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6 de abril de 2026

cardoso pires e o desaparecimento editorial dos autores clássicos

décadas após a morte de josé cardoso pires continua a ser uma das vozes mais lúcidas e rigorosas da literatura portuguesa contemporânea. 

cardoso pires tem tido, regularmente, estudos académicos,  biografias e colóquios dedicados à sua obra, sinais de reconhecimento e de respeito pela sua obra. 

mas este reconhecimento contrasta com uma evidência desconcertante: a dificuldade de encontrar os seus livros nas livrarias e nas plataformas digitais, onde quase nada do seu trabalho está disponível.


cardoso pires é autor de obras fundamentais da nossa literatura  e construiu uma uma obra cheia de lucidez e ironia, que desmonta os mecanismos do poder, da hipocrisia e da linguagem convencional. 

a sua escrita exige-nos atenção e inquietação, qualidades raras num tempo dominado pela pressa e pela distração. 

não é estranho que o mercado literário, cada vez mais moldado por lógicas de marketing e consumo rápido, tenda a esquecer autores que desafiam em vez de seduzirem.

mesmo na kobo, uma plataforma digital onde os livos não ocupam volume nem gastam activos das editoras, o cardoso pires só aparece em 2 estudos sobre a sua obra e nem um único livro seu se la encontra.


(estão a ver o meu problema em fajao, onde tenho pouquíssimos livros e quase tudo o que leio é em formato digital?)

em comparação com um seu contemporâneo, luiz pacheco, a atenção dada a este no seu centenário, que este ano também se comemora, tem sido muito mais divulgada,  não obstante a importância das obras ser de galáxias diferentes.

mas neste caso parece que a leitura rápida e as caralhadas funcionam como um bom chamariz.


o esquecimento editorial é comemorativo não apaga a vitalidade da sua obra. 

a força de cardoso pires está precisamente na capacidade de atravessar o tempo e de se renovar na leitura de cada geração. 

ele próprio parecia antecipar esta condição quando afirmou, numa entrevista:


“Os livros ficam. Morrem por dias. Depois levantam-se por épocas. Redescobrem-se. É essa consciência que vale ao escritor, para não se sentir ostracizado.”


esta frase resume o seu entendimento da literatura como uma forma de resistência à morte e ao silêncio.

cabe-nos a nós,  os que amam a sua escrita, manter vivo esse legado, garantindo que a sua obra não fique confinada às notas de rodapé ou às bibliotecas especializadas. 

redescobrir o josé cardoso pires é mais do que um ato de memória — é um dever cívico e literário.


num tempo em que o ruído tende a abafar a lucidez, relê-lo é um gesto de claridade: uma forma de reafirmar que a literatura, quando é verdadeira, não se esgota na época em que foi escrita, mas continua a interpelar as épocas seguintes. 


cardoso pires é um autor cheio de futuro

21 de janeiro de 2026

a balada da praia dos cães

volto aos 100 anos do josé cardoso pires.



a balada da praia dos cães é uma das obras mais emblemáticas do cardoso pires, inspirada num crime real ocorrido em 1960, numa vivenda de rio de mouro.

através da estrutura dum romance policial, é recriado o assassinato do capitão de cavalaria almeida santos, e um dos cérebros organizadores da revolta da sé, em 1959, para construir uma crítica profunda à sociedade portuguesa dos últimos anos da ditadura.

a história desenrola-se num portugal dominado pelo autoritarismo e pela repressão política, onde até os que se opõem ao regime trazem consigo as marcas da sua mentalidade.

cardoso pires utiliza a intriga criminal para expor a podridão moral de um país paralisado entre o poder e o medo, entre a obediência e o desejo de mudança.


o centro do romance é ocupado pelo chamado “quadrado”: o capitão de cavalaria almeida santos, a sua companheira maria josé, o aspirante-médico jean jacques e o cabo antónio gil, sendo que, no romance nao têm estes nomes, nem os postos militares:

são o major luis dantas castro, filomena ataíde, o arquitecto renato fontenova e o cabo bernardino barroca.

este grupo nasce sob o signo da resistência, homens e mulheres unidos por ideais de oposição ao regime fascista, mas dentro dele reproduzem-se as mesmas estruturas de dominação e de submissão que caracterizavam o próprio estado que pretendiam combater.


o major é a figura autoritária, orgulhosa da sua formação militar, impregnada de uma ética de comando e obediência. 


a sua companheira, mulher de familia da burguesia saudável do porto, é uma mulher dividida entre o fascínio pela autoridade e a humilhação constante.


a relação entre ambos é marcada por um patriarcalismo brutal, que transforma mena numa extensão do poder e da vontade do major.

mena, oprimida, torna-se ao mesmo tempo vítima e cúmplice, reproduzindo, nas suas atitudes em relação à namorada do arquitecto, a mesma violência simbólica e moral que sofre do capitão.

o modo como mena trata a namorada de fontenova é um dos pontos de ruptura emocional que precipita a ruptura.

a opressão que a mena sofre transforma-se em violência subsidiária, exercida sobre outra mulher, mais frágil, como reflexo do domínio do capitão. 


a cadeia de poder descendente do major para mena e desta para a outra mulher, mostra como o patriarcalismo se reproduz dentro das relações pessoais, corroendo-as.

a sua crueldade e desprezo pela jovem expõem, aos olhos do arquitecto, o caráter degradado e desumano do ambiente em que vivem.

ele percebe que, sob a capa da resistência e do idealismo, aquele grupo reproduz os valores do inimigo: a autoridade cega, a hierarquia inquestionável e a humilhação dos mais frágeis.

