Houve dias que o meu Pai, para matar a fome a tantos
filhos, nos levava a comer na Cantina Universitária de Lisboa. Na altura já
devíamos ser seis, agora somos nove. Comprava uma senha de jantar e, putos como
éramos, comer à vez a repetição do prato era uma delícia. Depois brincávamos
nos jardins da Cidade Universitária.
A Cantina, além de nos consolar o estômago, permitia também termos
contacto com outra maneira de ver o mundo.
Assim, um desses consolos era ir aquelas casas-de-banho
cheias de escritos e desenhos nas paredes e portas. Com a evacuação ou
micção aprendíamos muita coisa. Entre essas existe um escrito académico que se
gravou na memória.
Este é o sítio solitário
Onde a vaidade se vai!
Aqui todo o cobarde faz força
E todo o valente se caga!
foto de Artur Goulart; AML
8 comentários:
Também lá comi variadas vezes.
O poema é potente! Acho que nunca o li em nenhuma porta das casas-de-banho da cantina, mas ele está um pouco por todo lado...
Em relação à foto, as árvores em frente à cantina eram maiores do que as que eu vi por lá no tempo em que lá estudei (entrei na viragem do milénio!!). É vergonhoso, não?!?
E isso de entrarem crianças na cantina... é porque não tinha um porteiro frustrado à porta a pedir o cartão da faculdade a tudo e todos, nem que fosse para ir aos serviços sociais... (outra boa memória do tempo de estudante!!)
Este é um lugar solitário
Onde toda a vaidade se acaba!
Todo o cobarde faz força
E todo o valente se caga!
É a versão correta até para rimar o "acaba" com o "caga". Agora já não se vê muito para era comum esta frase.
Outra frase comum, era mas na porta de entrada:
«Em caso de incêndio, ler instruções atrás da porta»
Logo o pessoal era induzido a ler o que por lá estaria e levava com um:
«Só em caso de incêndio seu filho da p...»
Abraços!
Das pérolas literárias nas paredes das casas de banho da cantina, não tenho memória - em 4 anos de letras, só lá terei entrado meia dúzia de vezes : deslocávamo-nos até à cantina mais distante, a de farmácia, pois as refeições eram melhores.
Quanto a versos nas casas de banho de letras (e aí existiam em profusão), lamento não os ter copiado, hoje seriam um marco dos anos 70, ou não fosse uma casa de gente que gostava de versejar...
Neste lugar solitário
Onde a vaidade se apaga
Todo o cobarde faz força
Todo o valente se caga
;)
Mário e Almariada, obrigado ela vossa correcção métrica.Deve ser de facto uma das vossas versões, mas inclino-me mais para a do Mário Lima ou:
Neste lugar solitário
Onde a vaidade se acaba!
Todo o cobarde faz força
E todo o valente se caga!
Se calhar vai voltar a ser usada a cantina nesta perspectiva familiar...
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