21 de dezembro de 2003

Cá de longe...

Deixei o Algarve e fugi para o Nordeste Alentejano.
Deixei, lá longe, a cidade e refugiei-me numa aldeia, tão pequena, que ninguém sabe onde fica.
Gosto e não me canso de cá vir, gosto de sentir o ritmo diferente das coisas. É que aqui há um ritmo diferente... de fazer a comida, de por a lenha no lume, de ir ao café, de ir comprar qualquer coisa, de ir fazer uma visita. Pode parecer, para quem não sabe, parado, lento ou mesmo monótono, mas eu acho que é apenas o ritmo certo, o ritmo natural.
Aqui, a vida tem um ritmo diferente.

Lamb em Lisboa

Os Lamb são um daqueles casos de amor que ocasionalmente acontecem entre portugueses e bandas estrangeiras a quem mais ninguém no mundo liga grande coisa (outros exemplos são os Tindersticks e os Walkabouts). Ontem à noite, no Pavilhão Atlântico, mais um daqueles momentos de perfeita união entre público e músicos. As reacções do público são inequívocas e podem ser lidas aqui. O interessante foi, a certa altura, ver o Andy Barlow a desabafar sobre o futuro com a audiência. Eles aqui estão mesmo em casa. O Pavilhão Atlântico é que é o enquadramento errado. Frio e matacão.

A música, essa, é superior. Qualquer dos quatro álbuns existentes até à data é imperdível. Oiçam-nos, de preferência a começar pelo primeiro. E sonhem.

20 de dezembro de 2003

Prendas de Natal - Uma lista de emergência (adenda)

Faltaram os discos portugueses. Imperdoável. São eles:

João Loio - Canções de amor e guerra
Canto Nono - O Porto a oito vozes

As minhas desculpas.

Prendas de Natal - Uma lista de emergência

Romances e afins:
O último Booker Prize - Não me lembro do nome do raio do livro.
O penúltimo Booker Prize - A história de Pi, Yann Martel
O antepenúltimo Booker Prize - O Assassino Cego, Margaret Atwood (tá bem, não foi o antepenúltimo, mas é sensacional).
Homero - A Odisseia (tradução do grego não sei por quem, mas dizem que o homem sabe o que faz).

Poesia:
Todos os livrinhos reeditados da Sophia MBAndresen
João Miguel Fernandes Jorge - Jardim das Amoreiras (vinte e cinco poemas para vinte e cinco estudos anatómicos de Vieira da Silva) - Excelente para oferecerem a médicos! (eu já tenho!!)
Poemário 2004 (Assírio e Alvim) - Também uma alma boa mo ofereceu já! :)))
Sonetos de Petrarca - Tradução de Vasco Graça Moura, e esse sabe sem dúvida o que faz.

Discos:
Jean Ferrat - Jean Ferrat chante Aragon
Hector Zazou - Strong Currents
Robert Wyatt - Cuckooland
Lou Reed - The Raven (o duplo, não a versão reduzida)
Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte - Tribalistas


Outros:
Chocolates!!!!

Estórias da minha infância (8) – A Velha do Pisão

Era corpulenta e atarracada, tinha feições carregadas e rudes. Tinha uma idade indefinida, o que era acentuado por um pele grossa, tisnada e gretada. Também tinha um ar quase masculino, que lhe era acentuado por um exuberante buço.
Andava sempre vestida de preto, como que de um luto carregado. A roupa até aprecia sempre a mesma: camisa e blusa de melha, lenço apertado na cabeça e, ao contrário do que seria esperado para a época, sempre de calças.
Parava quase sempre nos bancos de pedra que existiam debaixo da plátano do Rossio. Especialmente às quartas e sábados, que eram os dias de mercado, quando a zona se enchia com uma enorme multidão vinda das redondezas da cidade. Sentada, fumava cigarros e cuspia para o chão, e olhava todos que pasavam com um ar de desafio.
A intervalos regulares ia à tasca do Sr. João, por onde nós paravamos ainda antes se ser o Mané Jóia. Pedia um traçado de tinto, cheio até ao cagulo, e bebia tudo de um trago. Nessas vindas era quase sempre acompanhada por um velhote de ar ufano, sorridente, que lhe pagava o traçadinho com orgulho. Depois, quase de baço dado, lá iam rápido para um qualquer lupanar de prazer.
E, durante muito tempo, quando algum de nós se gabava de uma aventura qualquer com alguma miúda (inventada ou não), ouvia logo um: Tu??… tu foste, foi à velha do Pisão!

19 de dezembro de 2003

Ressaca (1)

Estou com uma terrível ressaca...
Já uma vez aqui disse, nos idos de Setembro, que venho fazendo cada vez piores ressacas. Há-de ser da pdi...
Também disse que não aprendo e, cada vez que há noitada, abuso sempre... E depois vem "the day after", que é hoje!
Desta vez estou especialmente mal devido a duas outras coisam que ajudam à festa: quase não dormi e fui assistir à festa da catequese do Manel.
O que me anima, é que começou a minha semana de férias!

Dias de chegar tarde

Pois é..os nossos médicos andam em festas natalícias decerto....Andam pouco escrevinhadores.
Anda tudo a meio gás.
Só gente com sacos de compras.Crianças com ar corado, com balões e birras:)
Recebi uma prenda girissimaaaaaaaaa!!! Uma chávena gatal:)
E ontem, uma garrafinha de vinho e um saco de castanhas, devidamente acondicionados em serapilheira:)
Acho que deviamos fazer um jantar de Reis no Blog..que tal???
E traziamos prendas..claro....apesar de eu odiar prendas.."Oh..porque compraste? porque foste gastar dinheiro!!Ohhhhhhhhhh" ...risosssssss
Beijos e vamos à guerra:)

18 de dezembro de 2003

Perdi-me...

Por causa destes dias, de corridas de um lado para o outro, de compras, de jantares, de festas, e de outras merdices habituais, perdi-me no blog...
De repente já estavam a falar de pelos e depilações, da MFL e de pelos, de pelos nos tufos, do Tony e de mais pelos. Pelo meio distribuiram montes de prendas, que ainda não sei para quem são.
Amanhã, se não estiver de ressaca, porei tudo em dia. E hei-de vingar-me... :)

acho que é esta, o prometido é devido:) risos

Matriz, Lenin e Anéis

O terceiro filme de Matrix é mau. Se este fosse o primeiro e não o terceiro de uma sequência mais ou menos respeitável, não teria grande sucesso e não ficaria para a história. Visualmente não se percebe para que foram necessárias 6 ou 7 equipas completas de efeitos especiais. A banalização das personagens, que são cada vez mais humanas, e o fraco aproveitamento do bom que os dois primeiros filmes tinham (tiroteio e kung fu) faz deste terceiro uma nulidade cinematográfica.

Good Bye Lenin não necessitou de 7 equipas de efeitos especiais nem certamente de nenhum dinheiro. "O teatro são os actores" e, para mim, também no cinema basta bons actores e bom argumento para um filme poder ser excelente. Bons actores, argumento original, interessante e divertido e ainda dois temas interessantes fazem do Good Bye Lenin um filme 17 valores. Os temas interessantes: amor entre filho e mãe (maravilho sem ser meloso nem cliché) e amor à ideologia (sem ser nem de crítica política nem de intervenção).

O terceiro dos Anéis é mais do mesmo mas o mesmo continua a ser bonito de se ver: as paisagens fantásticas (mas que, parece, exitem na Nova Zelândia), as cidades mágicas incrustadas em montes ou grutas, os trajes dos guerreiros e princesas, os grandes combates, a magia e a amizade, o tema principal do filme. Para quem não estiver com muito sono (como eu estava ontem) é muito bom de ver.

Ricardo

Tufos e abortos e coisas assim

Faz sol!!!acabou a chuva?
Este blog anda particularmente artistico e polémico.
Gerou-se aqui uma polémica luso-brasileira interessante, sobre o referendo do aborto.
Isso à mistura com uma guerra artistica, acrescida de um debate sibre pilosidade.
Como diz a minha esteticista, a Dona Laura, cada qual usa os pelos como quer. Ela é muito opinativa e conta coisas assombrosas. Que há mulheres que depilam os braços, que há outras que deixam pequenas linhas de pelos, eu sei lá. Gosto da parte em que ela me diz " Os pelos da menina crescem ao contrário"!!!
Eu gostava era que eles emigrassem.
Mas gosto de alguns nos locais convenientes.
Orlando, o que se te oferece dizer-nos sobre depilação?
Achas a morte de um pelo condenável? :P
E Maria , a tua descrição arrepiou-me. A Dona Laura tem essa técnica das bandas e eu fico sempre em mau estado:) Sobretudo debaixo dos braços..ai ai ai!
Mas ....por enquanto nem pensemos nisso:)
Beijos aos blogadores e aos leitores caladitos :)


Resposta a Pilosidades e outras ventosidades

ahahahahaha!!Já pensaste numa ida a uma esteticista?

Antes de pensares na depilação, começa por observar melhor esse pequeno intruso que desafia o teu peito.
Se tens vergonha de ir a uma esteticista,aconselho o uso indolor da cera fria, já existem no mercado diferentes tipos de ceras que podes aplicar em ti próprio (disponíveis em varias lojas ou farmácias)

As ceras frias são fáceis de manusear, mas exigem um pêlo comprido(como os teus)

Basta aplicar as bandas já prontas sobre o peito e tirá-las com um golpe seco e brusco no sentido inverso ao do crescimento.

Também podes começar por um banho quente, a fim de evitar quebrar o pêlo.hehehehe

Pilosidades e outras ventosidades

só mais um niquito

Ao colocar aquele post, não pretendia causar tanta polémica. Queria, antes de mais, expressar as minhas própria dúvidas e incertezas. E faz-me impressão as certazas que muita a gente tem sobre este assunto…
Concordo com tudo o que argumenta o Orlando, na defesa da vida que é um bem absoluto. Logo, o aborto, ao interromper a vida do feto, levanta um problema ético: não praticamos o bem.
Não concordo que este seja um problema de consciência individual. Há muitas coisas, intímas e só nossas, sobre as quais não temos livre arbítrio: a liberdade não é um bem prescindível, o direito de voto também não, e também não existe "direito" ao suicídio. Logo acho lógico que a sociedade defina regras em relação ao aborto.
Mas… sou pragmático. Admito que uma sociedade ceda nos seus valores éticos, para resolução de problemas que se assumam mais importantes.
Por isso aceito a despenalização do aborto... E sei que isto é relativizar a questão!

