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18 de novembro de 2013
Doris Lessing em cinco romances
(foto: Kieran Doherty/Reuters - 2007, à porta da sua residência em Londres, a falar com os jornalistas, após ter sido galardoada com o Nobel)
Após a morte da escritora Doris Lessing ontem ocorrida, o periódico The Guardian apresenta uma lista dos que classifica como os cinco melhores títulos* da romancista britânica, sendo a seguinte a seriação proposta:
1 – The grass is singing (1950)
Lessing chega a Londres na primavera de 1940 com 20 libras no bolso e o manuscrito deste romance, construído a partir da sua vivência no continente africano. O enredo oscila em torno do medo e do poder associados ao colonialismo. A protagonista, Mary Turner, vivendo na Rodésia, numa quinta em decadência financeira, passa a gerir a propriedade por doença do marido. Dá então início a um relacionamento com um dos criados negros, situação conducente a um desfecho trágico.
2 – The golden notebook (1962)
Obra-prima do feminismo, o romance retrata a vida atribulada das mulheres no pós-guerra.
3 – Shikasta (1979)
Estreando-se com este título na ficção científica, trata-se de uma narrativa sobre um paraíso em declínio, planeta à deriva por influência de uma civilização avançada onde haviam sido instauradas paz, prosperidade e desenvolvimento acelerado. À época, a crítica comentou a mudança súbita de temática, o que então levou a escritora a afirmar: “a ficção científica é a melhor ficção social da nossa época.”
4 –The good terrorist (1985)
A narrativa é protagonizada por Alice, revolucionária de boas intenções, a viver no norte de Londres. Inserida num grupo heterogéneo de militantes, esta mulher é gradualmente conduzida à violência, culminando em assassinato as suas fantasias revolucionárias de burguesa.
5 – Alfred and Emily (2008)
Combinação de ficção e não-ficção, o romance baseia-se na biografia dos pais da escritora. Na obra divaga-se sobre o que teria sucedido, caso os pais de Lessing nunca tivessem casado e quais os reflexos de tal decisão na carreira de escrita desta Nobel da Literatura.
* Por opção , os títulos são mantidos na língua original.
8 de outubro de 2013
Mentes criativas, rituais diários
Rotinas quotidianas de grandes vultos da Literatura: café de Balzac, madrugadas de Hemingway.
Um recente artigo do The Guardian revela rituais de personagens da História e da Literatura. Nele podemos conhecer algumas «estórias da História», tais como as seguintes:
- Hemingway levantava-se, todos os dias, às 5.30 da madrugada mesmo, quando na véspera, o consumo de álcool tinha ultrapassado os limites da sobriedade;
- Marcel Proust despertava entre as 3h e as 6h da manhã, começando o dia com uma dose de ópio para aliviar a asma, seguindo-se um croissant e uma chávena de café (que também é broncodilatador e, como tal, minimiza dificuldades respiratórias);
- Beethoven também consumia o café matinal, só que excessivamente forte : ele próprio contava 60 grãos para moagem, sendo essa a quantidade a seu gosto;
- Balzac ingeria 50 cafés diários;
- Flaubert mergulhava em banhos de imersão a elevada temperatura.
Informação detalhada em Rituais diários, mentes criativas The Guardian, 5 de outubro de 2013
Fonte: Gallimard, tradução livre para este blogue
22 de maio de 2013
Uma conversa com Clarice
«Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.» - Clarice Lispector
Guarda-se, com avidez, um JL antigo, no qual o autor da peça confessa ter ficado impressionado com esta mulher. Entende-se a causa de modo nítido, após visita à exposição. Clarice e a vontade de a tratar com proximidade, talvez o olhar inquisidor, a aparente insegurança, a transparência confessional das palavras. Da visita, sai a curiosidade aguçada. Em grande ecrã, a entrevista em que só vemos a autora e o inseparável cigarro. Um compartimento encontra-se preenchido de gavetas. Algumas abrem-se ao visitante, mostrando retalhos de um quotidiano. Presente na memória, a carta do filho Paulo, ainda criança, a opinar sobre a capa para a chuva, demasiado comprida, o que o torna – nas suas palavras infantis – demasiado chic. Retalhos de uma vida. Sobre esta ucraniana acidental que tanto amou a Língua Portuguesa, são fundamentais os pedacinhos de ternura, acessíveis ao olhar da visitante. Há autores sobre os quais são dispensáveis as intimidades biográficas. Quanto às diversas citações sobre «escrever sem palavras», revestem-se as mesmas de sentido, o palavreado excessivo cansa quem o utiliza e, mais ainda, os destinatários. Síntese é arte ao alcance de poucos. Clarice consegue-o com mestria.
