13 de março de 2013

o espírito dos dias que correm

cada vez mais esta é a sensação:

muitos a espreitar o banquete de poucos


(quadro de guilherme filipe, no restaurante o pascoal, em fajão)

diálogo lisboeta

este sábado, num talho da morais soares, mãe e filha estão ao balcão a ser atendidas.
diz a filha ao olhar para o talhante a cortar uns bifes:
-ò mãe, não gostava nada de ser vaca..
responde a avisada e experiente mãe:
- eu não gostava era de ser boi.

eu trouxe hamburgers de cavalo, não fosse o diabo tecê-las...

dúvidas que me assaltam

neste momento em quais serão os parâmetros em que baseiam 115 gajos fechados numa sala a tentar saber qual é o mais papável de entre eles? ... sendo que papáveis são quase todos. há uns que, pela idade, o decoro manda que já não sejam papáveis mas apenas que se sirvam da sua experiência de papáveis para descobrir o mais papável dos papáveis. e será que, como diz a lenda urbana, também usam as calças no fundo das nádegas para indicar que são papáveis? ou será um qualquer outro sinal? tipo um saiote de rendas....

Vivo de boa sopa, não da linguagem *




… ou como tudo muda, de modo vertiginoso, até a língua (leia-se, idioma) fica entaramelada… Conclui-se que, das duas uma – de acordo com o lugar-comum, «a língua portuguesa é muito traiçoeira», ou o vinho caseiro produzido pelas redondezas, continua a exceder a graduação definida por lei (diz-se que ronda os 15 graus com consequências notórias).

* Frase de Molière

4 de março de 2013

Rainy day


fotografia: Jim Hubbard

Como uma segunda-feira de chuva se pode converter em algo de reconfortante, quando se decide madrugar, para mais cedo poder chegar a casa… porque se tem casa pois, no caminho para o trabalho, faz parte da paisagem uma multidão de imigrantes clandestinos, a viverem na mendicidade. Já foram alvo de diversas reportagens e “moram” sob um dos viadutos por onde se passa ao longo da semana… assume-se, em público, nem sempre se saber a resposta para situações específicas, como esta, a preencherem o quotidiano . Explicação para isso? Desconhecimento reconhecido com humildade no tocante a diversas formas de sobrevivência.

Rainy day, John Lee Hooker

28 de fevereiro de 2013

As florinhas


Estou na esplanada a bebericar uma meia de leite e  a atacar uma bonita e imensa tosta. Reparo nos passantes, ouço as conversas, algumas azedas, outras simpáticas e vou pensando no que tenho a pensar.
Vejo entrar um casal e uma (suponho eu) empregada, ajoujados de malas e com um vasto ramo de mimosas(?), para o prédio ao lado. No meio da confusão, solta-se um pequenino galho e fica ali abandonado na calçada.. Quando me levanto, pego nele com reverência, e arranjo-lhe lugar em casa junto à fotografia da  minha mãe. Nunca fui de homenagens fúnebres, ela sabia, mas sei  também que ela gostaria de estar acompanhada com flores. E é isto.

27 de fevereiro de 2013

Tudo pela língua materna




... e antes de regressar à vida real, um apontamento desta manhã. Num estabelecimento das imediações, discutia-se o nome deste «peixinho». Como sabem que aqui a vizinha dá aulas, consultaram-na para servir de desempate na divergência. Houve até alguém que, não duvidando do pessoal esclarecimento, a custo zero e sem número de contribuinte apenso, (tudo pela língua materna), referiu o facto de, nos mercados e peixarias circundantes, ser deturpado o nome desta iguaria dos mares. A questão prendia-se com a letra inicial. Acrescentei que estar escrito de determinada forma, não atestava sobre a idoneidade da ortografia, basta olhar-se para as ementas de restaurantes, para referir um exemplo (conheço quem, por deformação profissional, as corrija a tinta vermelha).

Imagem: soemilheus.blogspot

26 de fevereiro de 2013

Sol e Frio

Atravessa-se a ponte que cheira a madeira. Estamos no centro da cidade. Sol e frio.

24 de fevereiro de 2013

And the oscar goes to...


