20 de outubro de 2013
19 de outubro de 2013
Manuel António Pina : «Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto»
Desde o início do verão a saborear
Crónica, Saudade da Literatura, textos de imprensa do presente século, da
autoria de Manuel António Pina, editados há 5 meses pela Assírio e Alvim.
Saborear será, decerto, o verbo acertado para os pedaços de prosa legados pelo
poeta-cronista , consciente opção no intuito de o sentir mais presente em cada
dia que, com maior ou menor vagar, se sucede. Palavras que surpreendem pela
atualidade lúcida: um sentido de humor único, mesmo na abordagem a temas muito
sérios (humor, sobretudo em tempos mais árduos, equivale a inteligência). Atrai a leveza
da escrita. Do conjunto de textos, destaca-se a ênfase dada aos tempos de
crise, a denúncia da (in)cultura de muitas figuras com responsabilidades
nacionais, as considerações sobre o cinema com maiúscula (arte e não mero
fogo de artifício), as ideias sobre a beleza (ou sua ausência), sobre o sentimento de
felicidade, passando ainda pela
música, pela BD, por poetas próximos ou mais distantes, o apontar do dedo a
preconceitos, a denúncia a ideias feitas, a formatar uma realidade chata. Pina
situa-se nos antípodas do chavão, do lugar-comum. Fica a gratidão por quem nos
torna mais interessante a existência.
A preparar uma recensão sobre este
conjunto de crónicas, ficam algumas linhas soltas quando, por coincidência, se
completa um ano da sua morte.
«Tintin e os outros […] chegaram à
minha vida na infância como o Cavaleiro Andante e, como na canção de Maria
Bethânia, instalaram-se para sempre feitos posseiros dentro do meu coração. Com
eles fui à Lua e viajei por todos os
mares do mundo, subi aos Himalaias e desci aos negros porões da alma humana […]
defendi os fracos e enfrentei opressores e ricaços sem escrúpulos […] convivi
com guerrilheiros, com tiranos, com comerciantes, com sábios, com iluminados…
Se algo de essencial aprendi […] das minhas aventuras com Tintin foi o desprezo
da infâmia e a “linha clara” da coragem e da justiça.» - Manuel António Pina,
JN, 24/5/2007
O "poetinha" é 100
Short cuts vinicianas
A falta que ele nos faz
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| Vinícius de Moraes |
O melhor amigo do homem
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| A companhia permanente do melhor amigo do homem, engarrafado. |
"Se é verdade que o cachorro é o melhor amigo do homem, o Whisky é o cachorro engarrafado".
Soneto da Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
Uma tarde em Itapoã
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| Meu encontro com o poeta |
A sensibilidade na estrada
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| Anahi, Jacinta e Rubén - a emoção está nos olhares. |
Raramente um filme disse tanto com tão poucos diálogos. O silêncio é um dos elementos mais importantes em Las Acacias, esse belo e sensível filme de estreia do diretor argentino Pablo Giorgelli. A cena inicial dura dez minutos e nos apresenta o caminhoneiro Rubén, interpretado pelo excelente Germán de Silva, sem que se ouça uma palavra sequer.
Da mesma forma, conhece-se Jacinta (Hebe Duarte) e sua filha Anahi (Nayra Mamani) com a mesma surpresa que Rubén. Os três iniciam uma viagem do Paraguai até Buenos Aires, mais de 1500 quilômetros, como desconhecidos circunstanciais. 90% do filme se passam na cabine do caminhão. Nem por isso, pode-se falar em monotonia, ou enfado.
A edição é perfeita e os cortes sem rebuscamento dão ritmo ao filme, na medida certa. Pablo aposta na qualidade técnica da interpretação dos três atores para extrair a essência do que prende o espectador. Como nos filme iranianos em que se espera que algo aconteça na próxima cena, aqui também se espera soluções fáceis que expliquem o contexto da história.
