5 de setembro de 2011

Existencialismos revisitados



Retalhos  de uma cidade expostos, sem camuflagem, ao palmilhar ruas algo relegadas ao esquecimento. Fica-se a pensar como é perigosa a construção de um universo dual fundado entre cidade e campo como se, de um lado, encontrássemos o conforto da proximidade de serviços e estabelecimentos comerciais, culturais e de diversão, levemente (levianamente?) designados por «civilização» e, do outro, um insensível isolamento a raiar o fatalismo.
O espaço é ocupado por casebres delimitados por blocos de construção social. Palmilhando ruas, portas destruídas revelam ao olhar instantâneos de derrocada. Em becos, vingam pequenas oficinas de carpintaria ou estabelecimentos onde se percebe a existência de intermináveis listas de fiados.
Alarmismos coletivos sobre a frequência do bairro levam a caminhante a ter cuidados próprios. À primeira vista, surpreende a amabilidade de alguns moradores que, em automóveis muito antigos, param solicitamente, nas passadeiras, ostentando um sorriso.
Num pátio, um pombo morto é ladeado por companheiros a esvoaçar em insensível indiferença.
De um microcosmos como o visitado, acenam com nitidez conceitos como o da relatividade. A viajante interroga-se sobre como viverão as gentes em tão precárias habitações e se algumas das  queixas quotidianas presentes em conversas banais se revestirão de sentido. A invadir a memória sem pedir licença, uma frase vinda de alguém desaparecido e sempre presente «aqui vivem os existencialistas, ou seja, os que não desistem de existir».
Quer-se acreditar em dias de sol, risos de criança e na extinção, num continente dito civilizado, da definição apresentada.
A par do desfile de ideias uma canção teima em ecoar no imaginário.

4 comentários:

José Quintela Soares disse...

As "cidades" dentro da cidade, realidades diversas, por vezes escamoteadas por conveniência ou ignorância.
Existem, são visiveis, sentem-se.

Belo texto.

Anónimo disse...

É certo, José Quintela Soares, a título de exemplo - mais um - o das 'ilhas' na cidade do Porto.

Obrigada:)

teresa

karipande disse...

Excelente texto, o que é hábito no que escreve.
Fernando

teresa disse...

É bom ter feedback, Fernando Pereira, trata-se do registo de uma impressão causada por um local nunca antes percorrido nos detalhes:)