24 de outubro de 2020

O mundo é uma bola


 

Em 1970, eu tinha oito anos. Lembro vivamente a imagem de um homem magro, calçando um Conga (uma das poucas marcas de calçados esportivos à época no Brasil), calção azul e camiseta regata amarela, correndo pelas ruas da minha Madre Deus, com uma bandeira do Brasil nas mãos. 

 

Olhei intrigado. Intrigação de menino. Por que ele está fazendo isso? Perguntei à minha avó. Pelé. Ela respondeu. E seguiu falando, depois de uma pequena pausa. Pelé ganhou a copa do México. Era 1970. E eu nunca esqueci aquela cena. 

 

Depois, acompanhei ao largo, encantado como um súdito, a trajetória do Rei do Futebol. O mais legítimo que o Brasil já teve. Fazia com a bola o equivalente ao que Platão, Sócrates e Nietsche fizeram com o pensamento. Um Einstein dentro das quatro linhas da relatividade futebolística. 


Foto: Assessoria CBF
Foto: Arquivo CBF

Faz oitenta anos que ele nasceu para ser rei na eternidade. Neste 23 de outubro, todos se rendem à evidência que seus pés comprovaram, cada vez que a torcida assistindo a um espetáculo gritou “gol de Pelé”: o mundo é uma bola.  

13 de junho de 2020

Diário de pandemia - Crônica de sexta 12.06.2020

O amor prevalecerá. 
Nas coisas mais simples. 
Um café com pão e manteiga. 
Um sorriso por trás das máscaras. 

Um afago. 
Um carinho. 
Um cuidado. 

O amor prevalecerá no abraço, 
depois que o isolamento passar. 
O amor prevalecerá 
porque esta é a condição humana. 
Amar. 

Não fosse isso, seríamos nada. 
Seríamos o vazio existencial. 
A terra seria estéril.
E dificilmente, haveria pólen suficiente para 
o labor indispensável das abelhas.

Por isso, e porque não há o que justifique 
alguém no mundo nascer para a solidão, 
o amor prevalecerá. 
Ponto inicial. 

6 de junho de 2020

Diário da pandemia - 05.06.2020


HAI CAI DO SILÊNCIO

LONGO CAMINHO
SILÊNCIO A TEU LADO
CALADO E SÓ


HAI CAI DA DOR

TEMPO ESTRANHO
CORAÇÃO DOLORIDO
CHORO CONTIDO


HAI CAI DO ALÍVIO

POR HORA SOFRO
A NOITE SE DESENHA
E A DOR SE VAI


15 de maio de 2020

Diário de pandemia - Música no Varal - 15.05.2020


Foto: Maranhão Viegas 

A TARDE NEM COMEÇAVA
NO CÉU HAVIA UM SINAL
NOS FIOS COMO UMA PAUTA, 
UMA CIFRA MUSICAL

UM BANDO DE PASSARINHOS
EM CANTIGA SEMINAL
LONGE DOS DRAMAS DO MUNDO
ENFEITANDO NOSSO QUINTAL

DESCANSAM EM BREVE PARADA
COISA DE NÃO TER HORA
PLANEJAM VOOS RASANTES
PRA PASSAR DEPRESSA O AGORA

QUE AGORA NÃO TEM MAIS JEITO
ESTÁ DESFEITO O QUE FOI
MAS LOGO VEM BOA HORA
E A TRISTEZA DESSE TEMPO
A GENTE MANDA EMBORA

4 de maio de 2020

Caía a tarde feito um viaduto

Aldir Blanc - Foto: Reprodução redes sociais
Morreu hoje, no Rio de Janeiro, vítima de complicações provocadas pela COVID-19, Aldir Blanc. Escritor e compositor brasileiro, autor de clássicos eternizados na voz de Elis Regina, como "O bêbado e a equilibrista",  que tornou-se uma espécie de hino informal da Anistia.

Aldir Blanc foi parceiro assíduo de outro grande da música brasileira, João Bosco, com quem compôs "Mestre sala dos Mares", "De frente pro crime", "Dois pra lá dois pra cá".

A segunda-feira fica mais triste. E esse 2020 vai ficando mais repleto de quartas-feiras de cinza.

