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28 de agosto de 2012

Os nomes das ruas de Lisboa



“A toponímia lisboeta tem atravessado fases evolutivas que marcam, evitavelmente, o espírito de cada época. No século dezasseis predominavam, na denominação dos sítios e das serventias urbanas, a visão característica dos locais, e nomes, profissões ou alcunhas dos moradores. Seguia-se o espírito tradicional do século anterior. O relevo orográfico, a configuração ou a orientação da rua, a minúcia utilitária ou decorativa, o documento vegetal orientador, a categoria, profissão, cargo, nome ou alcunha, a natureza dos pavimentos, a instituição religiosa ou civil, tudo servia de útil referência para o público. Era o Público quem baptizava e crismava as artérias e os recantos cidadãos, e, como era ele, o nome era sempre inteligente. 
Chega o século XVII. A inteligência começa a obscurecer-se. Sobre os nomes postos pelo vulgo caiu o influxo da instituição religiosa, e a corte do céu espalhou-se pelas ruas da cidade nos últimos anos da centúria, com tal impetuosidade que por pouco os roteiros se arriscam a parecer urna reedição do «Fios Sanctorum». A toponímia entra a confundir-se e os Santos Antónios e os São Franciscos proliferaram, repetindo-se em bairros afastados ou vizinhos dos templos e dos conventos que os originavam.
 Com o século XVIII o exagero cresceu, e post-terremoto, quando frades e freiras dos bairros excêntricos, compelidos pela necessidade da urbanização ou tentados pelo lucro, encararam o negócio do aforamento das cercas e terras atinentes a suas casas, eram já eles quem nomeavam as novas serventias, impondo ao povo os Santos da sua Ordem. Sucedeu isso no bairro da Lapa, com as Trinas, e na «Nova Colônia», com os Beneditinos. O povo começou a ser usurpado do seu direito secular, e para os alfacinhas começaram as grandes confusões toponímicas. 
Com o século dezanove veio a sanção municipal e a usurpação definitiva da regalia popular. O bom senso das sinonímias acabava. Começava, em contrapartida, o desconchavo, a incoerência, a falta de lógica, e, para que não dizer-se, a parvoíce da homenagem. Os cunhais decorados com um rectângulo preto, passaram a pedestais de estatuas baratas: rua do Senhor Fulano, travessa do Senhor Cicrano, largo do Senhor Beltrano. Primeiro foram os generais e os políticos, depois os conselheiros e comendadores, a seguir Ou escritores, mais adiante aos revolucionários vagos e uns, ainda mais vagos, cidadãos. Vinte por cento das pessoas ilustres que se rememoram nos cunhais da cidade, são totalmente desconhecidos da população. E chegou-se a este estado de coisas. Em vez de nomes que as distingam, as ruas têm títulos que as confundem. A função designativa perdeu-se, sacrificada a urna louvaminha sem sentido nem utilidade. O disparate está tão generalizado que até do espirito das denominações se não cuida. Um exemplo. Há duas ruas novas em Lisboa que descem do Norte para a estrada dos Prazeres. Por fundo tem o Cemitério. Formam o cenário obrigatório ciprestes, cruzes e jazigos.
 Sabe o leitor conto se chamam ? 
«Gervásio Lobato» e «André Brun», os dois grandes humoristas portugueses. Os comentários dispensam-se. Pois os velhos nomes eram evocadores; localizavam, aspectos, factos e figuras, confidenciavarn minúcias da vida urbana, sugeriam quadros perdidos, e auxiliavam a investigação. Os de hoje são abstracções sem significação, homenagens sem alicerce, feitas ao sabor da maré politica. Oedipo, feito edil, semeia charadas pela cidade, arma logros a cada esquina, «partidinhas» de bom humor feitas a posteridade. O «João Vaz» de certa rua, suporão todo que é o nosso grande pintor, o do Grupo do Leão, o apaixonado das águas tranquilas do Sado. Pois não é. O João Vaz que se comemora ali, é um mestre-de-obras, construtor ou proprietário, que ergueu o primeiro prédio da serventia. Os exemplos multiplicam-se. De outros tempos ficaram nomes de uma sugestão impressionante. Dão-lhe fisionomia, pitoresco, carácter”

Pastor de Macedo e Gustavo Matos Sequeira no  livro " A nossa Lisboa"

12 de agosto de 2012

Profissões esquecidas



"Mas o leitor sabe em que se ocupavam as cristaleiras, qual o seu mester, o seu ganha-pão? Sabe o que elas representavam no dia-a-dia da cidade, no alívio e boa disposição das famílias, na conservação da saúde pública? Ah! não sabe não! Percebemo-lo perfeitamente. O lindo nome por que eram qualificadas nada lhe diz, e se teimosamente se puser a cogitar na sua significação, ao considerar a sua musicalidade, a sua composição de jeito poético, será enganosamente levado, sem querer e sem chegar a qualquer resultado, por caminhos bem diversos daqueles que calcetados pela vil materialidade, o conduziriam prosaicamente e de metro no bolso, a alcançar a verdadeira acepção do formoso vocábulo. Cristaleiras—vamos dizê-lo sem mais aquelas — eram as mulheres que tinham por modo de vida dar os clistéis aos enfermos, ou, como hoje dizemos, dar os clisteres. Aí tem. Eram, por outras palavras, as mulherinhas que deitavam as ajudas, as mezinheiras que ainda se arrastaram até ao século passado, mas com o ofício ampliado e sem serem oficialmente reconhecidas. Que as outras, as de outros séculos, eram-no. Tinham até regimento aprovado pela Câmara, como qualquer outro ofício"

