manuel gerena é uma das figuras mais singulares do flamenco, não apenas pela sua voz e estética musical, mas sobretudo pela forma indissociável como a sua obra se mistura com a militância política.
originário da andaluzia rural, como o "el cabrero", construiu a sua carreira em confronto directo com a ditadura franquista, transformando o flamenco, tantas vezes apropriado como símbolo folclórico e despolitizado do regime, num instrumento de denúncia social, consciência de classe e resistência antifascista.
o seu disco levante é particularmente emblemático dessa postura.
o álbum afirma-se como um manifesto político cantado, onde o cante jondo se cruza com poemas de combate, referências à repressão, à exploração dos trabalhadores e à memória histórica silenciada, em textos que vão de rafael alberti aos poetas populares andaluzes.
manuel gerena recuperou o flamenco como linguagem popular de protesto, recusando a estetização vazia, reafirmando as suas raízes na dor, na marginalidade e na luta dos oprimidos.
a própria escolha do título evoca simultaneamente o vento do leste andaluz e a ideia de levantamento, de insurreição colectiva.
gerena manteve sempre uma ligação militantes com o partido vomunista de espanha, pagando por isso um preço elevado: concertos proibidos, vigilância policial, detenções e censura, nunca cedendo à neutralidade confortável que muitos artistas adoptaram no pós-franquismo.
o flamenco não podia ser separado da realidade social dos jornaleiros, dos presos políticos, dos emigrantes e dos vencidos da história.
cantar era, antes de tudo, um acto político.
este posicionamento de manuel gerena ajuda a desmontar um estereótipo persistente: a ideia de que o flamenco é, por natureza, conservador, tradicionalista ou mesmo reacionário.
pelo contrário, a história do flamenco está profundamente marcada por correntes libertárias, comunistas e anarco-sindicalistas, sobretudo na andaluzia do início do século XX.
muitos cantaores e cantaoras nasceram em ambientes de miséria, perseguição e exclusão, onde o sindicalismo revolucionário e o comunismo eram formas concretas de sobrevivência e dignidade.
cantaores como josé menese, próximo de intelectuais marxistas, ou o el cabrero (josé domínguez muñoz), assumidamente anarco-sindicalista, são exemplos claros dessa tradição.
el cabrero, pastor de cabras e cantaor de flamenco, fez da sua vida e da sua arte um gesto permanente de rebeldia contra o poder económico, a igreja institucional e o estado autoritário.
tal como gerena, recusou os circuitos comerciais quando estes implicavam domesticação ideológica, mantendo uma ética radical de independência e compromisso político.

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