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27 de agosto de 2013

Pequena história trágico-marítima


Somos seres terrestres, por isso se admira quem dedique muito entusiasmo a viagens marítimas. Já no final das férias, escolhe-se uma viagem de veleiro, a sair do mar com entrada pelo Tejo, será interessante ver o Bugio de perto, a cidade de um outro ângulo. O início de tarde é ameno, a água parece um espelho, mal se adivinhando o vento (de 45 nós) que se iria levantar. Se as previsões fossem fiáveis, a saída teria sido adiada. De súbito, tudo muda: os sete passageiros (não contando com o comandante e o seu auxiliar) passam todos para um dos lados do barco, dada a inclinação extrema. As ondas galgam a embarcação, fazendo com que todos fiquem encharcados até aos ossos, protegem-se máquinas fotográficas, sob risco de ficarem inutilizadas, o esforço parece vão. Decido entrar na parte protegida do barco, onde fica uma pequena sala e cozinha para fazer companhia aos mais novos que por lá se abrigaram. Saltam almofadas dos assentos, ouve-se, do exterior, o fundo da embarcação a bater nas ondas. Sugiro aos mais novos que façam um esforço para imaginarem como teria sido há 6 séculos, com embarcações artesanais e viagens que duravam meses… Finalmente, a chegada a terra, a tiritar de frio e com um sentimento de segurança. É bom sentir chão debaixo dos pés.




Duas observações finais: caso não fossemos passageiros com autodomínio (em todas as faixas etárias), o comandante teria uma tarefa extra; as imagens captadas, ainda em águas serenas, ficarão como memória futura.

29 de abril de 2012

Um português na Suíça - impressões de viagem



Há cerca de vinte anos viajei pela Suíça. Passando por uma cidade onde viviam amigos dos tempos de liceu, decidi visitá-los. Soube que uma delas, a poucas semanas de dar à luz gémeos, se encontrava internada numa pequena unidade hospitalar. Perguntei então o porquê da medida. Informaram-me que era unicamente para prevenir complicações – um parto gemelar era considerado como uma situação a necessitar de um especial acompanhamento. Fui visitar a S, ao quarto de hospital. No local, o chão parecia um espelho. Encontrei-a saturada por se encontrar há algumas semanas confinada ao espaço. Confidenciou-me que (na idade que tínhamos então, a criatividade era imparável), cansada da imobilidade, se tinha queixado de uma sensação num dente, a sonhar que a deixariam percorrer os corredores. Qual não foi o seu espanto, quando o médico dentista, com equipamento móvel, se deslocou ao leito hospitalar para que ela não fizesse movimentos. Também soube que os serviços municipais lhe estavam a tratar de uma casa maior: um agregado que passa de dois a quatro elementos, não pode ocupar a mesma área de habitação. Como curiosidade, deixo as impressões de viagem de um lisboeta de passagem por este país na década de 50, com o título «Os homens discretos»:

 É talvez devido a esse órgão novo, o civismo, que os suíços são os homens mais discretos do Mundo. Temem perturbar ou ofender a intimidade dos outros. Por isso, quando entramos num lugar público, impressiona-nos imediatamente o silêncio extraordinário que ali reina. Todos falam em segredo ou estão calados. Movem-se lentamente. Não gesticulam. Que contraste com os nossos cafés ou as nossas casas de chá! O mesmo se passa com o vestuário, sempre discreto, sempre sem obedecer demasiadamente às modas de cores vivas ou de talhes extravagantes. Cada um quer passar o mais despercebido possível. Nunca chegámos a perceber se tudo isto é feito com esforço, numa auto-repressão constante, se, pelo contrário, é feito naturalmente…

 «Um Lisboeta na Suíça», O Século Ilustrado, 2 de Março de 1957 Imagem: switcardcow.com

