18 de janeiro de 2026

han kang e a memórias do massacre de gwangju




han kang nasceu em 1970, em gwangju, a cidade que, dez anos mais tarde, se tornaria o epicentro do massacre de maio de 1980.

a repressão militar contra o movimento pró-democracia deixou milhares de mortos cujos corpos muitas vezes desapareceram sem registo, e cuja memória foi silenciada durante anos pela censura.
han kang cresceu entre o peso desse trauma colectivo e o silêncio que o envolvia, um silêncio que a fez retornar à sua cidade, decadas mais tarde, a tentar entrevistar os sobreviventes dos massacres.
a sua prosa é de uma melancolia aparente: frases suaves, imagens delicadas, um ritmo quase contemplativo. o que "esperaríamos" duma escrita sul coreana.
mas sob essa superfície calma, as suas histórias carregam cortes abruptos e tensões insuportáveis.
n' vegetariana, a decisão súbita duma mulher de deixar de comer carne rompe violentamente com o tecido das relações familiares, expondo camadas de opressão, desejo reprimido e alienação. nos actos humanos, de que já aqui falei, o massacre de gwangju é revisitado através de testemunhos ficcionais e reais, onde a censura e a repressão política tornam-se presença física: um peso no corpo e na linguagem.
na aula de grego, o desconforto é mais íntimo, mas igualmente persistente: o professor que perde a visão e a narradora que perde a voz vivem ambas as mutilações como consequência de um mesmo núcleo de dor, como se o corpo e linguagem fossem atingidos pelo mesmo golpe invisível.
o mundo que a han kang descreve é um lugar onde o desconforto não é excepção, mas estado permanente.
as personagens que vivem em casas geladas no inverno e sufocantes no verão, que multiplicam empregos para sobreviver, que se movem num espaço social onde as convenções são tão pesadas que deformam o corpo e a mente.
as tradições, longe de serem meros hábitos culturais, funcionam como mecanismos de contenção: regulam os desejos, impõem destinos, sufocam singularidades.
este contraste entre a beleza serena da forma e a brutalidade do conteúdo produz um efeito inquietante: avançamos por frases que parecem feitas de ar, mas que carregam o peso de chumbo.
a han kang escreve como quem toca a superfície duma água calma, sabendo que, logo abaixo, há correntes capazes de arrastar tudo.
a sua literatura não é apenas sobre personagens, mas sobre um país inteiro que vive dividido entre a aparência e a ferida, entre a quietude e a violência.
(espero que tenha convencido alguns a lerem a han kang)

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