17 de dezembro de 2003

Lenha na fogueira

Às vezes começo a discutir as coisas um tanto apaixonadamente, e perco as estribeiras. Não é minha intenção ofender a quem quer que seja, e se soei um tanto rabugento (e sei que soei), peço encarecidamente perdão. Nesse caso do aborto, creio que, à parte as relativizações muitas que o mundo vem nos ensinando, estamos falando da questão central que é a vida. Não a acho uma meia-questão, ou uma falsa questão; e muito menos uma idéia à qual as relativizações modernas sejam aplicáveis. Defendemos a vida ou não? Se a defendemos... a defendemos sempre, ou somente se satisfeitas certas circunstâncias? E que circunstâncias seriam essas? Isto é relativizar; isto é dizer que, em tais e tais casos, pode-se viver; em tais e tais outros, é melhor que se mate o camarada; e ainda, em outros, a vida do sujeito penderá de decisões alheias. O fato cristalino, aquele que, creio eu, ninguém disputará, é que, para se fazer um aborto, é necessário matar o feto. Pergunta-se: mas quando é que começa a vida? Sei lá eu! Uma pergunta dessas põe em dúvida a minha própria vida; se não sei quando começa, estarei eu vivo? Se minha mulher me esfaquear, poderá salvar-se da cadeia alegando que, filosoficamente, minha vida é uma questão em aberto, e que portanto ela não poderia tirá-la, ela que, a propósito, talvez também não esteja viva? Por outro lado, se estou de fato vivo, por que é que um feto de um mês, ou de quinze dias, ou de uma semana, não estará? Se estamos ambos vivos, por que é que matar-me é crime, e matar a ele é opção? Escapa-me, confesso sinceramente. Pergunta-se: mas e a que mundo ele virá? O mundo é mau, é sujo, ele crescerá sem amor. Tudo verdade. Entretanto, o mundo é assim para a maioria de nós (ou estamos aqui deitando pelas orelhas todo o amor que nos deram nesta vida?); e quantos estamos dispostos a morrer por isso? E olha que podemos falar, e podemos nos definir claramente a respeito da merda que o mundo é. Mas e o infeliz que, para cúmulo de tudo, nada sabe, nada pode dizer? Decidimos por ele? Dizemos: “vai por mim, amigão, isto aqui é um lixo, você não vai gostar nadinha, morto você está melhor”? Admita-se, porém, que uma mulher não queira ser mãe, seja porque detesta crianças, seja porque se acha incapaz, porque odeia ao pai, ou porque simplesmente quer levar a vida que sempre levou. Deve ser seu direito repudiar seu filho; mas por que poderia matá-lo? Se estamos realmente querendo deixar de ser hipócritas, devemos dar às mulheres o direito legal de repudiar, e não o de matar; e se lhes damos esse direito, porque bem nos parece, temos a obrigação de zelar pela vida dos enjeitados. Que o estado e a sociedade custodiem essas crianças, já que aparentemente falharam em explicar a seus pais o que sejam anticoncepcionais e preservativos, e que essa falha não seja uma razão para que morram. Se resolvemos botar a vida por cima de tudo, então botemos, e façamos das tripas coração para que ela seja respeitada. Debalde? Certamente. Mas chegamos até aqui defendendo isso. Vimos guerras, sangue, revoluções medonhas em nome de legalidade, fraternidade e igualdade. A troco de quê mesmo? Eram essas idéias hipócritas afinal? Não creio que fossem.

Fugindo da Estupidez num beco sem saída ... (é apenas o título desta obra de Millares que vem mesmo a callhar)

Para a Tezinha e para a Errezinha, o menino imperativo do Vespa

Este é a cara do ABS:)



E viva o Tapiès:)

E para o Orlando:)

O Mundo já não é a preto e branco: mais sobre o mesmo...

Com o devido respeito que as diversas opiniões sobre o aborto possam merecer, não posso concordar com a hipocrisia subjacente aos argumentos apresentados pelos auto-intitulados embaixadores da vida. O mundo já não é a preto e branco. Ao se defender a despenalização, não se está a defender o aborto, está a defender-se a vida e não a morte, está a defender-se a possibilidade de cada um, de forma consciente e esclarecida, poder gerir livremente o seu próprio corpo. Quando se fala do aborto, não está em causa um problema ético, como argumentam os mais tí­midos defensores dos ditos valores "pela vida", cúmplices dos milhares de abortos que se praticam anualmente de forma clandestina. Acho que já é tempo de acabar com falsos paternalismos e assumir que o problema existe. Assumir que hoje há mulheres que morrem por falta de cuidados de saúde. Talvez isso seja entendido por alguns como um castigo para as pecadoras que não têm dinheiro para ir a Espanha...

Sobre o aborto

Acho que não há ninguém que deseje menos fazer um aborto do que uma mulher. Sofre-se muito, psicológicamente e mesmo por vezes físicamente. É sempre uma última alternativa.
Acredito querido Gasel que nunca conseguissses fazer nenhum a ninguém. Mas há muita gente que os faz. Médicos e não médicos. E muitas vezes em condições deploraveis.
Acho que reaquacionar essa questão é urgente. Sobretudo , porque quem mais pratica abortos são pessoas com deficitárias condições económicas e mal informadas a nivel preventivo. Porque ainda há a ideia que sexo é pecado e tem-se vergonha de perguntar ao médico.
Ainda há os descuidos, os esquecimentos da pilula, a ignorância da idade. Muitos factores imponderáveis.
Continuo a acreditar que as mulheres têm o direito de escolher de ser ou não ser mães.
E acredita, que como tu, eu já devo ter visto muitas familias , com numerosos filhos maltratados ou negligenciados ou simplesmente mal amados.
Quanto à eutanásia: Preferia ser eutanasiada do que estar ligada a máquinas por tempos infindos.
A vida é o valor mais alto de facto. Mas eu acredito na qualidade da mesma em todos os aspectos.

E quer se aprove ou não, vão continuar a existir abortos ou a deitarem-se recém nascidos no lixo.

Como se voltou a falar disso

Se o retrato do aborto clandestino é chocante, pela crueza e solidão que transmitem…


A imagem da vida humana, na sua simplicidade e fragilidade, não pode deixar de nos comover…


Não sei qual a posição certa, não sei mesmo!
Mas não creio que tudo se possa resumir a uma mera questão de consciência indivídual. Vou mais pelas palavras de um prémio Nobel da Medicina, ditas em 1967, aquando da completa liberalização do aborto (até aos 9 meses) nos Estados Unidos: "Quanto em valores éticos estará uma sociedade disposta a renunciar em favor da solução de um grande problema social? Isto depende não apenas de sua filosofia ética, mas também da seriedade com a qual se encara o problema a resolver".

PP: Só um reparo histórico. A proibição do aborto não está, historicamente, ligado à Igreja Católica. Embora esta sempre tenha condenado o aborto e o infaticidio (essa sim, a maneira comum se resolverem os problemas na Idade Média), desde que o aborto começou a ser praticado “medicamente” no século XVII, sempre foi legalmente permitido. Foram os avanços científicos, com os conhecimentos sobre a concepção humana, que o tornaram proíbido em todos os países, a partir de 1860.

16 de dezembro de 2003

Ora bom dia

Estou um bocado de olho fechado, mas pronto.
Fiz uma viagem ideal de metro.
Primeira parte comprimida contra um jovem rapaz com uma camisola igual à que comprei para o Miguel no Natal. Bom gosto do moço:)
Segunda parte, olhei em frente e estava uma senhora de camisola roxa e saia aos quadrados, a ler ávidamente o "Sangue do meu Sangue".
Fiquei bastante perplexa, a tina não dizia com a tineta.
Olho mais para o outro lado, há que referir que tinha posto os óculos de míope que sou mas que me esqueço de exercer, e vejo um homem lindissimo.
Fiquei de boca aberta a olhar. Lembrei-me de em criança uma amiga minha ter um armário cheio de bonecas, com portas de vidro e sempre fechado à chave. Acho que o meu ar era o mesmo.
O senhor até reparou e ficou a rir-se. Devia ser gay:))) Além de bem disposto, claro:) Mantivemos contacto visual..risos..até que tive que me pirar a contragosto na Praça de Espanha.
E pronto..a Errezinha chegou com prendas!!! Boa!!
Viva o metro e viva a Errezinha!!

Exaustão

Apesar da T dizer que me faz mal à saúde, continuo a dar voltinhas pela blogolândia.
Antes de dizer ao que vinha, aproveito para chamar a atenção para dois blogs de que gostei: o Memória Virtual anda a reconstruir a história deste mundo e já vai no XVI volume; o Guerra e Pas lançou uma serie de posts caracterizando exaustivamente os diferentes tipos de colunistas conhecidos.

Exaustivamente, é o termo que me leva à segunda parte deste post.
A grande maioria dos blogs, editados por uma única pessoa, dedicam-se com exaustão a um tema, seja ele a política, o cinema, o jornalismo, o futebol, qualquer coisa... A mim, acabam por me cansar e, sinceramente, não percebo o objectivo de tamanha gesta. Mudar o mundo?
Muitos outros viram-se para um registo intimista, mas unipessoal. Embora haja, por aqui, pessoas e pensamentos muito interessantes, todos caímos, por vezes, na repetição e monotonia, o que é deveras maçador.
Existem ainda os blogs colectivos mas de linha editorial definida. São claramente políticos e, consequentemente, tendenciosos. São uma espécie de pasquim blogosférico…
Assim, os blogs que eu mais gosto, são os parecidos com o nosso: alguma maralha ao monte, muita fé em deus, e posts à baldex. A coisa nunca esmorece, há sempre alguém a agitar as águas!

Isto levou-me a pensar propor a criação de uma espécie de liga, a UBAB: União dos Blogs À Balda.
Aliás, se a nossa mentora não se opuser, um dia destes vou criar ali em baixo um grupo de links, para este tipo de blogs!



15 de dezembro de 2003

Tom Waits

Sabe-me tão bem ouvir o Tom Waits enquanto preparo aulas:)

Porque é que eu gostei muitíssimo do Dogville

Este texto não é para ser lido por quem ainda não viu mas pretende ver o filme Dogville, pessoas politicamente correctas e sábios que não acreditam na possibilidade de mudarem de opinião. O texto que se segue é muito comprido e pode chocar algumas sensibilidades e intelectos. Peço desculpa por ser comprido.