Assim explicam Pastor de Macedo e Gustavo Matos Sequeira no seu saboroso livro "Anossa Lisboa" o ofício de Cristaleiras. Não conhecia esta obra e ando sorridente a lê-la. Comprada ontem na Anchieta à Telma e ao Paulo,
E não resisto a mostrar-vos a capa do mesmo, autoria de Valença. O desenho da cristaleira esse é de Rocha Vieira.

8 de maio de 2011

A Rua dos Ferros


A Rua Nova dos Ferros
"A iluminura é linda. A parte central da página onde se começa, em gótico, o oficio dos mortos -  Incipit officium mortuor- ,  limitada por um filete que nos cantos superiores se desenvolve em arcaturas ligando com o outro filete extremo, assenta sobre a composição simbólica que desce pela margem direita, passa na parte inferior e sobe pela margem da costura, representando a quebra dos escudos pela morte de D. Manuel. Dentro da arcatura média, ao alto da página, que fica como um tímpano sobre o rectângulo de pergaminho onde os caracteres góticos se traçaram, vê-se a Morte conduzindo ao ombro um caixão sobre o qual uma tira de pano passa, voejando as pontas, uma para cada lado, para equilíbrio da composição.
A capital, delicadamente feita, deixa ver, no vazio da abertura, a cena solene da encomendação de um cadáver que repousa entre tocheiros, e ao qual o clérigo lê o ofício junto do acólito e à frente de outras figuras. Tudo isto é tocado de  uma unção e de uma delicadeza admiráveis, realçadas pela justeza decorativa das cores que fazem dessa folha de pergaminho do precioso livro uma verdadeira obra de arte.
Ao interesse artístico sobrepõe-se, porem, o possível interesse documental, porque alem da cerimónia que ali se representa, figura-se também um aspecto, o único aspecto conhecido da notável rua Nova dos Ferros, nesse tempo a melhor, a mais vasta, a mais rica, a mais comercial artéria de Lisboa, já de há muito cognominada O chiado quinhentista’.
Atente-se, pois, na página.
O que a gente vê é o seguinte:
Na margem terminal perspectiva-se o nobre arruamento afunilando se para o nascente, indo dar a um fundo de casario indicado arbitrariamente. A rua apresenta uma guarnição de prédios, todos da mesma altura, ouriçados de ventanas, torrinhas, chaminés e corucheos, sôbre telhados de grande inclinação, o que tudo lhe empresta um ar francês, denunciador do apego do artista ao estilo-padrão dos iluminadores antigos no tocante ao arranjo decorativo da composição.
Nem os prédios eram todos da mesma altura, nem os telhados podiam ser assim empenachados de tanta excrescência arquitectural. A uniformidade das janelas em renques, todas de igual formato e à mesma altura, como a directriz rectilínea da rua, são outras provas de que a pintura se fez de cor. A planta que adiante se reproduz documenta-o exuberantemente.
Os ferros que nomearam a rua Nova estão indicados mas ocupando muito maior espaço do que na realidade ocupavam.
Vendo a iluminura tem-se a impressão de que, pelo menos, dois terços do arruamento eram acompanhados, a meia largura, pela gradaria.
As edificações, do mesmo tipo das outras, que se vêem à parte esquerda esquinando para uma rua hipotética que, pela orientação, só poderia querer representar a travessa que ia dos Ourives de Oiro ao adro de S. Julião são também coroadas de dezenas de torrinhas e chaminés. Ainda se poderia supor que o aspecto da rua fosse tomado não do seu terminus poente, mas do meio dela, o que tornaria correcto o que parece excessivo no que respeita aos ferros; mas deste modo a rua que se pinta na margem esquerda ficaria sem explicação, pois na Rua de São Gião, que seria, então, a que se representa na parte inferior da iluminura, nenhuma outra se abria paralelamente à dos Ferros. Como se isto não bastasse, há ainda a ter em atenção que o préstito da “quebra dos escudos’ tinha o seu caminho natural pela rua dos Ourives do Oiro, então chamada rua Nova  de El-Rey’, que era o comum trajecto entre o chiado’ de D. Manuel e o Rossio.
Todas as casas pintadas na linda página iluminada assentam sobre esteios de pedra, mas a sua uniformidade é ainda um argumento a favor da minha conjectura de que a composição se fez de memória. Era um elemento seguro para caracterizar a rua, e foi, decerto, uma indicação facilmente sugerida ou um pormenor de mais sólida reminiscência.
A solenidade do pranto’ e a da quebra dos escudos, figuradas pelo pincel do iluminador, sofrem igualmente da preocupação artística de compor a página abstraindo de exactidões que não eram o fito que se procurava. Se a reprodução da acena fosse exacta os escudos negros que se vêem quebrados no solo, na parte inferior, deviam no estar a meio da rua Nova, onde um juiz do crime da cidade os partiu naquele dia 17 de Dezembro de 1521; e o leitor do pregão que, com a sua arenga lamentosa, havia de mover as lágrimas e a grita dos pranteadores, teria de estar a lê-lo a cavalo! Se assim fosse, poder-se-iam identificar esses vultos negros que acompanham o préstito e que depois de caminhar até o Rossio para a quebra do terceiro escudo, voltariam a Sé, por São Nicolau. Os vereadores D. Pedro de Castelo Branco e João Brandão, seriam as duas figuras que se seguem ao pregoeiro do pranto’, empunhando as varas da dignidade municipal, e o que vai a cavalo, à bastarda, sobre as  gualdrapas rastejantes de raso, levando ao ombro a haste negra donde se desenrola, até roçar pela rua, a bandeira de luto, seria o alferes da cidade Nuno Alvares Pereira. Ver-se-iam, também, no grupo dos fidalgos, capitaneando-os, o barão de Alvito e os condes de Penela e de Vila Nova; mas não se fantasie porque a composição apenas figura, ao estilo da época) uma dessas solenidades reais, com carácter indeterminado, porque outra não fosse realmente a intenção do artista ou por carência de elementos esclarecedores."



