naquela encruzilhada. Os Mitelos - faces sem cor, olhos arregalados e inteligentes- puxavam para o Dr Afonso Costa. No segundo esquerdo era-se "almeidista": o tribuno tinha tratado o sr Augusto dumas gripes e convertera o Gabriel à República erguendo-o no ar e chamando-lhe meu correligionário com a linda voz bem timbrada. Até o Sr Sotavento, leitor de A Luta, inspector de obras públicas e pai de duas meninas namoradeiras, com carinhas de bilhete postal ilustrado, e doente da bexiga (a senhora tirava-lhe as águas com uma seringa, era sabido), que perguntava por todos os lados com ar de inquietação e com os olhos cor de água parada, sempre húmidos, de lágrimas desnecessárias: " O que há? Que é que há?"- até ele respondia lá do quintal aos vivas.
Do outro lado o prédio ficou mudo: no rés do chão direito morava o capitão de infantaria que andava por fora havia dias, o tal a quem a esposa, uma oxigenada sem papas na língua, obrigava a lavar a louça: a que tinha feito calar a ópera do Gabriel.No Primeiro andar do Sr Sepulcra (mas ó criatura, quantas vezes eu lhe tenho dito que o nome dele é Sepúlveda!), aí reinava um silêncio justamente sepulcral. Em casa de Mariquitas, Marido &Filhos, ia a mudez da consternação. Ela devia ter medo de perder os empenhos e as relações da alta na Baixa.

O prédio embandeirou, mas só do lado esquerdo, numa espécie de hemiplegia republicana.Havia sempre um resto de serpentinas do Carnaval passado, e foi uma festa. Começava-se a vender na rua bandeiras, alfinetes, postais e globos de vidro coloridos com cenas e retratos dos homens do regime. Era uma Vida Nova que raiava. (...) afluíam de todos os lados os heróis de última hora: as barricadas até ali quase vazias, transbordavam de combatentes, eriçadas de armas que não tinham chegado a dar fogo. Tiravam-se grupos memoráveis, para depois se dizer: "Eu também lá estive"
A República estava de antemão solidamente implantada nas almas e nas ruas. Lisboa transfigurada!


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In "A Escola do Paraíso", José Rodrigues Miguéis
Fotos do Arquivo Municipal de Lisboa

10 de dezembro de 2006

Domingos de manhã

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"Por cima, entre os beirais, via-se uma esteira de céu azul. Em poucos minutos, pela travessa do Maldonado, estavam no Intendente. Para ele, a Baixa começava ali, o mundo real. Largou a mão do pai e desatou a correr atrás dos irmãos, que se distanciavam. O largo afunilado desdobrava-se para baixo, com prédios e palácios velhos à esquerda, novos e altos do lado oposto, e o chafariz monumental. Adiante, entre a fenda do Benformoso e a rua da Palma (lá estava a massa cinzenta e vermelha do antigo Coliseu de Lisboa) havia uns prédiozinhos de cenário, cor de rosa, com lojas e tabernas minusculas, tudo fechado.Debaixo das árvores ainda em folha a água sussurrava no bebedouro dos cavalos. Logo a seguir estava o quiosque.

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(...)
Dois saloios enchiam no chafariz as bilhas de barro vermelho, incandescentes na azulina matinal. O Pai riu-se:
- Vês, estão a encher as bilhas de água de Caneças!"

In Escola do Paraíso, José Rodrigues Migueís
Fotos do Arquivo Municipal de Lisboa