16 de fevereiro de 2012

A arte de viajar no quotidiano

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É difícil apreciar correrias automobilísticas (quem respeita os limites de velocidade, que ponha o dedo no ar). Pelo exposto, torna-se quase que terapêutico – diria - utilizar o comboio,  sentada e ler sem regras e em diversidade (o que é incompatível com a condução). Assim acaba a leitura da obra cuja passagem se transcreve. Ao terminar o parágrafo, descobre-se, pela primeira vez em anos, as hortas ("prósperas", como diria o meu pai sempre a referir-se à arte hortícola) que se avistam da janela, ao longo do «empolgante» IC19… Poderiam , os pequenos arranjos agrícolas, dar uma boa fotografia. Na impossibilidade, fica uma imagem de outras paisagens verdes, a enquadrar-se no trecho desta obra que alia a viagem a interessantes reflexões sobre escrita, pintura e filosofia, associadas aos locais visitados pelo autor. E não se pense que as observações dizem respeito a grandes viagens em exclusivo...
«Há sempre no mundo mais coisas do que as que podem ver os homens, ainda que caminhem muito devagar; não as verão melhor por andarem mais depressa. As coisas realmente preciosas são uma questão de pensamento e de visão, não de velocidade. Uma bala não passa a ser boa por ser rápida, e o ritmo lento não diminuirá um homem, que seja realmente um homem, uma vez que a glória deste não está no seu andar, mas no seu ser».
Alain de Botton, A arte de viajar
Imagem: Abadia de Kylemore, Irlanda

3 de novembro de 2011

Memórias das cidades



(imagem: solstício em Manhattan, autor não identificado)

Cidades que – citando o poeta publicitário por sobrevivência – se estranham e, mais tarde, se entranham. Nunca se pensa, após as primeiras impressões que, voltar mais tarde ao local muda totalmente a impressão inicial. Espaço agitado, onde se pode caminhar em segurança , a horas adiantadas, contrariando mitos urbanos. Sem abrigo dormem sobre caixas de cartão atravessadas na passagem dos caminhantes. Em fim de tarde, o parque despido de folhagem ainda deixa ver esquilos que, nervosos, se cruzam com uma multidão mais ou menos apressada.
Começa um Natal antecipado e há patinadores no gelo junto ao centro Rockfeller.
As coisas do progresso fazem entender que existem tantos museus quantos Starbucks e, por breve instante, chega a nostalgia de cafés bebidos, apressadamente e em manhãs frias na leitaria do bairro. Ao longo do percurso, templos mais ou menos visíveis de diversos credos. Na Chinatown surpreendem montras engorduradas onde alimentos irreconhecíveis se encontram expostos atrás de vidros enevoados pela condensação. Espanta ver os skaters no meio do trânsito frenético.
O que, por vezes, interiorizamos enquanto imaginário no ecrã de cinema acaba por não se distanciar de alguns cenários. Existem por aí cidades que superam tudo o que sobre elas possamos idealizar.

16 de agosto de 2011

O importante é comunicar



Insólitos avisos apanhados casualmente em zona turística mediterrânica onde a principal fonte de receitas é o turismo (a par da contrafacção de marcas famosas). Em clima convidativo, sobretudo para quem regressa bruscamente ao nevoeiro e frio sintrenses (basta afastarmo-nos meia dúzia de quilómetros da nossa habitual morada para ver, ao longe, um capacete negro de nuvens sobre a serra), nunca podia ser a divulgação dos letreiros interpretada como troça… É que isto de calor e águas azuis é  assunto da maior seriedade. Longe vai o tempo em que a céltica neblina de uma Avalon nacional trazia evocações românticas. No presente momento, à distância de um local onde só se descansa e nada com lentidão e a temperatura da água do mar é tão ou mais convidativa do que a de algumas paragens africanas ou brasileiras, surgem avisos como os fotografados (só para publicitar o ar condicionado, as versões são múltiplas) como intenção de fazer passar a mensagem, erros ortográficos à parte.