Gustavo Matos Sequeira, Tempo Passado, Editora  Portugália, 
Iluminura Dom Manuel I, Livro de Horas, Cerimónia  Quebra Escudos

9 de abril de 2011

Neptuno e Gustavo Matos Sequeira

Tenho uma profunda admiração por Gustavo Matos Sequeira, um mordaz e culto escritor de Lisboa. Este delicioso diálogo,entre ele  a estátua de Neptuno ,fez-me sorrir e ficar  presa à narrativa ágil e cheia de referências. Como  andamos esquecidos dos grandes intelectuais portugueses!  E passo a transcrever. É longo, mas vale a pena.



Ouvindo o Filho de Saturno…
Entrevista fabulosa com um Deus do Olimpo no Largo de Dona Estefânia
Por Gustavo Matos Sequeira
 Diário Popular, de 22 de Outubro de 1950

Raras vezes passo pelo Largo de Dona Estefânia. Está fora das minhas deambulações habituais. Outro dia, porém, às horas do anoitecer, cruzei-o de Nascente para Poente, embrulhado na rede das minhas costumadas meditações, agora perigosíssimas na lufa-lufa do trânsito alfacinha. Vinha a patronear comigo mesmo, sobre uma ideia em projecto, quando um “psst” intrometido me chamou a atenção. Psstt, pstt…Quem seria a chamar-me? Circunvagfuei os olhos e não topei vivalma. Só um polícia (extraordinária visão) passava apressado em direcção ao Saldanha. E o “psstt” continuava, agora mais estridente. Até que…(e o pasmo parecia que me atarrachava ao chão) dei com os olhos na estátua de Neptuno, erguida a meio do lago, e o tridente a agirar-se no ar. O “psstt” vinha exactamente daquela direcção, e um gesto de chamamento do Deus, acabou de convencer-me. Era ele quem me chamava.
Desvanecido com a confiança do Filho de Saturno ali posto há uns dias (não sei se por castigo), aproximei-me timidamente, da borda do lago e ouvi então, a sua voz, que soava como um marulho de vaga:
-Tenha paciência, acuda-me. Eu tenho passado a vida a obedecer ao “peito lusitano”, força impetuosa, “ a quem Neptuno e Marte obedeceram”, como diz Luís de Camões, mas já não posso mais. Desde o ano 31, antes de Cristo, depois da batalha naval de Actium, em que os romanos me ergueram um templo, que não me deixam ter sossego. E então, desde que os de Lisboa me tomaram à sua conta, tenho andado numa verdadeira peregrinação, com o plinto nos pés, a correr à experimenta todos os recantos da cidade. O senhor e é amigo de Lisboa e deve ser meu amigo. Eu tenho prestado muito serviço a esta velha Olisipo. Livrei-a de temporais, enchi-a de boas águas, presidi à chegada da água de Carenque, e estive nos Barbadinhos quando veio a de Alviela. Tenha pena de mim. Consiga que me deixem agora estar aqui quieto, que já não me mudem mais. Já não me chega o dinheiro para pagar tantas mudanças.
O Deus que diziam falsamente ser irmão de Júpiter (se o fosse outro galo lhe teria cantado) agitava nas mãos húmidas o tridente… lacrimejando saudoso dos golfinhos que outrora o acompanhavam. E eu retorqui-lhe:
-Prometo-lhe solenemente: Vou interessar-me pela sua sorte, magnífico Deus. Um memorial do município onde tenho amigos fiéis, resolverá possivelmente o seu caso. Hei-de conseguir que o deixem quieto de vez, em compensação, conte-me as suas andanças…
Neptuno, descansando no colo o tridente, para dar às mãos uma certa liberdade, nos gestos, espreitou em redor, viu que não andava por ali ninguém e começou:
-aqui onde me vê sou feito de mármore de Carrara,. Esculpiram-me em Itália há cento e setenta e nove anos. Há quem diga que foi Machado de Castro (conheceu-o?) quem me talhou. Vim depois para cá: a gente das águas Livres destinou-me para uma fonte que ia fazer-se no Campo de Santana, ali acima, mas a ideia não foi por diante. E eu fui de cambulhada com socos e varandas para uns armazéns da Junta das águas.
- Era para dar cavaco,- disse-lhe eu para o lisonjear.
- E dei-o. Não é nada agradável estar em companhia de pedras sem categoria. Anos depois imbicaram comigo de novo. Um famoso arquitecto que os senhores tiveram, que era de sangue húngaro, estudara também um chafariz de respeito, ali para os altos do Chiado, em frente da Travessa do Secretário de Guerra.
- É hoje a rua Nova do Trindade…