 

 Um investigador fez uma previsão surpreendente para as últimas presidenciais nos Estados Unidos. Para tal, recorreu a algoritmos. Desta feita, aplicou a técnica à atribuição dos Óscares. São as seguintes as previsões, de acordo com a técnica: «Argo», melhor filme, Spielberg, melhor realizador , Daniel Day-Lewis, premiado pelo desempenho no papel do presidente que pôs fim à escravatura, Jenifer Lawrence, galardoada pelo desempenho em «Hapiness Therapy». A previsão é assinada por três organismos especializados neste tipo de análise alicerçada numa pesquisa atenta em fóruns e redes sociais. Recorrendo a um considerável número  de artigos, críticas e prognósticos e utilizando um potente algoritmo, os três analistas mediram, ao longo das últimas semanas, a expressividade de cada nomeado. Os resultados apurados revelaram ligeiras diferenças, mas os favoritos destacaram-se em todos os estudos: Daniel Day-Lewis, Cristoph Waltz ou Tommy Lee Jones deveriam receber o prémio pelo melhor desempenho secundário. Anne Hattaway, a distinção para o melhor papel secundário feminino e «Amor», de Michael Haneke, deveria receber Óscar para o melhor filme estrangeiro. Fica a referência, a fim de se poder aferir o rigor do método utilizado.

(fonte: L’internaute magazine)

23 de fevereiro de 2013

«Se por acaso me olhas, tenho vergonha da vida»*

Não muito dada a doces (nem aos que atraem a maioria), existe um, irresistível, as orangettes, cascas de laranja cristalizada, envoltas em chocolate amargo. Trabalho deste sábado terminado descobre-se, por acaso, um local onde as vendem, de fabrico artesanal. Pequeno capricho de fim de semana : trazer, para casa, um pacotinho, com o confessado «péché mignon»... Tendo acabado de espreitar o The Guardian, ressalta a imagem captada num país africano no qual, através de um programa internacional de combate à fome, se procede, com regularidade, à distribuição de porquinhos da índia para sobrevivência das populações. Preenchem, de modo súbito, o pensamento,  os versos finais de um despretensioso poema de Matilde Rosa Araújo por aqui deixado, em tempos: «diz que perdoas meu fato/junto de teu abandono/moço de fato macaco/que varres folhas de Outono». Nenhuma imagem para o apontamento presente (a das orangettes, por surgir como ostensivo despropósito, a do jornal britânico, por motivos pessoais que não vêm ao caso).

*versos do poema de Matilde Rosa Araújo citado no texto

22 de fevereiro de 2013

A gordita


Vai vigiando a cidade, a gordita diligente do Botero. Terá muito que fazer...

A modernidade

Estou a levantar dinheiro, entre chuva, e pressinto um táxi.Agito-me e o senhor pára.
Diz-me ele, ar afável e simpático: Não sei se esta modernidade dos computadores e essas tretas tais não nos estragam o carácter de vida. Tal e qual. E prolongou o raciocínio: Esta pressa faz-nos mal, não saboreamos devagar as coisas boas. Não vivemos em tempos fáceis, digo eu. Nunca ninguém viveu, diz ele. E tem razão. Hoje é sexta-feira. Dia de ir ter com o Miguel e sentir-me de novo completa. Sem pressas, prometo.

20 de fevereiro de 2013

a parede ao fundo do túnel

é sabido que estamos governados por um bando de ineptos e incompetentes.
mas o mais grave é que a sua ignorância não os deixa perceber quão estúpidos são.
a constante inépcia para compreender a crise e a forma de a ultrapassar bem como a incapacidade de reconhecimento dos erros cometidos é alarmante.
são ignorantes e fanaticamente convictos como todos os ignorantes.
cada medida que tomam torna a economia pior a a vida dos portugueses mais miserável.
é como se andassem na demanda do graal da incompetência.
e, ao sinal de falharem todas as previsões sobre o crescimento económico ou o desemprego, não dizem que vão corrigir as políticas: 
aquela besta ignorante que teoricamente comenda as outras bestas, diz que vai corrigir... as previsões.

alguém escrevia a semana passada no 'publico', ´não há luz, só túnel'
os portugueses cada dia têm mais a certeza que ao fim do túnel está uma grossa parede que, ou a derrubamos juntamente com o governo, ou morremos esmagados nela.
depende de nos não lhes dar descanso.

Adivinha

Onde estava eu?