Ler texto.Dog.pdf

Aventuras

Poisé...
Como já vos disse, este fim-de-semana resolvi misturar-me na multidão.
E o que fiz? Ora, fui à capital, armar-me em capitalista, ou seja, gastar montes de massa!
E também vos disse que tive montes de aventuras...
Quais foram? Bem..., não foram assim tantas.
Em primeiro lugar, andámos de metro! Como já vamos sendo um bocado provincianos e labrêgos, andar de metro cá para a família, especialmente pró Manel, é uma aventura. Como chefe de família, e antigo conhecedor, dispus-me a fazer de guia. O pior é que aquilo já não está como no meu tempo, as linhas duplicaram, as estações mudaram de nome,... e acabamos por nos perder várias vezes! Terrível... Bom, Lisboa já está quase como Londres ou Paris. Ainda assim, sempre prefiro as linhas de metros numeradas, 1, 2, 3, etc... agora Gaivota, Golfinho, Papagaio e outras bicharadas, é que não está com nada!
Depois, com o meu voto contra, marchámos para o Colombo. Aí já eu sei que me perco sempre... tenho que andar, constantemente, a fazer a triste figura de perguntar aos seguranças onde é a loja tal, a rua da Índia ou a praça dos Descobrimentos. Ao fim de três dolorosas voltas, aos encontrões, aos com-licenças e aos ais, resolvi atirar-me para o chão e simular um ataque convulsivo! Gentilmente, levaram-me para o exterior e eu disse que não era preciso ambulância, que era uma “baixa de açucar”!
Para acabar, fomos ver o Glorioso. Mas essa já eu contei.

PP: Agora um pouco mais a sério. Lisboa já vai tendo um ambiente urbano atraente, já se disfarça de cidade europeia, pelo menos nesta altura do pré-Natal!

Mas é diferente...

Concordo com o ABS, as imagens do Saddam chocam... atiram-nos à cara quão vã é a condição humana.
E claro que são feitas com a intenção clara de chocar, de expor o inimigo à humilhação pública, de mostrá-lo humano, frágil e acossado, como um farrapo na mão dos carcereiros.
E seriam necessárias? Eu acho que dificilmente seriam diferentes, tinha que ser esta, exactamente, a imagem que os Americanos tinha que passar aos Iraquianos: o grande Saddam não passa de um velho andrajoso, escondido num buraco...
E não deixa de ser diferente, apesar de tudo, da crueza do fim do Savimbi, ou mesmo do Ceausescu. E seria muito fácil, e mais simples, certamente. Apesar de tudo, não deixa de ser diferente...
Apesar de os seres humanos continuarem a ser uns rematados filhos da puta, uns são um bocadinho mais que outros...

e este?


Les Galapiats

Uma prendinha para o Gasel II



A actriz Béatrice Marcillac que protagonizava a bela Marion de 1970, em 2003.....
Les Galapiats

E prenda para a Errezinha!!!



Les Galapiats, Pequenos Vagabundos, Jean Loup

Para o Gasel..risos



Beátrice Marcillac, Petits Galapiats

Dias de alergia

Estou farta de esfregar o nariz.
Soube do Saddam quando li o post do ABS. Depois vi as fotos e os filmes e fiquei agoniada. Se calhar disso a minha alergia.
De repente parece que o John Wayne prendeu o vilão do filme. E o regozijo é total.
Eu só vi um homem acossado e perdido, que inspira piedade apesar de ter sido um ditador nojento.
E agora, o que se vai fazer dele?
Sempre que penso no Bush, é mais uma coçadela dde nariz.
Como é que vou orientar a reunião que vou ter sempre a coçar-me? Grrr
Este post está um bocado desorganizado.
Resumindo, a prisão do Saddam não resolve nada. Só lhe vai melhorar o nivel de vida. Lá saiu do buraco e vê a luz do dia.
Dá prestígio ao Bush?
Isso deve dar de certeza.
E quem vai julgar o Saddam?
E quando é vou parar de me coçar toda?????Merde.

Coração Vermelho (7) - a iniciação

Como num ritual iniciático, este fim de semana, levei o meu filho ao Estádio da Luz.
Como um momento destes o exige, foi cuidadosa e longamente preparado. Pensámos na roupa a levar, nos horários de partida e chegada, nos caminhos a percorrer e treinámos os cânticos de júbilo. Mesmo antes de chegarmos, pus o meu ar de pai, e disse-lhe com voz grave: Rapaz!... há três coisas que um homem nunca esquece na vida, o primeiro dia de escola, a primeira ida à Luz e a primeira queca.
Ele ficou de olho brilhante, emocionado e, de voz trémula, lá continuou a cantilena que tinha ensaido: Só eu sei... o braga é gai!!
Depois cumprimos todos os preceitos.
Enfeitámo-nos com barretes, cachecóis e outros atavios.
Nas roullotes, bebemos cerveja e comemos coiratos.
No estádio cantámos Sou Benfica e agitámos os cachecóis
No jogo gritámos pelo Benfica, apupámos o adversário e insultámos o árbito.
No intervalo mijámos e comprámos mais cerveja (sem álcool...).
No fim do jogos abraçámo-nos, muito contentinhos, de barriga cheia. Voltámos a casa com o coração vermelho inchado e jurámos repetir...
Foi nessa altura que ele quis saber o que era uma queca...

14 de dezembro de 2003

Voltei

Olá, cambada! Voltei...
Andei dois dias incógnito, no meio da multidão.
Não soube nada do mundo, e o mundo não soube nada de mim.
Agora, vou por o mundo em dia.
Amanhã, logo vos contarei algumas histórias...

Apanhado

Das imagens com que nos estão a bombardear hoje choca-me particularmente a de Saddam a ser cuidadosamente observado por um médico (?) das tropas americanas: primeiro em busca de parasitas do cabelo e, em seguida, num exame da cavidade oral por razões que completamente me escapam (queixou-se de dores de garganta? querem tratar-lhe eventuais cáries dentárias? buscam um transmissor tipo James Bond num molar?). Um acto médico é sempre, e por definição, um acto privado, no qual a dignidade pessoal se encontra em jogo, exposto que está um ser humano ao escrutínio (habitualmente consentido, o que aqui não devia ser o caso) por outrem. Poder-se-á argumentar que foi para demonstrar o tratamento "humano" dado a Saddam. Não sou ingénuo. Quem introduziu estas imagens no briefing sobre o assunto sabia perfeitamente que esta é uma forma de humilhação equivalente a passeá-lo nu pelo meio de uma turbamulta ululante, ou a pendurá-lo pelos pés para exposição pública, ou a crucificá-lo, ou a filmar o seu cadáver de todos os ângulos possíveis, incluindo close ups em dose certa.

A marca de verniz modifica-se, a terminologia adapta-se às circunstâncias, mas a semântica da guerra é a mesma de há dez mil anos: os seres humanos continuam a ser os rematados filhos da puta que sempre foram.

Berlioz

Fez duzentos anos esta semana que nasceu o mais moderno músico do século XIX. Ouvimo-lo hoje e não se acredita que escreveu o que escreveu na sua época. Oiça-se Os troianos ou A danação de Fausto e percebe-se o que digo. Este ano pôde-se ouvir o seu Romeu e Julieta no S. Carlos, com uma interpretação algo murcha e uma cenografia desgraçada mas, mesmo assim, que música...

13 de dezembro de 2003

Natal

Esta noite vou ao circo.

:))))))

Outro dia

Este último post do Gasel fez-me lembrar as aulinhas em LLM, sobre a gramática generativa..argh...
Coisa tormentosa a linguística, a fonética e essas tralhas todas.
Ainda não sei como sobrevivi ao Chomsky:)
Feitas as compras de supermercado online..que maravilha...resta-me aproveitar o sábado:)
Preguiçar, preguiçar e preguiçar.
Beijos

12 de dezembro de 2003

Postas de pescada (4)

Li no miniscente, numa divagação sobre a blogosfera, a dúvida que se segue:

"Por outras palavras: uma escrita livre e pessoal, fragmentária e aberta, fortemente intertextual e contaminada, dissociada de um suporte que a tornasse num organismo centrado, tendencialmente estático e alérgica ao interactivo não é, em si, um desafio à própria ordem dominante do quotidiano?"

Fogo…, não haveria outras palavras dizer isto?

PP: quem é a rainha das vacas??

Postas de pescada (3)

Ando farto dos comentadores-políticos das televisões. Especialmente daqueles que têm três nomes: o Pedros Santana Lopes e o Manuel Maria Carrilho.
Porque é que temos que gramar com as suas opiniões enviezadas e dirigidas?
Porque é que temos que gramar com o seu ar sobranceiro, de quem sabe mais que tudo?
Porque é que temos que saber o que vão dizer, ainda antes de abrirem a boca?
E, pior, o que é que nos interessam os seus “estados de alma”?
Dahh…

O que vale é que só falta uma semana para ter umas mini-férias!
O pior é que só falta uma semana para comprar as prendas que ainda não comprei!

Postas de pescada (2)

Tem-se falado muito, a propósito de um seminário qualquer, de erro e negligência médica. Num dia destes li, no Blogame Mucho, as opiniões do um médico e de uma jurista(?) sobre este tema.
De facto, existe por aí muita confusão entre estes dois conceitos. E sou levado a concordar com a lolita: os médicos, de uma forma geral, reagem muito mal quando alguém põe em causa os seus doutos conhecimentos.
Mas não somos os únicos…

Como não tenho nada que fazer, vou soltar aqui umas... Postas de pescada (1)

Estando, ou não, de acordo com a cor política deste governo e achando, ou não, que as opções económicas e sociais são correctas, duas coisas não podem deixar de ser notadas:
Parece que o Martins da Cruz subiu ao palco só para tratar dos probleminhas da família.
Parece que o Figueiredo Lopes revela um inépcia confrangedora a tratar dos probleminhas mais corriqueiros

A mim parece-me, às vezes, que não usam a cabeça para pensar, mas só para parar elevadores, como na anedota do ortopedista.
Se não sabem, conto-vos: um ortopedista ia a correr, no átrio do hospital, em direcção ao elevador. Nisto, começa a fechar-se a porta e ele, no último momento, enfia a cabeça e TOIIIING.. as portas batem na dita, voltam a abrir-se e o ortopedista entra, cambaleante, no elevador. Pegunta-lhe um maqueiro:
Doutor, porque é que não pôs as mãos?
As mãos?… ora, as mãos preciso delas para trabalhar!

pois é...Colombo city

Hoje acordei às 10 e preguicei até às 10:30....roam-se de inveja.
E depois fui ter com a rainha das vacas e a Errezinha ao Colombo, para darmos largas ao nosso imaginário consumista.
Foram comprados 3 decantadores de vinho!!! Isso diz algo sobre nós:)
Ensinámos à filha da rainha das V. para que serve um decantador. Achámos que essa informação deveria ser incluida nos nossos programas in/formativos para crianças.
Carregadas de sacos e felizes, a errezinha arrastando um puff do dobro da largura dela, fomos premiadas com umas capinhas para os maços de tabaco, dadas pela Rainha das V.
Imaginem a nossa alegria!!! São brancas e têm manchinhas pretas!!! Arghhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!
Em suma, estamos maravilhosas:)

Vendo o outro lado da questão...



Pobres rãs...
Lembro-me que, quando as apanhavamos vivas, lhes enfiavamos uma palhinha no cú, sopravamos, e elas por ali andavam à nora, inchadas como um balão, sem conseguir mergulhar nem saltar.

e quem é que se lembra deste moçoilos?