15 de janeiro de 2013
A República das Piiiiiiiiiiiiiii
Sexta-feira li no Público um artigo de que gostei bastante,
intitulado ‘A República das Piiiiiis’ de João Magueijo , o
12º da série ‘Que Valores para 2013?’.
O artigo fez-me pensar.
É uma visão da situação portuguesa/europeia quase
coincidente com a minha. Vejamos:
“Como Skvorecky notava, as
"piiiiiis" que tinham antes vendido o seu país aos nazis eram as mesmas
que agora acolhiam os soviéticos (e mais tarde, muito depois de o livro [A
República das Piiiiiis] ser publicado, acolheriam o capitalismo selvagem, sem que
ele o soubesse). O mesmo se passa no nosso caso: não tenham dúvidas de que em
tempos de fascismo os nossos primeiros-ministros teriam sido rapazes de
sucesso. Mas de certa forma estamos a bater no ceguinho. Se eles (e nós, por
extensão) fizeram figuras tristes e agora estamos a pagar por isso, houve quem
fez pior e se está agora a rir. Os usurários mundiais nem sequer construíram
túneis inúteis: construíram castelos de valores inexistentes, que continuam a
crescer e a alimentar a sua ganância. Até isto se resolver falemos de tourada,
porque não faz muito sentido discutir o estado da nossa sociedade, e o demais,
em 2013.”
E continua:
“Sim, éramos um país de pobres que passou temporariamente a
um país de novos-ricos. Mas agora somos um país de novos-pobres: miúdos cheios
de talento desempregados há dois anos, pessoal de ponta a emigrar para o
estrangeiro, médicos educados cá a colmatarem as faltas de sistema de saúde
inglês... um desperdício óbvio de uma geração. Em vez de usarmos estas fontes
de rendimento, deixámos os tanques financeiros entrar pelo país, para aumentar
os impostos e baixar os salários, já de si entre os mais baixos da Europa.”
E conclui:
“Muita da nossa dívida, e consequente austeridade, não é
legítima, em perfeita analogia com as dívidas contraídas pelas prostitutas, e
que as mantêm nas malhas dos seus donos. Se a nível mundial algo tem de ser
feito para refrear os chulos financeiros, a nível nacional um corte com o
passado seria um primeiro passo. Ou então que se dê o Prémio Nobel da Economia
à Dona Branca. E viva a República das Piiiis.”
Infelizmente a versão online do artigo está reservada a assinante.
