17 de dezembro de 2014

Bailongo!


Volta e meia, Mauro Di Deus me estende a mão e me alcança, sempre, um bom programa cultural. Desta última, me fez chegar ao show "Bailongo", de Yamandu Costa e Guto Wirtti. O Yamandu eu já conhecia de outras plagas. Guto foi uma grata surpresa. Ver os dois, juntos, foi uma viagem agradabilíssima.

Yamandu Costa e Guto Wirtti
Os dois contam histórias curtas, enquanto nos encantam com uma música popular vestida em roupa de gala. Sim. O que eles tocam é mais do que clássico, transcende ao convencional. É algo que beira o inexplicável, o intraduzível.

É um passeio musical que percorre o quintal do Brasil e a varanda do mundo. Vai do chamamé ao tango. Da Vaneira a Villa Lobos. Num roteiro que é provinciano e universal, ao mesmo tempo. É preciso escutá-los de perto para compreender. Yamandu e Guto são amigos de infância que nunca se perderam. Talvez, por isso mesmo, o show deles é como uma viagem no tempo. Um resgate, com tudo o que isso possa significar. 

É como encontrar um velho amigo, um amor antigo, uma alma em sintonia, e perceber que o tempo e a distância não foram capazes de apagar da lembrança o que houve de melhor e o que ficou preservado para sempre.


Guto e Yamandu caminham juntos há tempos. E tocam como quem estivesse em uma brincadeira de criança. Com tamanha intimidade com seus instrumentos, com cumplicidade imensa no olhar, com afinação e improviso que - aos olhos de quem os vê tocando - tudo parece muito mais simples e fácil do que verdadeiramente o é.

Guto conta a história de como encontrou o seu "Baixolão", um instrumento menor, muito menor, que um Ciello, mas com uma sonoridade tão grave quanto a batida firme no peito, de um coração apaixonado. Yamandu visita Lupicínio Rodrigues, seu conterrâneo, e dá a Nervos de Aço uma interpretação doce e viril ao mesmo tempo, uma interpretação única, que por pouco não nos tira da cadeira e nos faz sair dançando em meio à plateia.

Talvez eu não consiga traduzir aqui o significado da música que eles fazem. Melhor mesmo é assisti-los. E comprovar a genialidade desses dois jovens músicos brasileiros. Eles, sim, representam o que o Brasil tem de melhor em sua essência.

3 de dezembro de 2014

«Lisboa nas narrativas: olhares do exterior sobre a cidade antiga e contemporânea»



Em pesquisa de textos e crónicas sobre Lisboa, encontro um interessante estudo da Universidade Nova de Lisboa, ilustrado com fragmentos de relatos de viagem,  crónicas e ficção, compreendidos entre época próxima ao terramoto de 1755 , passando pelas impressões de refugiados da II Guerra Mundial e avançando pelo século XX. O título de tal estudo coincide com o do presente post. Das crónicas, realço a prosa de Cecília Meireles, a prender-nos no encantamento da sua destreza poética. Dessas impressões de viagem, datadas da primeira metade do passado século, deixo um  fragmento:

«[…] pode-se caminhar pela velha Lisboa, que é ainda a que eu mais amo, embora sejam muito bonitos estes bairros que vão surgindo, com janelas sobre janelas, como, outrora, azulejo sobre azulejo, tudo muito clarinho, muito inocente, muito festivo, azul, cor-de-rosa, amarelo, verde, branco. Eu gosto é dos chafarizes, dos lampiões, de certas perspectivas, de certas portas, de certas pedras. E do Tejo. O Tejo com seus barquinhos é uma coisa linda de olhar, seja de um lado, seja do outro, seja do céu, - quando se vêem as ondas desenhadas uma a uma como trança desmanchada de sereia.[...]»

A organização de textos de Cecília Meireles, presente neste interessante trabalho, baseia-se na compilação Crónicas de Viagem 3, reunida por Leodegário A. De Azevedo Filho. As crónicas foram publicadas em diversos jornais brasileiros da época.

18 de novembro de 2014

Poesia não morre

Frame do documentário "Só dez por cento é mentira"
A passagem de Manoel de Barros não foi uma surpresa pra mim. Havia alguns meses, o poeta anunciava estar cansado dessa vida. Morreu, como dizem aqui no Brasil "como um passarinho". No meu entendimento, passarinhou. Como disse o amigo Bosco Martins, na edição do Correio Braziliense que homenageou o poeta, "a morte, a gente tem que ter serenidade para aceitá-la como uma decorrência do nascer".

