24 de setembro de 2008

Navios, mastros nus, destinos ao abandono




Navios parados...Mastros esguios, como lanças, despidos da roupagem das velas, pontos de admiração fantásticos, abrindo a sua surpresa ante miséria, ante a ambição, ante a luta vigente por essa terra fumegante, que crepita incêndios e dor...
Navios parados, na tranquilidade calma da baía: o espelho das águas retrata-vos na trémula miragem, toda a ânsia de fuga, toda a sede indomável da solidão, a saudade do oceano, o amor das águas infinitas, en cuja superfície santíssimo Deus, se balouçam os vossos arcabouços, navios que eu estou a ver parados e tristes, e os arcabouços dos tripulantes, felizes na incerteza, amantes das ilusões no horizonte, apaixonados da dúvida cinzenta das tempestades. Navios, mastros nus, destinos ao abandono. Vós tereis amanhã - oh quem vos seguira! - o firmamento enorme para realizardes o vosso sonho, lendo nas estrelas, ou o seio do Oceano inteiro para vos aquietardes, abençoando a morte...


Norberto de Araújo, Miniaturas, 1920, Livraria Aillaud e Bertrand

E porque Norberto de Araújo não se reduz às Peregrinações, este é um livro belíssimo embora completamente esquecido. As magníficas miniaturas, incluem desenhos e aguarelas dos melhores artistas portugueses da época.
Quem o reedita?

9 comentários:

Bic Laranja disse...

Demasiado ocupadas - as editoras -a enfardar o novo: ambiental, sustentável, laite (que é como certos peneirentos pronunciam leite)...
Cumpts.

T disse...

Conhece a Frenesi? É uma óptima e pequena editora.

gin-tonic disse...

Lembra-se de um verso, num poema de António Reis, “há sempre um rapaz triste em frente a um barco”.

Gosta de começos de livros e agrada-lhe muito o de “ O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago, quando o autor revela que o “Highland Brigade”, vapor inglês da Mala Real que atravessava o Atlântico entre Londres e Buenos Aires, chegou por uma tarde chuvosa ao cais de Alcantara e dele desembarcou Ricardo Reis.

Ocorre-lhe a engraçada a história de Jorge Lima Barreto a explicar, no primeiro disco de Eugénia Melo e Castro, que lhe tinha sugerido o nome artístico de Eugénia C, porque se lembrava de um elegante paquete, que andava entre Lisboa e o Rio de Janeiro.

Gosta de ver, do alto das Janelas Verdes, os paquetes ancorados no cais de Alcantara e, não sabe bem porquê, cada vez que os olha, fica a trautear a “Annie Song”, do John Denver, “enches os meus sentidos como uma noite na floresta, como as montanhas na primavera, como um passeio à chuva, como uma tempestade no deserto, como o azul oceano adormecido” e pensa que talvez um dia ainda há-de viajar num paquete.

Mas gosta de barcos, essencialmente, por causa de uma velha canção de Burt Bacharach, “Trains, Boats and Planes”, ouvida em tempos remotos, interpretada pelos Association, pelo que também gosta de comboios e aviões, mas guardará isso para falar numa outra ocasião.

T disse...

Caro ou cara gin quer escrever connosco aqui no Dias? Ou é abuso?
Os seus comentários deviam ser posts. Aceita?

Engraçado como eu me lembrava dessa canção do Denver.E não sabia.Obrigada.

gin-tonic disse...