9 de dezembro de 2006

Carros, deboche e encantamentos


"O quotidiano é uma talagarça onde pouco a pouco a vida se vai bordando a personagens, incidentes,inquietações e alegrias. As tipóias sobem a rua a trote, atrás delas os garotos descalços correm esbaforidos . "Dê-me um penny! um penny!" E os câmones riem-se, corados e atiram moedinhas, gostam de ver os meninos engalfinhados a disputá-los.
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Cuidado não atravesses a rua sem olhar para os lados!Vem lá um mata-gente! Ficam a olhá-lo, assombrados: tem umas grandes lanternas amarelas, a capota presa com correias que oscilam ao ventos, a buzina é rouca. Fede que mata, enche a rua de fumarada. A gente foge mas sente-se irresistivelmente atraído. O Santiago conhece as marcas todas: Peugeot, Minerva, Panhard Levasseur, Berliet...O Automóvel é a grande novidade do dia. O dono do hotel também tem um, vimo-lo à porta, aberto e trepidante: andam sempre numa pândega rasgada: Sintra, Cascais , o Estoril, mulheres, jogo, deboche...Tem uma quinta qualquer nos arredores, que o Gabriel confunde com uma (Cardiga ou Formiga?) onde a polícia foi encontrar uma data de mulheres nuas a puxar à nora, debaixo do chicote...A conversa morre, não há maneira de se entender bem. Segredos de gente crescida. Mas as garages parecem igrejas, muito limpas, cheiram a borracha e a gasolina apetece ir para lá brincar"
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José Rodrigues Migueis, Escola do Paraíso,
Memórias do autor na época da primeira República

3 de dezembro de 2005

Saudades para a Dona Genciana



"Há daquelas mulheres que se diria terem nascido para uma existência sedentária, de intimidade e contemplação, no harém , ou na família querendo Deus. Vistas na rua, ninguém dá por elas: o andar pesado e desgracioso, as formas transbordantes, o vestido antiquado e mau gosto...são como peixes fora de água. Assim era a Dona Genciana: feita para reinar na moldura do serralho ou do lar. Visse-a você ali à janela, na bata de folhos engomados, o cabelo preto todo frisado a papelotes, cotovelos no peitoril , os seios fartos aninhados como pombos nos braços roliços - e não resistiria a admirá-la como todos nós, os do tempo. Sugeria frescuras, grandes lavagens, bochechos de água de Botot, conchegos tépidos, colchões macios , noites regaladas. Vista de perto, não era nova, nem bela, nem elegante. Tinha mesmo o nariz avermelhado e grosso. Mas os seus olhos eram negros e rasgados, a pele alva e fresca, o cabelo abundante. E tinha essa fartura de carnes que, com o ardor dos nossos olhos e as rendas e os folhos, faz o nosso encanto. "Mulher asseada! " ou "Bom colchão". Toda ela irradiava um magnetismo misterioso. absorvente , que valia por todas as belezas. Não havia homem sério, pai de família, polícia cívico ou mesmo simples guarda nocturnoque, ao vê-la não sentisse um respeito invencível, um desejo de cumprimentar, de travar conversa, de falar de coisas inofensivas e familiares, e mesmo confidenciais".

José Rodrigues Miguéis
"Leah e outras histórias"

2 de dezembro de 2005

O menino entre as mulheres.


"Em casa dele não há a atmosfera, os aromas, a leviandade, a excitação das vidas femininas galantes, amorosas: nem sensualidade nem mistério. A mãe é carinhosa e viva , mas um tanto severa e de uma puritana compostura. Aplica o pó de arroz com a borla amachucada, murcha e pouco apetitosa. O pai, risonho e branco, mas neutro e reservado, talvez tímido, usa um sabonete cheiroso e um tónico capilar contra a calvície precoce. Mas, por muito que a gente espreite ou escute, nunca nota nada de inquietante. (Só uma vez a mãe andou a perder sangue, dizia ela que era dos ouvidos e do nariz, duma gripe que teve, e ele nunca pode tirar a limpo porque é que uma das mulheres falou em desmancho, e que ter três filhos era uma bonita conta, a conta-que-Deus-fez, e tal.) Se ele faz perguntas, a mãe abre-lhe olhos feios!

Ao contrário, a casa da Miquelina é um antro de excitação, embora sem derivativos nem gratificações. Há mulheres de olhos lustrosos, cor de violeta ou pervinca, às vezes macerados, doridos com olheiras fundas, roxas; caras redondas,de boneca, epidermes alvas, rosadas e macias, com frequência pálidas (diz-se que é das noitadas), e a Sarah tem sardas, o nome sugere isso mesmo. Bocas rasgadas, de sorrisos húmidos e quentes, com dentes que brilham ; caracóis e encanudados, mãos cuidadas, rendas e pulseiras, perfumes e cremes, pós de arroz leves. Quando ali entra, envolve-o logo uma atmosfera carregada de feminilidade, uma indefenível , pesada, quase sufocante sensualidade, que o embriaga e enlanguesce..."

José Rodrigues Miguéis
" Escola do Paraíso"