13 de fevereiro de 2013

«Radio days»


Imagem: ricksantiqueradios

Na data de hoje viaja-se no tempo , reavivando memórias trazidas por um amigo dos meus avós. Contou-nos, na infância, sobre a festa em Lisboa, na data em que foi transmitida, em público, a primeira emissão no Rossio, a praça enfeitada de inúmeras bandeiras, povoada por uma multidão entusiasmada. Os transportes despejavam centenas de ouvintes incrédulos, que se acumulavam aos milhares. Narrou a efeméride com o tal «brilhozinho nos olhos», o Victor Hugo, que nos cantava árias de ópera, quando aparecia lá por casa, a dedicar boa parte do seu tempo de homem idoso, com uma cultura invejável, a atrair a nossa atenção - a minha e a dos meus irmãos -  na entrega dedicada às coisas que o apaixonavam. Considerávamo-lo algo excêntrico e detentor de uma personalidade cativante.
Não sei há quanto tempo se deu a efeméride, mas relembrei-a quando, há alguns anos, vi «Radio Days», de Woody Allen. É nestas lembranças que se vê utilidade na existência de datas rotuladas, por nos trazerem memórias de pessoas e de acontecimentos.

Um trecho da banda sonora do filme de Woody Allen aqui.

12 de fevereiro de 2013

Preceito




Foi a vontade de cheirar as lojas de comércio tradicional que nos levou na segunda-feira à baixa. E logo nos deu a inspiração de ir à Pollux, onde há anos não íamos. Corremos andar a andar, num armazém muito vazio, excepto na zona de plásticos, sacos e revestimentos. Quase que uma sensação estranha  de ver os tão poucos empregados, com tanta vontade de vender, numa imensa maioria de artigos pouco adequados ou caros. Um último andar com um café situado num local fabuloso de vista larga e soalheira, mas quase estragado pelos artefactos de flores artificiais em abundância. De novo a simpatia da empregada, sem subserviência mas eficiente. E à saída, não resisti a comprar chávenas de café e frascos de vidro para especiarias. Deslumbrei-me a olhar para o preceito com que foram embrulhadas e conferidas. Pena terem substítuido o cordel por fita-cola. Quase que apetece desejar uma melhor gestão para a Pollux, adequada ao tão bonito edifício, completamente descaracterizado e aos funcionários empenhados e profissionais. Enquanto não se investir seriamente na qualidade e oferta, não teremos muita hipótese de ver o comércio florescer.
Mas, tendo em conta tudo isto, vão à Pollux e experimentem esta viagem ao como era. Porque quisemos ir ao Brás e Brás e estava encerrado. Funciona agora no Poço de Borratém dizia um cartaz. É a vida. Por isso mesmo, vão à Pollux. E comprem qualquer coisinha.

Parabéns!

Os aniversários dos amigos servem de pretexto para lhes darmos mimos. Parabéns querido Azinho, ABS, Armando. Que tenhas um dia muito feliz. Beijinhos aqui da Alameda:)

7 de fevereiro de 2013

A Singer




Adília de seu nome escolhido por ser o da madrinha lá na aldeia do sul de onde veio casada e com um rancho de filhos, para os subúrbios da capital, à procura de sustento.
A casa escura, o pingo na torneira , alumínios a arear enquanto os miúdos comem o caldo de hortaliças, ainda o sol não desapareceu, a escola fica longe e o dia começa ainda escuro.
Roupa esfregada, cada sábado de manhã, no tanque do pátio , batas brancas obrigatórias na escola de finais de quarenta, cada filho só com um destes tapa- misérias de cor branca – faz-se questão no asseio – a ter de estar seco e engomado , cada segunda-feira.
Dia de aniversário (tinha-o esquecido),  chega a inesperada oferta do seu homem, uma Singer, nunca havia recebido, nem nos natais da infância, um embrulho que fosse, nem de papel pardo e cordel. Na vizinhança desses tempos outras chaminés havia, com  bonecos de pasta de cartão, soldadinhos de chumbo, dentro de cada sapato . O filho do presidente da junta chegou a receber um boneco de corda que tocava tambor e acabou por paralisar no dia seguinte, à custa de tanta azáfama de percussionista, com toda a criançada a rodar o mecanismo.
A Singer ocupou lugares de honra a um canto da entrada estreita, com direito a cobertura chita colorida, para não entrar o pó,  almotolia ao lado, utilizada para contrariar os danos de uma casa fria e húmida. Iria dedicar-se a fazer o vestuário das vizinhas e contribuir com uma pequena abastança, a família passaria a vestir-se melhor, com as artes de costura e os retalhos da retrosaria do bairro.

