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28 de março de 2026

plange quase virgo, ou a genealidade de carlo gesualdo


carlo gesualdo também era conhecido por gesualdo de venosa.

ou seja: o apelido gesualdo passava a nome próprio quando vinha o novo apelido venosa.


mas na verdade, para o que nos interessa, ficou e ficará conhecido como carlo gesualdo, mestre dos mestres do renascimento.


o rapaz era filho de boas famílias, que até tiveram um tio papa e um outro que quis mas não foi.

talvez por isso lhe deram educação religiosa, mas ele nem a frade chegou, que a musica estava mais alta.


gesualdo não era famoso apenas por ser um fantástico músico. 

também tinha um feitio pior que o deus me livre.

um dia, no palácio sansevero, encontrou a mulher com outro na cama e esquartejou os dois.

o palácio era da familia sangro, que mais tarde viria a construir a jóia do barroco de nápoles, a capela de sansevero.

este episódio haveria de atormentar o gesualdo toda a vida, levando-o a sujeitar-se aos maiores  castigos corporais para se livrar do pecado. 

contratou mesmo um funcionário especializado para o torturar. 

ainda voltou a casar, mas morreu de forma estranha: sozinho, sem nenhum sinal que pudesse levar a essa morte.

consta que terá sido morto pela segunda mulher, que já vivia separada dele, no palácio da sua (dela) família,  porque o gesualdo era uma besta.


este responsório da semana santa tem esse ambiente sonoro das trevas que se abatem sobre a humanidade: da mãe que chora o filho morto.


se, normalmente, não separo o autor da sua obra, aqui está um dos casos em que acho o gesualdo genial, mas não consigo esquecer a besta que foi.

eu sei que isto me tira metade dos prazeres da vida; que eu devia saber menos sobre os outros; que só devia ouvir apenas isto que é absolutamente genial...


eu sei, é a vida...

mas oiçam este plange quase virgo, dos fantásticos graindelavoix!

muito alto, se puderem.

13 de fevereiro de 2026

l'arpeggiata, la tarantella



a christina pluhar é uma das grandes unanimidades da musica antiga e da sua ligação às tradições musicais.

conhecida pela sua abordagem inovadora da música antiga, mistura elementos da prática histórica com improvisações criativas e a influência de outras tradições musicais. 

neste disco que vos trago para a banda sonora do dia, "la tarantella", resgata as músicas tradicionais do sul da Itália, especialmente da região da puglia, onde as tarantellas surgiram como parte de um ritual que une as pessoas numa festa comum.


christina pluhar utiliza, com o seu grupo L'Arpeggiata, instrumentos históricos, como a tiorba e o alaúde, e vozes que remetem para o canto tradicional.

este deslumbrante disco recria a atmosfera vibrante e mística das tarantellas e transporta-nos para o sul de Itália. 

la tarantella - antidotum tarantulae é uma recriação artística dessa tradição, reunindo peças instrumentais e vocais que evocam o carácter ritualístico e a energia festiva das tarantellas. 


se há um disco que pode servir como grande introdução à tarantela, este é seguramente aquele que devem escolher antes de se embrenharem num novo vício.