Mas toda morte nos faz refletir e a do Manoel, minha fonte de inspiração eterna, me fez retornar ao passado. Eu era um jovem repórter de TV no início da década de 90, do Século passado. E fui trabalhar em Campo Grande, terra onde o poeta viveu a maior parte da vida.


Manoel e sua escrita
Um dia, recebi um desafio, foi em 1991: Entrevistar o poeta Manoel de Barros para a primeira revista científica da UNIDERP - Universidade para o Desenvolvimento da Região do Pantanal. Obter dele algo que ligasse a poesia à pesquisa e ao trabalho que a Universidade pretendia fazer no Pantanal. O convite veio da professora Yara Penteado e do professor Paulo Cabral. A Revista se chamaria ONATI. Topei na hora. 

Fiz a lista de perguntas e mandei pro Manoel, que já à época preferia as correspondências às entrevistas presenciais. 23 anos depois, relendo o que ele escreveu, constato - poesia não morre. Por isso, tomo a liberdade de recuperar o conteúdo dessa nossa “conversa”, resgatando um pouco da poesia viva de Manoel de Barros, que eu tenho certeza, não nos deixará.

Frame do documentário "Só dez por cento é mentira".

O peso das contradições do Brasil lhe pesa também sobre a poesia?
Manoel de Barros - Não pesam as contradições do Brasil porque, na verdade a gente, eu, tenho muito mais contradições do que o Brasil. Eu ganho do Brasil de 10 a zero. Acho que a gente é poeta por isso mesmo: que precisa resolver as suas contradições. E porque não as resolve, graças a Deus. Eu não resolvo essa briga dentro de mim senão com palavras. E há uma figura de estilo que concilia muito a gente por dentro. Se trata da antítese. A gente produz uma frase antitética e fica feliz. Parece que a frase nos harmoniza. Assim como esta, por exemplo: Só as coisas rasteiras me celestam.


Na revolução da informação que vivemos neste fim de Século (a conversa foi no fim do Século XX), a composição da poesia também se altera?
Manoel de Barros - Sabe, Maranhão, eu tenho um mundinho bem reduzido. Tentei algum tempo alargar esse mundo lendo os filósofos, pensadores, romancistas, poetas de todos os lugares e tempos. Vi pinturas, esculturas, vitrais, pessoas, países, ruinas, aldeias, costumes, ternuras, desgraças. Andei por estradas modernas e por trilheiros. E vi, como diz o Eclesiastes, que tudo é vaidade e vento. Isto seja: que tudo é igual e vai pro pó. Não me impressiono com as tecnologias. Pra mim, elas acrescentam algumas palavras novas, que ainda não aceito em meus poemas. Não aceito porque essas palavras ainda não entraram no meu sangue. Componho como compunha: a lápis e usando um velho dicionário português dos eremitas calçados de 1870. E as minhas percepções sensoriais.


A Aldeia Global nos permite estar hoje na África do Sul ou no Pantanal do Nabileque com uma pequena diferença de fração de segundos. Há risco nessa evolução? Voltar os olhos para o regional significa resguardar a identidade pantaneira?
Manoel de Barros - Não há como evitar as aldeias globais e seus efeitos. Elas invadem e destemperam quase tudo. Mas o pantanal em seu todo, em sua ossatura geológica está resgaurdado. Ou quase. O fato de ser uma região de enchentes periódicas, isso preserva um pouco o pantanal. Ninguém se estabelece com indústrias ou supermercados no pantanal. Porque em seis meses as águas lhes comem pelas beiradas. E tudo bóia. E tudo nada. Aquilo é celeiro de bichos e aves e não de cofres bancários. Com a paz dos bichos vive a paz do homem pantaneiro. E viverá enquanto a natureza não modificar a sua ossatura geológica.


Alguma vez lhe passou pela cabeça criar um "dicionário da natureza"?
Manoel de Barros - Você pode não acreditar, mas eu não me emociono com a natureza como ela é. Suas águas, seus bichos, sua vegetação. Até tenho um certo fastio da natureza. Igual Macbeth falava: Tenho um certo fastio do sol. Talvez a gente queira fazer um sol verde, um homem que voe como as noivas de Chagal, um cavalo azul e de asas. É evidente que eu, tendo sido criado no pantanal, tenha em mim um lastro de brejos e de conchas. Tenho um sentido de abandono em mim. Um sentimento de lonjuras, de distâncias, de lugares sem dono. Venho daqueles tempos em que o pantanal era o ermo. Fui criado naqueles ermos. Por isso tenho em mim um sentimento de abandono. Na minha meninice chegavam apenas carros de bois, de três em três meses no lugar em que morávamos. De forma que essa angústia de estar em lugar distante e perdido, me acompanha até hoje. Não me seduz ver as paisagens do pantanal porque elas estão dentro de mim. O que preciso é transfazê-las.

