21 de dezembro de 2011

Felicidade


Apesar dos trinta anos, Berta Young tinha ainda momentos como aquele, em que desejava correr em vez de caminhar, dar passos de dança de um lado ao outro da calçada, fazer girar um arco, atirar qualquer coisa ao ar e apanhá-la de novo, ou então ficar parada e a rir de... nada... nada, simplesmente a rir. Que se pode fazer quando se tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da nossa própria rua, somos invadidos sabitamente por uma sensação de felicidade—felicidade absoluta! — como se tivéssemos engolido de repente um rútilo pedaço deste sol da tardinha e ele nos estivesse a arder no peito, a despedir um chuveiro de minúsculas faíscas em todas as partículas do nosso ser, até nos dedos das mãos e dos pés ?... Oh! Não haverá um meio de exprimir essa sensação sem falar em «embriaguez e desordem»? Como a civilização é idiota! De que nos serve ter um corpo, se somos obrigados a guardá-lo fechado num estojo como um violino raro, muito raro?
Katherine Mansfield, Felicidade, Colecção Miniatura, Livros do Brasil.
Ilustração de Bernardo Marques

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