- É isso mesmo. Mas aconteceu-lhe o mesmo que à fonte do Campo de Santana. O traçado era de polpa, semelhante ao da Esperança, com uma espalda toda catita, mas a ideia foi sacrificada.
-Era caro, naturalmente…
- Caro ou barato, (olhe que o barato geralmente não presta), desistiu-se de o construir mas como a água era ali precisa, e muito, arranjaram outro, feito à pressa, , com uma varanda que se pediu ao adro do Loreto,  e duas escadas para serviço de tanque. Os galegos (nova incarnação dos meus delfins) ficaram radiantes. Eram cerca de duzentos às ordens, de um capataz, arvorado em golfinho-mor da minha corte. E digo isto, porque me puseram lá.
- Deve ter visto muito, Senhor Neptuno…
- Coisas que não pode imaginar. Foi o melhor tempo da minha vida de estátua. A animação do largo, o Entrudo e a Semana Santa, os livreiros ao redor, os centros de cavaco onde pontificavam os artistas do lírico, ali perto o picadeiro do Feiner, que deixou o nome a um larguinho, a Estanqueira do Loreto, feia como uma matrona de Épiro, os botequins políticos, as festas do embaixador Lanes, os saraus líricos do Hotel da Península, a passagem das procissões, as festas pelos anos de Dom João VI; as corretagens amorosas do Rei Wamba, sempre de olho alerta à porta dos Grezieiros, e, sobretudo, os Delfins, de barris e cordas, a que chamavam galegos, e que deixaram memórias na ilha onde está agora um poeta que ainda não percebeu que está ali. Que saudades. Aquilo é que era um poiso agradável. E via correr a água. Sim, porque agora, só vejo águas paradas e águas paradas não têm graça nenhuma.
O deus ia tão entusiasmado na sua história, que não lhe quis cortar o fio. Pingos de lágrimas orvalhavam-lhe a barba. E continuou:
- Um dia embirraram comigo. Um munícipe qualquer, que não tinha nada que fazer, passou por ali e achou que eu afrontava a nobreza do local. Veja-se a ingratidão. E em 1852 vi-me apeado e depois de várias voltas, fui parar ao Museu do Carmo.
- Sempre era uma honra e uma distinção…
Seria, mas eu tomei-o como uma afronta ao Olimpo. No Carmo vivi uns anos. Estavam lá outras figuras de pedra, como eu, O São João Nepomuceno, o São Roque, a Dona Maria I, gente boa e de tom, mas estavam longe de ser da minha estirpe. Nunca tinha ouvido falar deles no Olimpo. Desculpe esta filausia.
-Por amor dos deuses…
- O que eu passei dava para um volume de memórias. Certa manhã levaram-me para o reservatório dos Barbadinhos. Gostei. Fiquei a presidir à chegada da água nova, vi a grande festa de inauguração do Alviela, e julguei, que ingénuo fui, que ali acabaria os meus dias de estátua. Não tardou muito que me tirassem do trono e passei a andar de armazém em armazém, mudado como um traste inútil. Fazerem, de mim um traste, lá me pareceu forte demais.
- E depois?
- Depois (parece-me que foi ainda ontem) acarretaram comigo para a Praça do Chile, uma rotunda que nunca mais acaba e onde eu fiquei positivamente a nadar. Aquilo foi para me amesquinharem. Talharem-me deste tamanho e porem-me numa praça tão grande! Senti-me ridículo, mas enfim tornei a cair na ingenuidade de supor que me deixavam ali quieto.
-Começo a ter pena de si, amigo Neptuno. Tartamudeei eu, para o amparar no desgosto.
-Obrigadinho. Quis porém o malfadado destino, que viesse para cá o Fernão de Magalhães e me pregasse a partida. Parece impossível. Um homem que eu protegi tanto, quando andou com a mania de dar a volta ao mundo. Tanto temporal que lhe evitei, tanto.
- E correram-no de novo.
- Sem a menor consideração. Agora vim parar aqui, para o Largo Dona Estefânia, (sabe Júpiter por quanto tempo) outra vez no meio de um lago, sem ouvir ao menos correr um fio de água. Tenho tantas saudades dos galegos.
- Esteja sossegado, poderoso deus. Agora devem deixá-lo em paz.
-Tenho medo…
- Medo de alguma nova avenida que corte o Largo Dona Estefânia?
- Não. Medo que se lembrem de pôr aqui o senhor Dom Pedro V!
O deus tornou a colocar nas mãos o tridente, flectiu o corpo na posição primitiva e, piscando os olhos de água…despediu-me com ar conformado de quem ainda não se sente seguro no seu trono de meia dúzia de dias.

