
Há dias, a assistir a uma entrevista do Manuel Paulo na 2 a propósito do novo projecto Pássaro Cego chegaram à memória os tempos de Angola.
Simpático anfitrião (bem como a D.) sempre que tínhamos de permanecer uns tempos em Luanda à espera do visto no passaporte para as tão ansiadas férias em Portugal, ao ouvir o seu depoimento de colega em andanças africanas, recordei que alguns .- os professores que chegaram em primeiro lugar à então recente RPA – viveram as experiências mais arriscadas. Atenta à entrevista, lembrei-me que nos tinha contado ter ficado, por diversas vezes, retido na habitação por causa dos confrontos, com direito a um balde de água diário para a higiene pessoal (e se não estou em erro, também para matar a sede), de tal modo a situação se agravou que acabou por ser transferido para a capital . É que na altura, alguns dos cooperantes – sem conhecimento da guerrilha entre forças partidárias – decidiram leccionar em localidades problemáticas, não podendo, portanto, deslocar-se à escola sempre que os conflitos estalavam. Os cortes de água e de electricidade – sabotagens que teremos igualmente experimentado – levavam a situações impensáveis para quem se encontra na «Europa civilizada» (e aqui estou a citar o Zeca). Perguntaram-me uns amigos originários da Polónia a trabalhar num projecto da Unesco: «Como é que vocês, possivelmente encarados como os ‘colonizadores’, decidem trabalhar num jovem país onde poderá haver ressentimentos?».
Nunca senti tal por parte da estimada comunidade escolar e, sem dúvida, a experiência ter-nos-á comprovado que a realidade não é dual, com os ‘bons’ de um lado e os ‘maus’ do outro…
Leccionei na cidade aqui representada, tendo descoberto que alguns alunos mal se expressavam em Português. Uma das experiências mais produtivas foi acompanhá-los até ao parque em frente à nossa «Escola 11 de Novembro» , antigo colégio das Doroteias, e começarmos a falar, descontraidamente, sobre os animais que por lá se encontravam bem como acerca das fantásticas plantas e flores, trocando idiomas e tirando apontamentos. Este quebrar de gelo trouxe sem dúvida ganhos consideráveis.
Reconhecem esta cidade ? Gostei de rever o postal, pois residi na avenida representada, com vista para a praia. Na época ainda não tinha o nome nativo que posteriormente lhe foi atribuído…
Trata-se da então cidade de Moçâmedes, actual Namibe, tendo acertado 'Casa do Brigadeiro'.
9 comentários:
De facto há aqui um conjunto de situações que me deixam perplexo!
Vejo este blog diáriamente e leio-o sempre que possível. Hoje vi este postal do Namibe (ex-Moçâmedes, nome português porque a terra pertencia ao conde de Moçamedes, terra do concelho de S. Pedro do Sul em Portugal) e li a história, e lembrei-me que fui um dos que fiz a selecção dos quase 350 professores nos diferentes graus de ensino que foram para Angola em 1979 e 1980. Trabalhava numa equipa na embaixada de Angola, que tinha vindo de Luanda para contratar professores. Essa equipa do João Beirão (já falecido), Helder Moura, Paula Pena, Daniel Caetano,João Bartolomeu, e eu próprio tentámos mostrar às pessoas que a realidade de Angola era muito diferente do que se por cá dizia, mas ao mesmo tempo difícil. Ainda aguentaram uns poucos que por lá ficaram e que vou vendo um pouco por todo o lado...Ainda em Maio nesta mesma cidade encontrei o Chico Achando que eu tinha contratado para o Lubango, mas que acabou por ficar pelo Namibe.
Vem-me à memória uma história triste, de uma rapariga que contratei e que encontrei no Lubango uns tempos depois (embora eu tenha ideia que ela tinha sido contratada para o Namibe) e me disse que se ia casar em breve e que me agradecia por isso, já que ela era para ser destacada para Menongue, e à ultima hora lá consegui mandá-la para um sítio menos difícil! Soube passado uns tempos que durante a viagem para Benguela, onde era o consulado de Portugal, ela teria morrido num acidente perto de Quijenjes!
