3 de fevereiro de 2026

a construção em xisto

 


as construções em xisto da serra do açor são um testemunho material das condições de vida das classes trabalhadoras rurais da região. 

longe de serem escolhas arquitetónicas conscientes no sentido estético ou funcional moderno, estas casas refletem a precariedade dos recursos disponíveis e as necessidades mínimas de sobrevivência das populações serranas.

o xisto, material abundante ma serra, foi utilizado por ser o único economicamente viável. 

apesar de frágil, de fácil quebra e com baixa resistência ao impacto, era extraído manualmente e transportado de curtas distâncias, tornando-se o alicerce da construção local. 

as casas eram, regra geral, de reduzidas dimensões, muitas vezes compostas por apenas dois pisos: o rés-do-chão destinado aos animais e à arrumação de alfaias agrícolas, e o andar superior para habitação.

no interior, a compartimentação era feita com tábuas de madeira finas, sem isolamento térmico ou acústico, servindo apenas para separar os poucos espaços funcionais, como a cozinha e o quarto. 



a prioridade era o abrigo mínimo.

as janelas, quando existiam, eram pequenas e escassas: um metro quadrado de abertura envidraçada era significativamente mais dispendioso que um metro quadrado de parede em xisto, o que condicionava fortemente a presença de luz natural nas casas. 

as casas eram feitas com os materiais disponíveis na serra e o vidro tinha que ser comprado.

as janelas existentes tinham apenas um taipal de madeira como protecção para o frio e o vento.

a habitação não era concebida como espaço de conforto ou lazer. servia apenas para comer e dormir. os habitantes passavam a maior parte do tempo ao ar livre, trabalhando de sol a sol em atividades agrícolas ou de subsistência. 

o espaço doméstico refletia esta realidade: funcional, mínimo e moldado pela escassez.

a maioria das casas tinha, e tem, áreas de implementação na ordem dos 30m2, com paredes de 50cm, o que reduz o espaço interior para 25m2,, sendo (originalmente) um piso para animais, outro para a família (famílias com 5 ou mais filhos) e o "forro" para secar os alimentos e, sobre a cozinha, para "fumar" os enchidos.

o aspecto de xisto exposto não era uma escolha estética, mas uma consequência da pobreza. 

nas aldeias com menos recursos, as casas não eram rebocadas nem pintadas por simples impossibilidade económica.

 nos núcleos com maior poder monetário, as mesmas construções em xisto eram revestidas, o que muitas vezes leva hoje à falsa perceção de que uma casa rebocada não pertence à tipologia tradicional da região.

muitas vezes em tenho que mostrar a quem acha que fajão não deveria ser considerada uma aldeia de Xisto porque, ao contrário de algumas aldeias que estavam abandonadas na serra da lousã e agora estão cheia de turistas, tardo-hippies e novos rurais, tem muitas casas rebocadas e pintadas.

a questao central é que em fajao, mais de 90% do edificado usou o xisto como material de construção e dou o exemplo das minhas casas: uma tem parede exterior de xisto, mas a estrutura que a sustém é de betão; outra é pintada de branco e tida a sua estrutura é xisto.



a localização das aldeias em encostas ou terrenos acidentados reflete a lógica de aproveitamento do território: os poucos solos férteis e planos eram preservados para a agricultura, relegando os espaços menos produtivos à edificação de habitações.

a arquitetura em xisto da serra do açor constitui não apenas uma expressão do meio físico, mas sobretudo uma manifestação das estruturas sociais e económicas que moldaram o quotidiano das suas gentes.


aquilo que muita gente hoje acha "maravilhoso" era, para os meus pais e todos os da sua geração, sinónimo de pobreza e miséria.

a um familiar meu, quando lhe perguntava porque não ia mais vezes a fajão, ele respondia que aquilo só lhe lembrava fome e frio.

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