Frame do documentário "Só dez por cento é mentira". 
Você parece ter feito uma opção por manter-se à margem. Do sistema, da mediocridade, da excentricidade. Você se sente violentado nesses tempos de invasão e de quebra de privacidade?
Manoel de Barros - Existe uma lenda de que eu tenha feito opção para viver à margem. E às margens. Mas, na verdade, eu nunca fiz essa opção e a coisa é lenda mesmo. O que eu sou, sem dúvida, é um tímido incurável. Sofro para atravessar um salão cheio de gente. Sofro em solenidades. Ando sobre pregos se tenho que conversar com senhores conspícuos. Até para entrar em salão de barbeiro, se o salão está cheio de gente, eu sofro. Escolho sempre aqueles velhos salõezinhos de uma só cadeira. Aí fico amigo do barbeiro e nos anedotamos. Daí, por não gostar de sofrer, fui me afastando dos convescotes, das vernissages, dos inauguramentos, dos sodalícios. Prefiro os lupanares do que os sodalícios. Vivo bem nas tocas. A gente acaba descobrindo que no fechado o imaginário voa mais longe.


Mesmo sem sair do Mato Grosso do Sul, sem cortar o contato com a sua terra, o seu olhar tem sabor do universal. Que energia é essa que te alimenta a poesia?
Manoel de Barros - Os olhos enxergam melhor as coisas do nosso pequeno mundo particular. Aqui ou em Paris os quintais têm as mesmas coisas: folhas secas, cacos de vidro, formigas, bosta de rato, baratas cascudas. Passei algumas horas no quintal de Rodin. Eu estava curioso para ver se os passarinhos de lá tinham duas pernas também, como os daqui. Saí confiante que tinham. Então acertei as pequenas coisas que meus olhos viam na minha terra, na minha cidade, no meu terreiro - eram quase que as mesmas que eu vira no quintal de Rodin. E sei bem que só um milagre estético pode tornar tudo isso universal. O que faz do particular uma coisa universal é o tratamento estético que possamos dar a esse particular de cada um de nós.


Gilberto Gil diz em uma de suas canções que "no sonho do poeta nada falta". Com quê o poeta sonha?
Manoel de Barros - Eu fantasio completo. Eu fantasio mulheres, viagens , vulva, pevide, inocências. Queria ter agora um olho de criança para ver o mundo pela primeira vez. (Meu olho está tão gasto!) Eu ía dar nome às coisas. Cobra eu chamaria de flor que anda. Nuvem eu chamaria de sol, etc. etc. Eu daria movimento às pedras. Faria árvore pensar. Tudo o que eu tocasse teria um canto, uma cor, um amor. A solidão teria que existir para que a alma funcionasse e se abrisse em sonhos. Eu sonho tudo. Eu queria saber misturar melhor as palavras a ponto que eu fosse mais poeta.



Ao final, bem ao seu estilo, o poeta me mandou um recado, em que aceita - carinhoso - o convite que faço para tomar "uns goles de cachaça" que ele não dispensava. A certa altura (veja a transcrição do conteúdo, logo a seguir) diz esperar que eu não me decepcione com o conteúdo das respostas. Imaginem, logo eu! 

"Maranhão Viegas, prezado jornalista.
A moça que trouxe as suas perguntas me disse que você teria pressa. 
Não relaxei entretanto, por isso. Fiz o que posso e o que sei. Talvez
se houvesse prazo maior as linhas aumentassem. Espero que você não se decepcione. 
Quanto aos goles em algum boteco do mundo, vamos marcar. 
Grande abraço. O amigo, Manoel de Barros. 

PS. Acho que misturei as perguntas, a ordem delas. M."

O bilhete aí em cima guardo com o carinho de quem realizou um sonho. 
O sonho de ter tocado o poeta e sua poesia.

9 de novembro de 2014

Amália

Original a lua-de-mel de Amália, na Ericeira em 1961...Acampada com a família e motorista e empregado.