Teresa, talvez o seu processo tb tenha passado por mim...E obrigado por me ter trazido estas recordações, e ainda há tempos dava uma volta a esses papeis que ainda por cá tinha em casa...
Fernando Pereira
http://recordacoescasamarela.blogspot.com/
http://santeiro.blogspot.com/
Caro Fernando Pereira,
Tendo chegado a Luanda em Abril de 80 (com destino a Namibe), adoeci e um amigo médico no hospital Américo Boavida (antigo hospital de S. Paulo) tentou que eu ficasse em Luanda, alegando a necessidade de cuidados médicos (a situação era de pouca gravidade). Tal não foi possível e - sinceramente - fiquei contente com o facto, pois ainda muito nova sentia por parte de alguns portugueses amigos da minha família que por lá viviam, um superproteccionismo ao qual os meus pais nunca me habituaram. O ministério local não permitiu a minha permanência em Luanda e, ao fim de quase um mês, lá parti para a então Moçâmedes (Maio de 80).
Infelizmente, os meus amigos Tina e Vítor, decidiram deslocar-se ao consulado de Benguela para casar e, de regresso, o condutor adormeceu ao volante e a Tina - ao lado do padrinho-condutor- foi projectada, tendo vindo a falecer 2 ou 3 dias mais tarde. Fomos nós, colegas, que sempre estivemos junto a ela no hospital de Moçâmedes, tendo sido as freiras que por ainda lá permanecia a colocar no 'buraco' da janela uma rede mosquiteira para que não entrassem insectos, pois nas difíceis circunstâncias não havia vidros...
As nossas forças de 'enfermeiros impreparados' ainda pouco mais do que adolescentes, deveram-se ao facto de sempre termos acreditado que ela escaparia à situação... eu nunca tinha permanecido, até à data, junto a alguém em coma, o que lá me foi permitido fazer (bem como à minha amiga Dulce).
Ifelizmente, tal não sucedeu e o desfecho foi muito triste.
Penso que deverá ser a ela que o Fernando se refere e, atendendo a esta 'aldeia global' é compreensível que algumas situaçções (umas mais alegres, outras nem tanto)venham a ser relembradas.
É incrível! Reconheci logo a cidade, apesar de lá ter vivido apenas 1 ano entre os 6 e os 7, acho...
Teresa
Deslembro-me do nome dela, mas recordo a sua cara, e a alegria que estampava no rosto qd me disse isso, e lembro-me de ter sido no Grande Hotel da Huila no Lubango, numa altura em que eu já estava na Secretaria de Estado dos Desportos em Luanda.
Como tinha que dar muitas voltas a Angola por razões profissionais, encontrei gente que me reconhecia em todo o lado, e que nalguns casos me ajudaram a passar bons bocados, em locais onde nada era fácil nesses anos 80...No Huambo, Lubango, Kuito, Uije, Lobito, Benguela, Alto-Catumbela, Menongue, Luena, Cabinda e óbviamente Luanda onde frequentemente encontrava tanta gente...O que me fez lembrar, o bom e o mau pq acabei por ser o visado de muita coisa que não correu bem, mas o culpado não era só eu...Tanta vez tive de correr para a Cooperação por causa de processos!!!Enfim, foi um gosto enorme voltar a situações que já só ocasionalmente me lembrava. Como sou colaborador do Novo Jornal em Luanda vou escrever uma crónica sobre essa minha fugaz passagem pelo processo de contratação de professores, na altura por estar a trabalhar no sector de educação da embaixada em Lisboa.
Fernando Pereira
Fernando,
Gostaria de conhecer essa crónica, se possível, dado fazer também parte de um pedacinho da vida pessoal e profissional
E a minha amiga/colega chamava-se Celestina - Tina era como a tratávamos- era natural de Alcácer do Sal e aparentava não ter mais de uns 15 anos (se não estou em erro teria pouco mais de 20) franzina, muito extrovertida e com um enorme entusiasmo em tudo o que fazia. Foi a primeira colega que conheci quando cheguei a Moçâmedes, pois pertencia à primeira 'leva' de cooperantes, chegados logo no início do ano e a ela devo não ter ido parar a Porto Alexandre, pois alertou logo os recém-chegados que lhes iriam 'acenar' com uma casa óptima, junto à praia, mas no maior isolamento (e a correr ainda mais riscos)possível. A sua perda marcou-nos muito.