Mas o roteiro foge de soluções fáceis. Perguntas como, por que a filha de Jacinta não tem pai? Por que Ruben não vê o filho a tanto tempo? Por que Jacinta chora antes de dormir? Ficam no ar e na mente de quem assiste. Ao invés disso, o diretor escolhe a sensibilidade dos olhares, a sisudez introspectiva do caminhoneiro e os gestos maravilhosos da criança para compor as personalidades de três figuras humanas fantásticas.
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| Rubén e Anahi - cumplicidade gestual |
Uma viagem entre o Paraguai e a Argentina descrita de forma magistral, digna da "Camera de Ouro"que recebeu em Cannes, como diretor revelação. Mas um exemplo da qualidade e da consistência do bom cinema argentino dos últimos anos. Uma prova irrefutável de que em matéria de cinema os hermanos vão muito além do bom Ricardo Darin. Se estiver em cartaz na sua cidade, não perca.
18 de outubro de 2013
VI .ª edição do Prémio da Academia das Ciências
O prémio , na sua sexta edição, destina-se a alunos que, no presente ano, tenham ingressado no ensino superior e tenham concluído, com mérito, o ensino secundário. Para concorrer, será necessário enviar um ensaio na área do Português – prémio Padre António Vieira; da História – prémio Alexandre Herculano ou da Matemática – prémio Pedro Nunes. Devem consultar os requisitos na Academia das Ciências de Lisboa ou através da página desta instituição. Para além de valorizar o mérito , a distinção constitui ainda um auxiliar para o prosseguimento de estudos.
17 de outubro de 2013
16 de outubro de 2013
14 de outubro de 2013
Ventania
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| Athos Bulcão e Oscar Niemeyer |
Lá por volta de 1961/62, o Brasil
experimentou um curto período de parlamentarismo. Nessa época, Oscar Niemeyer, o arquiteto que deu
origem física ao sonho de Juscelino Kubitschek, foi chamado às pressas para
construir mais um bloco de salas, colado ao prédio principal do Congresso
Nacional, área que hoje abriga a presidência da casa.
A obra era necessária para acolher as
representações dos partidos políticos. O limite do prédio original terminava na
parede oposta ao Salão Verde, área de circulação comum, em frente à entrada do
plenário da Câmara dos Deputados. Projeto feito, a parede derrubada deu lugar a
um fosso de luz e um jardim.
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| Athos Bulcão |
Para cobrir a parede do novo bloco foi
convocado, também às pressas, o artista
plástico Athos Bulcão, carioca que adotou Brasília e era considerado
um “compositor de espaços”. Por onde se anda, em Brasília, há a presença do
forte traço dele, seja nos cubos do teatro Nacional ou nos azulejos dos imensos
painéis com desenhos peculiares.
Athos fez o projeto do novo painel. Os azulejos foram produzidos e entregues para a colocação. O engenheiro responsável pela
obra cobrou um diagrama de montagem. Não havia. A solução foi voltar
a falar com ao artista, mas Athos estava na Europa. E o prazo de entrega da obra, perto do fim. Num tempo em que não havia internet ou a facilidade dos
telefones celulares, as comunicações se davam de forma mais complexa e
demorada. Foram necessários três dias até localizá-lo.
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| Painel com as pombas de Athos Bulcão |
Cobrado, ele responde: Não há diagrama.
Perplexo, do outro lado da linha, a milhas e milhas de distância, o engenheiro perguntou como fazer para montar
a peça. Athos não teve dúvidas: Pergunte aos seus operários quais entre eles
não sabem ler e entregue a estes a tarefa de montar o painel. Além disso deu
uma única orientação: Monte de tal forma que nenhum azulejo repita o modelo anterior.
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| Ventania, painel no Salão verde da Câmara dos Deputados. |
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| Detalhe do painel Ventania. |
O resultado é uma
obra que se chama “Ventania”, que dá
vida e luz ao Salão Verde do Congresso Nacional Brasileiro. Feita por um
artista excepcional e montado por operários iletrados, mas cheios de sensibilidade.
