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16 de fevereiro de 2014
Como a Praia Grande se torna pequena
Mudança repentina na paisagem, domingo em que tudo se povoa de azul, com ondas gigantescas, de uma neve marítima (imagem que chega ao pensamento). A Praia Grande , quase sem areal, deixa entrever uma faixa de areia negra.
14 de novembro de 2013
Um carro com vontade própria
A vida nas pequenas localidades também reserva surpresas - no caminho, um carro com personalidade própria . Antes do café que desperta para o dia, fica-se na dúvida se será miragem ou simplesmente uma viatura 'bucólica', a sentir o apelo campestre.
14 de outubro de 2013
«Primária» ou um merecido prémio
Escola de 1.º ciclo, não muito longe de Lisboa. De seu nome, o de um arquiteto que deixou património (não um pardieiro impessoal, com nome de EB1). Um grupo de crianças do 4.º ano, antiga 4.ª classe, a poucos dias do final do ano. Aproximam-se os exames, até lá, a preparação rigorosa, as contas com números decimais, alguns sonhos vividos durante o recreio, nos baloiços, em jogos de ritmo e palmas, em acrobacias. «O meu defeito é ser resmungona»; «gostaria de ser ensaiador da marcha de Alcântara» - respostas lidas perante professor e colegas. Os dias passam, chega a classificação final (com a possibilidade de melhoria na 2.ª fase das provas nacionais para quem não passou). Sabem-se os resultados, quase todos concluem um ciclo de ensino. À vez, o professor anuncia a classificação final. Batem palmas, após sucessos divulgados. Um pequenito não conseguiu acompanhar os restantes, dizem-lhe os colegas «também merece palmas», um outro, de palavra eloquente, fica para aulas de reforço, a fim de repetir os exames de Português e de Matemática: uma lágrima teimosa, a correr, a força (que muitos adultos não conseguem), presente nas palavras súbitas «professor, mesmo assim, foi um prazer ter trabalhado consigo». Na sala de cinema, o público solta, em coro, uma exclamação de surpresa. Termina o documentário com uma dança na festa de final de ano, coreografia a anteceder o esperado (e merecido, atendendo ao que de espontâneo se desenrola aos nossos olhos e ouvidos) afastamento de contas, escrita, leitura: música de ritmos e percussão, malas coloridas que , em movimentos sincronizados, compõem o momento festivo. «Primária», filme de Hugo Pedro, estudante do curso de cinema, foi – esclarece o realizador – filmado sem preparação prévia, a captar instantâneos. Haverá, na curta, alguma mensagem implícita no que diz respeito aos exames? O autor explica que não, a ideia surgiu por se lembrar, com agrado, dos tempos de menino. O filme? Prémio do público e do júri, nesta 4.ª edição do "Córtex", festival de curtas-metragens que ontem terminou em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval.
Imagem: blogue da Escola Básica n.º 1 Raul Lino, “plantar aos sábados de manhã na escola”
9 de setembro de 2013
A surrealizar
Vai uma pessoa a cortar a estrada com suavidade e… c’um caneco! De súbito, parece ter entrado num filme de Buñuel… (não é que já não parecesse, mas isto potencia a sensação)
5 de setembro de 2013
O cão que queria ser pássaro
Ali estava, lá no alto,parecendo ponderar nas vantagens de, a qualquer momento, poder levantar voo. Não ladrava a quem passava pelas ruelas menos conhecidas dos turistas que, neste final de verão, ainda povoam a vila de Sintra. Fica-se a pensar que poderia dar origem a uma parábola ou a uma fábula de La Fontaine.
26 de julho de 2013
Todos temos uma praia...
Todos temos (no mínimo) uma praia, por motivos vários. No caso específico, trata-se de uma questão de proximidade, de travo a maresia, de travessias durante a maré baixa até à praia que com esta confina. Se a escolha dependesse da temperatura da água, não ficaria decerto entre as mais eleitas. Transparente e azul (manhãs de nevoeiro à parte) oferece, com generosidade, lapas e mexilhões, a quem gosta de transportar da beira-mar até à cozinha, uma refeição do produtor ao consumidor.
Com a decisão de viver umas férias à margem de um planeamento elaborado, a praia mais próxima será, no presente ano, uma visita a repetir (caso o tal de S. Pedro, a quem atribuem caprichos meteorológicos, entre também em 'modo férias')
25 de junho de 2013
