nos 100 anos do josé cardoso pires vamos ao escritor que mais me marcou, e o unico que durante algum tempo me levou a tentar escrever "ao estilo".
muitas vezes tentei, sem êxito, diga-se.
hoje, sem pretender escrever como o mestre, escrevo a fantasiar como se fosse ele a fumar frente ao espelho, sem os dilemas do "e agora, josé?"
fumar quatro maços por dia não é vício, é vocação.
há padres com o terço, eu tenho o isqueiro.
cada um com o seu ritual, a sua missa privada. a diferença é que as minhas orações fazem fumo — e não prometem salvação nenhuma, só mais um pigarro a meio da madrugada.
as beatas — vejam bem o termo — são o rasto da devoção.
uns deixam santinhos e velas acesas; eu deixo pontas de cigarro esmagadas no cinzeiro, como quem marca presenças numa ladainha de nicotina.
e no fim, que resta? cinza.
sempre cinza.
no fundo, somos todos fogos breves à espera de se apagarem sozinhos.
há dias em que me olho ao espelho e vejo-me difuso, desfocado, como se o fumo me devolvesse a imagem em segunda mão, já usada.
um rosto de filtro gasto.
penso: "talvez esteja a tornar-me uma beata também — não daquelas de véu e rosário, mas destas, as outras, meio consumidas, meio ainda acesas, presas entre dois dedos que tremem do café e da insónia."
o curioso — ou o trágico, conforme o dia — é que as beatas, as santas de igreja, também ardem.
só que nelas o fogo vem de dentro.
eu, mais modesto, contento-me com o fósforo e o gesto repetido de acender outro cigarro, esse sacramento portátil do desassossego.
e volto ao espelho.
tento ver se ainda há qualquer coisa atrás do fumo.
um homem, talvez.
um resto.
mas a imagem dissolve-se, como a última tragada — e penso que, se há um deus para estas coisas, há de estar rindo-se de mim, lá do alto, com o pulmão limpinho e o hálito a menta, enquanto eu aqui abaixo lhe devolvo incenso de tabaco e ironia.
no fim, somos todos beatas: uns rezam, outros ardem.

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