8 de novembro de 2014

Teresa Torga

José Afonso fez dela uma canção. A história de uma mulher desesperada e triste que se despe na via pública em 1975. Dela encontrei já registo na revista Plateia e hoje volto a encontrá-la. Pergunto-me, o que lhe terá acontecido?
Mais aqui: "No DL, R.R. (Rogério Rodrigues) conta a história de uma mulher " de que não se conhecia o nome" , que ontem, às quatro da tarde fazia streap-tease enquanto dançava, ao centro do cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro.
"Visivelmente surpreendidos, alguns espectadores da cena, invulgar em ruas de Lisboa, dirigiram-se para a mulher no intento de a proteger das vistas de quem passava e de quem parava, persuadi-la a vestir-se e abandonar o local. No meio da confusão, surge o repórter António Capela, que começa a disparar. Os populares, indignados com o que consideram 'uma baixeza moral', investem sobre ele, insultam-no, empurram-no, agridem-no e só a intervenção do proprietário da drogaria vizinha impede que não lhe partam a máquina (...) Entretanto a mulher tinha sido levada para o limiar de um prédio com porteita à porta. Já vestida, olhava apática para as pessoas que a rodeavam. Dizem-me que se chamava Maria Teresa.'Não sou Maria. Não sou Teresa. Tenho muitos nomes'.Tinha os lábios encortiçados e recusava o copo de água que lhe ofereciam".
"Quem se despiu na via pública, ontem, às 4 da tarde?", interroga-se o jornalista, que passa a contar o percurso de vida, entretanto averiguado, de uma mulher de 41 anos, divorciada, sucessivamente actriz de revista, emigrante no Brasil, cantora de fado e que agora, no intervalo de tratamento no Júlio de Matos, "mudava discos no pick-up" de uma boite de Benfica.
Usava o nome de Teresa Torga " porque há um escritor que se chama assim" e ela gostava muito de ler, conta uma vizinha. A última vez que o repórter a viu seguia ela num carro da polícia para a esquadra do Matadouro.
in http://weber.blogs.sapo.pt/
No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua
(...) Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela
T'resa Torga, T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha.
José Afonso, Teresa Torga
in álbum "Com as minhas tamanquinhas", 1976

27 de outubro de 2014

Um Brasil inteiro ao meio


Enquanto volto pra casa, sob a chuva, o limpador do para-brisa me deixa entrever as luzes da cidade. Sensação de ser dono de Brasília. Poucos carros. Imensidão. Ressaca democrática. Alívio e descompasso.

Faz pouco que terminou a eleição em que Dilma venceu Aécio com a menor vantagem da história das eleições do país. 51,45% a 48,55%. Visto do alto de um Brasil de mais de 200 milhões de habitantes, dos quais quase 149 milhões são eleitores, a diferença é um traço, é ínfima, é um grão de areia.

Pensando assim, trafego sobre rodas em um país dividido ao meio. Meio cheio, meio vazio, como o copo filosofal. Dependendo do ponto de vista. A noite de domingo, mais pra madrugada de segunda, pede calma, fôlego e reflexão.

Foi isso o que os dois candidatos trataram de fazer em suas primeiras aparições públicas. Três palavras são importantes: paz, união e diálogo. O resto é detalhe. É isso o que nós precisamos agora. Todos.

E, pelo bem do país, devemos nos conter nas redes sociais. Devemos aplacar nossa ira insana, rejeitar as provocações, fugir de qualquer preconceito. Devemos seguir orgulhosos de nossas posições pessoais, sem recorrer à soberba, ao pedantismo, à arrogância.

Um país novo, em construção, é o que temos nas mãos. Um país que experimentou a dor e o sofrimento, a angústia e o medo, em poucas horas do dia. Certamente, o hoje foi um dos dias mais longos da história. E o será por um bom tempo, tenho certeza.

Dilma e Aécio acordaram candidatos. Atravessaram o dia como um Moisés, em pleno deserto, até se deparar com a imensidão do mar vermelho. Só um deles sairia inteiro do outro lado. Só um deles terá a missão de conduzir a massa à margem oposta.
A estrada é longa, o tempo é curto.

A Nação dividida de hoje caminha seus primeiros passos, trôpega de cansaço, carregada de dor, misto de sofrimento e euforia. Uma nação cindida ao meio, mas absurdamente disposta a se reerguer da luta com a dignidade de um país de dar orgulho. Um país uno.
Eis que a chuva passa.


Eis que a noite invade o que restou do dia e em silêncio a Pátria amada, mãe gentil, acolhe o que restou de nós. De todos nós, filhos deste solo definitivo, chamado Brasil!