Lesgalapiats, Pequenos Vagabundos

11 de dezembro de 2003

Voltando à culinária



Ingredientes:Pernas de rã qb; Leite; Farinha, sal, pimenta; Manteiga; Alho e sumo de limão

Preparação: Põem-se as pernas de rã de molho em água salgada durante 15 minutos. Ao cabo desse tempo, escorrem-se e exugam-se bem num pano. Humedecem-se, então, num pouco de leite e passam-se por farinha temperada com sal, pimenta e glutamato monossódico. Entretanto, frita-se em manteiga um dente de alho esborrachado, numa frigideira, em lume não muito forte. Quando o alho principia a escurecer, retira-se e deitam-se as pernas de rã, dourando-as bem de ambos os lados. Desengorduram-se em papel absorvente e servem-se com sumo de limão.

Bom apetite!

E mais um...

SIR TE: A sword by itself rules nothing. It comes alive only through skillful manipulation.

Cá estou...

Cá estou, T...
Continuo a par-e-par com o dia-a-dia, que é o do costume.
De manhã levanto-me, como Nestum, pego na Eugénia e marchamos para a escola e emprego.
Trabalho, aqui, entre as nove e as duas. Almoço o que calha e trabalho, ali, entre as três e as sete.
Após o jantar familiar, o serão fica curto. As onze luto, desalmadamente, contra o sono.
É o "general inverno"...

Curiosamente, este ano não estou demasiado "down". Habitualmente, nos últimos anos, chego a estas alturas completamente estenuado, arrebentado, desalentado e só com uma coisa na cabeça: se conseguir chegar ao Natal, sobrevivo!
Este ano não, estou razoavelmente em forma, sinto-me bastante benzinho... não sei se é devido à expectativa do que aí vem de novo, se é só porque calhou ou, até, se o blog terá alguma coisa a ver com isto.
Apenas uma coisa está igual aos anos anteriores: o acordar. Chega o frio, o cinzento e é terrível. Não consigo levantar-me, parece que uma força "impesável" e invisível me prende à cama. O despertador toca, eu olho, 7.20 no mostrador e penso: só mais cinco minutos. E ali estou naquilo até ao quarto para as oito e é, nessa altura, que começo a querer atrasar o relógio...
Até que me levanto, num salto, e começa o dia!

PP: continuo a gostar de ouvir o melhor do mundo na Antena 1

PPP: ontem descobri a diferença entre chá e tisana...

PPPP: devido ao reparo do senhor almirante, concedo: podem chamar-me só "patrão".

PPPP: vi as imagens, conhecia os filmes, mas não sabia os nomes.... ai, ai, os meus buracos negros cerebrais não param de aumentar!

e deste filme, lembram-se?




The Motorcycle Boy: If you're going to lead people, you have to have somewhere to go.

10 de dezembro de 2003

E quem se lembra deste filme?


Paris Texas

JANE
Howdy.

TRAVIS
Howdy.

Jane sits down on the bar stool next to the "counter".

TRAVIS
Can I tell you something?

JANE
Sure. Anything you like.

TRAVIS
It's kind of a long story.

JANE
I got plenty of time.
Listen - there's a hell of a good universe next door; let's go - e. e. cummings


As pequenas coisas que nos tocam

Estava a ler o Aviz, sim segui ali o link do Comandante Gasel e retive esta frase . Falava o rapaz , perdão o senhor, do que o fazia deter nos textos dos blogues.
Penso como ele. Mais do que ser apenas um reflexo da nossa conjuntura, aqui temos que ser reflexo de nós próprios. Dar aquelas pistas, a palavra escondida, sermos nós. Se formos enfadonhos, que se lixe.
Se estivermos deprimidos logo desopilaremos em momento próprio.
Vejo muito este espaço ,como um jogo de encaixes e cruzamentos, em que todos pensamos necessariamente de forma diferente. Em que já nos vamos conhecendo e reconhecendo.
Ou seja uma multiplicidade que nos enriquece. Que nos surpreende diariamente. Ou nos irrita e faz refilar.
Tudo isso faz parte das pequenas coisas ,que são afinal as grandes ,que tornam este blog único.
Pecamos por pensamentos, palavras actos e omissões....ora, bloguemos assim também. E tudo estará certo:)

E viva o sol

Nada como um dia de sol..mesmo sem chuva já chegava:)
Uma ida ao correio mandar um presente. E estive a admirar a paciência infinita dos funcionários a aturarem os velhinhos:)
Nem tudo está podre no Reino da Dinamarca:)
Há pequenos nadas que nos põem felizes. Escusa de ser a depilação, hein, Comandante Gasel?
E a Errezinha está à espera de vez para pôr um cd:)
Beijos.

Prendas de Natal: II - Elvis Costello

Elvis Costello, nascido Declan Patrick MacManus em 1954, em Londres, é um dos músicos mais interessantes dos últimos vinte anos. No presente contexto, debruço-me sobre três trabalhos: The Juliet Letters, com o Brodsky Quartet (1993), Anne Sophie von Otter Meets Elvis Costello (1992) e, mais recentemente, North. O primeiro é uma preciosidade: hipotéticas cartas enviadas mas nunca recebidas, cantadas por um um tipo que não tem voz mas canta belissimamente, acompanhado por um quarteto de cordas. An equal music, de que falei antes, vem de imediato à ideia. O trabalho com Anne Sophie von Otter é a primeira gravação para a Deutsche Grammophon e é outra preciosidade: pérolas da pop gravadas por uma das mais belas vozes actuais, com Costello a fazer o contraponto do ogre sentimental. Belíssimo. Só por Like an angel passing through my room (dos Abba!!) o disco vale o seu peso em ouro.

Por fim, North. É deste ano. Dentro de cem anos as canções deste disco de Costello serão tocadas em bares escuros e sombrios, por um pianista velho, entre fumo e vapores de álcool pesado. Dentro de cem anos haverá confusão sobre se estas músicas são de Gershwin ou Porter. É o conjunto das canções mais perfeitas de toda a primeira década do novo século, incluindo os sete anos que aí vêm. Melodias, textos, arranjos, músicos, é tudo perfeito. Música é isto. Não há melhor prenda este Natal.

9 de dezembro de 2003

Uma morte evitável...

Ao ler o post da T ocorreu-me exactamente o contrário: há uma certa inevitabilidade na morte.
Ela está sempre ali, ao nosso lado, desde o momento em que nascemos: a morte, a inevitável companheira da nossas vidas. Brincamos com ela, mas ela é que brinca connosco. Parecemos sempre jovens, mas vamos envelhecendo. Buscamos a saúde, mas vamos ficando doentes. Fingimos que não a vemos, mas ela persiste em abraçar-nos.
Talvez por isso, apanha-nos sempre desprevenidos. Aparece sempre de rompante, desnecessária, definitiva. E magoa muito, doi, cá bem no fundo, uma dor desnecessária e definitiva. Talvez por isso, ficamos sempre com a sensação de que poderia ser evitada: se a pessoa tivesse feito isto, se nós tivessemos feito aquilo, se o médico tivesse feito mais cedo…Talvez.
Há, em todos nós, a necessidade de acreditar que um médico pode sempre fazer algo, algo que evite o inevitável. Mas, muitas vezes, não é verdade…

Com isto não quero “descupabilizar” o que possa ter acontecido neste caso.
O médico de Arganil pode ter sido grosseiramente negligente. Pode não ter avaliado correctamente a doente e a gravidade da situação. E, consequentemente, não ter providenciado a vigilância e tratamentos necessários que poderiam (ou não) alterar o rumo dos acontecimentos. Mas pode, também, ter sido conscencioso e tecnicamente correcto. Poderia, na altura da observação, não existir nenhum sinal que indicasse o risco iminente. O que não desculpa a maneira desumana e cruel como aconselhou e encaminhou a doente para a residência.

Há poucos anos morreu, aqui, um colega que eu conhecia bem. Um dia acordou com um dor torácica e dorsal. Passou a manhã na urgência, fez diversos exames, foi observado por especialistas. O cardiologista detectou qualquer coisa no ecocradiograma e ponderou-se fazer um TAC. Como tinha melhorado e “estava bem”, ficou para o dia seguinte. Meia hora depois, ao chegar a casa, caiu no chão e morreu. Foi um aneurisma da aorta.

Seriam estas mortes evitáveis? Não sei, talvez…

PP: Uma coisa é certa, a passagem da certidão de óbito com aquele diagnóstico é negligente e ilegal. Como as coisas estã contadas, obrigaria a uma autópsia médico-legal que só o delegado de saúde ou o juíz poderia dispensar.

PPP: O Aviz tem um novo aspecto. Mais profissional, definitivamente!

Primeira Prenda de Natal

A coisa que eu gosto mesmo mais no Natal, são as prendas surpresa.
Hoje um polícia estendeu-me um pacote e disse..."Deve ser para si":)
Estou encantada com o bom gosto do polícia:)
E fico contente quando alguém se lembra de mim.
Pronto, nem tudo hoje foi mau:)
Mas Gasel pelo amor de Deus, poupa-me às depilações e isso...Essa tua sugestão horripilou-me.:P
Estou a ouvir a minha prenda.
Já vos contei que hoje me ofereceram a primeira prenda de Natal???
Vá lá..um coro...Já!!!!!!!!!!!!!!!!!Que seca é esta gaja:)

Ainda agora me disseram: "Morreu a mãe do Rui e ele está ali".
Fiquei assim petrificada. O Rui é um amigo de há muitos anos, vivemos juntos muitas coisas boas e más.
Só soube dar-lhe um abraço e chorar com ele.
Mas o resto da história é muito pior.
A senhora foi ao hospital . Ela era hipertensa com um historial de arritmias e estava hipotensa apesar do estado gripal. O médico disse-lhe textualmente " A senhora vá-se embora, não está aqui a fazer nada".
Ela e o marido meteram-se no carro. Ele fala com ela, já não responde. Descobre que não dá acordo de si.
Voltam atrás...o hospital era a 250 metros de casa. Nem iniciaram a reanimação.
O mesmo médico disse ao pai do Rui. A sua mulher morreu.
Na certidão de óbito, causa de morte estado gripal. Um cardiologista primo do Rui perguntou porque é que ele tinha apontado essa causa. Ele respondeu-lhe "Tinha que escrever qualquer coisa, por causa da delegada de saúde".
O médico de família da D. Maria José ficou perplexo e tinha-a visto na véspera.
Foi na sexta feira, no Hospital de Arganil.
E quando escrevo isto, penso naquilo que o nosso querido ABS escreveu outro dia...há bons e maus profissionais em qualquer área profissional.
Em algumas áreas porém, o que está em jogo é a vida humana.

