8 de maio de 2011
7 de maio de 2011
Recomenda-se
Um belo blogue: G R A F I S M O
Este blog apresenta uma recolha de apontamentos gráficos (ilustrações, capas, gravuras, apontamentos tipográficos, etiquetas...) que fazem parte dos livros e outras publicações do acervo da biblioteca da Escola Secundária Marquês de Pombal, em Lisboa (fundada em 1888, como Escola de Desenho Industrial Marquês de Pombal).
Este blog apresenta uma recolha de apontamentos gráficos (ilustrações, capas, gravuras, apontamentos tipográficos, etiquetas...) que fazem parte dos livros e outras publicações do acervo da biblioteca da Escola Secundária Marquês de Pombal, em Lisboa (fundada em 1888, como Escola de Desenho Industrial Marquês de Pombal).
Uma casa
Aqui nasceu uma poetisa e uma "alma de eleição". Porém esta casa não teve grande sorte...Reconhecem?
Histórias Famosas
Encontrei este livro por acaso, mas já conhecia a autora, Maria O Neill, avô de Alexandre O Neill. As histórias são mais para adultos do que para crianças e o livro regista a data de edição de 1918.Conta à maneira das mil e uma noites, as histórias com que um português republicano exilado enfeitiça Azé a filha do sultão. Não tem um final feliz a história, há paraísos perdidos para sempre...
"João "Soares olhou sua mulher com simpatia e beijou-a ternamente na testa. Depois, passeando a vista em roda com desconfiança, disse-lhe baixinho:
— Se nós pudéssemos recobrar a liberdade!...
Rosa pôs um dedo nós lábios e murmurou muito baixinho: —
Eu pensarei nisso.
E ajuntou quase num suspiro:
Não somos nós os únicos a desejar sair daqui.
Depois, fazendo novo gesto de silêncio, afastou-se para o fundo do aposento. Era tempo. Azé aproximava-se cantando.
Entrando na gruta, a bela bibi olhou em volta e perguntou alegremente, num português que qualquer nacional julgaria Língua estranha
—Stás ben, Jóão Sóárès?
—Muito bem, minha senhora, mas... estou triste.
Triste, porquê?
— Falta-me a minha liberdade, que acima de tudo prezo. Eu não sou ingrato, linda bibi. Vós dais-me e tratais-me com gentileza muito superior ao que eu mereço, e muito reconhecido vos sou por tantos dons; porém eu, tinha tenção, agora que estou velho, de regressar ao meu país. Sei que isso me é já permitido, e eu pensava com grande satisfação poder ainda sentar-me algumas tardes à sombra das laranjeiras floridas que ornam os antigos jardins da velha casa que herdei de meus pais.
— E é bonita a tua terra, mestre? Mais linda de que todas, poisa-se airosamente na borda do Tejo, espalhando a sua variada casaria ao longo de sete colinas formosíssimas. Dizem os antigos que o seu nome era Olíssipo, e que esta era uma palavra fenícia que queria dizer porto de cavalos; outros querem que ela seja derivada do nome de Ulysses"
Parceria António Maria Pereira, Capa de Alonso.
"João "Soares olhou sua mulher com simpatia e beijou-a ternamente na testa. Depois, passeando a vista em roda com desconfiança, disse-lhe baixinho:
— Se nós pudéssemos recobrar a liberdade!...
Rosa pôs um dedo nós lábios e murmurou muito baixinho: —
Eu pensarei nisso.
E ajuntou quase num suspiro:
Não somos nós os únicos a desejar sair daqui.
Depois, fazendo novo gesto de silêncio, afastou-se para o fundo do aposento. Era tempo. Azé aproximava-se cantando.
Entrando na gruta, a bela bibi olhou em volta e perguntou alegremente, num português que qualquer nacional julgaria Língua estranha
—Stás ben, Jóão Sóárès?
—Muito bem, minha senhora, mas... estou triste.
Triste, porquê?
