23 de maio de 2015

O estranho caso das botas que deram flor...


Ao longo do ano, passo na Rua de S. Marçal, nunca deixando de admirar tão originais floreiras. Os arranjos dependem da estação . A primeira imagem foi captada no início do ano, a segunda fotografia tem dois dias e já ostenta nova escolha.


Olho ainda para as mansardas, nesta mesma rua e no sentido do rio. Floreiras nas janelas que, cá de baixo, me parecem sardinheiras vermelhas. Penso que por aqui e entre as gerações mais antigas, habita muita gente nostálgica do (seu) campo de infância.

20 de maio de 2015

o fair play é uma treta


'o fair play é uma treta',
disse jorge jesus aí por 2006 quando era treinador do belenenses, a propósito da magna questão de enviar a bola para fora quando um jogador da equipa adversária está lesionado e o árbitro não interrompeu o jogo.
ontem, no giro de itália, a uns 8 kms da meta, o australiano richie porte teve um furo e foi ajudado por um outro australiano, simon clarke, que lhe facultou uma roda da sua bicicleta.
a conta oficial do giro de itália no twitter escreveu de imediato: 
“isto é ciclismo. este é o melhor desporto do mundo”,

poucos minutos depois, na mesma conta oficial do mesmo giro de itália vinha a mensagem que informava que ambos os ciclistas tinham sido penalizados com 2 minutos e 200 francos suiços. 

a questão não está na penalização e na multa porque ambos os ciclistas deviam saber o regulamento da união ciclista internacional. 
a questão está no regulamento que proíbe os ciclistas de se ajudarem uns aos outros se não forem da mesma equipa.
a questão está no regulamento que quer que o fair play seja uma treta

19 de maio de 2015

Alfama

Panfleto turístico de 1984
Ilustração 
Victor Belém
O problema dos costumes...1921

Barcelona em bilhete de ida e volta


Por motivos pessoais, algumas viagens têm sido feitas deste modo, com poucos dias para conhecer ou lembrar cidades memoráveis. Tendo visitado Barcelona há 20 anos, também por pouco tempo, a memória chegava desfocada.



Muita História e vida a fervilhar: o excesso nas linhas e dimensão da Sagrada Família que ficará concluída em cerca de 15 anos (estranha-se a mistura de estilos agora ligada ao monumento, Gaudi é, por si só, excessivo); a fachada do museu do cânhamo; o revisitar do Museu Picasso;  vestígios ancestrais da Idade Média, presentes nas salas do românico e do gótico do Museu Nacional de Arte; a Rambla, Babel de línguas distintas ; as bandeiras em tantas fachadas de prédios,  a reivindicar uma identidade, uma língua; o edifício moderno das Águas de Barcelona; as vielas do bairro de pescadores da Barceloneta - caminhos percorridos em menos de uma semana.


Regressa-se com a sensação de que se pode tratar Barcelona por tu, talvez pela simpatia de quem , atrás de um balcão de café, nos lança, em português, a palavra “obrigado”, na facilidade de saber sempre onde se está, nas inúmeras viagens de metro, meio de transporte muito acessível no preço e abrangência de quase toda a cidade (não sendo adivinha,  afirmo que irei voltar). Já em casa reparo que, lá fora, o vento marca presença, mas o importante é sentirmo-nos bem onde estamos. E o vendaval do dia não assusta pois, há três dias, a Catalunha viveu alerta máximo, com a forte ventania que levou (sobretudo os orientais) a passearem-se de máscara pelas artérias da cidade.

17 de maio de 2015

A história do homem do talho e da freguesa

A história é engraçada. O fotógrafo do Século Ilustrado passeia por Lisboa e fotografa vários casais, para um artigo sobre os namoros de Lisboa. As coisas não correm bem, um dos casais era um homem do talho e uma freguesa, mas não se tratava de namoro, mas sim uma conversa normal entre duas pessoas que se estimam. Reina o ano de 1951...

16 de maio de 2015

Dois postais de Lisboa




Dois postais de Lisboa: água fresca ou capilé e a varina...



Pomar no Campo Grande


Sabe bem passear no campo e apreciar esta andorinha.
Mas não é uma andorinha que faz um belo painel de azulejo.
Aconselho que façam uma pausa para a bica na esplanada do lago.

