19 de Julho de 2014

Ribeira das Naus

Ribeira das Naus from Câmara Municipal de Lisboa on Vimeo.

O trovão definitivo

João Ubaldo Ribeiro. Escritor brasileiro. 

João.
Meu dia passou.
João, não.

Ficou nas entrelinhas da minha vida.
Renata disse que ele tinha voz de trovão. E tinha mesmo.
Rodrigo disse que bastou um de seus livros para percebê-lo definitivo.

Passei o dia pensando no definitivo da voz de trovão.
João, que entendeu como poucos o povo brasileiro, saiu de cena assim, meio à francesa, sem dar aviso.
Justo ele. Espalhafatoso delicado.

No Jornal Nacional os famosos e os anônimos falaram dele com a mesma simplicidade desconcertante. Com a mesma saudade. Com o mesmo carinho.

João, hoje, virou letra no céu.

Meu dia passou.
João, não.

(Mercy Street - interpretada por Ritchie, da trilha sonora da Mini-série "O Sorriso do Lagarto", obra de João Ubaldo Ribeiro)

13 de Julho de 2014

But Beautiful

Um texto meu publicado noutro sítio, mas com ecos que aqui fazem sentido.


Meu caro H.,
Este despacho começou por ser uma diatribe contra a barbárie que tenta destruir o SNS, com um apelo à participação maciça na greve de Julho e ao combate em todas as frentes, tudo isto com banda sonora de Gil Scott-Heron - The revolution will not be televised, ou, numa versão para os mais novos, com Muse - Uprising. Deixei a marinar de ontem para hoje. E mandei tudo para o lixo virtual do computador. Decidi que hoje não me apetece, e tu não mereces, perder tempo com isto. Quando chegar o momento de lutar lá estaremos, na linha da frente.

É que, entretanto, acabei de ler um livrinho que já estava publicado desde 1991, ganhou um Somerset Maugham Book Award no ano seguinte e tornou-se livro de culto. Não o conhecia. Apanhei-o outro dia por acaso e marchou num ápice. O livro chama-se But Beautiful, foi escrito por Geoff Dyer, escritor e ensaísta inglês, e fala de jazz. Foi recentemente traduzido pela Quetzal com o título Mas é Bonito.

Este não é um livro comum. São pequenas histórias, ou que aconteceram ou que poderiam ter acontecido, parafraseando o Inimigo Público. Dyer pega em fotografias e textos e recria momentos ou períodos de vida de alguns dos maiores da história do jazz. A fazer a ligação entre histórias há uma viagem de automóvel através de um pedaço da América. Ao volante, Harry Carney. No lugar do morto vai Duke Ellington, a congeminar e rabiscar ideias musicais para novas peças.

Não te vou contar as histórias, claro, mas posso referir-te os nomes convocados. Lester Young, Thelonious Monk, Bud Powell, Ben Webster, Charles Mingus, Chet Baker, Art Pepper. Há outros nos bastidores, igualmente grandes.

Estas histórias não são simples nem fáceis. O fio condutor é o talento quase impossível dos retratados e o modo como esse talento sobressai das suas vidas, na maioria dos casos caóticas. Há de tudo: racismo, insultos, agressões, álcool de todas as proveniências, drogas de todos os géneros e feitios, violência, doença física, doença mental, prisão, electrochoques, tratamentos, reabilitações, recaídas. E há momentos de bondade, dedicação, voluntarismo, profissionalismo, rigor, improviso, tenacidade, apoio mútuo, enfim, da beleza de que fala o título. A música, essa, está lá sempre, seja numa carruagem de comboio, seja num apartamento minúsculo com o banco do piano a entrar pela cozinha, seja no pátio de uma penitenciária em que o som de um sax alto directo aos céus gera o silêncio total. Essa música, essa vocação, é mais forte que as circunstâncias envolventes. Mesmo quando tudo parece estar perdido os protagonistas ressurgem, e só a morte os cala - a doença quase incapacitante, que à maioria oblitera, a estes não o consegue fazer. Mingus em cadeira de rodas, Roland Kirk primeiro cego e depois hemiplégico, continuam a fazer música até ao fim. E os músicos de jazz tocam em sessões contínuas, noite após noite, sete noites por semana, sempre obrigados a reproduzir com fidelidade os temas e de improvisar sobre eles, fazendo algo que, sendo sempre igual, se torna sempre único - uma diferença que só os próprios e os que os ouvem compreendem.

O livro termina com um ensaio sobre jazz que o enquadra historicamente e reflecte sobre o seu futuro. Passados mais de vinte anos sobre a sua escrita o jazz continua vivo e recomendável, apesar da contínua produção de produtos de fancaria para vender às massas.

E só agora me apercebo de que, na verdade, nunca deixei de falar de nós e do SNS. Bem podem tentar destruí-lo, bem nos podem massacrar com horários impossíveis e tarefas impossíveis. O SNS pode estar ferido, depauperado, vítima de malnutrição e de atrocidades variadas. A verdade é que continua lindo. E vai resistir.

Até sempre e um abraço,
A.