Foto de Judah Benoliel, 1950, Arquivo Municipal de Lisboa.

Nota: Esta leitura mostrou-me um erro comum na net, a data da mudança desta estátua para o local onde ainda agora  se encontra ( sorte do  Neptuno ou boa cunha de Matos Sequeira)  foi em 1950 e não em 1951, como geralmente se lê.

15 de dezembro de 2009

Ele explicava

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Um dos grandes homens que soube amar Lisboa. Reconheceis?

 pedro disse...

Gustavo de Matos Sequeira na apresentação da maqueta de Lisboa antes de 1755. Adivinhou o Pedro Ferreira.
Revista Mundo, 1958

9 de junho de 2008

Alfama: Beco do Carneiro

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O Beco do Carneiro! Quatro palmos de largo a recomendar a fila indiana. Aqui não há o conflito dos passeios e das faixas de rodagem. É apenas um corredor de passar para quem vai do Espírito Santo para o Terreiro de Santo Estevão. O terramoto de 1755, desaprumando as empenas, juntou ao alto os beirais. Por pouco o beco não ficou coberto, e a chuva vê-se aflita para entrar lá...
Que diria a gente da Regueira quando no dia seguinte deu por aquele efeito do cataclismo?

Texto de Gustavo Matos Sequeira
Fotografia de Horácio Novais

24 de maio de 2008

Alfama

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A Velha Igreja de S. Miguel, rica de talhas doiradas, de curiosas pinturas, e onde se guarda o precioso "Compromisso" da Irmandade dos Remédios de Alfama (códice iluminado do começo do século XVII), nas suas facies post-terramoto é um dos monumentos do bairro. Esquinando para a antiga calçada da Adiça, que leva as visitas aos altos do Limoeiro, e defrontando um largo pequenino centrado por uma palmeira, atrai os olhos dos que passam. Duas mulheres que conversam no primeiro plano não dão fé da graça daqueles recantos. São da freguesia, vivem lá. Mas para os forasteiros alfacinhas devoram o quadro com os olhos. O prédio reconstituído, ao fundo, embandeirado de roupa branca, com o seu ressalto típico, ajuda a dar-lhe o tempero do imprevisto

Texto de Gustavo Matos Sequeira
Fotografia de Horácio Novais
Almanaque Diário de Notícias, 1954

26 de janeiro de 2008

a liturgia do Amor freirático-2


Nas Mónicas, era a Gamarra que o Marquês de Gouveia obrigara a professar, depois de a comprar ao marido, feita pássaro de encêrro para que o ilustre Mascarenhas vivesse sossegado de ciúmes, recebendo na cela o freirático Valentim da Costa Noronha, e era outra madre que dava entrevistas ao Conde do Rio; no Convento de Santana era apanhado o dr. Luís Borges de Carvalho, corregedor do bairro do Rossio, que paga com ano e meio no Limoeiro as delícias de uma noite de claustro, era o infante D. Francisco que não satisfeito com as preferências da madre D. Mariana de Sousa frequentava outra cela onde ia devorar pastelinhos de "boca de dama" e lagostim para as suas debilidades de comilão emérito, e era a própria abadessa que fugia para a Olanda com um Capuchinho; no da Rosa era a cigana Margarida do Monte (Sóror Joana Vitória) que atraía à cela, em que se lhe mudara a alcova de mulher-dama, um fidalgo disfarçado em carvoeiro que vai a seguir parar às duras entranhas julgadoras do Desembargador Bacalhau, era a Madre Glória enganando o freirático Frei Pedro de Sá e fazendo-o "Côco de Cupido", e ainda era outra ave da mesma gaiola que ia tornando assassino o médico da clausura, surpreendido pela abadessa , emborcado no catre; eram aqui em Odivelas, quatro cónegos fidalgos da Basílica Patriarcal presos pelo Patriarca por irem rebuçados em véspera de S. Pedro (1744) cantarm loas às freiras, e era um filho do vice-rei da Índia, António de Melo, que tendo furtado uma moça de côro a levou à força para Frielas, primeiro à garupa e depois agarrada à cauda do cavalo até partir um braço; no Salvador era preso o fidalgo de Almoster D. Luís da Silveira, às 9 da noite de 26 de Maio de 1744, apanhado em flagrante delito, e por autêntica proeza ia parar à Torre de Belém o cavaleiro maltês D. Lourenço de Almeida: eram ainda o provincial de S. Francisco surpreendido a violar um mosteiro, o Conde de Valadares que se disfarçava de manto e toucas, para ir falar a uma leiga de Santa Clara, este, aquele, aqueloutro, todos enfim que assaltaram o convento do Calvário para provar a "Fritada de Amor, ou o de Santa Clara para mordiscar os biscoitos proibidos.