Abrir por estas paragens uma escola de inglês – já que o ancestral fluxo migratório permite a boa parte dos nativos falar com alguma fluência o alemão – será provavelmente um negócio com futuro.



A ideia da escola fica a invadir o pensamento após observação dos guias portugueses que por lá trabalham em “duros” passeios de barco pelo Mediterrâneo ou a saudar de modo amistoso o simpático senhor Mustafa, autor dos melhores gelados da região por fazerem da esplanada contígua - onde também se tem direito ao melhor café da terra - parte do seu escritório informal…

12 de julho de 2011

Modernidade e tradição



O que decora as paredes deste moderno estabelecimento? Conseguirão identificar os objectos utilizados? Será decerto um fácil desafio.

11 de julho de 2011

O gato da calle Lope de Vega



Altivo e olhando os transeuntes da varanda, ostentava uma expressão exclusiva dos felinos. Lembrei-me subitamente de um exemplar idêntico que tive há muito. O gato Jeremias saltava as janelas das habitações vizinhas às da pequena casa sobre a praia, tendo chegado a roubar uma posta de peixe que - segundo a proprietária do apartamento próximo - se destinava à confecção de rissóis. Confesso que na altura receei associar o misterioso desaparecimento ao aventureiro gato de cor amarelada. Hoje estou certa de que terá sido ele o autor do crime: a astúcia e um grande sentido de independência são marcas destes animais. Encontrando-se o sósia no país vizinho lembrei, uma vez mais, os primeiros versos do poema inédito de Lorca, felizmente encontrado há cerca de vinte e cinco anos:

Mefistófeles casero está tumbado al sol.
Es un gato elegante con gesto de león,
bien educado y bueno, si bien algo burlón.

30 de março de 2011

Uma série ao vivo entre contratempos

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Ainda no rescaldo de uma mala acabadinha de extraviar, gastando parte de pequeníssimas férias a comprar o essencial - ao contrário da maioria das hostes femininas, não se é fã de sessões de shopping - eis que, na rua, se dá uma aparição: estes senhores tocavam para uma privilegiada audiência que não ultrapassava as duas dezenas. Sem resistir, máquina tirada da mala e... "clic, clic"...

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Pelo ar dos músicos-actores, fica a sensação de que se divertiam tanto ou mais do que a assistência... Aprende-se ainda (nunca é tarde) a duvidar da máxima «só acontece aos outros»... Lição interiorizada até hoje - viajar de avião levando, sempre, numa pequena mochila a nunca largar, meia dúzia de imbambas (que me perdoem o quimbundo) de coisas essenciais para não se ficar uma semana a roer unhas até à falange, à espera do tesouro perdido...
O arrazoado prende-se com o facto de, no meio de alguns aborrecimentos relativos nascerem, muitas vezes, risonhas estórias. Recordarão, decerto, a série em que entram estes senhores.

29 de dezembro de 2010

Um pequeno-grande património...

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Pelas ruas e a enviarem-nos interessantes mensagens, os cartazes ou pinturas murais lá estão… Alguns, obrigam-nos a parar e a abrir os olhos, enquanto nos transportam a outros universos... Há os que desaparecem com os caprichos do tempo e ainda aqueles  que, concebidos a pensar na voragem do tempo, ficam gravados em memórias e afectos.

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Fica-se a magicar no porquê de partilharem os caminhantes opiniões sobre castelos, museus, catedrais e o facto de se ignorar alguns apelos, deixados em paredes de edifícios, por ruas tristes ou iluminadas das cidades percorridas.