Aldir e João Bosco
Foto: Fabio Motta 

3 de maio de 2020

Diário de Pandemia - Deus é que sabe



Que dia é hoje?

A pergunta tornou-se usual, frequente, persistente, insistente, nesses dias de pandemia. É como se tivéssemos perdido a noção do tempo. E acho mesmo que perdemos. Em tempo de pandemia, vamos descobrindo como é viver o comedimento. Sobreviver com o pouco, reconhecer e respeitar os limites. 

No caso do tempo, tenho a sensação de que abrimos mão, sem querer, do calendário. Tornou-se obsoleto. Ou, adotamos por descuido, quem sabe, necessidade, uma versão mais simplificada. Meu tempo agora, por exemplo, cabe muito bem em três estágios: um ontem, um hoje e um amanhã. Agradeço e dispenso o excesso. Me encaixo ao resumo. Um tempo desmedido, sob medida.  

Está mais curta a respiração (mais anchos só mesmo os suspiros). Estão mais curtos os passos. Os gestos, menos efusivos do que foram a vida inteira. Acabrunhamos. Nos reservamos a distância medida. Nos abraçamos com olhares. Nossos olhos por trás das máscaras resguardam sorrisos e choros. Por vezes, entristecemos; por vezes, emocionamos. 

Volta e meia me assalta a pergunta: Que dia é hoje? E meu pensamento voa.  

Podia ser um dia qualquer. Com o sol brilhando lá fora. Com pássaros invadindo a manhã. Com as ruas cheias. Enxames de gentes e carros. Alguém tomando decisões. A vida virando do avesso. Um dia com flores no jardim, água corrente, balão solto no ar, velas ao vento e bicicletas na ladeira. Um dia qualquer. Um domingo qualquer.

Sem resposta imediata, abro a caixa de mensagens. Brilha um sinal. Tem nova. Roberto Além Rojo, meu compadre, cineasta boliviano, que foi pego de surpresa pela pandemia e está retido temporariamente no coração da África, me manda poesia em forma de imagem. 

Mal sabe ele, com uma possibilidade real de resposta à minha pergunta: que dia é hoje?
Na imagem que recebo, homens expostos ao mar azul do Pacífico, ocupam um barco onde se lê a resposta que peço, quase em oração: "Deus é que sabe".



Foto: Roberto Além Rojo

19 de abril de 2020

Porque nem tudo é só tristeza

Hoje é domingo.
Os domingos pedem música. E, também, poesia.
E a receita pra espantar a tristeza imposta pela pandemia não podia ser outra: música e poesia.

Tempos atrás escrevi uma poesia. Marcos Mendes e Maria Cláudia, grandes amigos dos tempos em que vivi em Mato Grosso do Sul, mantêm um canal de música na internet (os dois são intérpretes e compositores, da melhor qualidade) e resolveram musicar a poesia que fiz.

O resultado está ai. Eu agradeço, comovido, aos dois a delicadeza da canção.
E dedico a música a Patrícia Leite.

28 de março de 2020

Diário de Quarentena - O Brasil sob o vírus


Foto: Patrícia Leite
A semana que parece um século chegou à sexta-feira, aqui no Brasil.
Hoje, pela primeira vez em sete dias, vesti luvas e máscara e saí de casa para abastecer a dispensa e comprar remédios.

Quando essa história começou, sete dias atrás, eu e Pat, minha companheira de vida, fizemos um estoque compatível com o tamanho do meu apartamento. Sete dias de alimento e tranqüilidade. Saio, portanto, por absoluta necessidade.

Lá fora, encontro um país mudado. A revelia de quem queira pensar o contrário. Não, o que estamos vivendo não é uma coisinha pequena. Não é passageiro. Vai impor que se repense esse jeito veloz de desejar as coisas, de querer sempre mais.

Quem poderia imaginar que, um mês atrás, entrar em um supermercado ou uma farmácia usando luvas e máscara não fosse despertar estranheza? Ainda mais, neste país tropical - até aqui - abençoado por Deus? Mais do que isso: Quem imaginaria encontrar outras pessoas fazendo o mesmo e também achar absolutamente normal?