A propósito do dia-a-dia

Ontem, por acaso (claro...), dei uma olhada para a televisão e estava a passar uma a novela. Ocorreu-me que nunca se poderia chamar "Homens Apaixonados"... não é?

Hoje, vinha de carro, e ouvi na Antena 1 que a Adminitração Americana tinha nomeado James Brown Conselheiro do Soul e Chanceler do Funk... parece que é oficial!

8 de dezembro de 2003

Jazz

Na Antena 2, neste momento, Coleman Hawkins e Ben Webster em dueto. Antes, Fats Waller. (A Antena 2 tem melhorado extraordinariamente. Merece uma análise mais cuidada depois.) Jazz é perfeito para esta hora da noite. Ainda por cima, ouvido como estou a ouvir, no melhor radio mono do mundo: um pequeno Tivoli Audio Model One (o meu é este). Depois deste saíram mais umas adaptações, mas já não são a mesma coisa.

Segue-se Oscar Peterson. Yeah.

Dias de pensar.

Estava a meditar no que escreveria neste post. Odeio a palavra meditar, by the way, sugere-me métrica de pensamento.
Então porque escolhi a porra do meditar?
Ao contrário do anterior tive um fim de semana hiperpovoado. Não li um livro inteiro, só uma metade do fim de um e o início de outro.
Estou pesarosa da perca de comentários. Amanhã vou remoer o assunto. Sei lá no que estava a pensar em Julho. Se me lembrar talvez recorde a password.
Quase Natal.
Das heranças e partilhas familiares herdei um pesado guarda roupa, onde se escondiam as prendas de natal. E lá estão os sacos com as minhas. Ainda todas baralhadas mas com algum fio condutor.
O Natal traz escondido outro ano com outro número. Nesse ano vou ter 45 anos.
Como gosto de impares, estou bem. A não paridade exclui muita chatice.
Pensamentos fragmentados. Enrolada numa manta , Aqui no escritório faz frio.
Vou ter com os gatos e o aquecedor.
A minha última gata morreu de cancro, muito velhinha. Saltou do meu colo onde estava a ronronar, ficou no chão a arfar e em estertores.. Eu fiquei a fazer-lhe festas. E ela morreu. Nem um minuto foi. Quem dera que toda a gente e bicho morresse aternurada.
Quem dera que toda a vida fosse assim.
Beijos.

Estórias da minha infância (8)– O dia em que Sá Carneiro morreu

Nos últimos dias, concerteza por ter sido aniversário, li em alguns jornais e blogs, alusões a essa data.
Lembro-me perfeitamente do dia em que o Sá Carneiro morreu.
Nessa altura eu era ainda um miúdo, aí com 15 ou 16 anos, e tentava ligar pouco à política e muito aos copos. Se tinha preferências, estariam claramente mais à esquerda, mas considerava-me um independente, digamos. Tempos antes, e por curto período (felizmente), tinhamos tentamos formar qualquer coisa tipo “núcleo jovem do MRPP lá do sítio”... Meu Deus!
Ao contrário, a minha casa e família era um reduto de PêPêDês militantes, com aquela leve sensação de heróica resistência num Alentejo hostil. O aparecimento da AD tinha feito subir os ânimos, de modo que o fervor, por essas alturas, era quase religioso. Sá Carneiro era Deus na terra.

Nessa altura tinha uma cadela, a Violeta. Era uma rafeira, cruzada, pequenotinha, preta e banca... nada de especial, de facto, mas era a nossa Violeta. Nesse Inverno tinha ficado doente, com icterícia e, após muitas idas aos veterinários, a coisa parecia mesmo mal encaminhada. O diagnóstico era Leptospirose, coisa que só vim a saber o que era muitos anos mais tarde.
Numa noite de Dezembro, depois de jantar, olhou para nós com um olhar triste, ganiu e morreu calmamente. O meu pai andava na campanha, pelo que chamámos um amigo para irmos enterrar a cadela.
Quando já tinhamos descido as escadas, eu com a Violeta nos braços, começam a abrir-se as portas dos prédios e, em grande alvoroço, desatam a sair os vizinhos, transtornados, aos berros, : “Morreu!... Morreu!...”
Por momentos fiquei aparvalhado, sem me conseguir mexer, sem perceber a razão para toda aquela comoção. E não conseguia deixar de pensar: “Mas como é que eles sabem?...”
Pois é, nesse dia morreu a nossa cadela, a Violeta.

A propósito de um jantar (1)

Ontem estive num jantar de confraternização de bravos marinheiro e fiquei ao lado de um juíz. Ouvi de tudo, sobre as habituais "fobias sociais", com uma confrangedora falta de "abertura de espírito", e fiquei aterrado ao pensar: como é que este tipo pode julgar pessoas?
Lembrei-me, depois, de um amigo meu dos tempos de faculdade que, após cursar direito, lá seguiu para o CEJ, para ser juíz. Apesar de gostar dele, de ser um tipo razoavelmente porreiro, foi das pessoas com um pensamento mais rígido e dogmático (em determinados assuntos...) que conheci.
Lembrei-me que já tinha pensado aquilo: como é que este gajo vai julgar pessoas?


Consegui

Já está, passei no exame... a partir de agora, podem-me tratar por senhor comandante!

7 de dezembro de 2003

SOS

De facto estamos só nós sem comentários e assim não tem graça nenhuma.
Não ajuda de facto eu ter-me esquecido da pass e do nome de utlizador da blogger.com.br.
Bem..alguém tem alguma ideia do que se passou? Alguma alteração no template?
Porque se pode instalar um sistema novo de comentários, mas perde-se tudo para trás, o que é uma pena.
Digam de vossa justiça.
Alex tu que és veterano e bom nisto. Podes ajudar?
Entretanto vou matar a cabeça a tentar lemnbar-me da pass.
Beijo

Comentando

O Cunningham de facto é muito bom.
Não gostei da versão para cinema das Horas. A música vá lá.
Mas gosto muitissimo dos 3 livros deles que o ABS apontou e eu já li.
Também é dos meus amores o Leavitt, David.
Talvez seja por isso que quando abro o Amazon e me indicam o perfil abrem sempre um perfil gay!!!!!!Risos
De facto eu gosto do mesmo que deles. Mas assim uma coisa tão directa..enfim:)
Sm comentários..porra!!

6 de dezembro de 2003

As horas

The hours é um fabuloso romance de Michael Cunningham. Ganhou no mesmo ano o Pulitzer e o Pen/Faulkner (1999), tendo sido o terceiro romance do autor. Os anteriores A home at the end of the world (1990) e Flesh and blood (1995) são fortíssimos, particularmente o primeiro. A homossexualidade está presente, por vezes de modo violento, nos três livros, mas não constitui nunca o tema, sendo antes um veículo de descrição para situações particulares e enquadramentos vários. Voltando a The Hours: trata-se de uma variação (e de uma extraordinária homenagem) sobre Virginia Woolf e o seu livro Mrs. Dalloway, usando expressões inteiras da obra de Woolf e retirando parte da sua estrura para a personagem de referência da história. Quem lê The hours acaba invariavelmente a ler, ou reler, Mrs Dalloway. The Hours tem a cadência de uma suite de jazz: plácida, tranquila, complexa, mas com sentimentos fortíssimos borbulhando logo abaixo da superfície.

O filme faz justiça ao livro e isto é dizer muito. Não há um interveniente que não seja magnífico: Kidman, irreconhecivelmente transformada; Moore, tensa de cortar à faca; Streep, em permanente risco de explosão sem, contudo, explodir nunca; Ed Harris, a imagem destruída do desespero (no livro, pior, do talento (ou não?) incompreendido).

Depois há a música de Philip Glass, belíssima, expressiva, pungente. Os olhos do filho de Moore, adoradores, ao som de Glass, são como um murro no estômago. Glass, aliás, tem sido responsável por grandes bandas sonoras (oiça-se, por exemplo, a banda de Kundun, de Scorcese, outro momento superior de cinema).

Quem não leu ou não viu ou não ouviu não imagina o que perde.





Passeio dos alegres

Aproveito o fim de tarde para recomendar, também, alguns sítios por onde passeio:
pela manhã, à tarde, e na noite cerrada.

Sábado

Pois é.. não há comentários!! Porque será? Alguém sabe descobrir e arranjar?
Outros blogs, com o mesmo tipo de sistema de comentários, permanecem activos...
Fui até ali, espreitar os templates, mas desisti: demasiado complexo.

Nos entretantos, passei o dia a preguiçar e a estudar. Estou farto de tanta definições, termos e fórmulas. Há meia hora decidi, como já não tenho cabeça para tanto estudo, fazer umas cábulas... senti-me mais confiante. Por outro lado descobri que já não sei fazer o "lais de guia", que é um nó muito complicado, e lá fiquei menos confiante.
Amanhã logo se vê!

Ahhh... também li o Expresso e vi o filme "as horas".

Ahhhhhh... o Porto ontem empatou :))

E, apesar de tudo e do frio, acho que o natal é das melhores épocas do ano. Eu, pelo menos, sinto sempre que posso ser melhor pessoa e ás vezes sou-o, efectivamente.

Yupi! descobri como se faz o lais de guia :))

Gasel!!!

Então esse teu inimigo, risos, da ANF do Blog é da minha terra???
Viva a Póvoa de varzim...Mas porque é que ele escreve Póvoa de Varzim, Porto?????Estranhissimo!!!
Mas até tem um bom blogue o rapaz. Poveiro e chega:)
Amélia..tb gosto pouco do Natal desde que morreram os meus pais.
É nessa época que mais sinto as saudades , com a merda toda da treta da conversa familiar.
Compenso, com um Natal com os meus sobrinhos e irmãos, cheio de asneiradas e brincadeiras e depois da familia despachada eu e os sobrinhos vamos a casa de amigos. E aí descambamos numa orgia de prendas e comerzinhos bons.
Apesar de tudo, concordo com tudo o que disseste.
Houve um ano em que o passei sozinha, por não aguentar a ideia de ser Natal. Fiz de conta que era um dia normal.
Beijos e até já e que os comments regresssem.

Ligeiras dor de cabeça

Pois é.
O Bairro Alto ontem estava invadido por espanhois.
Mas fui ao Clube Naval:) Bela música:)
Obrigada ABS espero que a minha oferta te tenha sido tão útil, como a mim será a tua , de certeza..risos
Irrita-me isto de não haver comentários!!
Merde para ser mais fino:)

Manhãs molhadas e frias

O Gasel anda cheio de balanço. Haja quem funcione assim, que Lisboa acordou encharcada e murcha como um caixote de cartão debaixo de chuva. Às oito e meia o escriba compra o “Expresso” no seu quiosque habitual. O dono, homem tranquilo e de pouca fala, embrulhado no casaco, lá ia ensacando vinte e quatro quilos e meio de suplementos de tralha natalina. Os americanos chamam a essa tralha stuff. Soa ao que é realmente. “Natal é quando o marketing quiser”, lia-se ontem escarrapachado algures.

