19 de outubro de 2009

Contrato de professoras, 1923, Castilla-La Mancha

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Atendendo à reduzida legibilidade da imagem, apresenta-se a tradução do texto deste contrato entre o Estado e as professoras do Ensino Primário cuja data e área geográfica figura no título deste post:

Trata-se de um acordo entre a menina …. pofessora, e o Conselho de Educação da Escola …. pelo qual a menina …. concorda em dar cumprimento às aulas por um período de oito meses a partir de ….. de Setembro de 1923. O Conselho de Educação concorda em pagar à menina …. a quantia mensal de…

A menina… aceita o seguinte acordo:

1.Não se casar. O presente contrato fica automaticamente anulado e sem efeito se a professora casa.
2.Não andar em companhia de homens.
3.Permanecer em casa entre as 8.00 da tarde e as 6.00 da manhã , a menos que se trate do estrito cumprimento de actividades escolares.
4.Não frequentar geladarias do centro da localidade.
5.Não deixar a localidade sob qualquer pretexto sem o consentimento do presidente do Conselho de Delegados.
6.Não fumar. Este contrato fica automaticamente anulado e sem efeito se a professora for vista a fumar.
7.Não beber cerveja, vinho ou whisky. O contrato fica automaticamente anulado e sem efeito se for vista a professora a beber cerveja, vinho ou whisky.
8.Não viajar de automóvel com homens, com excepção para irmãos ou pai.
9.Não vestir roupas de cores garridas.
10.Não andar sem chapéu.
11.Usar pelo menos dois saiotes.
12.Não usar vestidos que fiquem a mais de cinco centímetros acima dos tornozelos.
13.Manter limpa a sala de aulas.
a)Varrer pelo menos uma vez por dia.
b)Esfregar o chão da sala pelo menos uma vez por semana com água quente.
c)Limpar o quadro pelo menos uma vez por dia.
d)Acender a lareira às 7.00 de modo a que as instalações se encontrem aquecidas às 8.00 quando chegarem os alunos.
14. Não usar pó-de-arroz, maquilhagem e não pintar os lábios.

13 comentários:

almariada disse...

sem comentários... ;)

teresa disse...

Eu faria 2, um sério e o outro nem tanto:

1- há tempos a T ofereceu-me um estudo 'estadonovense' relacionado com a questão 'deverá a mulher casada exercer uma profissão?' e lembrei-me logo deste contrato que hoje, casualmente e a arrumar documentos, encontrei;

2- tentando 'aligeirar' a questão (que não é de modo algum para isso), dei comigo a pensar: 'se isto se passasse, por exemplo, em Cascais em épocas mais recentes, teria de me camuflar para ir ao Santini':D

Anónimo disse...

Uma verdadeira Jane Eyre! Dura, a vida dessas mulheres corajosas. Vinte anos depois, em Lisboa, podia ser o retrato da mestra da minha mãe - solteira, de uma frugalidade espartana (almoçava invariavelmente meio bife grelhado, um ovo cozido e nozes) e de um rigor irrepreensível no trajo. A primeira a entrar e a última a sair. Suponho que ao traçarem um tão rígido perfil às candidatas pretendessem incentivar, por linhas mais direitas que tortas, o casamento e a natalidade. Deus nos livre das mulheres independentes, essa aberração!
Cumprimentos,
Carla Jané

teresa disse...

Carla Jané,

Há meses assisti à defesa de tese de doutoramento de um senhor - pai de uma amiga - de idade próxima à da minha mãe, o que me tocou pela vitalidade evidenciada(a atitude, comum em diversos países, é conhecida como LLL 'lifelong learning').

Professor primário durante uma vida, o seu trabalho académico versava sobre as atribuições das professoras deste nível de ensino em pequenas localidades exaltando, entre outros aspectos, o precioso auxílio às mães dos alunos que se encontravam grávidas e nunca tinham recorrido a acompanhamento médico ou os préstimos na redacção de correspondência para os aldeãos afastados da terra natal por motivos vários.

Apesar da inegável importância dos mestres-escola, há que convir que esta ideia de 'sacerdócio' presente no documento daria uma longa discussão e toca em aspectos muito controversos.

Anónimo disse...

É verdade, Teresa.
Um abraço,

Carla

almariada disse...

para ler o original:

http://www.notariosyregistradores.com/SONRISA/VARIOS/contratodemaestras.pdf

(o artigo 10 é sobre não pintar o cabelo)

e para ter uma ideia de há quanto tempo anda na net e que tipo de comentários pode suscitar ver por exemplo:

http://lanaranjadelazahar.blogspot.com/2006/05/contrato-de-maestras-en-1923.html

permitam-me, pois, algum cepticismo...

teresa disse...

Efectivamente já tinha recebido este texto há cerca de 2 anos, grata pela referência, almariada, vou espreitar... e mesmo antes de o fazer, há que acrescentar o seguinte: o cepticismo é sempre uma atitude importante antes de uma melhor averiguação dos factos, penso eu 'de que':)

teresa disse...

Adenda: tenho o Michael Apple como fonte credível (tanto eu quanto uma comunidade de 'carolas' que se interessam por estas coisas das Ciências da Educação), mas isto é uma opinião como qualquer outra...

Luísa disse...

Havia de ser giro comigoo... apesar de não ser casad, não ligar a maquilhagem, tenho mais amigos homens que mulheres e adoro sair à noite...
Tenho uma dúvida: como é que eles sabiam, que as "professoras-meninas" traziam dois saiotes?

teresa disse...

... penso que bastava entrar na escola todos os dias às 7h para automaticamente se extinguirem as saídas à noite, Luísa.

Quanto à última pergunta - não sei a resposta para ela - mas fez-me sorrir:D

almariada disse...

bom para professoras e inspectoras lésbicas... ;)

almariada disse...

Teresa, resta saber se realmente a fonte é Michael Apple... permito-me duvidar...

teresa disse...

... o penúltimo comentário remeteu-me para uma T-shirt que vi, há dias, num turista americano (e não era das do 'cão azul' do Markl) e passo a citar os dizeres que li:
'FBI: female body inspector', talvez ainda fosse deste tempo...

... quanto ao último e estabelecendo ligação ao Michael Apple, o primeiro link remete para um estudo por ele publicado, daí eu lhe ter feito referência e, a ser verdade, o documento terá muitas possibilidades (eu diria todas) de ser legítimo.