(primeira imagem: Sylvie Fondacci)

27 de outubro de 2010

Onde me perco



Entre o verde esmeralda da ilha e o azul marinho, a poucos quilómetros da península de Dingle, um museu denominado «dos celtas»… Surpreende o facto de ser privado e de os seus proprietários residirem no local, entre as salas onde se encontra joalharia fabricada por gentes do passado, fósseis e instrumentos cortantes colhidos ao longo do nosso continente, há cordas a vedar o acesso aos aposentos pessoais, com o letreiro: «espaço privado, não entrar». Reparo, com surpresa, que o dono cobra a tarifa de entrada consoante a origem dos visitantes. A situação poderá parecer discriminatória, mas o pequeno grupo de turistas portugueses agradece, pois o preço de entrada é amigável, ao contrário do que sucede com os visitantes que se seguem e nem se apercebem do significativo desconto... Ao receber o troco, um sorriso acompanhado de um nacional e entusiástico «obrigado!», quase sem sotaque… Ao lado do acolhedor café do museu cujo sugestivo nome é «Scones & Bones», um recanto de velharias a deslumbrar quem gosta de pequenas viagens no tempo. Noutro continente já tive um filtro para a água idêntico ao fotografado… Subitamente um sorriso secreto ao pensar na sobrinha R e na sua habitual expressão «onde me perco»…

17 de outubro de 2010

Viajar entre colunas



No renovado Terreiro do Paço, bem perto do enigmático Cais das Colunas, no Torreão Nascente, está uma exposição a ver; “Viajar, Viajantes e turistas à descoberta de Portugal, no tempo da I República”, que em si traz pouco que ainda não tenha sido visto.
Contudo, a concepção da mesma naquele espaço está conseguida com êxito. Quem a percorre esquece-se de que está num espaço de planta quadrada, com pés direitos altíssimos e os elementos pré-existentes são muito bem integrados no discurso expositivo, como, por exemplo, as colunas de mármore. O mesmo já não achei dos nichos das janelas.



De realçar o belo efeito cenográfico do navio de passageiros, muito bem conseguido e integrado no resto da exposição. Talvez o melhor efeito, a par da engraçada vitrina do comboio em movimento. É pena o mergulhador na prancha de saltos passar despercebido ao visitante pela maior chamada de atenção à aplicação multimédia projectada no chão.



Esta mostra tem um sintoma que outras, ultimamente, insistem em apresentar: O excesso e a elevada concentração de informação gráfica. Falta-nos o ar para respirar a informação! Desiste-se à segunda tentativa. Tanta imagem, tanto texto, tanta colagem, tanta legenda, só pode interessar à gráfica que as produz.
Outra questão, relacionada com esta, é a colocação de informação visual a uma altura exagerada, provocando uma postura incómoda a quem a tentar ler/ver. Para aquele espaço, onde a hipótese de afastamento do visitante é quase nula e de forma a não causar torcicolos aos visitantes, a colocação da informação não deveria ultrapassar, em altura, a linha dos dois metros, dois metros e pouco.
São de bom efeito e interessantes as grandes malas de viagem que indicam e ponteiam o caminho para a exposição.



Não apreciei, muito sinceramente, não poder comprar ou consultar o folheto ou o catálogo da exposição no próprio espaço. A sua aquisição é feita em instalações apartadas, onde existe um ponto de venda, tipo ‘loja de museu’, com diversos produtos de aspecto interessante que, a meu entender, pouco têm a ver com a exposição, a República ou com o espaço.

Comece ou acabe com uma visita ao Cais das Colunas.

10 de outubro de 2010

Serviços



Como era caro o preço das viagens em 1928. Ora vejam.
Agenda Popular de Algibeira, Livraria Francisco Franco.
Clicar para ampliar.