Fiquei comovido com o seu convite. Mentiria se não o dissesse.
Ando nisto da blogsfera há muito pouco tempo. Nos intervalos de ler, ouvir música ou qualquer outra coisa, ando por aí a ler “blogs”. Sempre que tenho qualquer coisa a dizer comento. Mas sempre que a coisa tomba para a ofensa e a javardice digo boa-noite e saio de imediato.
Foi num desses passeios que fui desaguar aos “Dias Que Voam”. Gostei do nome e fui espreitar. Havia uma adivinha para responder. Respondi e acertei. Prometi que continuaria a passar e assim tenho feito.
“Dias Que Voam” é um blog colectivo que, penso, obedece a gostos, sensibilidades, ideias, métodos, temas, regras, sei lá que mais e não estou a ver muito bem como um qualquer maduro pode aterrar por aí. Não se sabe o que ele pensa, o que o preocupa, o que procura ou se tem em mente quaisquer fins obscuros. O Miguel Sousa Tavares diz que a blogosfera é um perigo e onde tudo pode acontecer...
Não sei, pois, que escrever nos “Dias Que Voam”. Até ver, e se mo permitirem, ficar-me-ei por estes comentários avulsos que vão aparecendo quando os “posts” que publicam me façam lembrar alguém, um tempo, um lugar, um simples pormenor que transporte a uma qualquer sensibilização. Já houve alguns…

ABOUT HIM
Sexo masculino.
Gosta de livros, filmes, músicas.
Gosta de comidas de frigideira, tachos, tabuleiros no forno. Os grelhados, exceptuando bacalhau, um sável ou um robalo de mar, deixam-no completamente indiferente. Nunca recusa uma sopinha para aconchego.
Gosta de futebol: uma paixão assolapada pelo SLB que, ultimamente, só lhe tem trazido chatices…
Gosta de vinho tinto, gin, espumante a acompanhar assados de forno. Nos dias de Inverno, enquanto lê romances policiais, gosta de beber chá. De Setembro a fins de Maio, depois do almoço, fuma cachimbo e sempre que as situações se ajustam, gosta de charutar.
Um dia a agência de navegação onde, há 33 anos, trabalhava fechou as portas. Não tinha dívidas ao banco, os filhos estavam criados, o primeiro neto vinha a caminho e resolveu aproveitar as “vantagens” dos governos do engº Guterres, arcou com as respectivas penalizações e reformou-se. Hoje considera que foi o mais brilhante disparate que fez na vida.
Admite que não conseguia viver noutra cidade que não fosse Lisboa, onde nasceu em Março de 1945, já em signo de carneiro.
Se pudesse gostaria de passar todos os fins de tarde na esplanada do Hotel Albatroz em Cascais.
Correndo o risco de lhe chamarem antiquado, ou qualquer outra coisa, pensa que os lemas da Revolução Framcesa – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – são uma causa nobre.

gin-tonic disse...

"Annie's Song" de John Dnver. Há dezenas de versões, uma interessante de Plácido Domingo por exemplo, mas prefiro a de John Denver. Neste caso, como em outros mas não todos, prefiro o original.

T disse...

Caro Gin:

Vamos fazer assim, e até rimou, aceita este convite qundo quiser. O Dias é a diversidade do colectivo que o faz. Logo, o seu contributo só pode enriquecer este blog, não tem que obedecer a nada formal. Quanto aos perigos e ao Miguel Sousa Tavares, haverá alguma dose de razão no que o senhor jornalista afirma. Mas este é um blog de pessoas que gostam mesmo é de comunicar e de sorrir.
Diga que sim!

gin-tonic disse...

Ficamos assim. Por agora comentários, depois logo se verá.
Quanto ao Miguel Sousa Tavares só mencionei a história porque o rapaz é um exagerado, alguém que para criticar a proibição de de se fumar nos restaurantes invoca que também deveria ser probido levar crianças para os restaurantes por causa da chifrineira que fazem e lhe estragam a refeição. Infelizmente não conseguiu ficar com os suficientes e necessários genes da belissima mãe que teve, apenas ficou com os do pai...
E o que é hoje em dia não é perigoso? Só a blogosfrea? Raio que os parta!
Que siga a blogosfera!

T disse...

Tá bem, como diz a minha sobrinha pequenina, com ar resignado mas pouco convencido.
Comente e depois decida:)