«Primária» ou um merecido prémio
Escola de 1.º ciclo, não muito longe de Lisboa. De seu nome, o de um arquiteto que deixou património (não um pardieiro impessoal, com nome de EB1). Um grupo de crianças do 4.º ano, antiga 4.ª classe, a poucos dias do final do ano. Aproximam-se os exames, até lá, a preparação rigorosa, as contas com números decimais, alguns sonhos vividos durante o recreio, nos baloiços, em jogos de ritmo e palmas, em acrobacias. «O meu defeito é ser resmungona»; «gostaria de ser ensaiador da marcha de Alcântara» - respostas lidas perante professor e colegas. Os dias passam, chega a classificação final (com a possibilidade de melhoria na 2.ª fase das provas nacionais para quem não passou). Sabem-se os resultados, quase todos concluem um ciclo de ensino. À vez, o professor anuncia a classificação final. Batem palmas, após sucessos divulgados. Um pequenito não conseguiu acompanhar os restantes, dizem-lhe os colegas «também merece palmas», um outro, de palavra eloquente, fica para aulas de reforço, a fim de repetir os exames de Português e de Matemática: uma lágrima teimosa, a correr, a força (que muitos adultos não conseguem), presente nas palavras súbitas «professor, mesmo assim, foi um prazer ter trabalhado consigo». Na sala de cinema, o público solta, em coro, uma exclamação de surpresa. Termina o documentário com uma dança na festa de final de ano, coreografia a anteceder o esperado (e merecido, atendendo ao que de espontâneo se desenrola aos nossos olhos e ouvidos) afastamento de contas, escrita, leitura: música de ritmos e percussão, malas coloridas que , em movimentos sincronizados, compõem o momento festivo. «Primária», filme de Hugo Pedro, estudante do curso de cinema, foi – esclarece o realizador – filmado sem preparação prévia, a captar instantâneos. Haverá, na curta, alguma mensagem implícita no que diz respeito aos exames? O autor explica que não, a ideia surgiu por se lembrar, com agrado, dos tempos de menino. O filme? Prémio do público e do júri, nesta 4.ª edição do "Córtex", festival de curtas-metragens que ontem terminou em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval.
Imagem: blogue da Escola Básica n.º 1 Raul Lino, “plantar aos sábados de manhã na escola”
13 de outubro de 2013
The Lady´s Realm
Gosto de imaginar a senhora que leria esta revista há 101 anos. Atenta, cuidada, culta. Assinou-a e dela assim se guarda a memória de Maria Eugénia de Lancastre.
Vida Rural
O Miguel disse-me, olha, tão bonitas. Não resistimos e comprámos. Quedei-me a olhar para esta capa.
Que mundo rural tão apetecível..
Ilustração de utoria de Mestre Figueiredo Sobral.
Que mundo rural tão apetecível..
Ilustração de utoria de Mestre Figueiredo Sobral.
12 de outubro de 2013
Leminski Assumpção Duncan
Elegância
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| Paulo Leminski, Itamar Assumpção e Zélia Duncan. A poesia e a música que os une também nos salva o dia. |
Itamar Assumpção era o que se pode chamar de um negro elegante. Brilhante. Ousado. Altivo e provocante. Deixou a faculdade para ser cantor. O mundo perdeu um contador e ganhou um artista. Itamar viveu pouco, rápido e intensamente. Morreu aos 54, esse bisneto de angolanos, que trouxe a música na alma.
Nas décadas de 70 - 80, do Século passado, liderou um movimento que ficou conhecido como "Vanguarda Paulista", junto com outros artistas que não se submetiam às regras das grandes gravadoras. Criaram um circuito alternativo do qual ele era "pule de dez".
No caminho, cruzou com outro gênio - da poesia - Paulo Leminski. Do cruzamento dos dois surgiram algumas peças memoráveis. Uma delas transcrevo agora e Itamar canta depois.
Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra
Leminski/Assumpção
Não é por ai
Itamar veio muito a Brasília. E aqui conheceu Zélia Duncan. Ele vinha pra ficar uns dias, ficava muitos. Não queria hotel, queria a casa de amigos. Demorava pra ir embora. Aproveitava a estada pra observar o céu do planalto, o horizonte e as linhas da arquitetura de Oscar Niemeyer. Invariavelmente, cantava. E cantou tanto com Zélia que ela passou a ser guardiã do seu precioso relicário musical.
Dias destes, não faz muito tempo, Zélia gravou um disco só com músicas de Itamar. Ninguém tem mais autoridade que ela pra fazer isso. Em ninguém a música dele se encaixa tão bem quanto na voz dela. Das tantas coisas lindas que ele fez Não é por ai soa como se nunca tivesse sido de outra pessoa, senão de Zélia.
Ia dizendo
Não é por aí
O caminho mais curto
Acaba logo ali,
Acaba logo ali
Acontece que algum gesto ainda não foi feito
Hei, não vá saindo assim desse jeito
Pra que pressa?
Depois dessa
Outra história,
outra transa,
outra festa
Agora é tarde
Não está mais aqui quem falhou
Agora é tarde
Ia dizendo,
não é por aí
Itamar Assumpção
11 de outubro de 2013
"Variedades"
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| "Arte Musical" (1907)- retirado da página do Museu da Música |
Em termos de instrumentos de sopro estamos mesmo aquém das antigas gerações... Mas eles mal sabiam que viria a pegar a arte da "Vuvuzela" !
João César Monteiro- um olhar em retrospectiva
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| João César Monteiro- fotografia de Patrick Messina (1996) |
A magia do cinema, para além de nos transportar para outros
tempos e lugares é a de retratar a nossa história, reavivando memórias, valores
e momentos que ali ficam eternamente guardados, à espera de ser revistos e
novamente interpretados à luz de novas gerações.
É por isso que iniciativas como o Córtex- Festival de Curtas-Metragens de Sintra devem ser apoiadas e acarinhadas, nunca deixando de
reconhecer-lhes valor.
A sessão de abertura deste festival mostrou numa
homenagem a João César Monteiro a colecção de curtas do realizador.
Para além de nos levar a um universo muito próprio cheio de
dicotomias, contradições, um tom sempre provocador e acutilante temperado de um
“non-sense” refinado; as pequenas histórias fragmentadas que nos trouxe revelam
um sentido mordaz de captar um retrato de um país e dos seus valores.
Em 1971 , o “provérbio cinematográfico”: «Quem espera por
sapatos de defunto, morre descalço» que deu nome a uma das suas curtas desse
mesmo ano, queria dizer muitas coisas que ainda hoje são de uma actualidade
desarmante.
Nunca antes tinha sido feita uma exibição das curtas do
realizador, o que por um lado me espantou; mas o que mais me entristeceu foi
saber; por uma das organizadoras desta mostra retrospectiva (Isabel Strindberg)
as condições pouco (ou mesmo nada) favoráveis em que o património
cinematográfico é arquivado e preservado. São obras históricas, que datam de
uma época e que, além de excelentes documentos de investigação fazem parte da cultura
de cada um!
É verdadeiramente lamentável a forma como as instituições
responsáveis não se preocupam com a preservação, algo prioritário e urgente
(apesar de reconhecer a ginástica financeira a que muitas delas são obrigadas
no contexto que vivemos).
Curiosamente neste encontro, tivemos ainda o prazer de ouvir
Liliana Navarro, uma italiana fascinada com o universo de João César Monteiro e
que fez a sua tese de doutoramento sobre uma das suas obras. Criou ainda uma
página onde partilha informação sobre o seu espólio, por dizer que esta estava
pouco acessível a todos.
E no fim, deixou-nos uma pequena reflexão em jeito de
brincadeira: “é preciso ser uma estrangeira a vir estudar o vosso património?”.