Maçãs golden
Calor… até o transporte de Sintra para a Praia das Maçãs fica por ali parado, ninguém parece fazer o mais pequeno movimento para o apanhar. Mudou de cor, aproximando-se dos parentes citadinos. A praia já conta com alguns veraneantes, embora (diz-se) a água continue gélida.
6 de abril de 2013
26 de março de 2013
Coisas de uma prima... bera
De um relance, olho os vasos da entrada, sob chuva incessante. No alpendre, acabo de ver um gato enorme, tigrado, terá entrado por alguma fenda dos muros, penso. Desafia-me, através da janela da sala, empoleirando-se num sofá. Ao fundo, as cadelas, que o pressentiram, ladram sem parar. Apontamentos de uma manhã chuvosa. Que os amores-perfeitos do jardim, à custa de tanta água, não venham a perder a perfeição inicial.
19 de março de 2013
Palavras leva-as o vento?
São estes os moinhos de vento da região (de modelo mediterrânico, diz-se). Testemunham, mesmo os que se encontram em derrocada, tempos de artes e ofícios. Vingou por mais tempo um deles, em funcionamento até há pouco, na freguesia de S. João das Lampas. As crianças visitavam-no, vendo o velho moleiro, a trabalhar para que guardassem na memória profissões de tempos distantes, para que não pensassem que a farinha ‘nascia’ em sacos, à semelhança dos que, espantados e já crescidotes observam , pela primeira vez, galinhas a debicar a terra ou maçãs a pender das árvores não conseguindo, de imediato, estabelecer associação com o que figura nas secções dos supermercados. Não se pense que, com saudosismo, se lamenta ver hoje as velas, despidas dos panos que as revestiam. Fica-se a imaginar moleiros fazendo deles casa e local de trabalho, à semelhança – estes em maior isolamento – dos faroleiros. O risco reside, sim, no facto de poderem vir a cair no esquecimento. Vem a reflexão a propósito do 80.º aniversário que hoje completa o escritor Philip Roth e da sua afirmação do dia, no suplemento do jornal Le Monde “posso prever que dentro de trinta anos, ou mesmo mais cedo, haverá nos Estados Unidos tantos leitores de verdadeira literatura, como há hoje leitores de poemas em latim”.
13 de março de 2013
Vivo de boa sopa, não da linguagem *
… ou como tudo muda, de modo vertiginoso, até a língua
(leia-se, idioma) fica entaramelada… Conclui-se que, das duas uma – de acordo
com o lugar-comum, «a língua portuguesa é muito traiçoeira», ou o vinho caseiro
produzido pelas redondezas, continua a exceder a graduação definida por lei
(diz-se que ronda os 15 graus com consequências notórias).
* Frase de Molière
23 de janeiro de 2013
A cada um, a sua neve
Há quatro dias, após o vendaval que se fez sentir horas a fio, a praia mostrava-se assim: a areia cobria-se de espuma trazida pela tempestade marítima (os naturais da terra dizem que é muito benéfica para a saúde, contendo partículas de algas, o que contraria a ideia de poluição, a que muitos a associam). Na segunda feira, ao passar os olhos pela crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público, o autor referia-se-lhe como sendo uma substância «pestilenta e gordurosa»… Penso que terá sido – com todo o respeito pela opinião alheia – uma despromoção , isto de acordo com os nativos do litoral sintrense, que frequentam os estabelecimentos de venda de material de pesca e cumprem o ritual de ,na sexta feira anterior ao domingo de Páscoa, apanharem e venderem mexilhão para o repasto desse dia (cá por casa é cozinhado com os coentros da horta, fugindo-se às receitas mais comuns). No caso pessoal, ao olhar a areia (e ainda sem ter lido a crónica que sairia três dias depois), dei comigo a pensar «a cada um, a sua neve».
(sim, é bom estar de volta, mesmo com o recurso a balões de ensaio, observação de índole mais particular)
17 de janeiro de 2013
Como se contraria uma frase feita sobre árvores
Aprende-se a fugir ao trânsito por caminhos que,
com o tempo, se vão desvendando. Desde a passada semana que o olhar se prende à imagem da árvore tombada no campo, a lembrar um ser humano derrubado. Um pensamento... «ora aí está
algo a contrariar a ideia tão ouvida na infância e juventude “as árvores morrem
de pé”». Em poucos segundos – não passe algum acelera neste estreito caminho –
tira-se a fotografia.
1 de dezembro de 2012
Nós por cá ou dia de barrela