Praticar solidariedade


Agradecendo a todos os que já contribuiram para a inciativa de que vos falei há dias. No entanto e infelizmente  o afluxo das famílias que procuram ajuda é grande e cada vez é mais necessária a nossa solidariedade.  Para crianças, adultos e idosos. E relembro mais uma vez:
" A Isabel trabalha a dar apoio a famílias em risco na zona de Lisboa. Um destes projectos é uma "lojinha" que oferece roupa, brinquedos e outros bens às famílias que deles necessitem.
O espaço é simpático e pretende desdramatizar e dar dignidade a um momento difícil pelos que está a passar muita gente. Contou-me ela que se esvazia continuamente, tal o afluxo de pessoas.
Portanto, se tiverem roupa de qualquer tipo. brinquedos, coisas de casa, que já não vos são úteis mas que podem ajudar alguém, contactem-me pelo canjinha@gmail.com ou o telefone 213240520
Caso necessário eles vão buscar"

Foto de Ferdinando Scianna, Magnum

6 de fevereiro de 2013

afinal o tgv agora é bom

a maior bandeira dos actuais governantes para identificar os maus investimentos, desperdícios, loucuras, megalomanias e desfazamento da realidade do anterior governo, foi o tgv.

mesmo tendo sido uma obra que começou com um governo do seu partido, trataram de camuflar essa facto ao estilo da foto do funeral de mao tsé tung com o desaparecimento do 'bando dos 4'.
aquilo nunca existiu e eles não estiveram lá (lá, entenda-se no lançamento do tgv)
hoje apareceu a notícia que o governo, de um modo aparentemente secreto assinou, através da parpública, um contrato de financiamento com um consórcio de bancos composto pelo santander, bcp, bes e caixa, no valor de 600 milhões de euros (exactamente o mesmo valor que estava no concurso ganho pelo consórcio que ganhou o concurso para o troço poceirão caia feito no anterior governo).
não foi preciso muito tempo para que aquilo que era uma loucura, agora seja um projecto louvável; aquilo que era um investimento louco em época de crise, agora seja o investimento certo em época de crise.
não foi preciso muito tempo para este governo entender que o projecto é estruturante e precisava mesmo de ser realizado.
pelo meio já se perdeu tempo e dinheiro e os outros países mesmo em crise avançaram com aquilo que era realmente importante e não megalómano.
mas nós gostamos mesmo é de discutir o acessório.
nisso somos espectaculares.

p.s. se o contrato foi assinado a 22 de janeiro, porquê o segredo?




5 de fevereiro de 2013

a importância dos curricula

de acordo com o nosso primeiro ministro, os curricula servem para descrevermos aquela parte do nosso passado e experiência profissional que é desconhecido da generalidade das pessoas, e daquelas para quem pretendemos trabalhar.
para explicar o inexplicável, passos coelho justifica a omissão no curriculum de franquelim alves a sua passagem pela sociedade lusa de negócios, apenas porque já toda a gente sabia e não valia a pena falar disso.
imagina-se que toda a restante carreira de franquelim alves foi inútil (incluindo a sua passagem pelo mrpp, sim foi meu camarada um curto período de tempo, pela editora vento leste, pela revista o tempo e o modo e pela chefia da redação do luta popular, já no começo dos anos 80, igualmente omissas porque são obviamente do conhecimento geral da população portuguesa), já que  ninguém delas soube, pelo que precisam se ser incluídas nesta nova versão dos curricula para as actividades desconhecidas e outras actividades menos notórias
o primeiro ministro entrou naquilo a que podemos chamar uma espiral recessiva de vergonha e respeito pela verdade.
não será mentira compulsiva.
mesmo sendo as pulsões são a única coisa que o parecem guiar, a mentira parece ser mais uma obra do acaso de uma mente erraticamente perdida.
é mais um padrão.
nem uma única decisão tomada com o discernimento que uma atitude séria e ponderada deve ter.
e porque o passado profissional do franquelim alves merecia melhor tratamento, ele devia ter sido poupado a este vexame público.
mas o próprio parece querer também colocar-se a jeito.