16 de dezembro de 2012
Os melhores livros com narradores adolescentes

(imagem de uma edição de Catcher in the Rye de Salinger)
O The Guardian divulgou, na presente semana, aqueles que – em opinião do autor da peça – se inscrevem na categoria de êxitos literários cujos narradores são adolescentes. De um conjunto de dez obras, são de destacar algumas das traduzidas para português e por cá também tornadas famosas, a saber:
- O diário secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4 da autoria de Sue Townsend, cujo narrador personagem provém de uma família disfuncional da classe média. Nos últimos números da série, Mole muda-se para Londres, é auxiliar num restaurante do Soho, acabando por encontrar emprego num alfarrabista da cidade;
- As aventuras de Huckleberry Finn (como foi lido e relido na juventude!) de Mark Twain… Huck é o típico adolescente «outsider» (não encontro palavra em português que expresse tão bem a ideia, as desculpas aos puristas da língua). A viagem que faz pelo coração da América com Jim – o escravo em fuga – representa o caminho para a liberdade, ao longo do Mississipi. Finn teima em continuar a jornada, na tentativa de impedir a tia Sally de o sivilizar (‘sivilize’, de acordo com o texto original);
- Jan Eyre de Charlotte Brontë. Os limitados horizontes de Jan Eyre, a par das esperanças frustradas da narradora, não deixam de exercer fascínio entre os adolescentes que com ela se identificam. A resignação patente nas últimas linhas do romance «leitor, casei-me com ele» inscrevem-se, na perfeição, no arquétipo da ficção vitoriana;
- À espera no centeio de JD Salinger. Holden Caulfield começa por despertar o leitor na aproximação a Huck Finn . Lança a questão: será interessante para o leitor saber onde nasceu e se a infância miserável se cruza com a de Hucleberry Finn?. Escreve-nos a partir de uma instituição a escancarar portas, permitindo-nos entrada. Destinado a um público adulto, o romance de Salinger tornou-se popular entre os jovens, pela abordagem muito pessoal da desorientação adolescente, da alienação, da angústia e da revolta;
- A ilha do tesouro de Louis Stevenson. Jim Hawkins, o narrador adolescente, abre a peça de ficção com uma fórmula apelativa aos olhos do leitor: «Num certo dia do ano de mil setecentos e tantos, um velho marinheiro moreno, com uma cicatriz no rosto, bateu com o seu bordão ferrado à porta da estalagem Almirante Benbow…»;
- A Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Clássico distópico, a comemorar 50 anos de existência, dá voz a um adolescente impetuoso, abrasivo e romântico de nome Alex. Passado numa Inglaterra em tempos de «um futuro próximo», o protagonista adolescente acompanha o grupo (os «Droogs») em rituais de violência, durante a noite. Os membros do grupo têm diversas características: Dim, o de raciocínio lento; Georgie, o ambicioso; Pete, a deliciar-se com a alegria sádica dos elementos. Alex revela um gosto sofisticado pela música, com destaque para as sinfonias de Beethoven.
Em modo de encerramento, fica a questão: quais serão os clássicos da literatura nacional com narradores adolescentes a marcar os leitores (mais ou menos) compulsivos através de gerações?
13 de novembro de 2012
Evocando Robert Stevenson pelo seu aniversário

Robert Stevenson nasceu num dia 13 de novembro (1850). A menção ao escritor, deve-se ao fascínio exercido, na primeira adolescência, pelo fantástico romance A Ilha do Tesouro. Não faria sentido decalcar um qualquer texto conciso sobre o legado de Stevenson que, até aos nossos dias, mostrou a sagacidade de saber juntar os ingredientes de ficção apelativos à leitura juvenil . Ficam, pois, algumas imagens e dados sobre este escocês de Edimburgo: filho de um famoso construtor de faróis, cedo começou a sofrer de graves problemas respiratórios. Aos dezassete anos, obedecendo à vontade do pai, ingressou na Faculdade de Engenharia, na sua cidade natal. Mais tarde, enfrentaria a vontade familiar, informando que pretendia deixar o curso, para se dedicar à escrita . O pai impôs-lhe Direito, que viria a terminar. Fascinado pelo teatro, participou, enquanto estudante, em diversas representações. Aos vinte e seis anos conheceu a futura mulher, dez anos mais velha e com dois filhos.