(Banda sonora deste despacho: Billie Holiday - But Beautiful. Em complemento, versões de Stan Getz/Bill Evans ou de Art Pepper/Bill Cables/George Mraz/Elvin Jones). 



12 de Julho de 2014

Dar e receber









Numa pequena rua de Lisboa, passando sem tempo,  tive de o encontrar, para vos dar esta foto. Alguém quis que assim fosse e ainda bem!

11 de Julho de 2014

Nuno San Payo

"É um mau hábito emprestar livros. Não são menos nossos, menos pessoais, nem devem merecer-nos menos consideração do que uns sapatos ou um fato, antes pelo contrário e no entanto ninguém deixa andar as suas roupas ou os seus objectos de uso de mão em mão"
Extracto de um conto de Maria da Graça Freire, desenho de Nuno San Payo,Revista Panorama, 1957

5 de Julho de 2014

Tílias e Sophia

“De repente ouvia-se uma voz: Onde está a Sophia? Não havia Sophia, mas o ar era fresco como se atravessássemos uma alameda de tílias.” Eugénio de Andrade Foto Correia dos Santos, 1968.

3 de Julho de 2014

La "gorda" se fue!


Ah, minha “gorda” linda, minha bicicleta. 
Ontem à tarde, alguém a levou, no Campus Universitário. 

Tento convencer-me de que, talvez, tenha sido ela quem resolveu se mandar. Porque era uma bicicleta especial, com personalidade e não ia se deixar montar assim, por um desconhecido qualquer, tão facilmente. 

Afinal, a nossa relação era de longo tempo, éramos amantes fiéis. 
Ou quase...

Minha gordinha... Sinto uma dor no peito ao pensar em sua ausência. Eu reconheço que já a vinha traindo com um outro modelo, mais moderna, mais “magrinha” e com, ufa, 25 marchas de velocidade! Um presente que ganhei do meu grande amigo Eduardo Scott. Bastava subir e ela já disparava, como uma louca pelas ruas, em alta velocidade.

Ramon y su "gordita"
Mas eu gostava tanto da minha “gordinha”… Que é que vou fazer? Éramos tão íntimos, ela sabia tudo de mim e eu dela… Era uma “gordinha” bem solta, sem freios. Para contê-la era preciso mais jeito e menos força. Para conseguir pará-la, era só dar uma pedalada para trás.

Deus queira que o ladrão lhe trate bem e lhe respeite, como eu. Ela não suportaria maus-tratos. Que seja cortes, não abuse dela. Como toda bicicleta-amiga, ela tem direito a um descanso, não é mesmo?  Pois, que a trate bem, então. Que a deixe limpinha, cuide da sua pintura, que não lhe dê solavancos e nem a meta em buracos, certo?


E que a gorda se aproveite dele como se aproveitou de mim, até decidir ir embora! 
Por fim, uma confissão: 
Eu trocaria, sem pestanejar, duas magras pela minha gorda!  

Tradução livre e adaptação de Maranhão Viegas para história real e original de Ramon Rocha Monroy, um dos melhores cronistas que a Bolívia (e, mais especificamente, Cochabamba) já deu. 

18 de Junho de 2014

Evocando José Saramago


Saramago deixou-nos num dia 18 de junho e assim passaram quatro anos. Dos títulos lidos, foi diverso o acolhimento de leitora, embora – rejeitando apreciações à superfície – o talento sempre foi inegável (a avidez de leitura ou o seu contrário não devem conduzir a apreciações levianas). Ficará, a título ilustrativo, a genialidade de O Ano da Morte de Ricardo Reis a exigir a leitura prévia de textos de um outro grande nome da nossa Literatura (e sai o sorriso amargo, ao verificar os bestsellers, os destaques nas livrarias). Ainda a memória daquele dia em que, em frente ao televisor, soubemos da atribuição do Nobel. "Lembra-se de ali se ter sentado em outros tempos, tão distantes que pode duvidar se os viveu ele mesmo, Ou alguém por mim, talvez com igual rosto e nome, mas outro." – José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

foto: Eduardo Gageiro in Lisboa no Cais da Memória

15 de Junho de 2014

Brasília vestida para a festa do Futebol


Minha cidade, moderna,
que em curvas e linhas 
traduz o belo
hoje dispensa o concreto
e se cobre de verde e amarelo

Orgulho de menina
Debutante em festa de gala
mas absolutamente verdadeiro
De um encanto tão intenso 
que me faz perder a fala

Por conta da bola que rola
Brasília se envaidece
no gramado do Mané
e passa o dia a sorrir
um riso definitivo
de menina, de mulher

E sorrindo nos alenta
de toda a tristeza da vida
A cidade construída
no Planalto Central do Brasil 
abre as asas sob o sol
para ser, só por uns dias,
a Capital do Futebol





Na última sexta-feira, a natureza resolveu
entrar na roda. A noite pintou a
Lua de amarelo e a serviu, saborosa,
sobre o prato da Câmara Federal.
Carlos Vieira viu e registrou essa
composição magistral.  

28 de Maio de 2014

Parabéns T!


... e porque hoje és pequenina, que tenhas tudo de bom ao longo ao longo dos anos: saúde, amor, felicidade e uma horta e jardim cheios de coisas boas. Muitos parabéns, T.

