20 de outubro de 2009

Prosa para um dia de chuva

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(foto: www.almadeviajante.com)

Evocando o professor Manuel Ferreira:

Nha Venância era mulher de sua poesia. Não as fazia, mas gostava de ouvi-las. E de as ler também. Soares dos Passos, Junqueiro, Castro Alves, Manuel Bandeira compunham a sua estante. Gosto que lhe vinha dos tempos da sua meninice, do Galeijão, lá na ilha de São Nicolau, quando visitava com a avó a casa de João Lopes. Desde Camões a Cesário Verde, em longos serões ali se faziam leituras colectivas, com cuscuz, papa de leite, mel e café. Aos recitais dos rapazes do liceu nunca faltava. Jacinto Moreno, lá de tempos a tempos, trazia-lhe uma poesia nova. Nha Venância não hesitava em fazer-lhe a crítica.
«Menino, essa coisa não está direita.»
E quando ela dizia essa coisa não está direita, Jacinto Moreno ia para casa mastigar a poesia e não poucas vezes verificava que o poema não estava realmente direito.
«Nha Venância, bô crê ouvi um poeminha?»
«Mas poema direito, bô ouvi?», e riu agradada como ainda não tinha rido naquele dia.
Caminho longe…
Caminho obrigado
caminho trilhado
nos traços da fome
caminho sem nome
caminho de mar
um violão a chorar
Caminho traidor

«Caminho traidor, sim senhor. Gente espera uma coisa e São Tomé dá outra. Ou não. Traidor porque rouba filho da nossa terra. Isso mesmo, moço.» (…)
«Moço, direito mesmo. Caminho longe que não resolve nada. O que resolve é chuva. É cachupa. Se chuva vem, pronto. Se chuva não vem, nossa gente morre de fome. É verdade, nossa vida está na balança. Nosso mal é sermos ilhas.»
«Ilhas de abordagem, nha Venância.»
«Falta é trabalho. O capital é bem. Dê-se-lhe um traço de terra e não precisamos nem de São Tomé, nem de Angola.»
«Mas gostou do poeminha, nha Venância?»
«Moço, poema direito, é deveras.»

Manuel Ferreira, Hora di Bai

2 comentários:

erre disse...

Esta foto fez-me lembrar: Sal :D

teresa disse...

... mas posso quase garantir que se trata de Santiago (apesar da prosa remeter para São Nicolau):)