Quanto ao incumprimento de cláusulas contratuais, a nossa juventude (e vontade de contribuir para uma sociedade melhor) fez-nos ultrapassar muita coisa, no caso pessoal consegui ficar a viver no hotel Welwitschia, numa suite de três enormes divisões, em vez de aceitar o andar só pronto ao fim de quase um ano de leccionação.
Durante os primeiros seis meses, a residência foi num acanhado quarto das traseiras com vista para um pátio onde habitavam roedores maiores do que coelhos... todas as experiências dariam vários volumes (o dos 'ratinhos' é meramente anedótico) e, no caso da 'leva de Moçâmedes' ninguém rescindiu contrato que me lembre, apesar de alguns dissabores que o Fernando certamente conhecerá melhor do que eu.
Teresa
Desculpe-me mas estas más recordações deixaram-me indisposto, porque na realidade senti muito a morte da Tina (confesso que não me lembrava o nome)e quase 28 anos depois, ainda a vejo falar-me com todo o entusiasmo do mundo, e a alegria com que parece que me agradecia, por ter involuntáriamente ser importante para a felicidade dela.
Fiquei prostrado quando soube o que se passou, e sinceramente preferia não me ter lembrado dela...Hoje fiquei triste, como fiquei há vinte e muitos anos por uma pessoa que mal conhecia, mas em que a morte me marcou, num País onde morreu tanta gente que me era próximo...
Desculpe a pieguice, mas gostava de um dia falar consigo, sobre isto, e outras coisas. No blog http://recordacoescasamarela.blogspot.com/
encontra as minhas coordenadas.
Desculpe-me a "melice"...Já agora tanto sou karipande como Casa do Brigadeiro.
Fernando Pereira
Caro Fernando Pereira,
O reavivar de lembranças sobre a minha amiga também me afectou, embora o que lhe sucedeu não terá a ver com coordenadas geográficas, infelizmente vivi num passado recente uma situação idêntica com um amigo dos tempos de liceu e tudo se passou a poucos quilómetros de casa. Tendo falado posteriormente com médicoa em Luanda (fica sempre a terrível dúvida se foi feito o imprescindível e as instalações/equipamentos hospitalares deixavam muito a desejar) e após descrição do estado da Tina que presenciei durante um curto espaço de tempo, soube que, a sobreviver, as graves sequelas teriam sido permanentes e incapacitantes.
Seguramente que irei visitar o seu blogue (ontem já o espreitei) e com gosto, na expectativa de por lá ver - entre outras coisas- a tão prometida crónica que vai publicar no jornal.
Cumprimentos.
(a memória falha-me, mas penso que terá sido também de Menongue que o Manuel Paulo foi transferido para Luanda, onde o conheci por ter sido colega da mulher)
Chegados aqui gostaria de dizer qualquer coisa, mas não sabe bem o quê. Post e comentários fizeram-no chegar a este ponto. Comovido lembra uma série de idiotas que dizem mal da blogosfera.
Obrigado e um abraço
Caro Gin-Tonic,
Esta partilha de vivências foi a título pessoal marcante. Com um dia tão atarefado como o de hoje, algumas exigências de maior responsabilidade nem me conseguiram 'beliscar', pois as lembranças desta pequena mas significativa expedição africana têm-me preenchido uma boa parte dos pensamentos.
Falando nesta coincidência de conhecimentos e latitudes (trazidas pelos comentários do Fernando Pereira) com pessoas mais próximas de diversas gerações, verifiquei que nelas as memórias aqui trazidas à superfície tiveram igualmente impacto.
... e a blogosfera será o que cada um dela fizer, como qualquer outra coisa na vida (parece-me no meu limitado entender das coisas).
Abraço
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