Cinco mulheres e seus destinos
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| Norma Bengell |
Esta semana, o Brasil perdeu uma de suas grandes atrizes. Norma Bengell se foi, aos 78 anos de idade, vítima de câncer no pulmão. Norma foi uma das divas da minha adolescência. Uma mulher à frente do seu tempo. Ganhou fama mundial pelo seu trabalho no filme "O pagador de promessas", que em 1962 venceu a Palma de Ouro, em Cannes.
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| Norma Benguell em cena de "O pagador de Promessas". |
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| Norma Bengell na primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro. |
Uma foto dessa passeata virou história e traz cinco das grandes atrizes brasileiras, que viviam o despontar de suas carreiras naquele momento.
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| Da esquerda para a direita: Tônia Carreiro, Eva Vilma, Odete Lara, Norma Benguell e Ruth Escobar, em foto histórica de junho de 1968. Jovens atrizes, grandes mulheres. |
Uma rápida pesquisa na internet me permite - a partir do fato da morte de Norma - buscar o paradeiro das suas companheiras de caminhada naquele dia histórico e, depois, por toda uma vida.
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| Tônia Carreiro |
Tônia Carreiro, por muito tempo dividiu com Fernanda Montenegro o título de grande dama do teatro Brasileiro. Tônia envelheceu com dignidade, mas preferiu a reclusão. Vive quase anônima, amparada pelo filho e por sobrinhos, no Rio de Janeiro.
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| Eva Vilma |
Eva Vilma é a mais atuante de todas. Brilhou nos palcos e no cinema, mas foi na TV Globo que consolidou seu papel de grande atriz, com interpretações marcantes em novelas que entraram para a história da tele-dramaturgia nacional. No início da carreira fez par romântico nas telas e na vida real com John Herbert. Mais tarde, casou-se com outro galã da televisão brasileira, Carlos Zara. O tempo passou e ela, ao que parece, lida muito bem com ele.
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| Odete Lara |
Odete Lara, preferiu a reclusão bem cedo. Fez mais de 30 filmes, ficou conhecida como a musa do movimento chamado "Cinema Novo", que teve em Glauber Rocha seu maior ícone. Odete tornou-se budista. Mudou-se para os Estados Unidos onde viveu por 17 anos em absoluto anonimato. Hoje, aos 84 anos, vive no Rio de Janeiro e, de vez em quando, se surpreende com a sua beleza, exibida nos canais de televisão que se especializaram em filmes antigos brasileiros.
Norma Benguell, como se disse lá em cima, morreu esta semana. Muitos amigos dizem que o que a matou não foi o câncer, foi a depressão e o isolamento. Norma, no fim da vida, não conseguiu livrar-se das acusações de ter desviado dinheiro daquela que seria a sua grande obra, a filmagem de "O Guarani".
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| Ruth Escobar |
Por fim, a quinta atriz da foto original, Ruth Escobar, é vitima do mal de Alzheimer. Vive em extrema dificuldade financeira. Seus bens, inclusive um teatro que leva o seu nome, são parte de um litígio familiar que não tem data para desenrolar-se.
Seu olhar no vazio, nem de longe lembra a ativista que tanto fez pela cultura brasileira. Não faz muito tempo, sua filha publicou um apelo dramático na internet. Um pedido de ajuda para que ela possa ter tratamento digno, assistência médica e cuidados de saúde.
Cinco mulheres. Cinco damas da cultura brasileira. Cinco destinos distintos. A beleza da juventude passou com o tempo. A dignidade da contribuição delas à cultura brasileira, isso, nem o tempo pode apagar.
Pedacinhos do dia a dia
Se eu soubesse desenhar, gostava de saber desenhar assim. Pedacinhos de realidade que nos são devolvidos pelo Alexandre Esgaio. Para quem tem facebook é procurá-lo e para quem vai a blogues,pode vir aqui.
Deixo um desenho da autoria do Alexandre Esgaio, para aguçar o apetite.
Deixo um desenho da autoria do Alexandre Esgaio, para aguçar o apetite.
