15 de novembro de 2016

Brasília Minas Brasília

Insisto em dizer, sempre que posso: Brasília não é só uma bolha política encravada no coração do Brasil. É mais. Muito mais. De vez em quando, confirmo isto com a paisagem, com os linguajares, com a geografia, com os hábitos de tantos que aqui habitam. Brasília é mais que a bolha política pela qual se tornou conhecida no Brasil e no mundo. Transcende à obra de Niemeyer e Lúcio Costa. Trafega, de passagem pelos jardins de Burle Marx e se espraia por um cenário natural que a faz, em alguma medida, ser também Minas Gerais.

Quer prova? Fácil. Aqui vai uma. Capela de São Francisco, na região da Ponte Alta, no Gama. Gama é uma das mais de trinta regiões administrativas que compõem o Distrito Federal (onde está situada a Capital Federal do Brasil, Brasília).

Dias destes, pensando em como dar mais corpo e identidade a um telejornal gerado a partir da Empresa Brasileira de Comunicação - EBC, do qual tenho a honra de compor a equipe responsável por levá-lo ao ar, imaginei um quadro fixo para as sextas-feiras. "Crônica de sexta", foi batizado. Uma das primeiras dessas crônicas foi ao ar na sexta-feira passada. Tive a honra de compor o texto.



Crônica de Sexta

Lá no alto um ponto branco.
A capela emoldurada de céu e luz faz a geografia do cerrado,
por um instante, ser também Minas Gerais.

Capricho da natureza?
Ou, sonho inconfesso de JK?
Quantos desejos viraram realidade em teu altar?
Quantos casais deram o primeiro passo da vida a dois
no compasso do verde que te cerca?
A simplicidade dos teus traços, a leveza de tuas linhas,
se encarregam de te fazer mágica.
Magia despretensiosa que não quer outra coisa
senão aliviar nossos olhos do peso dos dias.
Enquanto os devotos de Francisco admiram a tua singeleza,
tu te entregas, inteira e livre, a quem quer que te veja.
No fundo, é minha fé quem diz:
Estás mais para poesia do que para igreja.

Aí embaixo, está o link para assistir a crônica, transformada em documento audiovisual. Com a competência e a sensibilidade da equipe do RDF, da TV Brasil.



30 de outubro de 2016

Dúvida atroz




Quem de nós ficará pra depois?
Nós três, nós quatro, nós dois? 

Quando na taça o vinho estiver,
Haverá quem celebre?
Quem ainda queira beber? 

E que sabor vai ter?
Taninos apurados, 
frutados, 
buquê!

Qual boca vai sentir 
o que os meus olhos não vão ver?

Faz pouco sentido 
querer agora saber.

No justo espaço 
entre o gole e o cansaço
Fico com o riso ampliado 
Por trás do vinho rosé. 

Quem vai querer saber?
Pra quê? 




23 de junho de 2016

Um dia muito triste

É este em que perdemos o nosso querido amigo Carlos Rocha que tanto nos ensinou sobre design e sobre a vida aqui neste espaço.
Os nossos sentimentos à família por esta perca tão dolorosa.
Fotografia retirada do ""Público"

16 de junho de 2016

bloomsday!!!

hoje é o dia em que leopold bloom vagueia por dublin
hoje é dia do mais fantástico romance alguma vez escrito
hoje é o bloomsday!!!



ULYSSES, JAMES JOYCE

15 de junho de 2016

o trabalho para o mês de julho


muitas vezes a música que gosto de cantar está a léguas daquela que mais oiço.
para o próximo mês de julho tenho encontro marcado com o canto moçárabe, o canto gregoriano e o parente mais antigo, o canto ambrosiano ou milanês, por estar associado à arquidiocese de milão, a são ambrósio e ao rito litúrgico ali desenvolvido, tornando-se a partir do século 6 oficial em todo o norte de itália.
com a posterior centralização da igreja de roma, todos estes modo de canto chão (moçárabe, galiciano, beneventino e romano primitivo foram sendo eliminados dos ritos litúrgicos e apenas o canto ambrosiano sobreviveu.
o grande desafio de cantar esta música é que ela não tem, como aquela que ouvimos todos os dias, um ritmo em que nos apoiemos: as frases são cantadas 'em suspensão' como que a dois centímetros do chão sem nunca tocar, até ao final e apenas aí se 'descansa' mas mesmo assim só descaindo 1 dos dois centímetros em que mantinha suspensa.
é tecnicamente muito mais difícil para mim e esse é o desafio.
e ele vou!


