19 de novembro de 2009

COISAS DO SÓTÃO

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Algures em “A Queda”, Albert Camus escreve que quando formos todos culpados, será a democracia.
O Carlos, a propósito dos exageros jornalísticos que rodearam o jogo entre a Bósnia e Portugal, lembrou aqui, um caso ocorrido em 1965. Após o jogo Benfica-Real Madrid, o “Mundo Desportivo” titulava a toda a largura da 1ª página: “O “Vale dos Caídos” mudou-se para Lisboa.”
Lido, hoje, o título revela mau gosto, comparação abusiva e sem necessidade, mas não anda muito longe das águas de esgoto aberto em que o jornalismo português se banha.
Mas naquele tempo Portugal e Espanha viviam em ditadura. E, em Portugal, a leitura desse título teve leituras várias, dependendo dos olhos que o leram. Ainda recorda a satisfação do avô, benfiquista e republicano histórico”, a entrar em casa com os olhos brilhantes de satisfação. E motivo não era apenas a vitória do clube…
A crónica do jogo abria assim:
“Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do futebol sobre o do Real Madrid.”
Mas o que fez explodir Franco foi o título, ao fazer a associação com o monumento que, nos arredores, de Madrid glorificava os mortos franquistas da Guerra Civil Espanhola, os nossos vizinhos entenderam que se tinha ido longe demais. Recorde-se que o monumento apenas pretende recordar ima parte dos espanhóis mortos na Guerra Civil...
Protesto veemente e Salazar teve que encontrar, em nome da defesa da boa harmonia entre as duas ditaduras, uma reparação. Num ápice despediram o jornalista José Valente e o “Mundo Desportivo”só reapareceu ao público oito dias depois, falhando duas edições. Naquele tempo os jornais desportivos eram trissemanários.
No dia 5 de Março, quando o jornal voltou a ser publicado, lia-se na 1ª página:
“A Empresa Nacional de Publicidade e o director do “Mundo Desportivo” lamentam e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que muito feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica, chefe de redacção do “Mundo Desportivo”, único e total responsável pelo escrito que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria.”
Deste modo, a paz podre da união Ibérica podia prosseguir os seus caminhos. Pelo lado que nos toca, esse caminho foi interrompido no dia 25 de Abril de 1974.
O relembrar desta história trouxe-lhe à memória, não tendo nada a ver com este episódio, um título de Carlos Pinhão publicado em “A Bola” e que provocou uma agitada polémica: “O jornalismo desportivo é o melhor
Jornalismo desportivo”.
Terá que dar uma volta pelo sótão, tentar encontrar esse recorte e trazê-lo até aqui.

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Nota do editor: elementos recolhidos numa evocação feita pelo “Diário Popular” por ocasião dos 20 anos do 25 de Abril.
Ainda um pequeno “fait-divers”: Sabem quem era o guarda-redes suplente do Real Madrid nesse jogo com o Benfica? Júlio Iglesias! Esse mesmo, o cantante-machucador-de-corações…

5 comentários:

carlos disse...

lembro-me bem desses dias e de como o mundo desportivo foi guardado por muita gente e como isso era uma espécie de título glorioso contra os fascistas.
o que me veio à memória agora para exemplo foi mesmo pela nossa tradicional parcialidade e exagero (não sou só eu a ser muito exagerado...) quando achamos que 60 000 sempre a gritar por nós são um exemplo de desportivismo e 20 000 a gritar pelos outros é um sinal de barbárie...
quanto ao 'desportivo' era o jornal que os clientes do restaurante onde trabalhava tinham direito a ler, juntamente com o século e o lisboa. o que significa que naquela casa se comprava o jornal menos lido em cada especialidade, já que pela tiragem se escolheria, ao tempo, o nótícias, a bola e o popular.

Anónimo disse...

Os tascos do Bairro Alto, os velhos tascos. Que voz tem a ternura de tudo isso? Uma nostalgia mansa que acaba quase em angústia. Curiosamente nunca passou por nenhum tasco que tivesse jornal à disposição dos clientes. Cafés sim, mas tascos não, dái saber que nunca entrou naquele em que trabalhaste. Andava com uam tropa fandanga que só o empurrava para o "Alfaia", para o "Tagarro" - as melhores pataniscas de Lisboa dizia o Colaço - o 1º de Maio. Depois foi trabalahar para o Cais do Sodré e deixou de subir a colina com frequência...
Andou pelo sótão à procura do artigo do Carlos Pinhão mas - ainda - não o encontrou. Outras coisas lhe apareceram: bilhetes de eléctrico, mais postais velhos, um anúncio da Amália ao Lux, tudo menos o raio do artigo.
Mas vai continuar em trabalhos de pesquisa...

Anónimo disse...

eu trabalhei num restaurante e não num tasco.tinha o nome de 'cava do viriato' e era conhecido apenas pelo 'viriato'.
o nome vinha aproveitado do sócio do meu pai.

Anónimo disse...

Tascos no sentido nobre do termo, carissimo Carlos. Poderia ter logo colocado entre parentesis mas não lhe ocorreu. E confirma: nunca entrou na "Cava do Viriato"... lamentavelmente...

Anónimo disse...

a rectificação não teve a ver com a defesa da honra...
foi apenas por causa da mensão à existência de jornais para ler.
de facto, a 'casa dos carapaus', ali na rua da atalaia, bem em frente á dega do baptista (hoje um famoso restaurante), não tinha jornais.
como não tinha o porta larga, onde esbarrava a travessa da queimada, ou a tasca da esquina da rua da rosa com o poço da cidade, ou uma interminável lista de honoráveis tascos do bairro