3 de fevereiro de 2013

Django Unchained





Gostar de Tarantino sem acanhamento ou preconceito, encontra explicação na impressão digital deixada pelo realizador, na aparente simplicidade da dicotomia bons/maus; preconceituosos/mentes livres, requintados/boçais…Perpassa uma violência não gratuita, a conduzir os destinatários das imagens (dois momentos do filme levam a desviar o olhar, mas só esses). Sente-se ainda o gozo – para o realizador e alguns destinatários cúmplices – da escolha da banda sonora que, em alguns pontos, quase nos transporta a momentos altos da nossa  autónoma (a outra pertence a um departamento bem menos empolgante) educação musical, apetecendo pedir: «interrompa-se o filme, vamos passar, por momentos,  a ver e ouvir Richie Havens em “Freedom”... para não mencionar Johnny Cash... "there ain't no grave..."». Um filme extenso? Não se dá pelo correr do tempo…
Fica-se a rir por dentro, sabendo que – vide a última grande digressão americana dos clássicos Crosby, Stills, Nash & Young e o modo como foram recebidos em Atlanta  - a película será mais uma pedra bem colocada em alguns sapatos.

(opção para não traduzir o título do filme: «unchained» não equivale, na totalidade, a «libertado»)

Django Unchained

Foto: blog soinlovewiththemovies

2 de fevereiro de 2013

Em busca da "leveza" de Italo Calvino



Um instantâneo do primata em cativeiro e disparam pensamentos desordenados:  a associação a um filme baseado numa estudiosa da espécie; o facto de estes animais terem um regime alimentar na quase totalidade vegetariano; discussões e teorias de ciência vs religião… a lista começa a levar ao bocejo, servindo de pretexto para fugir a uma escrita com data marcada, que se pretende rigorosa e parte da articulação de características defendidas por Italo Calvino em Seis propostas para o próximo milénio, conferência pouco anterior à sua morte. Desafia-nos o escritor com as seguintes características: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.
O dia afigura-se pouco convidativo a sair de casa, mas é grande a tentação da leveza, destacada por Calvino enquanto olhar atento, a abarcar ângulos diversos, em  recusa à visão óbvia (o peso) das coisas, vulgarmente designada por ideias feitas. Torna-se aliciante a proposta de se resistir ao peso, contrapondo-lhe subtilezas. O que terá isto a ver com gorilas? – pensa-se …  é que estes animais são livres (não o da foto, que o será de modo relativo...) e – por contraditório que se possa afigurar – movem-se com a agilidade (no caso próprio desejar-se-ia a mental) que, quanto mais premente se torna, mais esquiva se revela…




1 de fevereiro de 2013

Bilhetinhos deixados em casa

Confesso que fico de lagrimita ao canto do olho, quando encontro estes bilhetinhos que me deixa a minha sobrinha-neta Maria:)

de quem são as pernas?




da linda gray, por claro!!

e está bem mais bonita agora...


paco ibanez e sasha waltz na gulbenkian

não juntos!!
mas ainda assim, os dois.



este domingo, paco ibanez vai à gulbenkian cantar os poetas da américa latina.
de nicolás guillen, césar vallejo, pablo neruda.
a lotação está esgotada e não me vai ser possível rever um dos maiores cantores da lingua castelhana.
relembro uma noite mágica no largo central do seixal em que paco ibanez mostrou como continua a ser uma voz cada vez mais necessária.
no domingo seguinte, dia 10, é a vez da companhia de sasha waltz regressar a portugal.
já aqui falei dela a propósito do deslumbrante 'dido and aeneas'.
desta dez, a sua proposta é, com mark andre, realizarem um concerto coreográfico (gefaltet) onde exploram os sons e os silêncios na música de mozart e do próprio mark andre.
o resultado só pode ser algo a absolutamente não perder!!!