Há uma disciplina tácita que nos mantém, a maioria dos brasileiros conscientes, a uma distância protocolar e segura de dois metros, uns dos outros. Na fila do pão, à espera do atendimento no açougue, na fila do caixa, em qualquer lugar.

Ainda não há desespero em busca de produtos. Mas as máscaras já não são mais encontradas em farmácias. Nunca foram muitas. Agora, são raridade. Antes da necessidade de usá-las no dia-a-dia, nunca me passou pela cabeça comprar máscaras hospitalares. Álcool também é produto mais difícil de encontrar. No mercado em que fui, não havia papel toalha. Sabe-se lá, por quê?

O que se sabe é que todos estão mais atentos à higienização. O que é um bom sinal quando se luta contra um inimigo invisível, como esse tal coronavírus. Na porta da padaria, um funcionário segura um aspersor com álcool, à disposição de todos que queiram higienizar as mãos, ao chegar ou ao sair do estabelecimento.

No mercado de verduras e legumes, todos os caixas estão protegidos por uma lâmina de material acrílico, de tal forma que o ar que respiramos não seja trocado entre nós (clientes e funcionários).

Mas há uma mudança que é impossível não sentir: tudo está mais caro. Seja pela escassez dos produtos, seja pelo desabastecimento, pela dificuldade de produção... ou, mesmo, pelo oportunismo de alguns. A vida está mais cara em tempos de corona.

Volto pra casa com menos dinheiro, mas abastecido. Antes de entrar no apartamento, sigo os conselhos que médicos e especialistas sugerem: retiro os chinelos e as luvas. Estas, vão direto para o lixo. Os chinelos, para o banheiro onde serão lavados. A roupa segue para a lavagem também. Por fim, um banho se encarrega de me deixar limpo, livre de qualquer vestígio de impureza externa e pronto para seguir a rotina de casa em maior segurança.

É difícil conter  a intranquilidade nos olhos, toda vez que eles param na TV, ou no computador. O medo está entre nós. E vem em ondas com as notícias. O desafio é separar o que é falso e o que é verdade. São os novos tempos.

Quase no meio da tarde, recebo uma mensagem da minha professora Elvira Lobato. A mestra que me batizou de Maranhão Viegas, desde o primeiro dia de faculdade, na UNISINOS. Já lá se vão 38 anos. Nunca nos perdemos de vista e é sempre um prazer receber um sinal enviado por ela.

Hoje, despretensiosamente, me mandou um conjunto de imagens que mostrava monumentos públicos, de várias partes do mundo, protegidos com máscaras nos rostos. Como se fossem, eles mesmos, possíveis vítimas desse novo tempo. Refletiam uma inteligente forma de alertar: o mundo está sob ataque. E o uso correto de uma máscara pode salvar muitas vidas.

Pronto. Estava ali a inspiração que eu precisava para oferecer ao Repórter Brasil, telejornal da TV Brasil, do qual estou Editor-chefe, uma crônica de sexta. Ela nasceu. E está logo aí embaixo. Assim, encerro a primeira semana de isolamento. Vida que segue.



22 de março de 2020

Sobre sonhos e pesadelos

Resultado de imagem para o mundo

Visto daqui o mundo parece ter diminuído. À medida de uma gota. Perigosa gota. Visto daqui meus olhos enxergam um susto, um surto, um monstro. Como naqueles pesadelos de criança. Como nas noites de vento frio e falta de cobertor. 

Naqueles tempos, a monstruosidade assustava em sonho. E acabava no exato momento de acordar. Um segundo antes de o pior acontecer. Puf! A realidade vencia o medo. Ficava o espanto, que a gente dava conta de aturar. E com o passar do dia, o espanto ia ficando pequenininho, pequenininho, até sumir. À noite, na nova noite, não havia monstro, não havia pesadelo, o sono voltava ao normal. 

No hoje de agora, o sono pesa, custa a chegar. Dormindo não se descansa, acordado nos falta a paz. Nossos monstros de agora são tão reais quanto invisíveis. Dormir e acordar já não serve para espantar o que nos assombra o tempo todo. Monstro voraz que nos alcança em todo lugar. 