— Falta-me a minha liberdade, que acima de tudo prezo. Eu não sou ingrato, linda bibi. Vós dais-me e tratais-me com gentileza muito superior ao que eu mereço, e muito reconhecido vos sou por tantos dons; porém eu, tinha tenção, agora que estou velho, de regressar ao meu país. Sei que isso me é já permitido, e eu pensava com grande satisfação poder ainda sentar-me algumas tardes à sombra das laranjeiras floridas que ornam os antigos jardins da velha casa que herdei de meus pais.
— E é bonita a tua terra, mestre? Mais linda de que todas, poisa-se airosamente na borda do Tejo, espalhando a sua variada casaria ao longo de sete colinas formosíssimas. Dizem os antigos que o seu nome era Olíssipo, e que esta era uma palavra fenícia que queria dizer porto de cavalos; outros querem que ela seja derivada do nome de Ulysses"
Parceria António Maria Pereira, Capa de Alonso.
6 de maio de 2011
esta é a primeira vez depois da última vez...
aquele senhor reformado do banco de portugal que faz a sua prova de vida no facebook saiu do centro de dia de belém para afirmar em braga que era uma coisa inédita ‘duas equipas europeias’ na final da ligas europa, que os outros países se estavam a roer de inveja e que nos íamos poder apresentar na irlanda com uma coisa em que éramos melhores que eles.
mas porque raio de razão mais abstrusa o senhor não continua a fazer a prova de vida através do facebook?
sempre evitava que o alzheimer saltasse qual clip no windows...
now, 'no one will march there at all'
em 1915, claude choules tinha 15 anos quando se alistou na marinha inglesa e foi mobilizado para a frente de batalha na primeira guerra mundial.
não esteve presente no morticínio de gallipoli de que nos fala eric blogle nem provavelmente terá andado com uma ‘matilda’ às costas na sua terra natal, mas na frente de batalha entregaram-lhe uma. de certeza.
não alimentou as centenas de milhares de mortos que a frustrada tentativa de invasão da turquia custou a todos os exércitos (mais de meio milhão de mortos), mas viu muitas outras tão iguais de tão diferentes.
mas, seguramente, assistiu na sua australia adoptiva aos desfiles ao som do oficioso hino da nação continente que imortaliza a mochila que os seus vaqueiros utilizam e sentiu que a cada ano eram menos, até que ‘someday no one will march there at all’, como escreveu eric bogle, outro australiano adoptivo.
esse dia chegou agora com a sua partida.
por quem agora tocarão os acordes de ‘waltzing matilda’?
pelos que ficam?
em memória dos que foram?
não esteve presente no morticínio de gallipoli de que nos fala eric blogle nem provavelmente terá andado com uma ‘matilda’ às costas na sua terra natal, mas na frente de batalha entregaram-lhe uma. de certeza.
não alimentou as centenas de milhares de mortos que a frustrada tentativa de invasão da turquia custou a todos os exércitos (mais de meio milhão de mortos), mas viu muitas outras tão iguais de tão diferentes.
mas, seguramente, assistiu na sua australia adoptiva aos desfiles ao som do oficioso hino da nação continente que imortaliza a mochila que os seus vaqueiros utilizam e sentiu que a cada ano eram menos, até que ‘someday no one will march there at all’, como escreveu eric bogle, outro australiano adoptivo.
esse dia chegou agora com a sua partida.
por quem agora tocarão os acordes de ‘waltzing matilda’?
pelos que ficam?
em memória dos que foram?
ou simplesmente porque sim?
Now when I was a young man, I carried me pack, and I lived the free life of a rover
From the Murray's green basin to the dusty outback, well, I waltzed my Matilda all over.
Then in 1915, my country said son, It's time you stopped rambling, there's work to be done.
So they gave me a tin hat, and they gave me a gun, and they marched me away to the war.