22 de setembro de 2014

Enigma

Encontrei esta minúscula foto dentro dum livro antigo de geografia do início do século XX.
Não faço ideia de quem seja e o que representa. Alguém sabe?

13 de setembro de 2014

Fábrica do Inglês/Museu da Cortiça de Silves

Assinar pois então: 
Pela preservação da integridade da Fábrica do Inglês/Museu da Cortiça de Silves como valor cultural industrial/corticeira
Porque a nossa memória colectiva não está à venda! 
Porque os museus e o nosso património cultural não são mercadorias
Factos: 
1. O Museu da Cortiça de Silves, inaugurado em 1999, promoveu a reabilitação do espaço arquitectónico original de uma antiga fábrica de rolhas construída em 1894, também conhecida por Fábrica do Inglês. 
2. O projeto museológico, que incluía todo o espaço fabril, foi internacionalmente reconhecido com o prémio Luigi Micheletti para melhor museu industrial do ano em 2001. 
3. Entre 1999 e 2009, período em que permaneceu aberto, foi um dos mais visitados museus a nível nacional, contribuindo positivamente para a boa imagem da região algarvia e do país, numa área temática e económica -a da cortiça- que nos projeta internacionalmente e em que, justamente, reclamamos primazia. 
4. O Museu e a antiga fábrica em que se insere (agora imóvel de interesse municipal) estão desde 2009 encerrados na sequência do processo de insolvência da sociedade proprietária. Em 2014 este processo terminou em leilão público com a venda do imóvel “Fábrica do Inglês” à Caixa Geral de Depósitos e do espólio museológico (algum dele integrado no próprio edifício) a um grupo privado ligado ao ramo da distribuição alimentar, apesar dos esforços da Câmara Municipal de Silves em o adquirir. 

Considerando: 
- Que o atual proprietário não garante a manutenção (nem a pode garantir não sendo proprietário do imóvel) do espólio museológico no seu lugar de origem, podendo vir a ocorrer uma deslocação do mesmo que lhe retiraria a maior parte do seu valor patrimonial; 
- Que o Museu da Cortiça se constitui como um todo na fábrica em que se localiza, com parte do seu património integrado no edifício e por ele disperso, sendo, por isso, indissociável do espaço que atualmente ocupa; 
- Que este Museu surgiu da vontade de conservar um património local em vias de desaparecimento e em homenagem a uma cidade de importantíssimo passado industrial/corticeiro; foram, sublinhe-se, várias as doações feitas por cidadãos anónimos ao espólio museológico, confiantes na preservação que a instituição faria da memória dos seus antepassados; 
- Que a Assembleia da República, em várias ocasiões, manifestou a sua preocupação pelo destino deste importante património, designadamente através da aprovação unânime da Resolução n.º 129/2010. 
No momento em que Portugal – o maior produtor de cortiça a nível mundial – busca novas formas de promoção externa, parcerias e mercados com o objetivo de um significativo e sustentado desenvolvimento económico... 
Pretendemos: 
1.Que os senhores deputados da República manifestem junto dos atuais proprietários e dos membros do governo, nesta área competentes, a preocupação pelo destino e preservação deste importante património. 
2. Que os senhores deputados usem a sua influência enquanto órgão de soberania para apoiar a candidatura do espólio móvel e integrado do Museu da Cortiça a património de interesse público, processo atualmente em curso por iniciativa da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial. 

Porque a nossa memória coletiva não está à venda! 
Porque os museus e o nosso património cultural não são mercadorias! 

Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial 
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=museucorticasilves 

10 de setembro de 2014

'Os Maias' de João Botelho : notas soltas (e muito pessoais) entre ficção e realidade