13 de julho de 2010

Viajar através do pensamento: a route 66

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Desde a época dos pioneiros que a jornada rumo a Oeste se converteu em mito fundador dos Estados Unidos.
A route 66 encarna, desde o final dos anos 20, a grande epopeia americana.
Por influência da beat generation e títulos como On the road, o mito ganha estatuto de viagem iniciática ao longo do Pacífico : tentativa de encontro e reencontro a par de desejo libertador possibilitado pelo contacto com cidades cosmopolitas e soalheiras como LA ou S.Francisco.
A estrada acabará por se tornar símbolo rock através de múltiplas versões, escolhendo-se como limitados exemplos os Stones ou os Depeche Mode.
Relegada para plano secundário a partir de 85, alguns dos troços da via foram sendo votados ao abandono. Unicamente através de um reflectido “regresso às origens” (só se lembra dos caminhos velhos/ quem tem saudades da terra) se consegue evitar a errância. Um dos meios de orientação em tão difícil empreendimento será, decerto, o letreiro “Historic Route 66” a assinalar determinados pontos do trajecto.
Para os contemplados viajantes nostálgicos, sugere-se como viatura um Cadillac ou outra qualquer “banheira” ao gosto da década de 50. A motards, aconselha-se a Harley Davidson.Uma viagem a sério por estas paragens exige cerca de 20 dias e não deverá ser alvo de grande planificação, em estrito respeito pelo “espírito Kerouac”. No entanto, as agências turísticas descobriram aqui uma hipótese de negócio, já existindo percursos organizados: atrever-me-ia a concluir, afirmando que o sistema tende a funcionar de modo similar, ou seja, a integrar na cadeia de consumo o que no passado ambicionou a modo de estar contra o próprio sistema...

Consulta para recolha de informação e imagens: L’intern@ute Magazine

12 de dezembro de 2009

Fuga ao bulício da Cidade graças à Carris

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Há excursões para todos os gostos. Qual preferem? Assim rentabilizava a Carris a sua Frota de Autocarros!

Post enviado por Pedro Ferreira.

22 de agosto de 2009

August, bloody August...

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Cada vez convivo pior com o mês de Agosto. Que me perdoem tantas pessoas nascidas nesta altura e a quem dedico uma amizade sincera, embora tal reflexão também me recorde (penosamente) já ter sido – ainda num passado próximo - alguém com melhor memória para datas. Se até me esqueço (com a dose de egocentrismo que todos temos) do meu aniversário, quem poderá levar a mal tais incidentes amnésicos ? Ainda na última «efeméride pessoal» dei comigo a rir , pois fui lembrada por um MMS «excessivamente» matinal tendo dado um salto na cama e ficado a pensar durante uma fugaz sensação de taquicardia: “uma mensagem antes de tocar o despertador? Uma má notícia?”, afinal era um simpático alertar para o envelhecimento (acompanhado de imagem de um bolo de aniversário, garrafa de espumante ou lá o que era, pois durmo sem lentes)…e logo pela manhã, quando nasci às 18.30 (diz a minha mãezinha pois conta que o parto não foi fácil, o que nos leva a manter a memória fresca…).
Mas o que o mês de Agosto traz de menos risonho é o facto de há algum tempo ser aquele que nos impele a gozarmos férias colectivas... O incómodo da questão é quando uma pessoa gosta de viver num local retirado , perto do mar gélido e, de um dia para o outro, muda bruscamente o cenário, ficando a lotação em risco de esgotar, com a permanência em cruzamentos ainda não acometidos de «rotundite aguda» aí uns 3 minutos à espera de entrar... até a velha estrada interior a qual, em época de trabalho, é «abrilhantada» por um cão a dormir mesmo no meio da via (se um dia sair munida de metro-padrão confirmarei se está mesmo centrado, parecendo-me não haver erro de paralaxe, aqui recorri a antigos conhecimentos escolares, quiçá na tentativa de parecer culta) se encontra desimpedida de seres canídeos… Não é que estas rotas saloias – com excepção para a estrada Ericeira-Sintra aos domingos ensolarados - se assemelhem ao IC 19 – emoção diária ao longo do ano - mas, não sendo exagerada nas rotinas, este súbito desassossego é calo a ser roído por sapato de cerimónia acabadinho de estrear…
De um dia para o outro o espaço é rasgado por gritos, quase que a abafar o canto da passarada e fica-se pendurado ao balcão na pastelaria de eleição ( com fabrico próprio pelas manas proprietárias), por causa de famílias numerosas em bermudas, havaianas, baldes e pás na mão e o entusiasmo (uau!) das férias. Estes grupos excursionistas elevam as vozes a decibéis como se um emissor em Almada pretendesse fazer-se ouvir em directo e em tempo real por um parente postado em Alcântara… Até a praia, acolhedora no início da Primavera para caminhadas descontraídas até à Aguda, em manhãs de maré baixa, se converte num local proscrito pois, mais ainda do que tropeçar na multidão de peles-vermelhas (sou fã dos legítimos desde que não escalpelizem), corre-se o risco de encontrar parte do elenco exclusivamente «trabalhólico» do resto do ano, a discutir em êxtase (fico-me por aqui por questões de decência) formulários, decretos e portarias quase com gabinete montado no areal ...
Quando financeiramente possível, uma das poucas extravagâncias é a fuga, no auge do Verão (e por poucos dias), para cidades mais ou menos distantes, pois aí a confusão é aceitável, sempre se podendo assistir àquela peça de teatro ou ficar simplesmente em britânicos relvados debaixo de uma árvore com a preservação do espaço vital, arriscando-se a ousadia de comprar bilhetes a poucas horas dos idealizados espectáculos. E nem incomoda ouvir pela enésima vez da boca dos veraneantes bronzeados umas semanitas mais tarde, aquando da rentrée: «então não foste à praia? É que não tens mesmo corzinha nenhuma».