Aforismos, ideias feitas… Cá pela aldeia, quando impera, no comércio local, a palração designada pelos antepassados como «enterrar os vivos e desenterrar os mortos», contrariada por quem não entra no diálogo, alegando que «a roupa suja de cada um se lava em casa», fica-se a olhar, em amena manhã de sábado, os estendais em plena via pública, pensando-se «as intimidades em algodão, fibras sintéticas, etc., lavam-se em casa, mas podem ser estendidas por onde circula a vizinhança?»…
17 de novembro de 2012
Saramago revisitado

Nada melhor para comemorar o dia em que, há 90 anos, nasceu o escritor, do que assistir à representação de Memorial do Convento, no Olga Cadaval. A peça foi representada (se a memória não falha) ao longo de dois anos, no convento de Mafra, tendo ficado a simples intenção de a visitar. Numa adaptação e encenação irrepreensíveis, a tónica para a vontade humana, a possibilitar que o homem se supere (com o humor inteligente sobre a forma como recolher, dentro de um frasco com âmbar, as vontades individuais para poder, através de coletivas determinações, pôr em prática a ousadia de voar). Saramago mostra-nos, com a mestria habitual (e um humor peculiar) a natureza humana, imune ao correr do calendário. Por isso existem criadores intemporais, arrancando sorrisos afirmações como «Gil Vicente foi único, pois continua atual»… Quem consegue «ler por dentro» com a clarividência de uma Blimunda Sete Luas, encontrar-se-á apto a trazer para a literatura tudo o que desperta e convida à reflexão. É grato observar uma assistência que, em grande parte, estuda os textos do nosso Nobel da Literatura.
grupo de teatro Éter
2 de novembro de 2012
«Trama» na Regaleira

… e assim foi, no passado domingo, a apresentação de um novo projeto musical de seu nome Trama. Nem o frio que se fazia sentir durante a noite da Regaleira, afastou audiências , com o espaço preenchido por um público caloroso que, apesar do clima sintrense, não se importaria de ter ficado mais tempo a ouvir esta sonoridade em português.
Trama,O Brilho
8 de outubro de 2012
Factos e não argumentos...