And the band played Waltzing Matilda, as the ship pulled away from the quay
And amidst all the cheers, the flag-waving and tears, we sailed off for Gallipoli
And how well I remember that terrible day, how our blood stained the sand and the water
And of how in that hell that they called Suvla Bay, we were butchered like lambs at the slaughter.
Johnny Turk he was waiting, he'd primed himself well. He shower'd us with bullets,
And he rained us with shell. And in five minutes flat, he'd blown us all to hell
Nearly blew us right back to Australia.
But the band played Waltzing Matilda, when we stopped to bury our slain.
We buried ours, and the Turks buried theirs, then we started all over again.
And those that were left, well we tried to survive, in that mad world of blood, death and fire
And for ten weary weeks, I kept myself alive, though around me the corpses piled higher
Then a big Turkish shell knocked me arse over head, and when I woke up in my hospital bed,
And saw what it had done, well I wished I was dead. Never knew there was worse things than dyin'.
For I'll go no more waltzing Matilda, all around the green bush far and free
To hump tent and pegs, a man needs both legs-no more waltzing Matilda for me.
So they gathered the crippled, the wounded, the maimed, and they shipped us back home to Australia.
The legless, the armless, the blind, the insane, those proud wounded heroes of Suvla
And as our ship pulled into Circular Quay, I looked at the place where me legs used to be.
And thanked Christ there was nobody waiting for me, to grieve, to mourn, and to pity.
But the band played Waltzing Matilda, as they carried us down the gangway.
But nobody cheered, they just stood and stared, then they turned all their faces away
And so now every April, I sit on me porch, and I watch the parades pass before me.
And I see my old comrades, how proudly they march, reviving old dreams of past glories
And the old men march slowly, old bones stiff and sore. They're tired old heroes from a forgotten war
And the young people ask, what are they marching for? And I ask myself the same question.
But the band plays Waltzing Matilda, and the old men still answer the call,
But as year follows year, more old men disappear. Someday no one will march there at all.
Waltzing Matilda, Waltzing Matilda, who'll come a-waltzing Matilda with me?
And their ghosts may be heard as they march by that billabong, who'll come a-waltzing Matilda with me?
Now when I was a young man, I carried me pack, and I lived the free life of a rover
From the Murray's green basin to the dusty outback, well, I waltzed my Matilda all over.
Then in 1915, my country said son, It's time you stopped rambling, there's work to be done.
So they gave me a tin hat, and they gave me a gun, and they marched me away to the war.
And the band played Waltzing Matilda, as the ship pulled away from the quay
And amidst all the cheers, the flag-waving and tears, we sailed off for Gallipoli
And how well I remember that terrible day, how our blood stained the sand and the water
And of how in that hell that they called Suvla Bay, we were butchered like lambs at the slaughter.
Johnny Turk he was waiting, he'd primed himself well. He shower'd us with bullets,
And he rained us with shell. And in five minutes flat, he'd blown us all to hell
Nearly blew us right back to Australia.
But the band played Waltzing Matilda, when we stopped to bury our slain.
We buried ours, and the Turks buried theirs, then we started all over again.
And those that were left, well we tried to survive, in that mad world of blood, death and fire
And for ten weary weeks, I kept myself alive, though around me the corpses piled higher
Then a big Turkish shell knocked me arse over head, and when I woke up in my hospital bed,
And saw what it had done, well I wished I was dead. Never knew there was worse things than dyin'.
For I'll go no more waltzing Matilda, all around the green bush far and free
To hump tent and pegs, a man needs both legs-no more waltzing Matilda for me.
So they gathered the crippled, the wounded, the maimed, and they shipped us back home to Australia.
The legless, the armless, the blind, the insane, those proud wounded heroes of Suvla
And as our ship pulled into Circular Quay, I looked at the place where me legs used to be.
And thanked Christ there was nobody waiting for me, to grieve, to mourn, and to pity.
But the band played Waltzing Matilda, as they carried us down the gangway.
But nobody cheered, they just stood and stared, then they turned all their faces away
And so now every April, I sit on me porch, and I watch the parades pass before me.