9 de outubro de 2013
Os morangos de Ingmar Bergman
«O que é ser realizador?» – perguntaram a Bergman em entrevista, corria o ano de1964: «Oito horas diárias de trabalho árduo, para conseguirmos 3 minutos de filme». Mas fazer um filme é também a escrita de guiões elaborados pelo realizador, na remota ilha de Farö, na Suécia. Ao longo de décadas, a mesma rotina : depertar às 8h, escrita das 9h ao meio-dia , seguindo-se a parca refeição. «O almoço era sempre o mesmo» - lembra a diva Bibi Andresson- «uma espécie de leite azedo e compota de morango: singular mistura, a lembrar comida para bebé, à qual adicionava Corn Flakes». Após a refeição, Bergman trabalhava das 13h às 15h, para depois fazer a habitual sesta de uma hora. No final da tarde, a caminhada ou, em alternativa, o ferry para uma ilha vizinha, a fim de comprar jornais e recolher a correspondência. Ao serão lia, encontrava-se com amigos, assistia a uma longa metragem ou a uma série televisiva (era fã de Dallas). «Nunca consumi álcool ou drogas» - afirmou- «ocasionalmente, bebo um copo de vinho, o que me deixa incrivelmente feliz.»
Excerto de Daily Rituals, de Mason Currey
(fonte: The Guardian, 5/10/13, tradução informal para este blogue)
8 de outubro de 2013
Chiaroscuro
Lá fora, a escuridão. Chuvarada, relâmpagos e trovões. Um raio atinge um transformador. Um bairro inteiro sem luz. Por uns instantes, voltamos à idade das trevas. Sem luz, sem TV, sem internet, sem telefone. Só a escuridão e o pensamento.
Nessas horas, a companhia do silêncio é ensurdecedora. No escuro, pensa-se mais. No escuro, reflete-se mais. O escuro, por contraditório, é revelador. Aproveito a escuridão para ver um filme mental do meu dia. E durmo com a certeza de que tudo está mais claro que nunca.
à memória de phil chevron
philip chevron foi um dos mais criativos músicos irlandeses e um dos seus maiores conhecedores.
subvalorizado até há muito pouco tempo, mas ainda a tempo de poder participar num enorme concerto em sua homenagem por quase todos os grandes nomes da música irlandesa.
com os radiators, os pogues, com amigos de circunstância, ou na sua loja de música, philip chevron foi um exemplo de discrição (até pelo contraste de alguém que andou pelo punk e depois o fundiu com a música tradicional irlandesa).
esta noite, depois de uma prolongada doença, philip chevron morreu.
ficamos com a sua memória.
e a sua música.
phil chevron & spider tracy
Mentes criativas, rituais diários
Rotinas quotidianas de grandes vultos da Literatura: café de Balzac, madrugadas de Hemingway.
Um recente artigo do The Guardian revela rituais de personagens da História e da Literatura. Nele podemos conhecer algumas «estórias da História», tais como as seguintes:
- Hemingway levantava-se, todos os dias, às 5.30 da madrugada mesmo, quando na véspera, o consumo de álcool tinha ultrapassado os limites da sobriedade;
- Marcel Proust despertava entre as 3h e as 6h da manhã, começando o dia com uma dose de ópio para aliviar a asma, seguindo-se um croissant e uma chávena de café (que também é broncodilatador e, como tal, minimiza dificuldades respiratórias);
- Beethoven também consumia o café matinal, só que excessivamente forte : ele próprio contava 60 grãos para moagem, sendo essa a quantidade a seu gosto;
- Balzac ingeria 50 cafés diários;
- Flaubert mergulhava em banhos de imersão a elevada temperatura.
Informação detalhada em Rituais diários, mentes criativas The Guardian, 5 de outubro de 2013
Fonte: Gallimard, tradução livre para este blogue
Inextinguível
A passear pelos Prazeres, numa interessante visita guiada ligando este cemitério aos Arquitectos que com ele se cruzaram no passado, vejo esta inscrição e fico nela a pensar. Verdade, a saudade não se extingue e aprecio ver alguém recordado pela nobreza dos seus sentimentos.
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