14 de maio de 2015

Que modernos estes antigos

Umas modernaças de 1938, veraneantes na Costa da Caparica


Toddy

Assim era a saúde e beleza proporcionadas pelo Toddy em 1938.


A Av. Gago Coutinho entre ficção e realidade

 

Desconheço desde quando recebeu a avenida a designação de Almirante Gago Coutinho. Ao longo da minha infância, a família referia-se-lhe como Av. do Aeroporto. Esses tempos já distantes, afastam-se da imaginação presente no conto “A Inaudita Guerra da Av. Gago Coutinho”, de Mário de Carvalho, mas os episódios  dos meus tempos de criança não deixaram de surpreender quando, mais tarde, me foram lembrados.

No conto de Mário de Carvalho, a musa Clio, responsável pela tessitura da História, adormece, trocando os fios da tapeçaria , o que gera total confusão de épocas e de acontecimentos. A troca provocada pelo sono, confunde situações separadas por cerca de 800 anos e, como consequência, uma multidão de invasores berberes, azenegues e árabes do século XII misturam-se, na Gago Coutinho, com automobilistas dos anos 80 do século XX, gerando-se um caos tal que, após pedras e flechas lançadas, é necessária a intervenção policial. Para quem não conhece o divertido texto, termina o mesmo com o acordar da musa dorminhoca que, não conseguindo reverter na totalidade os acontecimentos, borrifa os condutores e policiais com água do rio do esquecimento, o Letes, a fim de atenuar o transtorno. Fora do conflito armado, bem como dos “borrifos amnésicos” da tal água mitológica, afirmaria,  com um sorriso, que a ficção é, muitas vezes, mais divertida do que a realidade.


 
 
Nos idos 50 do passado século, a Av. do Aeroporto não vivia a guerra entre mouros e cristãos, mas um tipo de guerrilha caseira, a transtornar quotidianos dos moradores das espaçosas vivendas, muitas delas hoje destinadas a serviços e organizações. Os meus avós viviam do lado onde hoje existe o Parque Gomes Ferreira, confinando a parte de trás das casas com um bairro degradado, de gente com vidas de miséria. Na ausência de alarmes, muitas das moradias, nos altos muros a confinar com as barracas, eram protegidas com os hostis cacos de vidro, fixados no topo, a proteger de invasões.

O meu avô materno trabalhava, grande parte do ano, na Póvoa de Varzim, tendo ainda de viajar com regularidade. Em casa ficavam, por motivos de calendário escolar e de cuidados domésticos, a minha avó, uma tia de idade avançada, a minha mãe e as suas irmãs – um espaço quase sempre habitado por um agregado exclusivamente feminino.

No terreno a confinar com a porta de serviço, existia um pomar apelativo, com frutos doces e sumarentos. Os sobreviventes do bairro degradado, percebendo que em casa só se encontravam mulheres, protegiam as pernas com câmaras de ar vazias e à prova de cacos de vidro e, de sacos de serapilheira em riste, subiam às árvores com todo o vagar para escolherem o que lhes agradava, numa calma indescritível, como se estivessem às compras na praça. A minha avó, indignada, gritava-lhes que se fossem embora, ameaçando telefonar para a esquadra mais próxima. Muitas foram as ocasiões em que, em tom de comando , lhe disseram que fosse coser meias, que era o que qualquer mulher que se preze devia fazer…

Imagem 1: a musa Clio, pintura de Pierre Mignard, século XVII

Imagem 2: Av. Almirante Gago Coutinho em Panoramio, foto de Reinhard 1000 .