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Gustavo Matos Sequeira
"Relatos de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em Lisboa",
1925

25 de janeiro de 2008

A liturgia do amor freirático-1

" Odivelas foi então, nesses primeiros cinquenta anos do século XVIII, o baluarte mais firme do pequenino Deus, onde ele arrastou com arruído notório as cadeias amorosas forjadas a seu pedido pelo papá Vulcano.
Outro cenóbio, dos chamados conversativos, davam bródio de caldo amatório à revoada de frades, clérigos, burgueses, estudantes, fidalgos, bandalhos e michos que constituíam o bando freirático, esgarabulhando como nuvens de peões dançarinos nas Portarias e nas Rodas, bamboleando as perucas, sofraldando os hábitos, poetando em oiteiros, falando tiple e entoando falsete, ou derriçando em lenços de olandilha com a mão feita cabide de chapéu, mas nenhum chegou, na liturgia complicada do amor freirático, a emparelhar-se ao Mosteiro de D. Denis, cuja nomeada galante de " Labirinto dos Enganos" (onde não havia Ariadne que emprestasse um fio aos hidrópicos da paixão do Ralo) sobrepujou a de todos.

Os mosteiros da Rosa, de Santana, das Mónicas, do Salvador e do Calvário e ainda os dos arredores, de Vialonga, Castanheira e Chelas, deram que fazer às línguas maledicentes e aos quadrilheiris das corregedorias, mas a sua fama nem sequer enevooou a das bernardas ricas companheiras da Madre Paula e da Pimentinha.(...)
A vida conventual corria solta. Nesse periodo do delirio sensual do quinto João que como rei, numa corte em que todos tinham a sua freira, não podia deixar de ter duas pelo menos, os raptos, as escaladas e as violações da clausura contavam-se pelas semanas que corriam.(...)"

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"Relatos de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em Lisboa", 1925,
Gustavo Matos Sequeira

15 de janeiro de 2008

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Três rostos para quatro homens que escreveram sobre Lisboa e participaram na Exposição do Mundo Português. Da esquerda para a direita e de cima para baixo as fotografias de: José Leitão de Barros, Norberto de Araújo e Gustavo Matos Sequeira.
(Aprecio sobremaneira a pose de Leitão de Barros e a sua melena, devia ser um sedutor de primeira classe.)
A estes senhores devo muitas horas de prazer e a permanente descoberta de Lisboa.

27 de maio de 2007

Os bemcasados

" Desde tempos antigos que os mal casados abundavam na capital. Houve tempos de tanto desaforo que se tornou mister estatuírem-se penas para tão maus procedimentos.
O assento da Câmara, cujas resoluções foram confirmadas por carta do Mestre de Aviz, dada em Santarém em 3 de Novembro de 1385, arbitou graves multas contra a barriguice dos casados mui proviço e mui usado em esta cidade, dizem os munícipes.
As penalidades eram estas: para homem casado que tivesse barregã, a multa de cinquenta libras, à primeira vez; à segunda, cem libras, e à terceira, privança na administração de todos os bens. Para a mulher 28 libras de multa pela primeira infracção, e, pela segunda, degredada com pregão na cidade e têrmo"

Gustavo Matos Sequeira, Depois do Terramoto, 1934

Nunca ninguém disse que a vida era para ser justa, mas podiam disfarçar um pouco melhor..Com pregão e tudo.Pobres mulheres.

26 de maio de 2007

Os abastecimentos desviados

Sempre conheci em Lisboa, nas zonas mais pobres as chamadas puxadas de electricidade. Roubava-se e rouba-se luz à companhia, do poste mais próximo ou ao vizinho mais ingénuo. Agora é a internet sem fios que permite umas borlazitas.
No século XVII era com a água. As histórias que Matos Sequeira repescou nas demandas e litígios entre Câmaras e particulares são bem interessantes. Muito peculiar e actual a história de mestre Guilherme.

"Em 1660, António Andrade de Gamboa, dono da quinta da Horta Navia, à ribeira de Alcântara, canalizara para uma horta, parte da água da fonte que ali havia e que desde tempos imemoriais estava de posse da Câmara. Bramaram contra a extorsão os moradores do sítio. Mandou-se-lhes repor a água. O Gamboa não obedeceu, sacrificando ao bem crescer das couves o seu sossego pessoal. Exasperou-se a Cãmara e tirou-lhe a água à força.(...)
Em 1671, um tal Domingos Monteiro, distraíu para dois poços que tinha numa horta aos Anjos, a água da fonte que ali se tinha descoberto., há pouco, por sinal de grande eficácia para os achaques da pedra.(...)
Para finalizar temos em 1714, a formidanda questão da bica dos Olhos de àgua, na rua Salvador Correia de Sá (depois calçada de S. João Nepomeceno e hoje rua Caetelo Branco Saraiva) cuja água vinha do monte de santa Catarina E o caso foi este:
Morava achegado à fonte, um cirurgião inglês de nome Guilherme, que por descobrir na linfa de Santa Catarina propriedades medicinais ou por pretender fazer fortuna com elas ou ambas as coisas, a canalizou para dentro da habitação , abastecendo um grande tanque onde tomava e dava banhos,
Queixaram-se os moradores do sítio da diminuição que padecia a água, primeiro a ele, que não fez caso, depois à Câmara. Esta interveio, notificou ao cirurgião que não impedisse a água e, como ele não obedecesse, foram lá os alveneís na intenção de escangalhar aquilo tudo. Resistiu ainda o inglês não com razões, mas com toda a sorte de impropérios e insultos, e os alvaneís retiraram deixando em paz Mestre Guilherme porque o enviado especial de Inglaterra ia lá tomar banhos com ele.
A Câmara teve que engolir em seco os palavrões do cirurgião para bem da diplomacia, mas logo que S Exª deixou de mergulhar no tanque do cirurgião, mandou dar cabo dele.
Ponto Final"

