volto aos 100 anos do josé cardoso pires.
a balada da praia dos cães é uma das obras mais emblemáticas do cardoso pires, inspirada num crime real ocorrido em 1960, numa vivenda de rio de mouro.
através da estrutura dum romance policial, é recriado o assassinato do capitão de cavalaria almeida santos, e um dos cérebros organizadores da revolta da sé, em 1959, para construir uma crítica profunda à sociedade portuguesa dos últimos anos da ditadura.
a história desenrola-se num portugal dominado pelo autoritarismo e pela repressão política, onde até os que se opõem ao regime trazem consigo as marcas da sua mentalidade.
cardoso pires utiliza a intriga criminal para expor a podridão moral de um país paralisado entre o poder e o medo, entre a obediência e o desejo de mudança.
o centro do romance é ocupado pelo chamado “quadrado”: o capitão de cavalaria almeida santos, a sua companheira maria josé, o aspirante-médico jean jacques e o cabo antónio gil, sendo que, no romance nao têm estes nomes, nem os postos militares:
são o major luis dantas castro, filomena ataíde, o arquitecto renato fontenova e o cabo bernardino barroca.
este grupo nasce sob o signo da resistência, homens e mulheres unidos por ideais de oposição ao regime fascista, mas dentro dele reproduzem-se as mesmas estruturas de dominação e de submissão que caracterizavam o próprio estado que pretendiam combater.
o major é a figura autoritária, orgulhosa da sua formação militar, impregnada de uma ética de comando e obediência.
a sua companheira, mulher de familia da burguesia saudável do porto, é uma mulher dividida entre o fascínio pela autoridade e a humilhação constante.
a relação entre ambos é marcada por um patriarcalismo brutal, que transforma mena numa extensão do poder e da vontade do major.
mena, oprimida, torna-se ao mesmo tempo vítima e cúmplice, reproduzindo, nas suas atitudes em relação à namorada do arquitecto, a mesma violência simbólica e moral que sofre do capitão.
o modo como mena trata a namorada de fontenova é um dos pontos de ruptura emocional que precipita a ruptura.
a opressão que a mena sofre transforma-se em violência subsidiária, exercida sobre outra mulher, mais frágil, como reflexo do domínio do capitão.
a cadeia de poder descendente do major para mena e desta para a outra mulher, mostra como o patriarcalismo se reproduz dentro das relações pessoais, corroendo-as.
a sua crueldade e desprezo pela jovem expõem, aos olhos do arquitecto, o caráter degradado e desumano do ambiente em que vivem.
ele percebe que, sob a capa da resistência e do idealismo, aquele grupo reproduz os valores do inimigo: a autoridade cega, a hierarquia inquestionável e a humilhação dos mais frágeis.
é este despertar moral que o leva a quebrar a “sagrada #lealdade militar e oposicionista” e a chamar para o seu lado o cabo barroca, outro subordinado humilhado à ordem do major.
a aliança entre fontenova e barroca marca a inversão total da hierarquia: os inferiores desafiam o superior, e a estrutura do poder implode a partir de dentro.
o assassinato do major não é apenas um acto de rebeldia pessoal: é o colapso simbólico de uma hierarquia construída sobre o medo e o patriarcalismo.
cardoso pires transforma a intriga criminal numa alegoria da própria decomposição do regime e das suas formas de autoridade.
o romance mostra que o autoritarismo da ditadura não se limitava às instituições políticas, nas estendia-se à vida privada, às relações amorosas e ao inconsciente colectivo.
a relação entre o major e mena é o espelho íntimo desse poder: uma mulher reduzida à condição de posse, dominada pelo ciúme e pela culpa, e um homem que vê o amor como prolongamento da hierarquia militar.
mesmo entre os que se dizem opositores do fascismo, sobrevive o espírito conservador, a mentalidade castrense e o código patriarcal de honra e domínio.
cardoso pires expõe, com lucidez quase cruel, que a libertação política não basta se persistirem as velhas estruturas morais.
a tirania doméstica é a continuação simbólica da tirania política.
o gesto de fontenova e de gil, a rebelião e o assassinato, tem um peso profundamente simbólico.
ao matarem o major, eles matam também a figura do “pai” autoritário, o chefe, o comandante, o modelo do poder que portugal cultivara durante décadas.
mas a revolta, embora libertadora, é também ambígua: ela nasce do ódio e do ressentimento, não de uma nova visão moral.
o que se destrói é o velho mundo, mas o novo ainda não tem forma.
é uma revolta cega, tão violenta quanto o sistema que combate.
o colapso da hierarquia é inevitável, mas a liberdade verdadeira ainda está por construir.
uma das marcas mais fortes do estilo de josé cardoso pires é o distanciamento narrativo.
ele escreve com uma frieza quase clínica, usando uma linguagem descritiva eobjectivaa, feita de relatórios, depoimentos, notas e observações.
essa estratégia de “ver de longe para ver melhor” tem uma função ética e estética: evita a tentação da dramatização e permite ao leitor observar o comportamento humano como num espelho, despido de sentimentalismo.
o autor não julga, mostra.
não procura o efeito emocional, mas a clareza moral.
é um olhar de anatomista sobre a decomposição de uma sociedade, um olhar que se mantém frio precisamente para poder ver mais fundo.
na balada da praia dos cães, o crime é apenas o ponto de partida de uma análise sobre o poder, a obediência e a decadência moral de uma geração.
o “quadrado” que se desfaz reflete a desintegração de um país fundado na autoridade e na lealdade cega.
a rebelião nascida da humilhação e do desprezo, marca o fim de um ciclo: a morte do major é a morte simbólica do velho portugal, patriarcal, autoritário e incapaz de se libertar de si próprio.
com um estilo preciso e distanciado, cardoso pires constrói não apenas um romance policial, mas uma autópsia moral do país: um retrato frio e lúcido da lenta agonia de uma sociedade que confundia poder com verdade e submissão com fidelidade.
mais haveria para falar sobre a forma como o inquérito é feito e a obsessão quase pornografica de elias santana por nena, mas isso é outro livro, e nao é sobre a lealdade.

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