Está em nós, entretanto, alcançar o que ele não alcança. Tolerância. Aquilo que perdemos há algum tempo. Paciência, que ficou esquecida, sem valor agregado já faz hora. Leveza, que nos pesa de tão pesados.

O que o mundo uniu em velocidade instantânea, o que levou tanto tempo pra ser alcançado, nesse começo de século se perdeu como em sonho assombrado de criança, que não consegue se ver livre dos monstros, mesmo quando acorda. 

O que antes parecia unido e forte, for perdendo vigor, valor, valia. O ser humano virou bites. Mais zeros do que uns. Numa batida imperfeita e veloz, a imperfeição tomou conta do espaço sem dar permissão a desejos de sanidade. Insanos, nos tornamos estranhos. Monstros de nós mesmo. Nem dormimos , nem acordamos. Monstruamos. 


E agora, que a vida é posta em cheque, resta reconhecer o labirinto que construímos e perceber que não há saída à vista, se seguirmos sós, se insistirmos na solidão das nossas verdades absolutas, brutos, arrogantes, ignorantes.   

Achar o rumo, encontrar a saída, acordar do pesadelo adulto em que nos metemos exigirá humildade. Despidos dessa volúpia fugaz que nos envolve, a cada um e a todos, é capaz que se encontre uma nesga de luz. 


Antes, porém, haverá dor. Uma dor que não somos capazes de medir, a não ser quando nos alcança bem perto do peito, no fundo da alma. O mergulho que nos espera, dolorido e sem norte, é também o que nos levará a uma nova consciência. 


Quem sabe, uma descoberta da urgência infalível – corpo que pede espírito. Alma que transcende ao tempo. Matéria em fazimento orgânico de um nascimento novo, aprendendo a ser humano. De novo. 

9 de janeiro de 2020

O sertão do Brasil em forma de poesia


Quando ele nasceu, seu pai achou por bem lhe atribuir nome de apóstolo e de descobridor. João Cabral. Um menino predestinado? Talvez. Talvez, venha dai a poesia intrínseca, capaz de transformar a pobreza das gentes em riqueza essencial para a alma. 

O menino com nome de apóstolo e de descobridor honrou em vida suas duas joias de origem. Apostolou poesia sertaneja. Universalizou a dignidade humana com traços fiéis do Brasil mais profundo. Descobriu que podia ser muitos, sendo um só. E traduziu em seus versos o olhar que faltava para preencher de vigor o que o mundo só enxergava pela janela da tristeza e da dor.

Há cem anos nascia João Cabral de Melo Neto. Poeta brasileiro que desenhou, como poucos, o sertão em suas linhas tortas e certeiras.  



Vinícius de Moraes (esquerda) e João Cabral, em Paris, 1964.
Foto de Pedro de Moraes para o livro "100 anos de poesia".

9 de dezembro de 2019

Olhar avesso - o teu e o meu




O teu olhar e o meu
veem a mesma direção

O teu invade o guardado
O meu já sabe que não

Vista de longe a paisagem
Viagem na contramão
Esfrego os olhos aflito
recorro à intuição

Ei, sujeito, se emende
Abra o olho, ele te mostra
olhar que tens aí dentro
Já encontrou a resposta

O olho fechado é cego
O olho aberto é clarão
Pra um olho que inveja o vento
Ventania é furacão


Marcos Mendes e Maria Cláudia me deram um presente de início de ano: musicaram o meu poema. Motivo suficiente para acreditar num ano melhor do que o que se foi. A música vem logo ai, embaixo.  Meu silêncio explode internamente. Agradecido.



29 de agosto de 2019

Bacurau, Brasil


Bacurau (Brasil, 2019, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) é o filme brasileiro que deve fazer Tarantino se perguntar “Como não fui eu que fiz”? Há nele uma história densa, de um Brasil profundo e real. Daquele Brasil que Glauber Rocha encontrou com sua câmera nervosa no sertão nordestino do Século passado. Ou, que Nelson Pereira dos Santos gravou com poesia árida, no mesmo sertão brasileiro. Mas tem mais. Não há luxo em identificar traços de Hitchcock, nem exagero em perceber suspense extraído da mesma fonte onde bebeu de John Carpenter.