Gustavo Matos Sequeira, Depois do Terramoto, 1934
(Notas: adoro a palavra formidanda e conservei a grafia Caetelo mas que penso ser gralha no nome da rua)

A galinha sem dentes

"No Livre des Ventes faites par Mr e Madame Dutoit des ouvrages de coutelarie lê-se: un instrument en acier à deus bouts pour netoyer les dents.
Seria esta peça a que o Inventário chamava pé de veado? (...)
Nos século XVI, cá em Portugal e Castela, limpavam-se os dentes com penas de galinhas, como se vê no noticioso Jorge Ferreira de Vasconcelos (Comédia Ulissipo).Fica assim prestada homenagem a esses antepassados da nossa comezinha escova de dentes"

Gustavo Matos Sequeira, Depois do Terramoto, 1934

23 de maio de 2007

O problema do fascínio pelas alturas

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Apreciei sobremaneira a história do jardim de S. Pedro de Alcântara, que se chamava inicialmente Alameda ou Horta do Corpo de Policias, devido à proximidade da Guarda Real de Policia, instalada no Palácio Ludovice em 1830. Arborizaram, fizeram uns labirintos, prantaram a estátua do Eduardo Coelho com o ardina.
O gradeamento de ferro do jardim, veio do palácio da Inquisição no Rossio.Estava boa, foi aproveitada e substituiu o parapeito de alvenaria existente. Espero que não seja a mesma ainda.
Mas o resto do gradeamento tem uma história mais macabra e interessante. Os suicidas tinham um particular gosto por se mandarem muralha abaixo naquele local e os habitantes de S. José não adoravam a ideia. Zás, vem aí corpo, afastem-se.
Continuava este vaivém, entre os protestos da população contra a imprevidência camarária (coisa do costume): entre as polémicas do que diziam que a grade tirava a

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amplitude da visrta panorâmica, outros que defendiam o encerramento da Alameda. Acabam por vedar ao público a entrada do jardim de baixo mas posteriormente a colocação duma grade nova soluciona a situação. Em 1864 estava o assunto tratado, tendo-se gasto 1626$700 reís.Deixou de existir sentinela para evitar suicídios. Deixaram de existir suicídios. Transferiram-se.
Corpos na nossa freguesia, não!
Post completamente inspirado no maravilhoso livro de Matos Sequeira que ando a ler. Imagens do Arquivo Municipal.

22 de maio de 2007

O arco do Carvalhão

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"Com este nome sonoro, Arco do Carvalhão, metia-se medo às crianças. Era uma espécie de papão nos meados do século XVIII. Di-lo o Coronel Francisco Coelho de Figueiredo.
O Carvalhão que deu nome ao arco do aqueduto e à estrada (hoje rua) que sob ele passa, é Sebastião José de Carvalho e Melo, grosso proprietário deste local.
Eram dele não só as terras que ficavam encravadas entre a Estrada de Campolide e a continuação da Rua das Amoreiras até à circunvalação, como também as que da rua do Arco descaíam para o vale de Alcantâra e as que dele ficavam para àquem."


Gustavo Matos Sequeira, Depois do Terramoto, 1934

Bucarofagia

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A ler Matos Sequeira, pois claro.
Fala-nos ele da moda elegante nos séculos 17 e 18, de comer púcaros. As damas bebiam a água e depois comiam o púcaro. Diziam que o barro fazia bem à pele. E era conhecido o Romão das Olarias , que fazia púcaros de massa muito fina como a de "bolos".
Tais foram os excessos no consumo de barro, que houve que legislar àcerca....
A quantidade estipulada era de um púcaro por dia. Dizem que fazia bem à pele, tornava-a branca. Pelo excesso às vezes as damas tornavam-se amarelas, coitadas. O barro também era utilizado como contraceptivo. No quadro das meninas de Velazquez uma das damas estende à infanta um pucarito. Não era certamente só para dar de ber à dor...

O melhor barro era o português e o mexicano, mais saborosos e mais fáceis de mastigar.
Cada época, seus costumes.

20 de maio de 2007

Depois do sismo de 1755

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"Depois de 1755 desabou sobre o Rato uma avalanche de foragidos(...)

Diz-nos o Padre Portal, abençoadamente loquaz; que aqui se armou logo um mercado de hortaliças, frutas e todos os demais comestíveis, abriram-se dois açougues, lojas numerosas de todo o género de comércio, mercadores, capelistas, ourives, tudo em tendas e barracas improvisadas, estendendo-se pela Rua da Fábrica das Sedas fora, da cerca dos jesuítas até ao Noviciado (como quem diz do Chafariz do Rato até à Faculdade de Ciências) alastrando ainda até o campo da Cotovia (praça Rio de Janeiro). Era como que uma rua de acampamento. Pela actual rua do Sol acima, o mesmo. Chamavam-lhe então "estrada do Rato para a Boa Morte".
Aí chegaram a haver barracas luxuosas. A do Marquês de Louriçal era quase um palácio. Custara,dizia-se, trinta ou quarenta mil cruzados. A do Desembargo do Paço , feita de tabique, era toda pintada com grande asseio e perfeição e a da Mesa da Consciência era vasta, fabricada com bela ideia e de muito melhor cómodo do que tinha dantes. (...)
à miséria dos primeiros dias sucedera pouco a pouco uma estranha e nova erupção de luxo."