6 de junho de 2016

le temps des cerises

as cerejas este ano andam entre o atrasado e o já estragado.a falta de frio quando dele precisavam e a abundância de chuva quando do que precisavam era de sol, estragou duplamente as cerejas.tam bém em fajão, onde o atraso tem pelo menos um mês.mas existe uma cerejeira em fajão que funciona como o pré-eco para os discos de vinil (eu sei que muita gente não sabe o que é isto, mas é boa altura para regressarem aos vinis).é a primeira de todas.quando todas as outras ainda têm uns protótipos de promessas de cerejas (uma espécie de proto-cerejas, ou putativas, como agora também se diz), a cerejeira do augusto fernandes ali para os lados do lavadouro já ostenta umas coisas comestíveis.haja esperança!mesmo que em junho já quase devesse estar a acabar a época...

3 de junho de 2016

do sensacionalismo como substituto do jornalismo



o jornal the guardian (não exactamente o the sun) titulou 'em grande' que os especialistas italianos e egípcios que analisaram, com espectrómetro de raios-x, as lâminas dos punhais encontrados no túmulo do tutankhamon, encontraram uma concentração de níqul e carbono que provavam a origem daquelas peças como sendo extra-terrestre.
isto é o título em caixa alta e destaque devido para apanhar papalvos.
a verdade, mais detalhada e mais simples, e provada pelos mesmos especialistas, por comparação com dezenas de meteoritos encontrados na costa do mar vermelho, e que se trata, de facto, de origem extra-terrestre, mas feito com alguns desses meteoritos que caíram ao longo de milhões de anos por toda a terra.
claro que a segunda parte dá notícia, mas não primeiras páginas.
por isso se opta pela primeira.
vende sempre mais


2 de junho de 2016

the last internationale



os the last internationale são uma das bandas mais promissoras do 'pós-grunge-, que mistura a temática dos velhos cantores folk politicamente comprometidos, com a atitude mais enérgica vinda do grunge e do hardcore.
formados originalmente por delila paz e por edgey pires (um descendente de portugueses de arcos de valdevez), tiverem depois o contributo poderoso do baterista dos rage against machine, que lhes deu mais solidez sonora.



the last internationale, workers of the world - unite!

1 de junho de 2016

de volta..

espero eu.
este foi o espaço de muitos amigos durante muitos anos.
por razões várias fomo-nos dispersando, não das amizades, mas desta casa.
mas é sempre bom voltar, e ficar.
é isso que espero.

aqui há sempre uma janela que se abre para o mundo


5 de maio de 2016

22 de abril de 2016



a will rogers highway é pouco conhecida como tal.
mas é também a (essa sim) famosa route 66
e normalmente esta canção não entra nas compilações sobre essa estrada. 
will rogers foi um descendente de nativos americanos que se tornou um politico destacado do partido democrata (chegou a participar nas primárias na década de 20) e, pelo meio, realizador de muitos filmes, director de muitos jornais, actor de muitos géneros e tudo e mais alguma coisa...
will rogers é dos primeiros (descendentes de) nativos americanos a não ser tratado como tal e mesmo tendo nascido numa reserva índia é reconhecido como 'o elhor filho de oklahoma.
a ele se atribui a frase: 'todos as pessoas são ignorantes, mas em assuntos diferentes'

woody guthrie, que também escreveu sobre tudo e mais alguma coisa, dedicou esta canção ao seu conterrâneo

woody guthrie, will rogers highway

20 de abril de 2016


a 20 de abril de 1914, faz hoje 102 anos..
os mineiros de carvão do colorado estavam em greve.
a greve, organizada contra a fuel & iron company (da família rockfeller), a rocky mountain fuel company e a victor-american fuel company, procurava melhorar as condições de insegurança, e os salários miseráveis, num negócio que dava lucros elevadíssimos com a construção do caminho de ferro.
concentrados num acampamento na cidade de tendas de ludlow, os mineiros foram atacados pela guarda nacional do colorado e um conjunto de 'detectives' da baldwin–felts detective agency (um bando de arruaceiros especializados em combater grevistas que entravam nas tendas a disparar indiscriminadamente).
até ao final desse ano, a colorado coalfield war continuou a produzir mortes, até a completa aniquilação da luta dos mineiros pelos seus direitos, que ficaram ainda mais reduzidos em consequência da derrota.