Correram diversas latitudes, tendo-se fixado em Samoa. Muitos textos foram construídos durante crises de saúde. A par da escrita, o gosto pela música. Na região, os nativos chamavam-lhe Tusitala «contador de histórias». Aos quarenta e quatro anos faleceu, de modo súbito, tendo sido sepultado numa cerimónia local , em espaço amplo, sobranceiro ao mar. Em Samoa, viveu com intensidade a política local. Na sepultura, encontra-se gravado «Requiem», poema de sua autoria:
«Sob o céu vasto e com estrelas/ Construam a morada e deixem-me partir,/ Deito-me com um desejo./ Que me deixem estes versos: “Aqui fica onde sonhou, /Na casa de marinheiro, casa do mar/E do caçador da colina.”» - Robert Stevenson (tradução livre para este post)
Imagens: Capital Collections/ Fonte: The Guardian
3 de novembro de 2012
Os 10 títulos de mais difícil leitura

(imagem: Stefano Bianchetti/Corbis)
O The Guardian de hoje publica uma rubrica intitulada «os 10 títulos de mais difícil leitura». Desconhecendo-se os procedimentos que terão conduzido à conclusão, o artigo, em tom bem humorado, felicita os leitores que conseguiram concluir as obras apresentadas. Do conjunto, fazem parte alguns autores contemporâneos, alguns (ainda) não traduzidos em português, sendo outros considerados clássicos do ensaio e da ficção. Por ordem de apresentação, a listagem é a seguinte:
1- Will Self, Umbrella
2- Walter Abish, Alphabetical Africa
3- Baruch Espinoza, Ética
4- Kazuo Ishiguro, Os Inconsolados
5- Robert Musil, O Homem sem Qualidades
6- Karl Marx, O Capital
7- Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão
8- James Joyce, Finnegans Wake
9- Thomas Pynchon, Arco-íris da Gravidade
10- B.S. Johnson, The Unfortunates
A ilustrar o tom do artigo, transcreve-se a observação associada à escrita ficcional de Robert Musil «obra em três volumes e de difícil leitura, apresenta-nos um protagonista em busca de um sentido para a realidade, a personagem revela uma atitude ambivalente , oscilando entre moral e indiferença, o que a reduz ao estado de “homem sem qualidades”». O autor da peça jornalística conclui a apreciação a este extenso texto, referindo que «para alguns leitores, Musil teve a faculdade de fazer com que Proust acabasse por ficar equiparado a Agatha Christie».
Fonte: The Guardian/The Observer (adaptação)
21 de outubro de 2012
Vou pensar nisso
"Não estou de acordo nem em desacordo. E você? Olhe...vou pensar nisso. Espere...Acho bem dar o Samuel Beckett ao prémio Nobel" (dizia assim Mário Cesariny)
Em 1969 , Samuel Beckett recebia o prémio Nobel da Literatura.
Alguns escritores portugueses pronunciavam-se sobre o assunto no Século Ilustrado.

Em 1969 , Samuel Beckett recebia o prémio Nobel da Literatura.
Alguns escritores portugueses pronunciavam-se sobre o assunto no Século Ilustrado.

27 de setembro de 2012
J.K.Rowling: The Casual Vacancy
O primeiro romance de J.K.Rowling destinado a adultos, foi hoje posto à venda e pensa-se que será um best-seller mundial. Já conta com um milhão de exemplares vendidos antes do lançamento, embora não tenha provocado a corrida às livrarias britânicas, à semelhança do sucedido com Harry Potter. The Casual Vacancy, título da obra, foi hoje posto à venda na Grã-Bretanha, rodeado de algum secretismo. "Harry Potter ocupou, a título pessoal, um lugar importante no que diz respeito à experiência do crescimento" - comentou uma das primeiras compradoras do novo título numa livraria londrina. "Poderá não ter grande elegância de estilo, mas trata-se de uma grande contadora de histórias" - acrescentou a entrevistada de 29 anos. O ponto de partida deste texto de ficção que se desenrola em Pagford, aldeia imaginária do sudoeste de Inglaterra, é a morte de um membro da autarquia local. A partir daí, os habitantes encetam diligências para encontrarem um substituto que defenda a sua causa comum – livrar a aldeia de uma gestão menos adequada. J.K.Rowling pensou, de início, no título Responsáveis pois, tal como informa em entrevista ao New Yorker, “trata-se de um livro sobre responsabilidade, acerca da nossa própria responsabilidade, em sentido lato, para com os estratos sociais desfavorecidos”. Surgem, portanto, no presente livro, temas afastados do universo dos jovens feiticeiros, já que aborda temas como a toxicodependência, a prostituição, as famílias monoparentais e a sexualidade adolescente. O romance já recebeu críticas iniciais, a equipararem a sua mensagem social a uma fórmula «Charles Dickens». O Daily Telegraph descreve-o como um livro “por vezes divertido, muitas vezes a refletir uma observação lúcida, plena de crueldade e de desespero”. “Terminei com a saga de Potter, a não ser que me surja uma ideia extraordinária” – informa a autora. De acordo com o Sunday Times, com uma fortuna associada a 560 milhões de livros (703 milhões de euros), esta mãe de três filhos é detentora de um império, se pensarmos que Harry Potter deu ainda lugar a 8 filmes de sucesso, a brinquedos e a videojogos. Em relação ao presente título, a escritora afirma ter sido influenciada pelo início da década de 90, quando escreveu o primeiro Harry Potter, viveu em diversos apartamentos alugados, sofria de depressão e educava sozinha a única filha que então tinha . De momento, encontra-se a escrever dois romances para a juventude.