No meio de arrumações, descobri este volume IV de Matos Sequeira, Depois do Terramoto edição de 1934, de fascinante leitura. Nunca tinha pensado muito na vida dos acampamentos em Lisboa pós sismo de 1755. Sei que El-Rei nunca mais quis morar em edifício sem ser de madeira. Os abalos sucediam-se ainda e os penitentes penitenciavam-se. Mas do caos emergia uma nova cidade e os seus contornos. O Gustava Matos Sequeira é um maravilhoso contador de Lisboa. Bem haja!

31 de dezembro de 2006

O menino Jesus das Xabreganas


"No convento de Xabregas havia uma imagem do Deus Menino, deitado nas palhas doiradas dum presépio. Chamavam-lhe as xabreganas o "Menino do Presépio". e era objecto da mais entranhada paixão por parte de toda a comunidade. As suas alfaias, os adornos do altar e as peças de roupa eram preciosas. Havia uma religiosa especialmente encarregada do enxoval e brincos da imagem e tudo isto estava devidamente inventariado. Quando acabava o período da conservadora desse curioso museu e outra entrava para o disputado lugar, passava-se recibo e por pouco não se fazia auto solene de entrega. Em face do inventário donde constam as assinaturas de doze freiras desde 1740 e tantos até 1767, a gente pasma da amorosa ingenuidade daqueles espítiritos anormalizados pela clausura. "O menino Jesus de Xabregas", além da vara de açucenas simbólica, de duas coroas e de quatro resplendores, tinha inúmeras peças preciosas, adornos e joías. O oiro, esmeraldas, os aljôfares e os esmaltes abundam(...) Aos vestidos (...) juntavam-se infantilmente uma carapuça e dois cueiros. Na roupa branca figuram barretinhos, volvidoiros, paninhos, lençõis, fronhas e um colchão; (....) O mais curioso porém, é que as alfaias e objectos do menino não ficavam por aqui. A devota imagemzinha que constantemente sorria aos olhos apaixonados das religiosas, deitada sobre o paninho da Olanda que forrava a manjedoura bíblica, tinha também brinquedos e livros, como qualquer bébé, para se distrair nas longas noites conventuais, entre vésperas e matinas. Até onde iam os cuidados e carinhos maternais das xabreganas pelo seu menino, vai ver o leitor. No inventário acham-se mencionados dois livrinhos e onze cadernos de entremezes. Isto para as suas divagações literárias. Para os seus ímpetos de creancice, para as suas folgas e suetos, tinha à sua disposição, um pandeiro, três pares de castanholas, um tambor com as respectivas vaquetas, uma cadeirinha, um carrinho , um cavalinho e, para que nada faltasse, um assobio. Em 1751, Sóror Isabel da Visitação, que era então a guarda do precioso tesoiro, talvez em compensação de ter dado, a um menino Jesus dum pobre uma opa velha, acrescentou às distracções do pequenino Deus, um livrinho de adivinhações. Nada faltava, pois, e não havia razão para que o Menino se aborrecesse. Até podia decifrar charadas..."

Relação de vários casos notáveis sucedidos em tempo na cidade de Lisboa, agora comentados e dados à luz por Gustavo Matos Sequeira, 1925

30 de dezembro de 2006

Letreiros célebre

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Gustavo Matos Sequeira explica no prefácio desta obra (1925) que o seu modelo foi o das velhas relações do século 17 e 18, que noticiavam milagres, festas, guerras, monstros e cataclismos e muitos outros acontecimentos...Ele até define assim: "quejandos assuntos com que se engravidaram milhares de folhetos cavalgados em barbantes pelos cegos, nos arcos do Rossio".
Um dos "retalhos" trata dos letreiros célebres " escritos em cima das portas das várias lojas desta capital para servirem de tabuleta e de conhecimento ao publico". São dizeres de vários séculos e baseados noutras compilações mais antigas e a prosa é a melhor companhia que existe.

Só para aguçar o apetite, alguns desses letreiros:

A taberna Social (em Santa Engrácia)
Cambista roubado( na Rua do Arsenal)
Chouriços feitos por mim e temperados por minha própria cunhada( escrito sobre um prato dos ditos numa mercearia aos Paulistas)
Casa Africana: Pelo extremo limite do barato
Real Fábrica de Botas elásticas, nela se servem ambos os sexos, e se acha a famosa invenção dos canhões postiços
Loja de boa bebida: distingue-se pelo copo e pela bebida
Biblioteca Universal de Licores (Cais do Sodré)
Aqui se administram bebidas com toda a sisudez (no Rato)
Aqui se tomam borracheiras monstras (Penha de França)
Os mandamentos desta casa são cinco: o primeiro é entrar, o segundo aviar, o terceiro pedir, o quarto pagar, e o quinto marchar( Rua da Trabuqueta)
E....