Por cima do palácio da Pena vogam nuvens pesadas, vindas do mar, preparando-se para demolhar as hortas do Oeste, de onde se presume venham as couves para o bacalhau. Ao computador, o escriba vai alinhando ideias de outros trabalhos entre mãos e organizando textos para outras publicações não bloguísticas. Pensa comentar dislates vários, como muito do que tem sido dito sobre urgências pediátricas, genéricos e afins, mas decide que não está com paciência para isso.

O Natal aproxima-se, agradável para alguns, fingido para muitos, deprimente para mais uns poucos. Há muita gripe, muitas artroses, muita tosse irritativa. Uma colega morreu ontem, subitamente, com pouco mais de cinquenta anos. Em Agosto outro tinha feito o mesmo. Este era um amigo que fará sempre falta.

E de repente não lhe apeteceu escrever mais. Há coisas que se sobrepoem a tudo e nos deixam mudos.

Para a T :)))

Adorei, a prenda que a T me mandou por aqui. Adorei, adorei, aadooreei!
E porque uma prenda pede outra, aqui está ela! Para estrear na Fonte Luminosa às três da tarde de domingo!!

5 de dezembro de 2003

Para além do frio

Apesar do frio, que vence qualquer agasalho, a semana chegou ao fim.
Mais curta e mais rápida, como disse a T.
E a próxima é igual, felizmente.
Assim, em pulos ligeiros, chegamos ao Natal. Ora isto faz-me lembrar que ainda não comprei nenhuma prenda, o que não me surpreende nada: todos os anos é o mesmo. Há-de chegar o dia vinte e três e então, muito angustiado, é que começarei a desvairada dança das lojas.
Este fim de semana já está destinado: estudar “arte de marinharia” e passar no exame de patrão local.
O próximo também: ir com o Manel, a Lisboa, ver o Glorioso e estrear a nova Luz.
Não restam muitas hipóteses.

PP: três de seguida... é um record!

Preocupações

Hoje estive de banco e, às tantas, decidi internar um doente: um velhote rijo, lá de cima da serra.
Vai ter que ficar internado… tem uma inflamação no pâncreas!
Ahhhh doutor… quantos dias?
Não sei… quatro ou cinco dias, talvez.
Aiiii doutor… e o que faço das cabras?
As cabras?
Sim, as minhas três cabras… quem lhes dá de comer?
Ora, fala com a sua mulher…
Ela? Coitada, está toda entrevada, anda de muletas… não pode.
Pode pedir aos vizinhos…
Naaa… tudo velhos, está tudo aleijado
Pois… mas você vai ter que ficar cá!
E lá ficou ele, triste, a lamuriar as suas três cabras.

Pouco depois, já tinha eu saído, telefonaram-me do hospital a propósito de uma doente alemã que amanhã vai ser repatriada de avião. Como teve uma hemorragia digestiva e anemia, deixei um pedido de 2 unidades de sangue para a viagem.
O telefonema era precisamente sobre isso e, dizia-me a técnica, que não podia ser: “o sangue não pode sair do país…”
Eu não faço a mínima ideia se há legislação sobre isso ou não, e lá lhe explicava as minhas razões do pedido, que iria acompanhada por médico e enfermeiro, etc…
Mas ela continuava na dela e insistia que não, não podia ser: “o sangue não pode sair do país…”
Tive que lhe garantir que faria a transfusão antes de partir, em solo pátrio. Mentira, claro! E tudo ficou resolvido…

Cada um tem as preocupações que merece, que é que se há-de fazer!

Direito de réplica

acabei agora de ler, num blog da ANF:
Os médicos blogueiros (o Besugo do Blogame mucho, o Médico explica, o Gasel do Dias que voam e o O Coiso) não perderam a oportunidade para cerrar fileiras e refilar em uníssono.
E ainda por cima nos chama parolos!
Sinceramente, não sei a que se refere. Não faço parte de nenhuma UBM (União do Blogs Médicos), nem participei em nenhuma estratégia corporativista de cerrar fileiras.
Parece que a coisa teria a ver com a opinião exposta pelo ilustre farmacêutico, de que os médicos não passam genéricos. Objectivamente, não tenho dados para saber se isso é verdade ou não. Pessoalmente passo-os, nada tenho contra a prescrição por DCI, nem contra a substituição por similar. Também nunca notei, nos medicamentos que prescrevo, menor eficácia dos genéricos.
No entanto concordo que, na prática hospitalar, o furosemido genérico faz mijar menos que o Lasix, e o propofol genérico faz dormir menos que o Diprivam.
Para finalizar, e especialmente por aquela dos parolos, faço minha as palavras do besugo:
E, retomando Eça, a menos que se desdiga, considere-se portador de virtuais bengaladas nesse boticário lombo.


Aprendam com os novos:)

Mars Volta estreiam-se em Portugal em Dezembro

Os norte-americanos Mars Volta estreiam-se ao vivo em Portugal a 4 de Dezembro, numa actuação agendada no Paradise Garage, em Lisboa. Neste concerto, Mars Volta vão apresentar De-Loused In the Comatorium, o seu primeiro registo de originais.

E o verdadeiro amor ?...

Para fazer a vontade ao Gasel

Pronto , está muito friooooooooo e chuva!
BRRRRRRRRRRRRRR....
Por acaso não acho nada. O tempo está de acordo com o meu estado de espirito. Está até bem acolhedor.
Ontem fui à Fnac. Estava uma confusão incrível , por isso mudei-me para a Bertrand, onde sossegadamente comprei o que queria.
E depois andei a pé pelo Chiado fora até casa. às sete as lojas todas a fecharem. Lembrei-me de Madrid onde a essa hora é uma festa na rua e o comércio está superactivo.
Vi gente com ar cansado e meio triste a recolher a casa. Os espanhois nunca têm ar de ir recolher, parece antes que vão festejar qualquer coisa.
E passei pelo Intendente...uiui....está de meter medo...até acelerei.
Sem falar na fila dos Anjos....Gente cada vez mais com bom ar à espera de comida e com ar gelado . Em contrapartida, a Portugália a abarrotar !Estava a acabar a hora do croquete e a começar a do bife e da santola.
Talvez pudessem trocar às vezes as clientelas ....
Estou em dia de justiceira social.
Fui para a casa e dormi até fartar.




Pescadores

belo birthday

Um Belo birthday, tive um belo birthday. Uma prova de química que não podia ter corrido muito melhor e depois voltas pela Lisboa que mal conheço a andar no sentido contrário ao sentido que devia tomar, a chegar a montes de sítios menos ao paradise garage! Acabei por chegar, depois de fazer todo o caminho de volta para trás, e antes do concerto ainda tive a hípotese de apanhar alguns elementos da banda e pedir autógrafos, falar um pouco, tirar fotografias... E o concerto: indescritível. Amélia, gostaste? Claro que gostaste... e eu não te vi lá. Quer dizer, se calhar até vi mas sabia lá eu. Estive tanto tempo quase encostado à grade que me doíam as costas quando saí. Muito empurrão mas não passou do equilíbrio entre o confortável e o violento que deu para apreciar aquela música visual toda. São uma banda que definitivamente ganha outro valor ao vivo e para quem vibrou mesmo com a actuação, será difícil olhar para o álbum da mesma maneira. O baixista até me deu os parabéns, enquanto me dizia que tínhamos um país muito bonito... Enfim, não sei se o compreendo. Quando estou rodeado de hora de ponta, inverno antecipadamente escuro e faróis de carros que apitam por tudo e por nada, não é propriamente a beleza que mais me chama a atenção. Naquele momento, Lisboa não me pareceu um sítio bonito, de modo que fiquei um bom bocado aquém daquela opinião. Nada que uma boa volta pelo Chiado num dia de uma tarde bonita não curasse. Eu de facto conheço pouco de Lisboa, e cada vez lá salto menos.
Então fecha-se assim qualquer coisa entre um quarto e um quinto da minha vida provável. E é chato quando damos com o fim de uma unidade tão considerável. Faz-me perguntar quanto é que já fiz, porque, se estou a um quarto da vida, resta-me mais três vezes o tempo que já passei, e se até agora não consegui assim tanto, talvez algo tenha de mudar. Ou talvez se construa tudo ao longo dos três primeiros quartos para que sejamos gloriosos no fim. Ou talvez não.
É realmente nobre que se goste mais de dar do que de receber. Isso faz de mim qualquer coisa como um aparente egoísta. Nada como receber prendas, delicia-me, passo sempre o dia de anos a nadar em boa disposição que me trás a atenção e os presentes. Pareço uma criancinha... Quero parecer uma criancinha todos os aniversários até morrer. Mas não todos os Natais. Aos Natais nunca pareço uma criança, e suspeito que é porque tenho que me preocupar em dar!
Continuo com o tempo apertado, blogs têm de ficar muito em baixo nas minhas prioridades.
Amanhã, cardiologista.

Amélia, gostaste do concerto?

4 de dezembro de 2003

Prendas de Natal: I - Vikram Seth

Vikram Seth faz parte do conjunto de autores de língua inglesa, mas originários de outras regiões anglófonas do globo, que marcaram sobretudo as duas últimas duas décadas do séc. XX. Entre estes autores contam-se nomes como Michael Ondaatje, Kazuo Ishiguro, V.S. Naipaul e Salman Rushdie. Vikram Seth tornou-se mais conhecido após ganhar o Booker Prize (não me lembro de que ano) pelo monumental (na dimensão e na qualidade) A Suitable Boy.

O último livro de Seth, An Equal Music, descreve os encontros e desencontros de músicos clássicos, narrados na primeira pessoa pelo segundo violino de um quarteto de cordas. Amor pela música e amores humanos, passando por Viena, Veneza, Londres. A música perpassa pela obra com uma intensidade que, se não é audível, desencadeia exactamente as mesmas emoções que resultariam de a ouvirmos. Nesse sentido, este é o mais extraordinário romance sobre música que me foi dado ler. A delicadeza linguística de Seth alia-se a uma pesquisa notável sobre a música, sobre os músicos e sobre circunstâncias excepcionais que são vividas por pessoas excepcionais.

Li o livro de uma assentada num voo transcontinental, em Maio de 2002. O meu primeiro gesto, ao chegar a Lisboa, foi ir à FNAC procurar furiosamente a música que era descrita no livro. Encontrei alguma. Descobri, entretanto, que a Decca editou um CD duplo com a totalidade do material musical citado na obra. Comprei-o na Amazon. Emprestei o livro a mais duas pessoas. A reacção foi a mesma: porem-se à cata das peças musicais do livro de forma compulsiva. Estão avisados.