(foto: Sergio Larrain)

29 de Abril de 2014

Artur Pastor


Não conhecia este fotógrafo, mas tenho vindo a descobri-lo e a admirá-lo

Documento PT/AMLSB/ART/000150;Arquivo Municipal de Lisboa

Caras

Já agora, na mesma reportagem de 1975, encontrei esta outra imagem...Uma das personalidades será fácil de adivinhar, outra talvez não.

21 de Abril de 2014

Lá na minha cama, por favor!


Poesia não se explica. 
Poesia se sente, se vive. 

Mas essa que está ai em cima, do Nicolas Behr, carece de uma mínima orientação para quem não é de Brasília e não compreende como a cidade, cuidadosamente desenhada pelas linhas de Oscar Niemeyer e pelos traçados de Lúcio Costa, se esparrama morena e sestrosa sobre o chão do cerrado. Como uma ave, uma nave, pousada no Planalto Central, com seus eixos, suas asas e seus monumentos. 

Nicolas, investido do seu caráter de poeta/mágico/transformador, pegou endereços conhecidos dos brasilienses, o Eixo Monumental, a L2, a W3, as Superquadras e transformou-os em atributos femininos. Imaginária ou não, Suzana, ganhou linhas de Brasília. Contornos capazes de provocar a libido de qualquer um. Capaz de brincar com o imaginário alheio, fazendo (não se sabe ao certo) da cidade uma mulher ou da mulher uma cidade. Ave, nave, avião em doce e delicado voo. 

Coisa de poeta.
Impossível não enxergar beleza nisso. 
Impossível não invejar, não desejar um pouso desses em minha cama, também.
Viva, o poeta e sua poesia!
Viva, Brasília, em seus 54 anos de cidade (complicada e perfeitinha)! 

(A poesía está transcrita em forma de mosaico, grudado nas paredes da Biblioteca Demonstrativa das quadras 506/507, na W 3 Sul, aqui em Brasília. E me foi carinhosamente lembrada por Renata Sanches, que postou em sua página, no Facebook, agora há pouco. Obrigado, Nicolas. Valeu, Renata!)

18 de Abril de 2014

A flor amarela do meu jardim

A preferida de Gabriel Garcia Márquez


Carta para Angélica Castro*

Querida amiga.

Durmo ao sabor do cansaço e de duas taças de vinho. O vinho me rejuvenesce e me salva das agruras cotidianas. Abre as portas do meu mundo mágico e me estende a esteira do sagrado sono, reconciliador da alma.

Acordo. É sexta santa. Mas a dor que permeia o dia vem da tua Colômbia e deságua no mundo. Gabo se foi. Aos 87, Gabriel Garcia Márquez, o mestre da fantasia do mundo latino, o jornalista sagaz e bem falante, transpõe os limites findos do que é real para iniciar a sua maior obra imaginária. Em outro plano astral. 

Não há como não sentir um impacto no peito.

Divido com meu pai, fiel leitor da Garcia Márquez a dor de perdê-lo, como quem se vê afastado em definitivo de um amigo íntimo. Busco na memória as primeiras linhas dele que me chegaram às mãos. Principiei pelo maior de todos, “Cem anos de Solidão”.


Li como um adolescente apaixonado. Aquelas mais de quatrocentas páginas, em que desfilavam as histórias de sete gerações de uma mesma família, os Buendia. Aquilo parecia um filme escrito. Enquanto lia, enxergava a imagem de cada um daqueles personagens, a cidade de Macondo (muitas vezes, tão parecida com a minha São Luis), o cigano, o menino, a mulher, a paixão pela vida, a fantasia, a magia, a descoberta do sexo, a tristeza, a morte, a vida... Tudo ali me parecia íntimo e encantador.

A essência do bom jornalista se plantou inteira em “Crônica de uma morte anunciada”, um dos meus preferidos. Pela abusada descrição do trágico irremediável. Pela objetividade dos fatos. Pela crueza do destino imutável. Pela tragédia anunciada em primeira página, que vai lenta e vigorosamente se confirmando até que  o ato se consuma, na última.  


Gabriel Garcia me deu lições de vida e, acho, continuará dando. Meu pesar, como jornalista, aprendiz de escritor, pretenso poeta, é também o mesmo que deve te tomar agora, como a milhares de colombianos e milhões de admiradores dele, espalhados pelo mundo.

Por isso, acordei pensando em ti e te escrevo, em solidariedade. Mas te escrevo, também,  para que saibas desse amor que tenho pela escrita dele. E o quê isso significa em minha vida. Minha Macondo pessoal está mais triste hoje.

No jardim, as flores amarelas insistirão em brotar, pelo infinito dos tempos. Apesar de hoje. Por Gabo. Por todos nós.

Capa do Caderno Especial do Correio Braziliense, edição de hoje.


Angelica Castro  é uma amiga, especialista em transportes e mobilidade urbana, a quem conheci não faz muito tempo. E que, se não me faço enganado, como milhões de outros leitores e como colombiana, também deve estar sentindo a partida de Gabriel.