And I see my old comrades, how proudly they march, reviving old dreams of past glories
And the old men march slowly, old bones stiff and sore. They're tired old heroes from a forgotten war
And the young people ask, what are they marching for? And I ask myself the same question.
But the band plays Waltzing Matilda, and the old men still answer the call,
But as year follows year, more old men disappear. Someday no one will march there at all.
Waltzing Matilda, Waltzing Matilda, who'll come a-waltzing Matilda with me?
And their ghosts may be heard as they march by that billabong, who'll come a-waltzing Matilda with me?
Maria Keil
E este era o livro, que foi tão bem protegido, que parece novo. As ilustrações são de Maria Keil e de Luis Filipe Abreu. Em 1967 custava 17 escudos.
Leitura
Esta capa da Ambar protegia um livro de leitura da Primeira Classe de 1967. O seu dono, esse, morava no Largo Conde Ottolini.
5 de maio de 2011
Quem quer casar com a Carochinha (que é airosa e formosinha) ?
"Carochinha esperou, esperou impacientemente, bateu o seu pezito calçado com botinhas de verniz preto e, furiosa, foi a casa pronta a zangar-se com o João Ratão por a ter feito esperar tanto tempo. Chegou lá e o coração deu-lhe um baque. A panela destapada, fazia com que se espalhasse pelo ar um cheiro a toucinho e a rato cozido. Ai! O pobre João Ratão fora vítima da sua gulodice! Má hora aquela em que quisera casar com um guloso. Talvez tivesse sido mais feliz se houvesse casado com um dos primeiros pretendentes: o porco, o gato, o boi... Todos tão simples, e tão frugais que se contentavam com qualquer comida. Carochinha sentou-se num banquinho da cozinha, lavada
A vizinha do lado
A CRIADA DE CIMA E JERÓNIMO
A CRIADA DE CIMA (Varrendo e descendo):
Varre, varre, linda vassourinha...
Abana, abana, meu abanador...
Sempre, sempre em movimento (bis-) Vassourinha varre o chão... E o abano faz o vento (bis)
Para acender o fogão...
Rica vassoura, quando serás minha?
Tu queres de abano passar a varredor?
Varre, varre, linda vassourinha!
Abana, abana, meu abanador...
(durante a cantiga tem-se visto aparecer do lado inferior, Jerónimo, guarda-portão dos seus cinquenta anos e pico, cara bonacheirona, blusa de riscado e boné de pala, que vem pachorrentamente puxando o lustro ao corrimão e, de caminho, limpando. os ferros da escada. Ao ver a criada, detém-se a ouvi-la até que com um sorriso. ..)
JERÓNIMO — Ora viva a menina Joaquina!...
A CRIADA DE CIMA (parando de varrer e debruçando-se no corrimão) Viva lá, Sr. Jerónimo!...
JERÓNIMO- Está boa? Vive com gosto?
A CRIADA DE CIMA (Rindo) Eu cá vou... E vossemecê?
JERÓNIMO Não há remédio senão ir puxando pela vida... As suas patroas estão bem?
A CRIADA DE CIMA A senhora está boa….E a menina também está boa, muito agradecida. (…)
JERÓNIMO- Está boa? Vive com gosto?
A CRIADA DE CIMA (Rindo) Eu cá vou... E vossemecê?
JERÓNIMO Não há remédio senão ir puxando pela vida... As suas patroas estão bem?
A CRIADA DE CIMA A senhora está boa….E a menina também está boa, muito agradecida. (…)
4 de maio de 2011
Viajar através de artes e ofícios
Faltam muitas vezes motivos de escrita, inspiração ou ideias que nos surjam como aliciantes.