(Fonte: L'Internaute Magazine)
15 de julho de 2012
De Manoel de Oliveira a António Vieira - notas soltas

Tudo o que se possa escrever sobre figuras conhecidas por bons motivos, cairá sempre na repetição de uma qualquer enciclopédia ao acesso de um “clique” de motores de busca . Manoel de Oliveira é um dos orgulhos nacionais – preze-se mais ou menos a sua obra, já que gostos são subjetivos. Conhecendo de modo parcelar o trabalho do realizador – há que selecionar num mundo com tanta oferta e quando se tem tantas paixões – recordo-o, há meia dúzia de anos, enquanto vizinho de férias: hospedados no mesmo local, na ilha de Porto Santo, era vizinho de mesa ao pequeno almoço onde permanecia por poucos minutos, ausentando-se com um frasco onde preparava um café instantâneo que levava consigo, não voltando a ser visto em público até à manhã seguinte. Acompanhado de sua mulher, senhora bonita e eternamente jovem, e por um outro casal, olhava-o de modo discreto : sempre me fez confusão que as figuras públicas sejam incomodadas no seu tempo de lazer, como se de nossos vizinhos de sempre se tratassem. Desejando que regresse por longo tempo à energia com que nos surpreende, destaco Palavra e Utopia, sobre a vida do Padre António Vieira, uma outra figura que, a título pessoal, não me deixa de surpreender pela lucidez e atualidade do verbo.
Palavra e Utopia
12 de junho de 2012
O haiku das palavras perdidas de Andrés Pascual

Fotografia: Michael Kenna
“Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo – entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal”. – Almeida Garrett, Viagens na minha terra
A leitura é ânsia de evasão, seja ela fugaz, a poucos quilómetros de casa ou distante, levando a esquecer o correr das horas. Em fase de leitura compulsiva – lamentando que nem todos os dias do ano, assim sejam caracterizados – penso que ler é também viajar, interiorizando como perturba o ritmo do tempo, por trazer ao pensamento a pretensão de percorrer a totalidade dos livros, de concretizar todas as jornadas, isenta de constrangimentos. De um livro de navios afundados e tesouros quase esquecidos, passa-se ao universo do Japão, com duas gerações presentes no enredo (a de Nagasáqui e a do recente terramoto). A escolha é também feita pelos afetos – o escritor, presente há dias numa palestra no nosso país, deixou – por motivos que não vêm à colação – a oferta do seu romance traduzido, com uma dedicatória sentida, a uma das minhas filhas que pretende viver de e para a escrita, intuito ousado, nesta era tecnológica em que, por contradição, tanto deixamos desperdiçar. País distante, acerca do qual efabulamos, têm-me espantado relatos credíveis de amigos que o visitaram, um pouco à margem de circuitos turísticos «sentimo-nos em casa» (a expressão surpreende, por considerar a cultura tão diversa e longínqua). Recordo ainda comentários de japoneses que passeiam pelos bairros típicos de Lisboa «somos parecidos, também estendemos roupa à janela», referem-me ainda o bolo que descende do nacional pão de ló (disso já todos temos conhecimento), a par de algumas palavras por nós deixadas, aquando da expansão. Tendo-me alongado sobre um livro que só hoje irei encetar, deixarei unicamente como abertura a epígrafe que antecede o início do romance:
Nasci para o mundo/ e deixo-o com a minha morte. /As pernas levaram-me a mil aldeias /e a infinitos lares. /O que são?/ O reflexo da lua na água, uma flor que flutua no céu… /Oh!