é este despertar moral que o leva a quebrar a “sagrada #lealdade militar e oposicionista” e a chamar para o seu lado o cabo barroca, outro subordinado humilhado à ordem do major.

a aliança entre fontenova e barroca marca a inversão total da hierarquia: os inferiores desafiam o superior, e a estrutura do poder implode a partir de dentro.

o assassinato do major não é apenas um acto de rebeldia pessoal: é o colapso simbólico de uma hierarquia construída sobre o medo e o patriarcalismo. 


cardoso pires transforma a intriga criminal numa alegoria da própria decomposição do regime e das suas formas de autoridade.


o romance mostra que o autoritarismo da ditadura não se limitava às instituições políticas, nas estendia-se à vida privada, às relações amorosas e ao inconsciente colectivo.

a relação entre o major e mena é o espelho íntimo desse poder: uma mulher reduzida à condição de posse, dominada pelo ciúme e pela culpa, e um homem que vê o amor como prolongamento da hierarquia militar. 


mesmo entre os que se dizem opositores do fascismo, sobrevive o espírito conservador, a mentalidade castrense e o código patriarcal de honra e domínio.

cardoso pires expõe, com lucidez quase cruel, que a libertação política não basta se persistirem as velhas estruturas morais. 


a tirania doméstica é a continuação simbólica da tirania política.


o gesto de fontenova e de gil, a rebelião e o assassinato, tem um peso profundamente simbólico. 


ao matarem o major, eles matam também a figura do “pai” autoritário, o chefe, o comandante, o modelo do poder que portugal cultivara durante décadas.

mas a revolta, embora libertadora, é também ambígua: ela nasce do ódio e do ressentimento, não de uma nova visão moral. 


o que se destrói é o velho mundo, mas o novo ainda não tem forma. 


é uma revolta cega, tão violenta quanto o sistema que combate.


o colapso da hierarquia é inevitável, mas a liberdade verdadeira ainda está por construir.


uma das marcas mais fortes do estilo de josé cardoso pires é o distanciamento narrativo.  


ele escreve com uma frieza quase clínica, usando uma linguagem descritiva eobjectivaa, feita de relatórios, depoimentos, notas e observações.


essa estratégia de “ver de longe para ver melhor” tem uma função ética e estética: evita a tentação da dramatização e permite ao leitor observar o comportamento humano como num espelho, despido de sentimentalismo.

o autor não julga, mostra. 


não procura o efeito emocional, mas a clareza moral. 


é um olhar de anatomista sobre a decomposição de uma sociedade, um olhar que se mantém frio precisamente para poder ver mais fundo.


na balada da praia dos cães, o crime é apenas o ponto de partida de uma análise sobre o poder, a obediência e a decadência moral de uma geração. 


o “quadrado” que se desfaz reflete a desintegração de um país fundado na autoridade e na lealdade cega.

a rebelião nascida da humilhação e do desprezo, marca o fim de um ciclo: a morte do major é a morte simbólica do velho portugal, patriarcal, autoritário e incapaz de se libertar de si próprio.

com um estilo preciso e distanciado, cardoso pires constrói não apenas um romance policial, mas uma autópsia moral do país: um retrato frio e lúcido da lenta agonia de uma sociedade que confundia poder com verdade e submissão com fidelidade.


mais haveria para falar sobre a forma como o inquérito é feito e a obsessão quase pornografica de elias santana por nena,  mas isso é outro livro, e nao é sobre a lealdade.

20 de janeiro de 2026

e agora, carlos?, ou um exercio a imitar o cardoso pires

nos 100 anos do josé cardoso pires vamos ao escritor que mais me marcou, e o unico que durante algum tempo me levou a tentar escrever "ao estilo".

muitas vezes tentei, sem êxito,  diga-se.

hoje, sem pretender escrever como o mestre, escrevo a fantasiar como se fosse ele a fumar frente ao espelho, sem os dilemas do "e agora, josé?"



fumar quatro maços por dia não é vício, é vocação. 

há padres com o terço, eu tenho o isqueiro. 

cada um com o seu ritual, a sua missa privada. a diferença é que as minhas orações fazem fumo — e não prometem salvação nenhuma, só mais um pigarro a meio da madrugada.


as beatas — vejam bem o termo — são o rasto da devoção. 

uns deixam santinhos e velas acesas; eu deixo pontas de cigarro esmagadas no cinzeiro, como quem marca presenças numa ladainha de nicotina. 

e no fim, que resta? cinza. 

sempre cinza. 

no fundo, somos todos fogos breves à espera de se apagarem sozinhos.


há dias em que me olho ao espelho e vejo-me difuso, desfocado, como se o fumo me devolvesse a imagem em segunda mão, já usada. 

um rosto de filtro gasto. 

penso: "talvez esteja a tornar-me uma beata também — não daquelas de véu e rosário, mas destas, as outras, meio consumidas, meio ainda acesas, presas entre dois dedos que tremem do café e da insónia."


o curioso — ou o trágico, conforme o dia — é que as beatas, as santas de igreja, também ardem. 

só que nelas o fogo vem de dentro. 

eu, mais modesto, contento-me com o fósforo e o gesto repetido de acender outro cigarro, esse sacramento portátil do desassossego.


e volto ao espelho. 

tento ver se ainda há qualquer coisa atrás do fumo. 

um homem, talvez. 

um resto. 

mas a imagem dissolve-se, como a última tragada — e penso que, se há um deus para estas coisas, há de estar rindo-se de mim, lá do alto, com o pulmão limpinho e o hálito a menta, enquanto eu aqui abaixo lhe devolvo incenso de tabaco e ironia.


no fim, somos todos beatas: uns rezam, outros ardem.