Ainda há pouco, houve na família uma jovem candidata a um concurso de escrita criativa, dinamizado por um escritor da nossa praça e comentávamos semanalmente o facto de serem os desafios mais ou menos aliciantes. Não por se aspirar, a título pessoal, à inovação, mas por dar comigo a pensar que os cronistas em jornais diários devem sentir mais do que ninguém esse dilema: sobre o que escrever hoje? O que deixar na página em branco? E ao saltarmos directamente para a página da crónica diária, facilmente concluímos ter sido mais ou menos apelativa a escolha a do dia.
Tendo acabado de abrir o jornal electrónico recebido semanalmente, os olhos prenderam-se numa lista designada por profissões antigas que, segundo a publicação, em alguns recantos do globo, teimam – ainda bem para nós e para a saúde da respectiva memória colectiva – em resistir. Do conjunto razoável, optei por duas que trazem agradáveis lembranças.
Nos idos anos 70, sendo de último grito e sobretudo em meio urbano o uso de socas – algumas perigosas e inestéticas, com plataformas a fazer inveja à própria Carmen Miranda e a conferir uma altura de fazer inveja a qualquer manequim - percorri com entusiasmo o mercado de Viana do Castelo. Detentora de um permanente fascínio por feiras e mercados – sem qualquer conotação partidária ou algum intuito para lá da mera curiosidade associado a estas pequenas peregrinações – comprei de imediato um par de bonitas socas artesanais. Sem a existência dos inúmeros sacos de plástico que hoje proliferam, transportava-as à vista, tendo ouvido o engraçado comentário, num colorido sotaque do Alto Minho «ó santinha, vai roçar mato?», na altura pensei que as modas urbanas eram injustamente incompreendidas pelas gentes nortenhas.
Quanto à segunda profissão escolhida, a de empalhador, recordo ter decidido há muito tempo recuperar o assento da cadeira de uma antiga mobília de quarto alentejana, daquelas lindíssimas, em fundo colorido e decoradas com alegres ramos de flores, herdada da minha mãe e parece que, na sua infância, prémio de um concurso do jornal «O Século». Por incrível que pareça, na área de residência não se encontrava alguém que conferisse à cadeira o aspecto de origem. Penso que pelo Alentejo ainda existirá a profissão pois, segundo parece, este tipo de mobiliário sobreviveu ao tempo e aos armazéns normalizados que nos tornam, de certo modo, um pouco clones.
Com as imagens, viajei em recordações através destes antigos ofícios que – espera-se – não venham a desaparecer em definitivo.
Imagens: L'Intern@ute Magazine
Há acordo e não há imagem de telemóvel.

Hoje, um dia depois do ‘far west’ americano, temos acordo entre o José Salgado e o Passos Catroga (desculpem-me esta dislexia mas isto no intervalo do Barcelona Madrid é mais difícil de escrever), entre o Ricardo Socrates e o Eduardo Cavaco. Bolas! Isto está mesmo mal! Estou nervoso, até pareço um Mercado Financeiro. Entre Oliveira Cavaco e Aníbal Costa. Porra! Será que é Troika dos Santos? Hoje não acerto mesmo mas lá que temos acordo, temos.
Foto tirada pelo telemóvel de Eduardo Catroga
3 de maio de 2011
Crónica do Porto
Para deixar o Porto, há vários caminhos; para entrar, um só,o rumo imposto pelo coração tranquilo e amante. Vê a gente de longe aquela mole granítica e vá de sentir um baque como quem reencontra a memória da infância; depois, mergulha nas ruas de prédios patinados por temporais de séculos, cruza olhares com gente concentrada, apetece a gentileza de um vulto feminino: aos poucos, a cidade ganha as formas pesadas de uma maternidade feita de simpatia e humaníssimo calor, oferece-se como o colo acolhedor à espera do filho algures perdido. Amamo-la com a insensatez das coisas inesperadas, ao jeito doce de quem volta de longe à quentura do lar: murmurando “bons dias!” a quem passa, sorrindo, sorrindo sempre, mesmo quando a alegria extravasada fica assobio estridente nos lábios de quem chega.