Gizan Zenrai
25 de março de 2012
18 de fevereiro de 2012
Os gatos de Hemingway

A casa onde viveu Ernest Hemingway , em Key West, na Flórida, é habitada por uma colónia de gatos. Mas não são gatos comuns — são gatos com seis dedos.
Um dos maiores escritores do século XX herdou dos marinheiros a paixão por gatos polidáctilos. Bichanos com dedos extra eram considerados animais de boa sorte no mar, graças às suas habilidades superiores, a bordo, na caça de roedores.
Quando o autor de O Velho e o Mar foi presenteado com um gato de seis dedos por um capitão de navio, incluiu os descendentes do felino hexadáctilo no testamento. Hoje existem cerca de 60 gatos na casa do escritor — e quase metade destes animais tem a referida característica.
Fonte do texto: hypercubic ; Imagem: recebida por correio eletrónico sem referência à fonte.
13 de fevereiro de 2012
Cranford ou Palmela
"É preciso dizê-lo, antes de mais : Cranford está à mercê das Amazonas. Todos os proprietários, a partir dum certo rendimento, são mulheres. Se um casal vem estabelecer-se de novo, o marido desaparece qualquer maneira. Apavora-o a idéia de saber-se o único homem dos serões que aí se dão, e, ou é ocupado pelo regimento ou pelo navio, ou prendem-no toda a semana os negócios na grande cidade comercial de Drumble, situada, aproximadamente, a vinte quilómetros, pela via férrea. Em resumo: aconteça o que acontecer a estes senhores, não é fácil encontrá-los em Cranford. Aliás, que poderiam eles aí fazer ? O médico que circula sobre urna trintena de quilómetros em redor, dorme em Cranford, mas nem todos os homens podem ser médicos"A cidade sem história, Elizabeth Gaskell, Editorial Inquérito.
Arrumo folhas e capa desirmanadas pelo tempo e pelo uso e descubro A Cidade sem História de Elizabeth Gaskell. Tenho ideia que o li, muito novinha e a assinatura da posse é da minha mãe. Em 1943, transplantada do norte para o sul, habituava-se a Palmela e a ser casada. Imagino-a a ler, embrenhada e feliz. E se os livros nos contam uma história, certamente contam também a dos seus possuidores e deles se exalam doces memórias e saudades.
21 de dezembro de 2011
Felicidade
Apesar dos trinta anos, Berta Young tinha ainda momentos como aquele, em que desejava correr em vez de caminhar, dar passos de dança de um lado ao outro da calçada, fazer girar um arco, atirar qualquer coisa ao ar e apanhá-la de novo, ou então ficar parada e a rir de... nada... nada, simplesmente a rir. Que se pode fazer quando se tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da nossa própria rua, somos invadidos sabitamente por uma sensação de felicidade—felicidade absoluta! — como se tivéssemos engolido de repente um rútilo pedaço deste sol da tardinha e ele nos estivesse a arder no peito, a despedir um chuveiro de minúsculas faíscas em todas as partículas do nosso ser, até nos dedos das mãos e dos pés ?... Oh! Não haverá um meio de exprimir essa sensação sem falar em «embriaguez e desordem»? Como a civilização é idiota! De que nos serve ter um corpo, se somos obrigados a guardá-lo fechado num estojo como um violino raro, muito raro?
Katherine Mansfield, Felicidade, Colecção Miniatura, Livros do Brasil.