paco ibanez, andaluces de jaen


sasha waltz, mark andre, gefaltet





31 de janeiro de 2013

a culpa é do vinho

os governantes portugueses são uma espécie única com um complexo e absolutamente singular modo de processamento cognitivo: perante um problema (seja de que natureza for), arranjam a pior e mais abstrusa solução possível.
e cada dia conseguem uma pior que a anterior.
por exemplo, quando faltou a chuva, a ministra cristas resolveu o assunto... rezando.
agora vem uma proposta absolutamente delirante para resolver o problema dos suicídios em portugal:
aumentar o preço das bebidas alcoólicas !!!!
não passa pela cabeça destas mentes peregrinas que nem todos os deprimidos são dados a beber álcool nem que a solução para um problema é atacar uma das suas possíveis consequências, em vez da questão de fundo.
se uma pessoas está desempregada, a solução claro que não é criar condições para aumentar os postos de trabalho disponíveis.
a solução destas aves raras é aumentar o preço do álcool, ou mais radical ainda, fechar coercivamente todas as tascas, bares ou outros locais fomentadores do suicídios (cortar as árvores e proibir barrotes de sustentação de tectos também me parece uma boa ideia...).
tirando aquela parte escondida que é, se aumentar o preço do álcool é porque cobramos mais impostos mas ninguém nos pode acusar porque não é por causa do dinheiro, mas sim pelos suicídios.
todos sabemos (o governo devia saber mais que ninguém) que não é o álcool que leva ao suicídio.
o álcool é aquilo que vai mantendo as pessoas vivas antes de já nem isso lhe valer a pena para acharem que vale a pena.
claro que o aumento do preço do álcool leva ao fecho de muitas empresas e a mais despedimentos e a mais depressões e a mais suicídios, mas isso passa a resolver-se com o aumento dos impostos para as cordas; portagens em pequenas pontes, ou acesso pago a encostas escarpadas.
este é um governo de ineptos.
este é um governo de sanguessugas acéfalas.
este governo leva ao suicídio.
está na hora de o proibir !!!


30 de janeiro de 2013

em que ficamos?

um estudo publicado pela american sociologial review sobre a igualdade, trabalho doméstico e frequência sexual no casamento (egalitarianism, housework, and sexual frequency in marriage), conclui que os homens que se dedicam às tarefas tradicionalmente realizadas pelas mulheres em casa, têm menos relações sexuais do que aqueles que se comportam como machos.
a explicação para o facto tem a ver com os padrões associados ao macho e ao que a fêmea espera do macho.
assim, seriamos levados a achar que as mulheres desses homens perdem o desejo sexual pelo macho efeminado e os machos efeminados perdem o apetite pela fêmea.
a simples ideia de estar um pouco mais cansado que o habitual porque tem que dar mais ao cabedal a aspirar a casa, estender a roupa ou a fazer o comer, não entra nos considerandos.
estamos perante apenas a atitude de galo que enche o peito para a galinha se pôr por baixo.
ficamos a saber nós, homens, que o melhor (se queremos continuar a ter sexo regular) é  abandonar essas mariquices de tratar dos trabalhos domésticos.
nada como futebol, carros e coçar os ditos para estarem preparados para a função.

o problema deste estudo é que conclui uma outra coisa diametralmente oposta daquele que também conclui:
é que o deixar de realizar os trabalhos domésticos pode levar as fêmeas aq recusarem o sexo como represália.
então como ficamos?
lavo ou não a loiça hoje à noite?
resigno-me à minha falta de apetite sexual ou à represália alheia?
a bem ver, uma e outra levam à mesma coisa..


i won't



o governo britânico iniciou uma campanha étnica contra os búlgaros e os romenos.
mais civilizada que outras limpezas étnicas feitas em anos passados em latitudes não muito distantes.
a ideia, igualmente existente entre nós, de os imigrantes virem tirar trabalho aos desempregados dos países de acolhimento é tão racista como estulta.
não só os imigrantes apenas ficam com os trabalhos que os nacionais não querem, como os aceitam em condições que os nacionais achariam humilhantes.
mas fica sempre bem aos governos e seus apoiantes para tirar a água do capote das culpas do desemprego e da falta de políticas de emprego.
a campanha britânica é execrável, como muitas vezes sabem ser por aquelas paragens.
nada de novo.
principalmente vinda de uma nação que cresceu a mandar os seus nacionais para todo o mundo e onde conquistou o poder produtivo à força de balas e outros objectos mais cortantes.
a boa nova é o grande movimento, algumas vezes cheio de humor, com que muitos britânicos respondem ao seu desmiolado e racista governo.
a grâ-bretanha está cheia?
pela minha parte estou cheio 'desta' grã-bretanha!!