Os Maias , romance a merecer, desde sempre, longa metragem, acaba por ver o desígnio cumprido. O enredo, a abranger diversas gerações, desfila ante o nosso olhar, parecendo preencher de modo satisfatório o imaginário que construímos, aquando da(s) leitura(s). O patriarca da família, Afonso da Maia, é-nos apresentado no vigor da idade, num registo, até de som, a conduzir-nos a uma distante época do cinema a preto e branco (lembrei-me das longas de Leitão de Barros), marcando, com sucesso, a técnica do flashback. A narrativa em “tempo real” dá lugar à cor, discreta, acentuando o avanço no tempo. Cenários a reproduzirem uma Lisboa de outrora, com a Casa Havaneza e a Brasileira de oitocentos, afiguram-se modo inteligente de recriar, com sucesso, os finais do século dezanove. Os interiores, esmerados, coincidem com as decorações que visualizamos, ao longo da leitura do romance. Tratando-se de uma apreciação impressionista (a escriba não tem pretensões de crítica, assumindo-se, em primeira instância, enquanto leitora), salientam-se as personagens de Afonso da Maia e de João da Ega, muito próximos do imaginário gerado pela leitura pessoal e repetida, quer na qualidade de estudante, quer na de docente que, por diversas vezes, regressou às deliciosas linhas queirosianas. As personagens femininas, de uma beleza dos nossos tempos, parecem distanciar-se do padrão da época: mulheres magras, esbeltas, ao contrário das personagens femininas descritas, na obra, como tendo formas algo arredondadas. Será ligeiro apreciar um filme com a duração de três horas em meia dúzia de linhas. A verão comercial, prestes a ser estreada, terá duração mais curta. No entanto, exige mestria a adaptação de um texto extenso de descrições detalhadas, o que nos parece ter sido alcançado. Marcou o simbolismo da queda de um varão de metal e da pesada cortina que sustenta, num dos momentos mais altos do enredo, quando o elo de parentesco a unir Carlos da Maia a Maria Eduarda é revelado ao patriarca da família. A adaptação respeitando, nos diálogos, a fina ironia queirosiana, prende-nos ao ecrã . Olhando a novidade na perspetiva da docente (sem descurar a da leitora), encara-se a nova ferramenta, a longa metragem, como sendo útil na motivação (e descodificação) à leitura dos jovens, cuja faixa etária e solicitações do presente tornam tentadora a leitura de resumos ‘estafados’ que pretendem sistematizar o romance, levando, por diversas ocasiões, à apresentação de trabalhos saturados de observações repetidas, plenas de lugares-comuns. Admiradora de A Cidade e as Serras, pensa-se : “para quando a adaptação à sétima arte?”.
Saída da ficção para a realidade (do Cinema S. Jorge para o estacionamento), olho os gatos que agora povoam um Parque Mayer quase desertificado, pensando como são distantes, em estatuto, do bem nutrido Reverendo Bonifácio, a mascote de Afonso da Maia.

29 de julho de 2014

O "Dias que Voam" faz onze anos


Onze anos passaram desde que a T fundou esta casa. Onze anos de diversidade de posts e de contribuidores, como se constata pelo arquivo. Um dia descobri o “Dias” e foi com agrado que comecei a participar aqui, a convite da sua fundadora. Houve tempos em que os blogues eram muito visitados, com diversos comentários, diversos textos que , todos os dias, se renovavam. Os tempos mudaram e o ritmo abrandou. Apesar de tudo – não sendo nostálgica, sou-o assumidamente neste particular – dou, por vezes, comigo, a pensar como seria bom voltar a ver os blogues, na sua maioria, renovados e participados. Afinal e de modo genérico, parece-me que eram mais cuidados os textos, esmeradas as fotografias, apelativos os comentários. Sem antevisões (quem as consegue fazer com precisão?), ficará sempre a alegria da descoberta, a festa da escrita, a procura das imagens e o mesmo contentamento ao ver o que os restantes – colaboradores e comentadores – escreviam (e escrevem, porque não?). Apesar das mudanças, de algum afastamento, do abrandamento de todos na publicação e nas visitas, desejo ao “Dias” muitos parabéns por mais um aniversário, continuando a ser referência pessoal .

24 de julho de 2014

Short Cuts - Ariano Armorial Suassuna


Ariano era cheio de graça. Uma graça que permeia histórias simples da nossa vida cotidiana. Traduzidas na visão simples, brilhante e divertida do mestre contador de histórias.
Aliás, o maior contador de histórias que já andou pelos sertões desse imenso Brasil.




Sobre computadores


“Dizem que eu não gosto de computadores. Eu digo que eles é que não gostam de mim. Querem ver? Fui escrever meu nome completo: Ariano Vilar Suassuna. O computador tem uma espécie de sistema que rejeita as palavras quando acha que elas estão erradas e sugere o que, no entender dele, computador, seria o certo.

Pois bem, quando escrevi Ariano, ele aceitou normalmente. Quando eu escrevi Vilar, ele rejeitou e sugeriu que fosse substituída por Vilão. E quando eu escrevi Suassuna, não sei se pela quantidade de “s”, o computador rejeitou e substituiu por “Assassino”. Então, vejam, não sou eu que não gosto de computadores, eles é que não gostam de mim.”