woody guthrie, ludlow massacre

19 de abril de 2016

O jardim do Príncipe Real em 'A Cavalo no Diabo'


“Se há jardim de Lisboa que me dê gosto maior é o do Príncipe Real. Primeiro, por causa da árvore-mãe que tem ao centro, baixinha e de ventre antigo, e de ramagem tão extensa que dá abrigo a meio mundo. Depois, porque o conheci rodeado de poetas, uns em verso, outros em prosa: O’Neill morou-lhe quase em frente, na Rua da Escola Politécnica, Vieira de Almeida mesmo ao lado. Ruy Cinatti na Rua da Palmeira e Agostinho da Silva na Travessa do Abarracamento de Peniche, que é um recanto pacífico para meditar. Isso para não falar já do poeta real que se chamava Mendonça e que nunca escreveu coisíssima nenhuma na vida, pelo menos que se saiba. Fizemo-lo poeta, eu e alguns amigos, porque se passeava no jardim acompanhado de um pato negro, com a solenidade de um letrado do Olimpo. Alguém que numa cidade se passeia com um pato é poeta ou tem alma disso. No entanto, se nós, em vez de poeta, o tivéssemos feito Príncipe Real também não ficaria pior, porque condizia com a majestade com que ele atravessava a paisagem.”

 José Cardoso Pires, "O Príncipe Real" em A Cavalo no Diabo

Fotografia: Armando Serôdio, 1959, "biblioteca municipal no jardim do Príncipe Real" - Arquivo Municipal de Lisboa

14 de abril de 2016

morreu ontem arnold wesker

já aqui tinha falado de arnold wesker e do centre 42, que ele fundou e dirigiu.
wesker não foi apenas um dos nomes mais importantes da dramaturgia mundial do século 20.
ele foi determinante para a cultura britânica, para a participação activa dos artistas na luta e na vida dos trabalhadores, determinante para o que conhecemos como 'realismo britânico', para o renascimento da musica tradicional (mesmo que, penso eu, nunca tenha cantado)
arnoild wesker foi dos que sempre estiveram com 'os de baixo'
quando em 1960 o tuc (trade union congress) aprovou uma resolução extraordinária (a 42º da ordem de trabalhos), sobre a necessidade de um inquérito ao estado das artes no reino unido.
a resposta dos artistas britânicos não podia ser sido mais expressiva e mais generosa:
a nata dos jovens (e alguns menos jovens) escritores, dramaturgos, músicos, escultores respondeu ao movimento sindical que se eles estivessem interessados em tornar a arte popular entre as pessoas, eles estariam ao dispor para o que fosse necessário.
no ano seguinte, em 1961, estava então criado um dos mais influente movimentos artísticos dos anos 60. dirigido pelo dramaturgo arnold wesker e com gente como harold pinter, ewan mac coll, a.l. lloyd
o centre 42, tinha como principal missão encontrar uma audiência popular para as artes e foi isso que com o empenho e a direcção de arnold wesker conseguiu.
conseguiram a audiência e conseguiram uma imensa legião de escritores, pintores, músicos, que percorreram as ilhas britânicas num trabalho incansável de divulgação artística com a participação popular.
curiosamente, no começo deste novo empreendimento esteve a fundação calouste gulbenkian que financiou, em 1961, o projecto com 10 000 libras
3 anos depois estava 'sediado' na roundhouse: casa de uma lista infindável de acontecimentos artísticos, do teatro à música.
com a morte de arnold wesker vai um dos últimos sobreviventes da aventura inicial, mas mantém-se viva a actividade da roundhouse e do seu legado.