aqui podem ver algumas das 'respostas' enviadas ao guardian

27 de janeiro de 2013

Memórias de Mafra ou porque fomos felizes num local


Há terras onde fomos felizes. Um dos motivos, terá sido a descoberta de um jovem poeta. Capaz de criar imagens fortes com as palavras, este rapazinho começou, em gesto de provocação, a trazer para as aulas as folhas arrancadas à antologia, fingia-se não entender. O que interessava eram os textos literários em estudo, desde que as páginas coincidissem… Com o avançar do ano, o Horácio veio e revelar-se, tendo conquistado o prémio literário (modalidade poesia) que, então, foi criado na secundária. Com um nome assim, as expectativas quanto à sua escrita  eram de responsabilidade. Chegou, por essa altura, a decisão pessoal de entrar em período de tréguas com os livros daquele que viria a ser o nosso Nobel… É que, até à data, nada parecia conseguir ficar à altura de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Constituiu experiência única a leitura do romance então recente – Baltasar e Blimunda ganhavam vida sempre que, num horário com inúmeros buracos entre tarefas e a incluir o sábado, se encontrava, sob as árvores, um banco convidativo, a escapar ao bulício da escola. Corriam pela vila  histórias exageradas pela imaginação popular: os ratos tomavam conta do espaço deslocando-se, em profusão, por caminhos subterrâneos que atravessavam o local… Na secretaria da secundária, os roedores apareciam, quase fossilizados, dentro de pastas de arquivo. O convento, na sua ostentação de oiro dos brasis, assenhoreava-se do espaço, excessivo no estilo arquitetónico. Chegou o dia ansiado – uma autorização especial para visitar a biblioteca do palácio, até então vedada ao público. Mesmo tratando-se de tempos diversos, a sensação de entrar num espaço proibido do saber conduziu à associação a outro grande título : O Nome da Rosa. Na imagem, um detalhe de outro compartimento do palácio, utensílio cuja finalidade conseguirão indicar.

25 de janeiro de 2013

Ajudar a quem precisa



Tenho o imenso privilégio de ter amigos excepcionais. Um deles é  a Isabel . Pedia-me ela ontem ao jantar, Teresa desencadeia lá através do Facebook e pelo blogue  uma rede de solidariedade para ajudar os que estão a passar dificuldades. Eu passo a explicar. A Isabel trabalha a dar apoio a famílias em risco. Um destes projectos é uma "lojinha" que oferece roupa, brinquedos e outros bens às famílias que deles necessitem. 
O espaço é simpático e pretende desdramatizar e dar dignidade a um momento difícil pelo que está a passar muita gente. Contou-me ela que se esvazia continuamente, tal o afluxo de pessoas.
 Portanto, se tiverem roupa de qualquer tipo. brinquedos, coisas de casa, que já não vos são úteis mas que podem ajudar alguém, contactem-me pelo canjinha@gmail.com ou o  telefone 213240520
 Caso necessário eles vão buscar. Ou digam-me e eu encaminho-vos. Porque ainda há profissionais de excepção e solidários e em quem eu acredito plenamente. Obrigada a todos que quiserem colaborar.
Foto de Peter Marlow, Agênciaa Magnum.

24 de janeiro de 2013

O mais importante



















"O mais importante na vida não é a situação em que nos encontramos, mas a direcção para a qual nos movemos" Oliver Wendell Homes (1809 - 1894), escritor norte-americano. Esta frase encima a contracapa do Público de 23 Jan. 2013.
Ligeiramente abaixo, no lugar e em vez da crónica do Rui Tavares, aparece uma notícia com o titulo "Ministro diz que idosos doentes devem "morrer rapidamente para bem da economia".
Apesar de não se tratar de um ministro de Portugal, mas sim do Japão, fico estupefacto a pensar em que direcção nos movemos. Não pode ser verdade.

Foto retirada em aqui

Lavar a alma

Por vezes há que escrever e descrever. No caso, relacionado com os dias conturbados que se passaram aqui no blogue. Embora tudo esteja normalizado agora, espero eu, não posso deixar de sentir um certo amargo de boca e um certo desconforto. Se o apoio dos nos amigos e leitores se fez sentir, nomeadamente através do correio electrónico e das redes sociais, fica porém um travozinho a azedo de termos sidos denunciados por spam ou quejandos. Ainda não consegui ultrapassar lá muito bem o odioso de ter um espaço colectivo ,que acarinhamos há quase dez anos, nomeado como bloqueado e com conteúdos impróprios. Lá passará, devagarinho.  Sei que o apogeu dos blogues passou. No entanto desejaria que este continuasse a escorrer com naturalidade, carinho e afabilidade. Uma boa companhia para as tardes chuvosas de domingo e as madrugadas sem sono. E era isto.