Ilustração de Bernardo Marques
11 de dezembro de 2011
Orgulho e Preconceito
"É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, na posse de grande fortuna, precisa de casar-se. Por muito pouco que se saiba dos sentimentos e planos de um homem nessas condições, quando se fixa pela primeira vez numa localidade, aquela verdade está tão arreigada na imaginação das famílias circunvizinhas que ele é desde logo considerado como propriedade legitima de alguma filha casadoira. - Meu querido Bennet — dizia-lhe a esposa um dia — já ouviste dizer que Netherfield Park foi finalmente alugado? Que não, que não tinha ouvido, respondeu o senhor Bennet. — Pois foi! — tornou a mulher. — A senhora Long acaba de sair daqui e contou-me tudo. Bennet não deu resposta. - Não queres saber quem o alugou? tornou impaciente a mulher. - Se queres dizer-mo, não faço qualquer objecção. Era quanto bastava. — Pois é bom que saibas. A senhora Long diz que Netherfield foi alugado por um rapaz do norte da Inglaterra, possuidor de grande fortuna; que èle veio na segunda-feira para o ver, e ficou tão encantado que chegou logo a acôrdo com o senhor Morris. Toma posse da casa antes do S. Miguel"Chamem-se o que quiserem, é dos romances que mais reli na vida. E não perco os filmes e as séries realizados. Orgulho e Preconceito de Jane Austen, Editorial Inquérito, comprado na feira da Ladra por 50 cêntimos.
17 de novembro de 2011
Descubra o sol
"... e depois descubra o sol, e da sombra emerge o amarelo brilhante deste vaso de mimosas. É bastante: um só vislumbre nascente, eis-me cheio de uma alegria confusa e surpreendente. É uma tarde de Janeiro que me põe assim em frente do avesso do mundo. Mas o frio permanece no fundo do ar. Por toda a parte uma película de sol que estalaria com uma unhada mas que reveste todas as coisas de um eterno sorriso. Quem sou eu e que posso eu fazer senão entrar no jogo das folhagens e da luz ? Ser esta luz em que o meu cigarro se consome, esta doçura e esta paixão discreta que transparece no ar. Se tento atingir-me, é mesmo no fundo desta luz. E se tento compreender e saborear este delicado sabor que revela o segredo do mundo, é a mim mesmo que encontro no fundo do universo. Eu mesmo, isto é, esta extrema emoção que me liberta do cenário. Ainda há pouco, outras coisas, os homens e os túmulos que eles compram. Mas deixai-me cortar este minuto no tecido do tempo. Outros deixam urna flor entre as páginas, encerram nela um passeio em que o amor os aflorou. Eu também passeio mas é um deus que me acaricia"
Albert Camus, O Avesso e o Direito, Colecção Miniatura, Livros do Brasil, Capa de Bernardo Marques
Albert Camus, O Avesso e o Direito, Colecção Miniatura, Livros do Brasil, Capa de Bernardo Marques
14 de novembro de 2011
O Monte dos Vendavais
Foi um dos romances que iniciou a minha paixão pela leitura. Adequadamente. Um dos personagens masculinos que mais me impressionou. Heathcliff criado por Emily Bronte. Talvez às vezes ainda sonhe com ele. Este é o início de O Monte dos Vendavais, Editorial Inquérito.
"Acabo de regressar duma visita ao meu senhorio, o único vizinho que perturbará a minha solidão. Estes sítios, na verdade, são maravilhosos! Creio que, em tôda a Inglaterra, não poderia encontrar refúgio tão completamente afastado da agitação mundana. Um verdadeiro paraíso para misantropos! E o Sr. Heathcliff e eu constituímos o par ideal para a partilha dêste deserto. Que homem extraordinário! Nem êle suspeita da simpatia que me inspirou quando, ao estacar o meu cavalo, lhe surpreendi os olhos negros que se escondiam, desconfiados, sob as sobrancelhas, e os seus dedos que, num gesto esquivo, mergulhavam profundamente nos bolsos do colete, ao anunciar-lhe o meu nome. — É o Sr. Heathcliff? — interroguei. Respondeu com um aceno de cabeça. — Sou Lockwood, o seu novo inquilino. Pensei que devia vir visitá-lo, logo que cheguei, para lhe exprimir a esperança de não ter sido impertinente com a minha insistência para habitar Thrushcross Grange. Ouvi dizer, ontem, que o senhor tivera certas apreensões... — Thrushcross Grange — interrompeu êle — é minha propriedade. Não permito que ninguém me aborreça quando posso opor-me a isso... Entre! Êste «entre» foi pronunciado com os dentes cerrados e queria dizer: «vá para o diabo!» A própria cancela a que se apoiava não denunciou o menor movimento de acordo com o convite, e foi esta circunstância, creio, que me impeliu a aceitá-lo"
