
Voltei a andar de Metro ao fim de muitos anos!
Chovia muito! Fartei-me do pára arranca do carro das 18:00h, em Lisboa. Estacionei (com muita sorte, na Columbano), e entrei na primeira estação que encontrei: Palhavã ou, como agora se designa, Praça de Espanha.
Estranhei a aquisição de bilhetes, as carruagens, a designação das linhas e os seus destinos: Santa Apolónia; Cais do Sodré; Telheiras; Amadora; e outras.
Penso que dei muito nas vistas como um não habitué e, assim, foi-me tolerado os olhares mais analíticos aos outros passageiros. É muito comum sentar-me e olhar as pessoas que estão ou passam, tentando criar, através das suas características particulares, perfis de vivências para elas.
Sentei-me no primeiro banco livre e fiquei rodeado por um trio de jovens na casa dos vinte anos, talvez universitários, um rapaz e duas raparigas. O rapaz e uma das raparigas de frente para mim e a outra rapariga ao meu lado, à qual mal conseguia ver-lhe os olhos.
Trocavam entre si conversa normal, mas o curioso é que ambas as raparigas expressavam interesse pelo rapaz. As suas expressões, o seu olhar, o tom de voz, indicavam claramente que, sem disputarem entre si, pretendiam que o rapaz se apercebesse dos seus interesses por ele. O rapaz, contudo, expressava na sua expressão, olhar e gestos algum incómodo pela dupla chamada de atenção sobre si.
Uma das raparigas, a sentada à minha frente, acariciava a mão do namorado, olhando-o nos olhos, sempre que a amiga tentava conversar com ele. Este baixava os olhos, talvez para não denunciar alguma escolha tida nesse momento.
Olhei para a rapariga sentada ao meu lado e apercebi-me que, da sua expressão facial, vocal e postural, brotava o desejo de receber o carinho do namorado da sua amiga.
- Queres que te levemos a casa? Perguntou a rapariga sentada à minha frente
- Não, obrigado. Tenho de o conseguir sozinha.
- Vê lá, não nos custa nada! Insistiu a amiga, acentuando a dicção no ‘nos’.
- Não vos quero atrapalhar. Respondeu a rapariga mudando por completo o tom de voz, de inquieta para resignada.
Percorri, discretamente, com o olhar a rapariga sentada ao meu lado e conclui. É bem mais bonita que a amiga! Mas, igualmente, pude constatar que as mãos desta seguravam, dobrada, uma bengala para cegos.
Fotografia de Estúdios de Horácio Novais, sem data, Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.