em 2017, na ressaca dos incêndios de junho e outubro, a teresa villaverde atravessou parte da zona ardida e sentiu que, muito para além dos hectares contabilizados de árvores queimadas, estava muito mais perdido sob essa camada que se vê à superfície.
nesse momento começou a formar-se na sua cabeça uma ideia de filme que acabaria por se tornar o recém estreado justa.
o filme é um retrato duro e silencioso de um país ferido, onde a dor não se manifesta apenas em grandes gestos, mas sobretudo naquilo que se perde sem ruído.
a experiência dos incêndios atravessa o filme como uma ferida aberta: não apenas enquanto catástrofe física, mas como destruição profunda dos referenciais que sustentam a vida das pessoas.
ardem as casas, os campos, os objectos, mas ardem também as memórias, os laços e os pontos de apoio que davam sentido à existência quotidiana, que dão sentido ao levantar de manhã da cama e ter um propósito.
nestes incêndios, e falo de fajão porque conheço muito bem o terreno e também porque o filme foi rralizado parcialmente ali, a perda é total porque não se limita ao que é visível.
quando o fogo passa, o que fica é um território estranho, quase irreconhecível, onde os habitantes já não sabem onde se situar.
o chão familiar transforma-se num espaço de desorientação, e a identidade, que era fortemente ligada aos pequenos lugares, fragmenta-se. fica destruída.
a teresa villaveerde procurou filmar esta condição com uma contenção que amplifica o sofrimento: os corpos parecem suspensos, os gestos contidos, como se a dor fosse demasiado grande para ser expressa.
nos dias a seguir ao incêndio de outubro de 2017, em fajão, as pessoas tinham perdido por cometo a capacidade de reagir, incapazes de chorar, de gritar. secos.
uma senspersistente de impotência, uma incapacidade de agir perante uma força que tudo consome.
a impotência aproxima-se da experiência de um cego: alguém que, privado da visão, tenta apalpar o mundo à sua volta sem conseguir apreendê-lo por completo, levando as pessoas a moverem-se assim, tateando um destino que já não controlam, procurando restos do que foram, sem saberem se ainda lhes pertencem.
o futuro deixou de ser uma linha visível, ou vagamente expectável, e transforma-se num espaço opaco, ameaçador.
o propósito da teresa villaverde é um olhar ético sobre a dor, recusando o espetáculo da tragédia para se concentrar na sua dimensão humana e íntima.
depois dum grande incêndio, as árvores voltam a nascer, as casas recuperam-se, os currais, as colmeias, os galinheiros renascem.
o que que perde para sempre é o que não se vê: o que liga as pessoas à terra e à vida.

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