Correm os dias, e mais e mais se adensa a atmosfera de encantamento mágico. Lá para as tantas, temos um «café», amigos, obrigações, família, emprego a horas certas, entrevistas de negócios: mas a cidade permanece idêntica, dominadora, absurda e a cada vez os passos levam os olhos maravilhados por becos e calçadas, recheados de tons, que doem de sombrios e acordam uma tristeza fina e embaladora, vestida de nèvoazinha frágil e anémica. Ah, como pesam as tardes portuenses, meus amigos! E como pesa, também, a sua ausência!
Vogando no rio humano da cidade, deslizam poetas, empregadinhas em flor, brasileiros de torna-viagem, amantes de mãos dadas e silêncios enormes: vão desaguar em ruas cortadas por letreiros de «néon», em jardinzinhos ocultos, envoltos na doçura mimalha dos romances infantis, em pequenos mundos fechados com dimensões de berço. Como navios que vão para um destino certo, trocam, por vezes, cumprimentos distantes, desejam-se mutuamente “boa viagem!” em termos de um quotidiano igual a sempre, arvoram o sorriso desfraldado de quem vive, em solidão, uma aventura pessoal e possessiva.
Por mim, quando a tarde vem com seu cortejo delicado de mistérios alheios, dou-me inteiro à alegria de estar vivo e de amar: como quem tem de seu todo o tempo que queira, atardo-me nas esquinas iluminadas a ver correr o rio da cidade, mais claro e apaixonante do que esse outro por onde espraio os olhos nas manhãs de Maio azul e temporão. Escuto as conversas desligadas, deixo quebrar as mãos de encontro ao muro de sonhos, onde cada um tem uma pedra sua: “Vou ter um vestido novo, Rita — Amas-me muito? — O senhor Alves vai aumentar-me o ordenado — O Porto ainda vai ganhar o campeonato — O problema é a conta da farmácia — Se eu fosse para África.. “
E que fazer, Deus? A cidade aí está, à espera de quem saiba desvendar-lhe o segredo, rasgando largas janelas por sobre o céu estrelado: basta um pouco de amor, um pouco de sonho, um pouco de esperança. E o rumo imposto pelo coração tranquilo e amante, sereno e tutelar.
As crianças sabem o caminho. Aprendamos com elas.
Texto de Daniel Filipe, Revista Turismo, Janeiro de 1959
Correm os dias, e mais e mais se adensa a atmosfera de encantamento mágico. Lá para as tantas, temos um «café», amigos, obrigações, família, emprego a horas certas, entrevistas de negócios: mas a cidade permanece idêntica, dominadora, absurda e a cada vez os passos levam os olhos maravilhados por becos e calçadas, recheados de tons, que doem de sombrios e acordam uma tristeza fina e embaladora, vestida de nèvoazinha frágil e anémica. Ah, como pesam as tardes portuenses, meus amigos! E como pesa, também, a sua ausência!
Vogando no rio humano da cidade, deslizam poetas, empregadinhas em flor, brasileiros de torna-viagem, amantes de mãos dadas e silêncios enormes: vão desaguar em ruas cortadas por letreiros de «néon», em jardinzinhos ocultos, envoltos na doçura mimalha dos romances infantis, em pequenos mundos fechados com dimensões de berço. Como navios que vão para um destino certo, trocam, por vezes, cumprimentos distantes, desejam-se mutuamente “boa viagem!” em termos de um quotidiano igual a sempre, arvoram o sorriso desfraldado de quem vive, em solidão, uma aventura pessoal e possessiva.
