30 de agosto de 2010

Caneta de tinta permanente

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Eu passei para a segunda classe, ainda andava na escola da Rua das Trinas. A professora tinha-nos dito que íamos aprender a escrever com caneta de tinta permanente e que por isso tínhamos que comprar uma. A saída da escola dei o recado à minha avó que o deve ter transmitido aos meus pais. Já em casa, à hora do almoço, falávamos das novidades da minha manhã de escola e o padrinho lembrou-se que tinha uma caneta de tinta permanente que não usava e pôs-se à procura dela. Quando a encontrou, a avó veio ter comigo e disse-me “pronto filha, aqui tens a caneta para levares amanhã para a escola. Hoje à tarde vamos ao sr. emílio comprar tinta para a pôr a escrever”. Eu fiquei contente por ter logo a questão resolvida, mas quando me mostraram a caneta que tinha sido do António José (o padrinho), preta com uma argola dourada, todo o meu entusiasmo se desvaneceu. No dia seguinte cheguei à escola com a dita caneta. A professora começou logo a ensinar-nos a escrever com ela, tarefa que não achei nada fácil, e quando todos os alunos abriram os estojos e tiraram as suas, eu fiquei com uma lágrima no olho a olhar para a minha. Todos tinham canetas com super heróis, no caso dos rapazes, e cor-de-rosa ou com corações no caso das raparigas. Tive vergonha, digo-o hoje, quando tive que tirar a minha caneta preta de argola dourada do estojo, certamente cor-de-rosa. Toda a manhã a escrever com aquela caneta, “feia” de bico estranho e com mau jeito… se ao menos ela tivesse a Minnie… olhava para as outras meninas de língua ao canto da boca aplicarem-se a escrever com as suas novas canetas de tinta permanente tão bonitas…

A avó veio buscar-me para o almoço, perguntou-me como é que tinha sido a manhã na escola e eu, com duas lágrimas a deslizarem-me pela cara, contei-lhe a minha manhã de caneta-de-tinta-permanente-preta-de-argola-dourada. Quando os meus pais foram buscar-me a casa dela ao fim do dia a minha avó explicou-lhes o caso. Os meus pais registaram mas não reagiram logo, coisa que me angustiou e angustiou a minha avó só de me ver angustiada. Rumo a casa sem pararmos numa papelaria para eu poder escolher uma nova caneta, o assunto tinha ficado em stand by. Passaram-se mais uns dias e eu sem nova caneta de tinta permanente. E, uma tarde, quando a minha avó foi buscar-me à saída da escola, paramos na montra da papelaria do Sr. Emílio … tantas canetas de tinta permanente, deviam estar na moda, havia de todas as cores, com todos os motivos e super heróis… e havia uma com a Minnie, cor-de-rosa. A minha avó entrou comigo no Sr. Emílio e resolveu ali todas as minhas preocupações e foi assim que no dia seguinte eu cheguei à escola com uma caneta nova, cor-de-rosa, com a Minnie e com recargas descartáveis.

... querida avó

7 comentários:

teresa disse...

Gosto destas histórias/memórias em que entra a tua avó :)

Luísa disse...

A J. se fosse uma miúda dos dias de hoje, iria dizer: a minha avó é bué da fixe. É porque é mesmo de ser uma avó "bué da fixe" para ir comprar o que tanto se deseja e nos livrar do embaraço de uma qualquer caneta preta com um aro dourado...

Miguel Gil disse...

Considero que a língua portuguesa é, sobretudo, uma poderosa ferramenta no transmitir de vivências, de oralidades, de narrativas de vida, de tudo o que nos faz, particularmente, ser e sentir português; no resto é igual a tantas outras.

J. já li esta tua história três vezes. Três vezes para ter mesmo a certeza do que senti. Gostei muito de a ler. Gostei muito de percorrer o sentir que o texto nos obriga, de sentir o que nos quiseste por a sentir. Parabéns!
E agradeço à tua avó ter-te oferecido duas canetas, a do ‘padrinho’ e a de menina, pois estão a ser muito bem empregues. :)

[Lógicamente nas línguas estrangeiras pensa-se/escreve-se/fala-se de outras maneiras, para transmitir esta mesma mensagem, mas não é a mesma coisa]

MCA disse...

Estas coisas são tão importantes quando somos pequeninos!...

J. disse...

;)

tenho muitas recordações dos dias com a minha avo e agora mais do que nunca apetece-me regista-las! :)

obrigada miguel ;)

Miguel Gil disse...

De nada, J.! Gostei mesmo e aguardo por mais histórias destas! :)

Filomena disse...

Querida J.
E hoje? Que é feito da caneta do Padrinho?
Mal comparado, lembrei-me de quando já no Liceu, nos testes da disciplina de técnicas de tradução de Inglês, eu nunca levava dicionário. Os colegas riam-se porque achavam que eu não precisava - a minha média foi 18. Nunca tive coragem de contar que o meu dicionário era tão velho mas tão velho, a desfazer-se de tanto uso dado pelas primas mais velhas, que era por isso que não o levava. Só tirava as dúvidas em casa. E nunca tive coragem de pedir aos meus pais que me comprassem um novo porque eram outros tempos quando o dinheiro não dava para tudo, nem para os livros da escola.
Abençoada a Senhora sua Avó! Gostei tanto desta história. Muito obrigada!