10 de julho de 2009

Soaring ou como se viaja a partir de um fragmento

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Conversa no notário, na manhã de ontem, no meio de risadas, entre duas jovens que folheavam uma revista para teenagers:
- Estás a ver o que diz o Micael Carreira ? Se pudesse escolher, em vez de cantor queria ser o Indiana Jones.
(pensei de imediato que se não fosse professora, queria ser a Mary Poppins… alternativa mais segura à asa-delta e mesmo ao parapente )…
E o pensamento voou para o soaring, termo que designa uma forma de voo na qual a altura e velocidade são conseguidas através da energia das correntes de ar, princípio utilizado tanto por aves, como por veículos aéreos.
No parque de diversões da Disney em Orlando, Florida, pode viver-se uma experiência virtual que consiste em sobrevoar o estado da Califórnia. Nesta diversão relativamente recente, os ‘viajantes’ ficam a conhecer os extensos campos de cultura e sobrevoam a Golden Gate Bridge de S.Francisco. O fantástico da viagem é usufruir de paisagens bonitas e muito diversificadas, o que não sucede com as realizadas em áreas restritas em viagens de parapente. Apesar dos alertas a cardíacos e amedrontados, a diversão é relaxante e nela participam pessoas de todas as idades.

28 de junho de 2009

Blue Hawaii

… e surgiu um inesperado prémio: a partida para uma ilha -santuário. Com tal surpresa, há que não lamentar a jornada, tendo em conta a curta permanência de 8 dias, o enorme desfasamento horário e um salto sem rede de regresso à pesada rotina profissional.
O grupo de viajantes, vindos de diversas paragens, teriam como ponto de encontro a cidade de Honolulu.
Escala com partida de Lisboa: S. Francisco, ilha de Havai e, no final, Kauai, uma proposta de paraíso.
Escolha do roteiro turístico em S. Francisco com opção pessoal para o da National Geographic já que na prateleira da livraria havia, no mínimo, 10 possibilidades para um curto tempo de permanência no aeroporto.
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Ao contrário de Honolulu com prédios descaracterizados e ostentando uma réplica kitsch do Big Ben, profusão de pardieiros de fast food , casas de piercings e tatuagens, entre outros, a maravilhosa Kauai não possui edifícios altos, as políticas ambientais impedem-no, sendo a regra escrupulosamente respeitada e as áreas comerciais concentradas em locais delimitados.
Por ruas e jardins luxuriantes de hotéis correm, em liberdade, bandos de minúsculas aves de capoeira.
Do areal de praias selvagens avistam-se, ao longe, imponentes baleias. Tendo servido como cenário a filmes como South Pacific, Blue Hawaii e Parque Jurássico, sentimo-nos somewhere over the rainbow.
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Na história da emigração local encontram-se portugueses, sobretudo da ilha da Madeira que para lá foram trabalhar em plantações de cana do açúcar, principal cultura local. Andar a pé só se torna possível em zonas agrícolas ou no areal, as enormes estradas sem zona pedonal e o calor dificultam a tarefa . Uma motorista de táxi, de origem asiática, explicou que a sogra já falecida era portuguesa, tendo lembrado a expressão utilizada pela senhora no meio de frases em inglês : “ai a minha vida!” – a algum custo descortinei o que me dizia, tendo feito a tradução, para ela surpresa.