Não é pouco, portanto. É muito e isso é bom.

Ele estreia nesta quinta-feira, 29.08, nas telas nacionais. Dias atrás, consegui vê-lo em pré-estreia. Por um lance de sorte. O meu tempo não coincidia com o das sessões do filme que originalmente planejava ver na noite de sábado. Para não perder a viagem passei os olhos nas alternativas e percebi que ainda havia uns poucos lugares, nas fileiras que ficam quase embaixo da tela, para a sessão de Bacurau, a primeira a ser exibida no Cine Cultura, aqui em Brasília.


Lá fui eu, sem saber o quê esperar de fato. Havia um frio em minha barriga. Pelo que já tinha lido, pelo resultado em Cannes, pelo receio do que veria. Esse tempo de incertezas faz a descrença virar sombra da gente. Mas já nas primeiras cenas fui seduzido por um roteiro porreta, uma direção ao mesmo tempo bruta e delicada e uma história que me sequestrou do mundo lá fora e me fez embarcar de corpo e alma na viagem para Bacurau. 

Bacurau é um lugarejo qualquer na imensidão de terra seca do Nordeste Brasileiro. O sertão que leva a Bacurau é muito parecido com o sertão de Big Jato (Brasil, 2016, direção de Claudio Assis), outro filme que carrega a brutalidade poética nordestina sem filtros (e que merece ser visto, caso o leitor ainda não o tenha feito). Há semelhanças e diferenças.

Um caminhão, por exemplo. 

O limpa-fossas, de Big Jato.  

Em Big Jato, o caminhão que trafega em meio à paisagem árida é um limpa-fossas, que recolhe esgoto dos outros, enquanto espalha odor de merda na vida de um pai que varia entre a honra do trabalho e a descrença na poesia da vida. Junto do pai, na boleia do caminhão, um filho adolescente cuja vivência oscila entre a rudeza do pai e a alucinação poética do tio. O menino tempera a merda da vida que leva com o cheiro perfumado da poesia.  

O caminhão de água potável, na entrada de Bacurau.
Foto: Divulgação, internet.  
Em Bacurau, o veículo inicial é outro. Não por acaso, é um caminhão de água potável que, além de matar a sede do povoado, traduz um ponto de referência, uma preciosidade do local. Traz água mas também traz notícia e traz gente. Nele, uma mulher volta à sua origem para viver o velório de sua avó, uma líder negra local (interpretada por Lia de Itamaracá). Ela tem emoção nos olhos e remédios na mala. Ela é filha de um professor, negro, digno, envolvente, visionário. Bacurau é um lugarejo onde a escola e o museu ganham importância maior que a igreja.  Big Jato é utopia. Bacurau é distopia. 

Cena do filme Bacurau
Há um latente espírito de solidariedade e tolerância entre os locais. A pobreza e o isolamento não são motivos para ignorância. O povo ali retratado tem o que virou moda chamar de “inteligência emocional”. Divide as mazelas, se identifica na dor e na alegria compartilhada. A vida no sertão não lhe tira o humor e espanta qualquer sentimento de menos valia. Em resumo, aquela gente é símbolo de resistência já cantada em verso e prosa. Por Luiz Gonzaga ou João Cabral de Melo Neto. Por Suassuna ou Guimarães Rosa. 

Lunga, o herói bandido ou bandido herói é digno da personalidade ambígua. É um lampião trans. Nem super-homem, nem mulher maravilha. Volta da reclusão para ajudar seu povo a resistir a uma invasão gringa. Nas palavras do professor (da cidade que não tem padre) ele não devia parar de escrever. Em Bacurau, Lunga reescreve sua história com suor e sangue. E ajuda a cidade a não sumir do mapa. Melhor, ajuda a cidade a ser o que é. 

Bacurau é sertão e é Brasil. Quem não viu precisa enxergar.  

Kleber e Juliano. Os diretores.
Foto: Divulgação
PS.: Não é preciso falar do vigor da música de Geraldo Vandré, da grandeza da imagem de Sônia Braga, nem da vitalidade dos atores anônimos que dão corpo ao filme.