13 de maio de 2015

gino bartali



nestas semanas da volta a itália, é tempo de recordar gino bartali, um dos maiores nomes de sempre do ciclismo italiano, ofuscado pelo fulgor de fausto coppi e pela segunda guerra mundial.
em 1938, gino bartali comete a maior preoza se sempre dum ciclista italiano: venceu a volta a frança com mais de 18 minutos de avanço do segundo classificado e acumula com o triunfo na classificação da montanha.
era o grande orgulho da itália fascista e o modelo que benito mussolini queria como exemplo das virtudes da sua ditadura.
já tinha ganho duas voltas a itália, mas isso não servia para bandeira porque o tour sempre foi mais que o giro e ganhar em casa dos franceses era a suprema honra para a itália fascista
quando começou a guerra, o desporto na europa fechou para tiros e gino bartali continuava a treinar, com o seu equipamento de sempre, percorrendo as estradas da toscânia e da umbria, saudado pelo exército e pelas polícias fascistas à sua passagem.
todos estranham tanto afinco pelo treino em época de outras prioridades, mas achavam que era o afã de glórias de bartali que estava a trabalhar.
o que só se soube muito depois da sua morte, no ano 2000, era que gino bartali era um activo membro da resistência italiana e trabalhava com giogio nissim (um dos principais dirigentes da resistência italiana) ajudando a transportar, no quadro da sua bicicleta, documentos e passaportes falsos para ajudar resistentes e judeus italianos.
só quando os filhos de giogio nissim encontraram, em 2003, um velho diário do seu pai se soube do trabalho clandestino de gino bartali e das centenas de vidas que ajudou a salvar.
durante 50 anos, o que era clandestino, clandestino ficou.
bartali voltou a ganhar a volta a itália e a volta a frança depois da guerra.
regressou à sua antiga glória, mesmo que hoje só se fale de fausto coppi.

depois de acabar as corridas regressou á sua velha florença e à discrição que que gostava.
só depois da sua morte se soube das suas mais importantes vitórias.

Vacuum

A Experiência recomenda....Era assim em 1938.

12 de maio de 2015

A criada

A criada malcriada
Almanaque Bertrand, 1905




queimai-me !!




no dia 10 de maio de 1933, na königsplatz, em munique, começou a infame bücherverbrennung, a queima de livros executada pelos nazistas.
okkar maria graf, um notável escritor anarco sindicalista, activo membro da auto-proclamada (não são todas auto.proclamadas?) república soviética da baviera e do teatro operário 'novo palco', verificou com espanto e indignação que os seus livros não só não tinham sido queimados, como ainda eram recomendados.
2 dias depois, oskar graf escreve uma carta num jornal de viena (onde se tinha auto-exilado) uma carta a exigir que os seus livros fossem também queimados por aqueles que odiavam os livros
bertold brecht, que também fazia parte dos escritores 'nocivos', escreveu um poema baseado na carta que oskar maria graf ecreveu, 

'verbrennt mich!' (queimem-me)
quando o regime ordenou que queimassem em público
os livros de saber nocivo, e por toda a parte
os bois foram forçados a puxar carroças
carregadas de livros para a fogueira, um poeta
expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
livros tinham sido esquecidos. correu para a secretária
alado de cólera e escreveu uma carta aos do poder.
queima-me! escreveu com pena veloz, queima-me!
não me façais isso! não me deixes de fora! não disse eu
sempre a verdade nos meus livros? e agora
tratais-me como um mentiroso! ordeno-vos:
queimai-me!

10 de maio de 2015

Palmira Bastos: «As árvores morrem de pé»





Palmira Bastos deixou-nos a 10/5/1967

Lembro-me de, ainda criança, ter assistido na televisão à excelente representação de Palmira Bastos em “As Árvores Morrem de Pé”. Era a peça preferida da minha avó materna, grande frequentadora de teatro por viver na baixa lisboeta, perto de diversas salas dedicadas a esta arte. A minha avó, mulher resistente e enérgica, não se deixava entregar a preocupações e utilizava muito a frase que deu título à peça aqui referida. "As Árvores Morrem de Pé" terá sido uma das peças de teatro que marcaram para sempre os serões televisivos de teatro e a sua audiência fiel. Gravada no Teatro Avenida, com público presente, esta foi a última peça com que Palmira Bastos apareceu nos ecrãs de televisão, mas foi igualmente uma da suas melhores prestações de sempre. Quanto ao tratamento televisivo, todo ele esteve a cargo de Fernando Frazão. "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores". Esta frase, uma das mais célebres da televisão portuguesa, pertence à peça "As Árvores Morrem de Pé" e é dita quase no final .