... e o Círculo de Leitores editou a tradução, sob o título Uma Música Constante. Se puderem, naturalmente, leiam no original, que está maravilhosamente escrito. A tradução tem erros inaceitáveis no campo musical, mas não é má de todo no resto.

Ofereçam este livro a quem ame a música.

Está um frio do cacete!

Li por aí alguém que se alegrava com estes dias de sol…
Mas qual sol? Onde está o sol?
Se está por aí, não o sinto.
Só sinto é o frio…
O frio que anda no ar, e me entra na boca, e me seca os lábios, e me greta a língua, e me prende as palavras.
O frio que me cerca a cabeça, que me endurece as orelhas, que me doi nos ouvidos e me embota o pensamento.
O frio que vem de frente, me bate no peito, me deixa tropego, que me tolhe os dedos.
O frio que sobe do chão, me gela os pés, me gela os ossos, me gela a alma, e me gela.
O frio que eu detesto.
Desde pequenino.
Este frio dum cacete...

Monsanto, Beira Baixa, 30/11/03

Há sítios que fazem bem à alma.




Monsanto, Beira Baixa, 30/11/03

Página de Diário (mais uma)

Os 3 problemas do SNS de saúde português, problemas aliás parecidos com os de outros sistemas nacionais, são estes:

manutenção de um órgão que coordena e defende o poder de mercado dos médicos contra aquilo que é mais útil na perspectiva dos seus clientes, isto é, contra a concorrência que faz baixar preços e aumentar a qualidade;

ideia errada de que quem sabe gerir um hospital é um médico: um médico sabe fazer aquilo para que estudou, isto é, curar ou tratar, um gestor é que estudou para saber gerir organizações;

ideia errada que as pessoas são melhor servidas por um hospital público que não precisa de prestar contas a ninguém por pior que seja a sua qualidade do que por um hospital privado que se for mau, pura e simplesmente não terá clientes.


Todos os especialistas sofrem quando encontram leigos a falar da sua especialidade. Ser psicanalista e ouvir os outros a falar de amor é irritante, ser historiador e ouvir os outros a falar de religião é cómico, ser advogado e ouvir os outros a falar de leis é entediante, ser economista e ouvir os outros a falar da qualidade dos hospitais ou da qualidade da televisão ou da inflação ou do desemprego ou de tudo o que é muito importante - é geralmente, de se puxar os cabelos.

Eu confio em especialistas desinteressados, tal como confio quando me dizem que sól sustenido e lá bemol não têm de ser a mesma coisa. Não confio é nos especialistas que sabendo muito mais do que eu em certa matéria acham que me podem enganar em assuntos que são transversais a todos os especialistas e a todos os leigos e que interessam realmente a todos. Essa atitude é ainda mais irritante do que aquela dos que acham que só por terem mais experiência do que os outros conhecem mais do que os outros. Entre ter experiência e ser capaz de produzir conhecimento válido a partir dessa experiência vai uma grande distância.

Por último, é terrível quando eles nos dizem que sabem mais dos nossos interesses do que nós próprios. Quem sabe dos interesses dos doentes não é nem a Ordem dos Farmacêuticos nem a Ordem dos Médicos, são os próprios doentes que sabem se querem remédio de marca ou remédio sem marca, se querem ser tratados pelo médico com muito prestígio que por tanto prestígio ter pode dar uma consulta e observar um cliente sem se levantar da cadeira ou se querem ser tratados pelo médico que não é famoso e se calhar até é imigrante ilegal mas cobra um preço mais barato e está muito empenhado em não perder o seu cliente.

Ricardo

Fixações

When one door closes another one opens; but we often look so long and regretfully upon the closed door, that we do not see the ones which open for us - Alexander Graham Bell

The Inspiration of Saint Matthew

Este ? um quadro que gosto sempre de ver.
Entro naquela bonita igreja de San Luigi dei Francesi em Roma e acendo a iluminação com a moedinha.
E fico sentada a ver.Quieta e calada.
Aquela luz dá cabo de mim.

Dias esvoaçantes de sol

Os dias sucedem-se. Parece um crescendo até ao Natal...
O Santana já nos fez o favor de inaugurar as iluminações. Gosto de ver as luzinhas.
Estou com a consciência tranquila dos presentes comprados, mesmo os imprevisiveis.
Amanhã é sexta....estas semanas assim ficam aligeiradas...
Continuo os meus estudos sociológicos deambulantes no metro.Muito divertido até agora.
Hoje perguntaram-me por onde se saia para a Columbano...e eu não fazia a mínima e estava a tentar ajudar...lembrei-me do post do Ricardo...e por acaso do destino acertei na informação.
Mas acaso terei eu ar de saber onde ficam saídas e entradas? eu???
A grande vantagem do metro é a leitura. E a observação. Há lá gajos muito mas muito giros.
E ouvir as conversas alheias. às vezes repete-se a mesma página, mas não faz mal.enriquece-se a leitura com o cruzamento das vidas dos outros.
Hoje sai e vi a Rzinha muito direitinha a comandar o pelotão a uns bons 3oo metros de dianteira e a uma velocidade supersónica. Devia ir atrasada:))))
Eu ainda estava a tentar comprar tabaco....para não ser assim tão saudavel, que isso já me enerva:)
beijos:)




3 de dezembro de 2003

A propósito de nada

De repente descobriu-se que faltam centenas de médicos, que nos próximos anos faltarão milhares, que todo o sistema nacional de cuidados de saúde está em risco de colapso, e que são precisas mais faculdades e muitos mais alunos de medicina. E parece que tudo isto foi descoberto de repente, como se nos últimos anos tivesse acontecido algum cataclismo.
Como de costume, os dados conhecidos são insuficientes e confusos. Como de costume, servem qualquer opinião.
Ora desde que sou médico, e já lá vão mais de uma dúzia de anos, todos os anos cresce o número de médicos, em todo o lado: não houve, nem haverá nos próximos anos, nenhuma diminuição real. E este aumento não ocorre, como se faz crer, exclusivamente à custa de médicos espanhóis: eles ainda são uma minoria, apenas amplamente visível por fazerem o trabalho que mais ninguém quer, os balcões das urgências.
Também nestes doze anos melhoraram, de forma notória, os meios à disposição da prática de medicina. Quer as instalações hospitalares, quer os equipamentos técnicos.
Mas é um facto que, em muitas áreas, a qualidade dos serviços prestados não melhorou de forma proporcional ao aumento do número de médicos e da melhoria dos equipamentos. Persistem as listas de esperas para operações banais, persiste a dificuldade de acesso a diversas consultas, as urgências continuam caóticas.

Em minha opinião isto reflecte, essencialmente, a nossa falta de saber organizativo, em três campos distintos, mas que se complementam. E que se devem melhorar:
Melhorar a organização da circulação dos doentes no sistema. Melhorar, desta forma, quer os miseráveis cuidados de saúde pré-SNS (lares, instituições, escolas, familias...), quer o acesso a consultas de cuidados primários e secundários, afastando, ao mesmo tempo, os doentes das urgências.
Melhorar a organização da distribuição médica. Isto implicaria melhor distribuição regional (forçando a mobilidade médica), melhor distribuição por especialidades (forçando que a formação, nos internatos, não se faça ao sabor de vaidades locais) e melhor distribuição dos médicos intra-instituição (forçando que, nas funções individuais, prevaleça o interesse comum sobre a conveniência pessoal).
Melhorar a organização da actividade médica. E é aqui que estará o maior problema: a quase total incapacidade dos médicos organizarem o sua actividade diária, a muito precária comunicação inter-pares, a quase nula capacidade de gestão de equipas (médicas e de outros profissionais). Para o trabalho de um, são precisos dois ou três.

E é esta a minha opinião.
Parece-me que, com os actuais contigentes de alunos em formação, o número de médicos será um problema menor.
Parece-me demagógico catalogar esta opinião como corporativista.
Assim como me perece demagógico realçar as guerrinhas de capelinhas dos pediatras lisboetas, como se traduzissem todos os males do SNS.
E estranho que se continue a esquecer a falta, essa sim grave e real, de outros profissionais de saúde: enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, paramédicos, etc, etc..

"Não Sei", "Não"

Fiquei a saber este ano que o guia turístico da Lonely Planet para Portugal diz que não se deve pedir direcções a portugueses porque estes (nós) quando não sabem NUNCA dizem que não sabem. O que fazem é dizer sempre qualquer coisa mesmo que nada ajude. A boa intenção vale mais do que evitar confusão e perda de tempo a quem pergunta.

No Verão passado 4 dos meus amigos internacionais confirmaram-me que nunca um português lhes havia dado como resposta nem "não" nem "não sei" mas que isso nunca os tinha ajudado por aí além (antes pelo contrário).

Então, eu próprio comecei a olhar para mim mesmo e para as minhas atitudes a tentar descobrir se também dava uma resposta qualquer quando não sabia. Eu já sabia que tinha muita dificuldade em dizer não fosse a quem fosse a respeito do que quer que fosse. Mas ainda não tinha reparado na minha atitude quanto ao "não sei". O resultado foi que ainda não sei se costumava ou não declarar o "não sei" aos outros.

Este ano decidi por experiência e por eficiência começar a usar as respostas "não" e "não sei". Tenho utilizado essas respostas com os meus clientes. As conclusões (ou os resultados) apresento-os de seguida.

Admitindo que os meus clientes são uma amostra representativa da população portuguesa, o uso da resposta "não" deixa os portugueses em estado de choque ou então deixa-os perplexos. Num país em que nada são dificuldades e em que há solução para tudo, a resposta "não" tinha necessariamente de ter este efeito: a estupefacção, o não querer acreditar no que se acaba de ouvir.

A utilização do "não sei" deixa as pessoas (portuguesas) confusas e incrédulas. Em geral os portugueses não acreditam que se lhes possa responder um "não sei" com seriedade. Esta tarde, por exemplo, uma cliente minha colocou-me uma pergunta e respondi-lhe "não sei". Ela repetiu a mesma pergunta de quatro maneiras diferentes mas a minha resposta continuava verdadeira desde o princípio. A verdade era esta: "não sei".

As pessoas mais velhas e muito idóneas em matéria de educação (estou agora a pensar em pessoas que amo) disseram-me que pelo menos devia acrescentar ao "não" um "desculpe mas" ou um "lamento que". Não concordei: no acrescentar desse quase pedido de desculpa vai implícito que dizer "não" é em si algo menos próprio, menos correcto ou até ofensivo. E aí reside o problema das pessoas portuguesas: é pensarem ou sentirem que um "não" é, em última análise, qualquer coisa de hostil e que, portanto, ou não se aceita, ou só se aceita acompanhado de um pedido de desculpas.

Aquilo que os portugueses não sabem é que o "não" é tão necessário e tão provável como o sim (excepto para os optimistas, aqueles que dispõem da magia de transformar os "nãos" em "sins"), e que o "não" ou o "não sei" permite poupar muito tempo - sobretudo a quem pede informações ou deseja encontrar sapatos 43.