De regresso a casa e após o dia de trabalho, dirijo-me à porta automática que permite sair da estação ferroviária. Vejo o habitual amontoado de gente – desde o ano passado que os comboios voltaram a ser mais utilizados por motivos do domínio público. Reparo numa senhora de meia idade que, dirigindo a palavra a um jovem de ar "rebelde sem causa" (ela percebeu que ele viajava sem título de transporte), o convida a passar quando coloca o seu passe no leitor de acesso à saída. O rapaz passa numa correria, mais um viajante a custo zero. Após uma semana, para muitos, impeditiva de deslocação dentro das horas de expediente por não existirem alternativas, saliente-se pretender o texto ater-se a factos e não a argumentos: gosta-se pessoalmente de tal exercício, por ser o mesmo praticado quando, em sala de aula, se trabalha o que é (ou deveria ser) o género jornalístico conhecido por notícia (por oposição a texto de opinião, um relato meramente factual, não adjetivado). As estações desertificam-se de funcionários, em tempos deste “admirável mundo novo” onde para tudo há máquinas: para compra de bilhetes, o que desespera as gerações mais antigas; para passar o controlo automático de entrada/saída (o que decerto também reduzirá o número de revisores); para trazer alguma insegurança a quem trabalha ao sábado, até ao fim da tarde, nos dias curtos de inverno (com as estações desertificadas, a convidar a presenças indesejáveis e alguns episódios de ação incorporados). Não se pretende, aqui, opinar sobre as greves de transportes, o gesto “amável” de uma passageira, pretende ser mera constatação a dar força à ideia de hospitalidade (?)… que – diz-se - tanto caracteriza os portugueses. Factos e não argumentos para quem, não se considera adepta de programas que no título publicitam o direito ao contraditório e pretendem veicular uma opinião única … Fica-se a pensar se, tal “generosidade” de alguns passageiros, não será também ela um gesto de rebelião doméstica, observada pelo seguinte ângulo “paguei o passe que tanto tem aumentado e fiquei uma semana sem o poder utilizar”… Como conclusão há dias, uma passageira que aufere pouco mais do que o ordenado mínimo, foi empurrada por mais um clandestino que lhe pediu desculpa. Incomodada, a minha amiga respondeu «não desculpo».
13 de agosto de 2012
Um catavento

Detalhes que apetece fotografar, atendendo a que se afastam do comum catavento do galo com os pontos cardeais. Não longe da capital, aqui pelo concelho, ainda há locais que não são conhecidos da generalidade, pois encontram-se isolados e o acesso só se torna possível a quem vive por cá e, através de caminhadas, vai cada dia descobrindo os pormenores.
5 de agosto de 2012
Barraca da política

Por diversas vezes se tem aqui mencionado Leal da Câmara, morador no concelho de Sintra durante significativa parte da sua vida. Fica um dos desenhos do autor, intitulado «Barraca da política», datado de 1895, quando tinha dezanove anos. Três anos mais tarde, experimentou o exílio entre Madrid e Paris, onde colaborou em diversas publicações satíricas. O ilustrador e caricaturista regressou a Portugal em 1913.
Casa-museu Leal da Câmara
27 de julho de 2012
Palácios nacionais ou como se dá vida à História

(imagem: salão árabe em Palácio Nacional da Pena, roteiro de José Carneiro e Luís Filipe Gama)
Não tendo por hábito recorrer ao lugar-comum “nos outros países tudo é melhor”, a imagem dos palácios nacionais abertos ao público, pode ser utilizada enquanto contraditório. Apreciadora da arte renascentista, senti uma certa desilusão ao ter visitado magníficos exemplares da época, sobretudo na região francesa do Loire: no interior, os espaços encontram-se despidos de mobília e utensílios. O mesmo sucede em muitos palácios da velha Inglaterra – entra-se em salões de lareiras grandiosas, de áreas a perder de vista, olhando as divisões como quem vê – salvaguardando as devidas distâncias - uma casa recém-construída, posta à venda. É bom visitar os palácios nacionais e ver uma sala de música, onde o antigo cravo nos faz viajar a recitais , uma cozinha de onde pendem caçarolas de cobre e o fogão a lenha foi mantido, com os amarelos a rebrilhar de solarina, os salões onde decorriam conversas mais ou menos confidenciais. Estranha-se, nestes locais portugueses, a dimensão das camas, mesmo as de dossel, ficando-se a pensar como eram de pequena estatura os nobres de então, afirmação isenta de segundo sentido.
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