O coro local entoa sons gospel acompanhados unicamente pela harpa, actuando igualmente o instrumentista em restaurantes da terra, tendo sido encontro casual durante um jantar.
Na livraria , surpreendeu um exemplar havaiano de cozinha portuguesa cuja receita de caldo verde consistia em versão muito livre com adição de feijão branco. Do tratado constava igualmente uma receita de bolinhos de bacalhau ao qual se adicionava uma erva aromática desconhecida de qualquer europeu e sem tradução encontrada.
O modesto restaurante da senhora Hamura foi escolha por vir anunciado como pequena maravilha no roteiro: a recepcionista do hotel ficou entre a contenção de riso e o susto, quando percebeu para onde deveria enviar o táxi. À chegada, todos os comensais olharam de alto a baixo os forasteiros. O assento colectivo era em redor de um balcão em fórmica laranja, num pré-fabricado de ripas de madeira e enorme ventoinha pendendo do tecto. Um letreiro junto à pequena cozinha em espaço aberto, alertava: “não aceitamos cheques , é proibido colar pastilhas elásticas debaixo do balcão”.
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Cuidado a ter em conta : não procurar sombra sob os inúmeros coqueiros que se encontram na praia - o risco de traumatismo craniano provocado pelos frutos gigantescos que caem inesperadamente é considerável.
A viagem de helicóptero a atrever-se numa entrada em vulcão há muito extinto traduz-se em experiência única.
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Foi um prémio memorável, embora, em opinião pessoal, qualquer deambulação seja sempre emocionante, mesmo quando se realiza ao longo de uma dezena de quilómetros à saída de casa. O necessário é estar desperto para a novidade.

16 de junho de 2009

SÍTIOS POR ONDE ELE ANDOU






















Não sabe se é este vício de português acorrentado. Márcia diz que é saudade, mas ela é como se não visse. Nostalgia, nostalgia dos países onde nunca se foi, das pessoas que não conhecemos, dos amigos que não abraçámos. “Onde se está bem aí é a pátria”, para citar o velho Horácio. O Hans- Martin fala-lhe de todos aqueles países. O Hans-Martin fala da Europa. Ele já pensa nas Índias Orientais. E, mentalmente põe de lado “O Principezinho” para levar e a “Escola do Paraíso do imortal Miguéis. E com as bagagens, toma um táxi para Santa Apolónia, mas só pode ir até à Régua. Onde os melões são podres e o tempo é chuvoso. Nisto se perde o tempo. E é a nostalgia.

27 de maio de 2009

Gosto ou necessidade de sobrevivência?

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Sempre que olho para mimos ou para pessoas que fazem de estátua, interrogo-me se a tarefa lhes dará prazer. Quanto aos últimos, afigura-se-me como mera necessidade de sobrevivência. Informaram-me tratar-se de uma actividade rentável no país vizinho. No caso pessoal seria uma ocupação a riscar da lista, bastaria pensar em tanta coisa a cumprir para não conseguir ficar para ali pasmada. E isto já para não referir os acessos intermináveis de espirros, tão próprios da estação do ano.