Nas culturas mais assertivas e mais pragmáticas ninguém se ofende com um "não": todos reconhecem que o tempo dos outros deve ser respeitado e que portanto não se deve criar falsas expectativas com "talvezes" infundados e "parece-me que" desnecessários. Mas não é só o respeito pelo tempo que é mais importante para essas culturas. É a noção de que a minha liberdade de expressão permite-me negar e que essa atitude é tão razoável e normal como a de concordar. E é ainda a noção de que não estar de acordo não tem de ter relação nenhuma com ser hostil. E é, finalmente, a noção de que se ganha tempo e de que é bom ser franco e directo.

Ricardo

Metro (ou metrô para o Orlando)

Confesso que odeio andar de metro.
Ultimamente tenho feito um esforço de começar a andar nessa coisa.
É rápida a barata .
Mas devo dizer que só iniciei ontem essa tentativa. Hoje ainda se mantém:) Digo eu...
E tenho a acrescentar a solidariedade das minhas queridas amigas R e Lu, que amavelmente me conduziram mesmo à entrada do terminal para...para...Telheiras? Muita confiança na minha atenção. Até mandei uma sms às mãezinhas quando cheguei a casa, Mãe cheguei, tudo bem, breve volto.
Senti-me um soldado no Ultramar, como antes do 25 de Abril.
Ontem uns putos aí de 18 aninhos começaram a desejar feliz Natal a toda a gente e a gritar Vivas aoamor e à paz.Fui a única pessoa que me ri. e olhei. As outras ficaram apavoradas.
É normal isto no metro? Não se pode olhar e rir? Temos que fixar os olhos no chão com ar aterrado?
Tanta aprendizagem metral que tenho que fazer:)
Agradeço as simpáticas e VOLUNTÁRIAS postadoras de ontem. (graças ao ameaçador coelho)
E a Lau sugeriu..porque não fazer um jantar da gente?
É uma ideia boa, acho eu. Que tal?
Beijos


dias que nao voam

Queria poder contar coisas interessantes sobre mim…mas não há.
A minha vidinha é sempre a mesma, alunos práqui e alunos práli….
E continua a sensação irritante de que estou sempre desadequada.
Aiaiaia, e como sempre, hoje sinto-me assim

eu é até aos 37...

Isto assim não pode ser... prometo escrever alguma coisa que faça (algum) sentido. Mas por favor... não me chamem mais namoradeira e frequentadora de mircagem. Lá se vai a minha reputação. Grunf.

A verdade é que os meus dias têm voado mais que o que seria desejável. Não há papagaio que lhes conduza a vontade. Pronto pronto. E agora, para acabar em beleza (ou talvez não):

"Então até que idade pensas divertir-te?" Vocês não ficavam incomodados quando ouviam isto na TV?

2 de dezembro de 2003

Estórias da minha infância (7) – O Zé Gordo

Foi numa manhã fria de Dezembro.
Saí de casa para ir reparar a “burra”, um furo que teimava em persistir, acho eu. Saí de casa, ufano, com a minha primeira nota de vinte “paus”, verdinha, quase nova, com o Santo António de ar beato. Era, de facto, a primeira vez que tinha podido ficar com o dinheiro que a minha avó me tinha dado, no Natal.
Logo na rua de baixo, encontrei o Zé Gordo que foi comigo e, juntos, deixamos a bicicleta no senhor Zé. Foi nessa altura que ele me perguntou: Que vamos fazer agora?
Já não sei quem foi tendo as ideias mas fizemos muitas coisas. Primeiro comprámos boleimas na padaria da esquina, e comemo-las todas. Depois fomos ao senhor Faustino comprar cromos do futebol e algumas pastilhas. Enquanto comprávamos algumas pastilhas, roubávamos muitas mais. Depois, fomos à tasca do Marmelo, e comprámos tabaco: ele comprou um maço de Kentuky e eu, um de Provisórios. Descemos a azinhaga e fomos para a tapada junto ao campo de futebol. À medida que fumávamos cigarros furiosamente, empoleirados nos muros de pedra e em árvores variadas, atirávamos pedradas às galinhas das redondezas.
Era meio-dia e estava despachada a manhã. Com ela, tinha ido todo o maço de tabaco e quinze dos meus preciosos vinte escudos. Ao chegar a casa, não comi quase nada ao almoço: estava enjoado de tanto cigarro e apavorado que me perguntassem pelo dinheiro!
Assim começou a minha aventurosa adolescência.
Passados anos fui estudar para Lisboa. O Zé Gordo arranjou um bando, assaltou casas e foi preso.

É Natal

"O Natal é feliz, não é só as prendas que interessam, é feliz porque passamos ele com a nossa família.
É quando o Menino Jesus nasce…
Quando a alegria se espalha.
Natal não é um dia que se recebe prendas especiais, é o aniversário do Menino.
Quando o pai Natal dá as prendas, alguns pensam que é o Menino, e outros os pais, mas eu não sei.
Menino Jesus nasceu em 25 de Dezembro em Blem, ao pé de São José, Maria, e vaca e o burro."


Este poderá ser um futuro colaborador deste blog.
Chama-se Manel, tem 8 anos.

1 de dezembro de 2003

Coração Vermelho (7) - Não, não sou o único...

Ofereço-vos, como se fossem minhas, as palavras de António Lobo Antunes em entrevista a Sara Belo Luís, na Visão:

“...
...Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiram são aqueles que agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
Parava a guerra?
Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação um bocado estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disso acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um sócio do Benfica?
Não vou por isso na entrevista...
Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?
...”

Panorama espacial dos animais como se fossem vivos.

Como boa colectora que sou, guardo todos os papelinhos que para mim têm significado. Empilho-os em caixas.
Esta frase do do titulo do post, foi escrita pelo meu sobrinho Miguel, tinha ele uns 9 anos. Guardei-a, está em letras decalcadas, num cartãozinho de papel.
Sempre me fez pensar o que uma criança quereria dizer com aquilo. Ou viu em algum lado?
De qualquer mesmo que a tenha copiado, foi porque de alguma maneira o impressionou.
Nessas arrumações encontrei caderninhos meus com comentários a livros que lia. Espantoso o que eu sabia sobre Platão, Gramsci e outros tantos mais.
Onde estará esse saber arrumado? Dentro da minha cabeça, claro.
Às vezes ponho-me a pensar como será o meu panorama espacial. Estarei viva?
Ou incluo o se na pergunta?
Estes últimos meses deram para remexer coisas antigas. O passado está sempre presente, é um facto.
Incomodam-me quando me perguntam quais são os meus sonhos, o que desejo para o futuro. E eu penso, sei lá, que pergunta idiota.
Ou para mim é uma pergunta supérflua.
Anos e anos agi como se nada na minha vida fosse mudar. Quando mudou adaptei-me.
E agora tenho esta dificuldade de tomar as coisas como certas. Não estou a falar apenas no aspecto amoroso, mas em tudo.
Nem comprar casa me apetece comprar. Penso sempre e se quiser mudar?
Já me disseram várias vezes que sou radical e exagerada:)
Pois seja.
E que sinto demais as coisas. Ai , pois sinto.
Mas continuo a prezar desafios. Isso sim, faz-me estar viva:)
Não vos chago mais:)
Té já:)
(claro que volto a chagar)

Quando Eu For Grande

Quando eu for grande... Quando era miúdo, pensava muitas vezes nesta frase. A maior parte das vezes era tipo: "eles vão ver!". Achava que ser grande era assim um passe geral para a boa vida, para todas as coisas proibidas.
Cresci sempre com pressa de ser grande. Via-me como que numa eterna fila, em que a maior parte das pessoas passavam à minha frente.
Na escola primária, só queria chegar à 4ª classe, porque eram os mais velhos. Podiam fazer tudo (pensava eu). E não apanhavam porrada dos colegas.
No liceu, queria depressa chegar ao 12º ano. Eram os mais velhos, logo, os mais importantes.
Na faculdade, queria depressa ser finalista. Eram os mais importantes. Até tinham direito à cartola.
No estágio, queria depressa chegar ao fim, perder aquele "estagiário" a seguir ao tracinho, sinal de eterna menoridade, de segunda categoria.
E eis que, chegado aos quarenta anos...
Não, ainda não cheguei àquilo de querer que o tempo volte para trás. Se calhar, só lá para os setenta é que me vai dar essa mania.
Realmente, o tempo é uma coisa gira.
Não tem nada a ver, mas lembrei-me agora de outra coisa. (Aturem-me, ora. Não me dessem entrada aqui no blog. Ahpoizé!)
Quando tinha aí 18 ou 19 ano, achava que quem tinha 30 ou mais era VELHO. Achava, pois. As miúdas, só as achava giras aí até aos 20 e poucos. Depois disso, eram velhotas.
O tempo foi passando, e tal e coisa, e depois a certa altura já gostava das cachopas de 30 e poucos. Também gostava das mais novitas, mas as de trinta e picos... Ai, ai...
O tempo foi passando, e eis senão quando dou comigo a deitar o canto do olho para as de quarenta.
No outro dia, dei por mim a olhar para uma de cinquenta e tais. E de achar que ela até era gira.
Valha-me ao menos isso. Quando chegar ao lar de terceira idade, vou andar a correr atrás das velhotas todas. De andarilho, se calhar, e com a garrafa do soro...

O dilema

Há tempos, encontrei o parafuso que há muito tempo tinha perdido.
O problema é que não sei onde, nem como, voltar a enroscá-lo.
E o dilema é que nem sei se quero...
Assim guardo-o, religiosamente, no bolso direito das minhas calças.
E todos os dias o olho, o toco, lhe falo, carinhosamente.
O meu parafuso perdido!

Ida e Volta

Ora cá estou eu de volta!
A viagem correu bem, obrigado.
Por cá, vou vendo que está quase tudo na mesma, felizmente...



E que descobri em Munique?
Que tem um rio chamado Isaar e um museu chamado Pinakoteka.
Que tem Strasse’s sombrias e Platz’s luminosas.
Que faz frio, frio a sério e, à noitinha, cai neve quase sem se notar, que logo desaparece nas ruas molhadas.
Que é habitada por alemães, muitos alemães,... que falam alemão.
Que enchem as ruas geladas, os mercados de natal, as pistas de gelo... e falam em alemão!
Que se sentam nas cervejarias, onde estão sempre a comer salsichas e pernis, Strudell’s e Schnitzel’s. E a beber cerveja, muita cerveja, claro... e a falar alemão.
Que, afinal, sorriem como nós!

PP: Ao vir para baixo, fui "interceptado" por um dos famosos Subarus da brigada: está-se a tornar um mau hábito! O pior é que desta vez, além da paulada económica, não me devo safar da inibição de condução. Aiii!