Sobre o inglês e o português


“Eu não gosto da língua inglesa. A língua portuguesa é que é linda. Rica. O inglês, além de tudo, é pobre. (Apontando um copo de vidro). Perguntem a qualquer analfabeto o que é isto aqui. E ele responderá: “É um copo”.  Em inglês, isso aqui é “glass”, vejam se isso tem jeito de ser? E além de tudo, a língua é pobre. Em português isso aqui é um copo de vidro, não é? Pois então, em inglês, seria um “glass” de “glass”. Ô pobreza!

Rindo de si mesmo


Ariano fazia uma palestra no Sul. Depois, autografava seus livros. E a cada um que chegava para lhe pedir autógrafos perguntava o nome e ouvia um amontoado de consoantes que não entendia direito. Com paciência, pedia para que a pessoa soletrasse o nome enquanto, cuidadosamente, fazia a dedicatória. Depois da terceira vez que pediu a alguém para soletrar o nome, ouviu um pai orientando o filho para já chegar soletrando o nome “porque o homem é analfabeto!”. Na hora do autógrafo, o filho já chegou dizendo: “Meu nome é Hugo, H – U – G – O”. Ariano quase morreu de rir.

Descendo do avião

Da última vez em que esteve em Brasília, antes de
embarcar, Ariano resolveu descansar no aeroporto.
À sua maneira, deitado no chão. 
Ariano não gostava de viagens de avião. Um dia, desembarcando para uma palestra, a mocinha que o esperava, delicadamente, perguntou: Fez boa viagem, mestre? Ao que ele respondeu: Como assim “boa viagem”, minha filha? As viagens de avião só existem de dois tipos: As tediosas e as fatais. O avião é o único meio de transporte que a gente entra e reza para que a viagem seja tediosa.

Aula espetáculo e Chico Ciência


Ariano e Chico Ciência
Pra mim, o Chico Science deveria se chamar Chico Ciência


Um dia, chegando para fazer uma palestra, leio uma faixa estendida em frente à escola:
"Aula Show de Ariano Suassuna". Mandei tirar a faixa. Senão, não fazia a palestra. Eu não dou "Aula Show". Dou "Aula Espetáculo". Aliás, na minha terra,  é uma interjeição usada pra espantar galinha.

Sobre a morte


Ariano e Zélia, seu grande amor. 
“Na minha terra, no sertão da Paraíba, a morte tem nome. Chama-se Caetana. E tem a imagem de uma mulher bonita. Aliás, essa é a única forma que eu aceito encarar essa danada. Como uma mulher bonita”.

PS.: Ariano Suassuna é autor de clássicos da literatura e do teatro brasileiro (Auto da Compadecida e Romance d'A Pedra do Reino entre eles). Ariano morreu ontem, aos 87 anos, no Hospital Real Português, em Recife, onde estava internado desde segunda-feira, depois de sofrer um AVC. 

E eu ando achando essa vida meio sem graça, por ter que falar tanto dos meus heróis mortos. 

19 de julho de 2014

Ribeira das Naus

Ribeira das Naus from Câmara Municipal de Lisboa on Vimeo.

O trovão definitivo

João Ubaldo Ribeiro. Escritor brasileiro. 

João.
Meu dia passou.
João, não.

Ficou nas entrelinhas da minha vida.
Renata disse que ele tinha voz de trovão. E tinha mesmo.
Rodrigo disse que bastou um de seus livros para percebê-lo definitivo.

Passei o dia pensando no definitivo da voz de trovão.
João, que entendeu como poucos o povo brasileiro, saiu de cena assim, meio à francesa, sem dar aviso.
Justo ele. Espalhafatoso delicado.

No Jornal Nacional os famosos e os anônimos falaram dele com a mesma simplicidade desconcertante. Com a mesma saudade. Com o mesmo carinho.

João, hoje, virou letra no céu.

Meu dia passou.
João, não.

(Mercy Street - interpretada por Ritchie, da trilha sonora da Mini-série "O Sorriso do Lagarto", obra de João Ubaldo Ribeiro)

13 de julho de 2014

But Beautiful

Um texto meu publicado noutro sítio, mas com ecos que aqui fazem sentido.


