na década de 1930, o mundo viu o desporto transformar-se num palco de disputas ideológicas globais.
o caso mais emblemático foi o dos jogos olímpicos de berlim, usados por adolf hitler para exibir a suposta superioridade do regime nazi.
a grandiosidade arquitectónica, os desfiles milimetricamente organizados, a presença da suástica em cada detalhe, tudo fazia parte de um espetáculo de legitimação política.
os jogos, em vez de celebrarem a fraternidade entre os povos, tornaram-se uma mostra da exclusão, do racismo e da propaganda totalitária.
contra esta apropriação do espírito olímpico, nasceu a ideia da olimpíada popular de barcelona, prevista para julho de 1936.
organizada por sindicatos, associações culturais e grupos desportivos populares, a iniciativa pretendia ser um contraponto humano e solidário: um encontro internacional de atletas amadores e profissionais que recusavam a lógica nacionalista e racista dos jogos de berlim.
mais de 6 mil atletas de mais de 20 países estavam inscritos.
entre eles, destacavam-se delegações de trabalhadores, refugiados políticos, comunidades autónomas (catalunha, país basco, galícia), além de representantes de povos colonizados.
a olimpíada popular trazia consigo uma utopia concreta: transformar o desporto em instrumento de amizade e solidariedade, colocando o encontro acima da vitória, a convivência acima da propaganda.
o caráter celebratório e fraterno contrastava não apenas com a grandiloquência sinistra de berlim, mas também com outra resposta alternativa que emergia na mesma década: as espartaquíadas de moscovo, criadas nos anos 1920 pela internacional comunista e realizadas em diferentes edições (a maior em 1928), que pretendiam ser os “jogos do proletariado”, uma alternativa revolucionária ao olimpismo burguês.
mas, ao contrário de barcelona, o projecto soviético rapidamente se converteu em mais uma ferramenta de afirmação do poder soviético, em contraste e oposição aos jogos do mundo capitalista
assim, na europa dos anos 1930, surgiram três visões distintas do desporto:
berlim, como palco da legitimação do totalitarismo nazi;
moscovo, como montra da força soviética e proletária;
barcelona, como festa da diversidade, da amizade e da esperança antifascista.
mas o sonho catalão não chegou a nascer.
em 18 de julho de 1936, véspera da inauguração, o golpe militar fascista de francisco franco mergulhou a espanha na guerra civil.
a cidade que se deveria encher de bandeiras coloridas e desfiles festivos foi tomada por barricadas e tiros.
a besta fascista, já em marcha pela europa, esmagou em poucas horas a possibilidade dum encontro verdadeiramente olímpico e humano.
muitos dos atletas que tinham viajado para barcelona não regressaram: optaram por juntar-se às brigadas internacionais, combatendo ao lado do povo espanhol contra o avanço franquista.
a chama da olimpíada popular — embora nunca acesa num estádio, permaneceu viva nas trincheiras da resistência antifascista.
a memória da olimpíada popular de barcelona sobrevive como um símbolo de utopia interrompida. enquanto berlim e moscovo instrumentalizaram o desporto como espetáculo de poder, barcelona ousava sonhar com um encontro livre, igualitário e solidário.
um relâmpago de fraternidade que brilhou por um instante e foi abafado pela violência da guerra, mas que ainda ecoa como exemplo de que o desporto pode ser, também, resistência e esperança.



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