Por mim, quando a tarde vem com seu cortejo delicado de mistérios alheios, dou-me inteiro à alegria de estar vivo e de amar: como quem tem de seu todo o tempo que queira, atardo-me nas esquinas iluminadas a ver correr o rio da cidade, mais claro e apaixonante do que esse outro por onde espraio os olhos nas manhãs de Maio azul e temporão. Escuto as conversas desligadas, deixo quebrar as mãos de encontro ao muro de sonhos, onde cada um tem uma pedra sua: “Vou ter um vestido novo, Rita — Amas-me muito? — O senhor Alves vai aumentar-me o ordenado — O Porto ainda vai ganhar o campeonato — O problema é a conta da farmácia — Se eu fosse para África.. “
E que fazer, Deus? A cidade aí está, à espera de quem saiba desvendar-lhe o segredo, rasgando largas janelas por sobre o céu estrelado: basta um pouco de amor, um pouco de sonho, um pouco de esperança. E o rumo imposto pelo coração tranquilo e amante, sereno e tutelar.
As crianças sabem o caminho. Aprendamos com elas.
Texto de Daniel Filipe, Revista Turismo, Janeiro de 1959
Pequeno mundo das ilusões
"Por 1$50 para os “cavalheiros” e de graça para as “damas”quando acompanhadas, Lisboa tem o seu mundo irreal um enclave na pacatez da cidade nocturna, a “féerie” que sobrevive e toda as noites se renova (ou, melhor, que todas as noites é sempre igual) fazendo os impossíveis para se manter acordada até que rompa a madrugada.
O provisório Parque Mayer ameaça tomar-se eterno. Os seus teatrinhos, as suas barracas, as suas diversões foram ali implantadas em tabique e estafe mal seguro, na espera de melhores horas ou de um desaparecimento sempre mais ou menos iminente e, no entanto, vão assistindo à passagem de Verões e de Invernos num desafio corajoso às modernizações que se vão fazendo um pouco por toda e cidade. Periodicamente, o boato renova-se: a Câmara comprou o Parque Mayer, vai deitar tudo abaixo, abrir uma avenida larga até à Politécnica... construir um arranha-céus para os seus serviços.. O alarme corre o Parque de ponta a ponta, mas a confirmação nunca mais chega".
Século Ilustrado, 1967 (sem indicações de autores)
Há sempre cartas a jogar

"Nem todos os homens merecem a mesma sepultura, essa é verdade, por muito que doa aos vivos - disse pela boca de uma das suas personagens — "Na morte não somos, não, não somos todos iguais". Ele bem o sabia, ele que também afirmava: “Há sempre cartas para jogar. Menos a da morte. Percebes?” É perante a morte que um homem se define. António Alves Redol morreu como viveu, com uma discreta grandeza.
No quarto do hospital onde se encontrava internado, desconhecendo exactamente o mal que o consumia, mas sabendo já que pouco tempo teria para viver, Alves Redol lutou sozinho. Só nas últimas noites permitiu que alguém de mais íntimo ficasse junto de si. O seu rosto vincado não fugiu à morte. Apenas julgou poder não acreditar nela.
Morreu Alves Redol, amigos. Morreu um homem. Acompanhamo-lo no seu último passeio, rio acima, marginando o Tejo que ele não voltará a ver, parando nas vilas ribeirinhas, a recolher a última homenagem da gente da beira-mar. Moscavide, Sacavém, Alhandra, Vila Franca de Xira. No pequeno cemitério do alto da colina, batida pelo vento, o seu corpo desceu à terra. Fazia sol, como sublinhou o seu companheiro poeta. Fazia sol, fazia, mas fazia também um frio terrível, que nos doeu o corpo e a alma.
Que tristeza tamanha, amigo! Funda, como o silêncio que encheu as ruas da vila, silenciosa como as lágrimas do velho campino que o conheceu rapaz e agora o viu desaparecer, lívida como os rostos das mulheres que assomavam às janela e às portas para lhe dizer o derradeiro adeus.
Gostava de lhe ter levado um cravo vermelho. Não o fiz. Por pudor, por timidez. Mas gostava, António, palavra que gostava
Maria Antónia Palla, Século Ilustrado, nº1967, Dezembro de 1969
2 de maio de 2011
1 de maio de 2011
o fascínio da imagem
Ilustração Portuguesa, 30 de Março de 1914. Um desenho de Correia Dias. Vivam os artistas portugueses!
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