Meu caro H.,
Este despacho começou por ser uma diatribe contra a barbárie que tenta destruir o SNS, com um apelo à participação maciça na greve de Julho e ao combate em todas as frentes, tudo isto com banda sonora de Gil Scott-Heron - The revolution will not be televised, ou, numa versão para os mais novos, com Muse - Uprising. Deixei a marinar de ontem para hoje. E mandei tudo para o lixo virtual do computador. Decidi que hoje não me apetece, e tu não mereces, perder tempo com isto. Quando chegar o momento de lutar lá estaremos, na linha da frente.

É que, entretanto, acabei de ler um livrinho que já estava publicado desde 1991, ganhou um Somerset Maugham Book Award no ano seguinte e tornou-se livro de culto. Não o conhecia. Apanhei-o outro dia por acaso e marchou num ápice. O livro chama-se But Beautiful, foi escrito por Geoff Dyer, escritor e ensaísta inglês, e fala de jazz. Foi recentemente traduzido pela Quetzal com o título Mas é Bonito.

Este não é um livro comum. São pequenas histórias, ou que aconteceram ou que poderiam ter acontecido, parafraseando o Inimigo Público. Dyer pega em fotografias e textos e recria momentos ou períodos de vida de alguns dos maiores da história do jazz. A fazer a ligação entre histórias há uma viagem de automóvel através de um pedaço da América. Ao volante, Harry Carney. No lugar do morto vai Duke Ellington, a congeminar e rabiscar ideias musicais para novas peças.

Não te vou contar as histórias, claro, mas posso referir-te os nomes convocados. Lester Young, Thelonious Monk, Bud Powell, Ben Webster, Charles Mingus, Chet Baker, Art Pepper. Há outros nos bastidores, igualmente grandes.

Estas histórias não são simples nem fáceis. O fio condutor é o talento quase impossível dos retratados e o modo como esse talento sobressai das suas vidas, na maioria dos casos caóticas. Há de tudo: racismo, insultos, agressões, álcool de todas as proveniências, drogas de todos os géneros e feitios, violência, doença física, doença mental, prisão, electrochoques, tratamentos, reabilitações, recaídas. E há momentos de bondade, dedicação, voluntarismo, profissionalismo, rigor, improviso, tenacidade, apoio mútuo, enfim, da beleza de que fala o título. A música, essa, está lá sempre, seja numa carruagem de comboio, seja num apartamento minúsculo com o banco do piano a entrar pela cozinha, seja no pátio de uma penitenciária em que o som de um sax alto directo aos céus gera o silêncio total. Essa música, essa vocação, é mais forte que as circunstâncias envolventes. Mesmo quando tudo parece estar perdido os protagonistas ressurgem, e só a morte os cala - a doença quase incapacitante, que à maioria oblitera, a estes não o consegue fazer. Mingus em cadeira de rodas, Roland Kirk primeiro cego e depois hemiplégico, continuam a fazer música até ao fim. E os músicos de jazz tocam em sessões contínuas, noite após noite, sete noites por semana, sempre obrigados a reproduzir com fidelidade os temas e de improvisar sobre eles, fazendo algo que, sendo sempre igual, se torna sempre único - uma diferença que só os próprios e os que os ouvem compreendem.

O livro termina com um ensaio sobre jazz que o enquadra historicamente e reflecte sobre o seu futuro. Passados mais de vinte anos sobre a sua escrita o jazz continua vivo e recomendável, apesar da contínua produção de produtos de fancaria para vender às massas.

E só agora me apercebo de que, na verdade, nunca deixei de falar de nós e do SNS. Bem podem tentar destruí-lo, bem nos podem massacrar com horários impossíveis e tarefas impossíveis. O SNS pode estar ferido, depauperado, vítima de malnutrição e de atrocidades variadas. A verdade é que continua lindo. E vai resistir.

Até sempre e um abraço,
A.

(Banda sonora deste despacho: Billie Holiday - But Beautiful. Em complemento, versões de Stan Getz/Bill Evans ou de Art Pepper/Bill Cables/George Mraz/Elvin Jones). 



12 de julho de 2014

Dar e receber









Numa pequena rua de Lisboa, passando sem tempo,  tive de o encontrar, para vos dar esta foto. Alguém quis que assim fosse e ainda bem!

11 de julho de 2014

Nuno San Payo

"É um mau hábito emprestar livros. Não são menos nossos, menos pessoais, nem devem merecer-nos menos consideração do que uns sapatos ou um fato, antes pelo contrário e no entanto ninguém deixa andar as suas roupas ou os seus objectos de uso de mão em mão"
Extracto de um conto de Maria da Graça Freire, desenho de Nuno San Payo,Revista Panorama, 1957