18 de junho de 2026

underwear, lawrence ferlinghetti

 roupa interior

lawrence ferlinghetti

(tradução minha)


Não dormi muito na noite passada

a pensar em roupa interior.

Já alguma vez paraste para pensar

na roupa interior em abstrato?

Quando realmente aprofundamos o assunto,

levantam-se alguns problemas surpreendentes.

A roupa interior é algo

com que todos temos de lidar.

Toda a gente usa

algum tipo de roupa interior.

O Papa usa roupa interior, espero eu.

O Governador da Louisiana

usa roupa interior.

Vi-o na televisão.

Devia estar a usar roupa interior apertada.

Mexia-se muito na cadeira.

A roupa interior pode realmente pôr-nos em apuros.

Já viste os anúncios de roupa interior

para homens e mulheres:

tão parecidos e tão diferentes.

A roupa interior das mulheres sustém coisas para cima;

a dos homens mantém coisas para baixo.

A roupa interior é uma das coisas

que homens e mulheres têm em comum.

A roupa interior é tudo o que existe entre nós.

Já viste aquelas imagens a três cores,

com as entrepernas assinaladas por círculos,

mostrando as zonas de reforço extra

e elasticidade em três direções,

prometendo total liberdade de movimentos.

Não te deixes enganar.

Tudo se baseia no sistema bipartidário,

que não permite grande liberdade de escolha.

Tal como as coisas estão organizadas,

a América, em roupa interior,

debate-se durante a noite.

No fim de contas, a roupa interior controla tudo.

Tomemos, por exemplo, as cintas modeladoras.

São, na verdade, formas fascistas

de governo subterrâneo,

fazendo as pessoas acreditar

em tudo menos na verdade,

dizendo-te o que podes ou não podes fazer.

Já tentaste alguma vez escapar a uma cinta?

Talvez a Ação Não Violenta

seja a única resposta.

Gandhi usava cinta?

Lady Macbeth usava cinta?

Foi por isso que Macbeth assassinou o sono?

E aquela mancha que ela esfregava sem parar —

estaria realmente na sua roupa interior?

As modernas senhoras anglo-saxónicas

devem ter enormes complexos de culpa,

sempre a lavar e lavar e lavar.

“Fora, maldita mancha!”

Roupa interior com manchas: muito suspeita.

Roupa interior com saliências: muito chocante.

Roupa interior estendida no estendal: uma grande bandeira da liberdade.

Alguém escapou da sua roupa interior.

Talvez esteja nu algures.

Socorro!

Mas não te preocupes.

Toda a gente continua presa nela.

Não haverá nenhuma revolução verdadeira.

E a poesia continua a ser a roupa interior da alma.

E a roupa interior continua a esconder

uma multidão de defeitos,

no sentido geológico —

estranhas pedras sedimentares, fendas indecifráveis!

Se eu fosse tu, guardaria de parte

um par de roupa interior de inverno, tamanho grande.

Não entres nu nessa boa noite.

E, entretanto,

mantém-te calmo, quente e seco.

Não vale a pena agitarmo-nos prematuramente

“por Nada”.

Avança com dignidade,

mão no colete.

Não te deixes dominar pela emoção.

E a morte não terá domínio.

Há muito tempo pela frente, meu amor.

Não somos ainda jovens e despreocupados?

Não grites.


☆☆☆


Underwear

Lawrence Ferlinghetti


I didn’t get much sleep last night

thinking about underwear

Have you ever stopped to consider   

underwear in the abstract   

When you really dig into it

some shocking problems are raised   

Underwear is something   

we all have to deal with   

Everyone wears

some kind of underwear

The Pope wears underwear I hope

The Governor of Louisiana   

wears underwear

I saw him on TV

He must have had tight underwear

He squirmed a lot

Underwear can really get you in a bind

You have seen the underwear ads

for men and women

so alike but so different

Women’s underwear holds things up

Men’s underwear holds things down   

Underwear is one thing   

men and women have in common   

Underwear is all we have between us

You have seen the three-color pictures

with crotches encircled

to show the areas of extra strength

and three-way stretch

promising full freedom of action

Don’t be deceived

It’s all based on the two-party system

which doesn’t allow much freedom of choice   

the way things are set up   

America in its Underwear

struggles thru the night

Underwear controls everything in the end   

Take foundation garments for instance   

They are really fascist forms

of underground government

making people believe

something but the truth

telling you what you can or can’t do   

Did you ever try to get around a girdle   

Perhaps Non-Violent Action

is the only answer

Did Gandhi wear a girdle?

Did Lady Macbeth wear a girdle?

Was that why Macbeth murdered sleep?   

And that spot she was always rubbing—

Was it really in her underwear?

Modern anglosaxon ladies

must have huge guilt complexes

always washing and washing and washing   

Out damned spot

Underwear with spots very suspicious   

Underwear with bulges very shocking   

Underwear on clothesline a great flag of freedom   

Someone has escaped his Underwear   

May be naked somewhere

Help!

But don’t worry

Everybody’s still hung up in it

There won’t be no real revolution

And poetry still the underwear of the soul   

And underwear still covering

a multitude of faults

in the geological sense—

strange sedimentary stones, inscrutable cracks!   

If I were you I’d keep aside

an oversize pair of winter underwear   

Do not go naked into that good night   

And in the meantime

keep calm and warm and dry

No use stirring ourselves up prematurely   

‘over Nothing’

Move forward with dignity

hand in vest

Don’t get emotional

And death shall have no dominion   

There’s plenty of time my darling

Are we not still young and easy

Don’t shout