Fonte do texto: arquivos RTP (adaptado)

Fotografia de Alberto Carlos Lima, 1912 - AML Palmira Bastos em cena com Leitão de Barros na peça “Eva”, no Teatro da Avenida

6 de maio de 2015

miguel serra i pàmies

muito da barcelona que hoje conhecemos, devemos à resistência de miguel serra i pàmies e ao seu amor pela catalunha e a sua cidade.




quando as tropas franquistas estavam às portas da cidade, e quando se sabia ser impossível resistir ao seu avanço, as forças republicanas tinham um plano para fazer explodir cerca de 1/4 da cidade: todas as pontes de acesso, a linha de metropolitano, o abastecimento de água, fábricas, tudo o que pudesse dar algum sustento às tropas franquistas.
o 'problema' destas destruições na retirada é que matam também muitos dos civis e destroem todo o legado histórico dum povo.
foi muito usado em muitas guerras (ajudou imenso a que as tropas napoleónicas fossem derrotadas na península), mas sempre matou muita gente que nada tinha a ver com o assunto.
os próprios franquistas ficam perplexos com o estado da cidade que esperavam ver destruída (como eles próprios fariam)
miguel serra i pàmies era um catalão de reus, profundamente defensor da sua catalunha.
era fundador e dirigente do partido socialista unificado da catalunha (que juntava o partido comunista catalão, a união socialista da catalunha, o partido catalão proletário e a federação catalã do psoe) 
esta desobediência valeu a miguel serra i pàmies a prisão e o julgamento por traição, responsabilidade da derrota das forças republicanas na catalunha e destruição dos fundos partidários.
a sua defesa firme da cidade de barcelona e o entendimento da 'política de terra queimada' ser um morticínio numa cidade da dimensão de barcelona, ditaram a sua parcial absolvição, mas não a continuidade da prisão que só acabou quando fugiu para o méxico, de onde nunca mais saiu.

se hoje amamos barcelona, muito a miguel serra i pàmies o devemos.
porque se soube manter firme na defesa da sua cidade e do seu povo.




4 de maio de 2015

Scipião

Scipião e a entrada no céu...
Uma história muito moderna, apesar de datada de 1928,contada por Bernardo Marques.

A Luandino Viera em dia de aniversário

Luandino Vieira nasceu a 4/5/1935

[…] Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio, deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio e vão dar encontro aí com a castanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdes abrem como um feijão e um pequeno pau está nascer debaixo da terra com beijos da chuva. O fio da vida não foi partido.

Luuanda, “Estória do ladrão e do papagaio” (parábola do cajueiro)

 
 
 
Lembro Luuanda, um livro de contos que, entre os exemplares das estantes da sala repousava, discretamente arrumado, numa época em que era proibida a leitura de obras a pôr em causa a guerra e o regime (podes ler o livro, mas cá em casa, não no comboio). Ainda no início da adolescência, fiquei fascinada com a criatividade dos contos, do brilho de uma língua portuguesa “não desbotada por racionalidades ou  lixívia”, expressão mais tarde utilizada por Mia Couto.

 
O tempo passou e, quase duas décadas depois, a dar aulas em Angola, descobri que Luandino era meu vizinho, a época era de dureza, nesses anos 80 do passado século. Verifiquei então que, quase diariamente, nos cruzávamos de carro, eu seria a condutora anónima, ele, o  escritor descoberto na juventude, cuja produção literária foi ,em grande parte, criada no campo de concentração do Tarrafal, onde permaneceu durante 11 anos.

 
Muito inovadores serão outros escritores em língua portuguesa. No tocante a literaturas africanas, a matriz da inovação linguística pertence a este homem simples, lutador e avesso a protagonismos.

Imagens: retiradas do mural “De Luuanda a Luandino: veredas”, colóquio realizado na Faculdade de Letras do Porto, nos dias 10 e 11 de novembro de 2014, para comemorar os 50 anos da publicação de Luuanda.

3 de maio de 2015

Nem creme, nem óleo

Hoje não é dia de ir à praia...Nem creme, nem óleo. 1957


La Rose - Tempos diferentes




As famosas conservas La Rose voltaram! 
Em 1938, o anúncio não era propriamente de promoção da marca mas sim uma declaração de apoio do industrial aos políticos fascistas ibéricos.
Hoje aparecem mais coloridas. 
As fotos foram tiradas na feira de produtos tradicionais no Príncipe Real. Uma ideia simples que resulta muito bem. É difícil não comprar qualquer coisa, tal é a abundante boa escolha de produtos.