"Acabo de regressar duma visita ao meu senhorio, o único vizinho que perturbará a minha solidão. Estes sítios, na verdade, são maravilhosos! Creio que, em tôda a Inglaterra, não poderia encontrar refúgio tão completamente afastado da agitação mundana. Um verdadeiro paraíso para misantropos! E o Sr. Heathcliff e eu constituímos o par ideal para a partilha dêste deserto. Que homem extraordinário! Nem êle suspeita da simpatia que me inspirou quando, ao estacar o meu cavalo, lhe surpreendi os olhos negros que se escondiam, desconfiados, sob as sobrancelhas, e os seus dedos que, num gesto esquivo, mergulhavam profundamente nos bolsos do colete, ao anunciar-lhe o meu nome. — É o Sr. Heathcliff? — interroguei. Respondeu com um aceno de cabeça. — Sou Lockwood, o seu novo inquilino. Pensei que devia vir visitá-lo, logo que cheguei, para lhe exprimir a esperança de não ter sido impertinente com a minha insistência para habitar Thrushcross Grange. Ouvi dizer, ontem, que o senhor tivera certas apreensões... — Thrushcross Grange — interrompeu êle — é minha propriedade. Não permito que ninguém me aborreça quando posso opor-me a isso... Entre! Êste «entre» foi pronunciado com os dentes cerrados e queria dizer: «vá para o diabo!» A própria cancela a que se apoiava não denunciou o menor movimento de acordo com o convite, e foi esta circunstância, creio, que me impeliu a aceitá-lo"
24 de setembro de 2011
'Sodade' de Cesária ou um adeus aos palcos

(imagem:unep.org)
Estranho quando alguém afirma não ter conhecido professores que tenham deixado recordações gratas. A propósito, já aqui foi mencionado o mestre e escritor Manuel Ferreira, docente de Literaturas africanas de expressão portuguesa. Tendo ontem revisitado Hora di Bai, romance do autor, fugiu de imediato o pensamento para a voz única Cesária Évora pela intertextualidade evidente a associar a prosa literária à canção.
Com surpresa, verifico esta manhã no jornal que a cantora anunciou publicamente o final dos concertos com que durante tantos anos nos encantou.
«Nha Venância, bô crê ouvi um poeminha?»
«Mas poema direito, bô ouvi?», e riu agradada como ainda não tinha rido naquele dia.
Caminho longe…
Caminho obrigado
caminho trilhado
nos traços da fome
caminho sem nome
caminho de mar
um violão a chorar
Caminho traidor
«Caminho traidor, sim senhor. Gente espera uma coisa e São Tomé dá outra. Ou não. Traidor porque rouba filho da nossa terra. Isso mesmo, moço.» (…)
Manuel Ferreira, Hora di Baie a propósito: sodade
2 de julho de 2011
Evocando Hermann Hesse

No intervalo de uma tarefa exigente, reparo que Hermann Hesse nasceu há precisamente 134 anos. Agrada-me pensar como foi marcante para várias gerações, desde a de uma elite de escritores – a americana beat generation – à do leitor comum que viveu a adolescência nos anos 70.
Muito haveria para dizer sobre Hesse. Corro ao escritório e encontro um antigo exemplar idêntico ao representado na imagem. Livros algo distantes no tempo fazem-nos viajar por diversos motivos. No interior, um antigo bilhete de autocarro (o preço assinalado é o de cinco escudos) e um marcador artesanal, em bonita caligrafia, com um excerto de Bernardo Soares Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho e faltam a esse também. Não conseguindo recordar quem terá copiado a frase em cuidada caligrafia para uma tira de cartolina amarelecida pelo tempo, sorrio ao pensar no despropósito da sua colocação nesta obra literária, dado a mesma ter originado sonhos a extravasar a literatura. Um deles será sem dúvida Close to the edge, criado a partir do romance Siddhartha .
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