23 de janeiro de 2013

A cada um, a sua neve


Há quatro dias, após o vendaval que se fez sentir horas a fio, a praia mostrava-se assim: a areia cobria-se de espuma trazida pela tempestade marítima (os naturais da terra dizem que é muito benéfica para a saúde, contendo partículas de algas, o que contraria a ideia de poluição, a que muitos a associam). Na segunda feira, ao passar os olhos pela crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público, o autor referia-se-lhe como sendo uma substância «pestilenta e gordurosa»… Penso que terá sido – com todo o respeito pela opinião alheia – uma despromoção , isto de acordo com os nativos do litoral sintrense, que frequentam os estabelecimentos de venda de material de pesca e cumprem o ritual de ,na sexta feira anterior ao domingo de Páscoa, apanharem e venderem mexilhão para o repasto desse dia (cá por casa é cozinhado com os coentros da horta, fugindo-se às receitas mais comuns). No caso pessoal, ao olhar a areia (e ainda sem ter lido a crónica que sairia três dias depois), dei comigo a pensar «a cada um, a sua neve».
(sim, é bom estar de volta, mesmo com o recurso a balões de ensaio, observação de índole mais particular)

Regresso

Voltámos, esperamos de vez.
Obrigada a todos que se interessaram e se entristeceram connosco:)

20 de janeiro de 2013

Sul

As belas hortaliças do Sul e a maravilhosa laranja algarvia. Sabores que encantam. Silves.


O senhor Vasco

Os maravilhosos tomates rosa do senhor Vasco no Mercado de Silves.

A Casa Verde em Silves


A Casa Verde é a retrosaria que todos gostaríamos ter ao pé de casa. Fundada há 90 anos, resiste valentemente em Silves. O tornado levou-lhe o painel publicitário da Âncora. A dona ainda está inconsolável. É uma loja a visitar, sem dúvida. E a comprar alguns destes tesouros.








17 de janeiro de 2013

Como se contraria uma frase feita sobre árvores




Aprende-se a fugir ao trânsito por caminhos que, com o tempo, se vão desvendando. Desde a passada semana que o olhar se prende à imagem da árvore tombada no campo, a lembrar um  ser humano derrubado. Um pensamento... «ora aí está algo a contrariar a ideia tão ouvida na infância e juventude “as árvores morrem de pé”». Em poucos segundos – não passe algum acelera neste estreito caminho – tira-se a fotografia.

Voltou:)

Viva!

16 de janeiro de 2013

Chá e palavras

Enquanto bebo o meu chá de rooibos, assim como assim não faz mal a nada, penso na velocidade destes últimos meses. Numa sociedade em que nada é dado por adquirido porque em convulsão profunda, em que se deseja estabilidade, segurança e saúde. Existe uma calma aparente, todos tentamos uma contenção de emoções que permita a gestão deste dia a dia tormentoso.
Logo de manhã um autocarro cheio de pessoas que não costumavam usar autocarro, de lancheiras e pesados agasalhos. Alguns lêem, outros de olhar perdido deixam escorrer a paisagem. Eu aproveito e enumero as tarefas do dia. Mas há algo diferente e eu não sei definir. Um pesado silêncio por vezes. Para se conseguir suportar a crise sem a nomear. Porque só o nome incomoda.
Não sei. Entretanto bebo o chá e espero que a noite na cidade adormeça tranquila.

queluz no novo mapa autárquico pensado com os pés

o senhor silva acabou de promulgar a nova lei autárquica que redistribui a organização das freguesias em portugal.
independentemente dos recursos que muitas freguesias vão colocar nos tribunais, o agrupamento das freguesias de queluz no no mapa é uma coisa que não lembra ao diabo, mas lembrou à unidade técnica para a reorganização do território.
segundo estes senhores, que propõem dois desenhos para a divisão do concelho de sintra, a reorganização das freguesias da cidade de queluz deve ser feita do seguinte modo:
1. união das freguesias de queluz e belas
2. união das freguesias de massamá e monte abraão.

para tal considera o facto de queluz e belas terem 'constituído uma unidade administrativa no passado' (também podiam ter considerado o facto de belas ter sido concelho...) 'possuindo relações históricas e territoriais assinaláveis' (as mesmas que tem com a amadora e menos do que tem com queluz de baixo...)
e partindo vagamente dos mesmos pressupostos relativamente a massamá e monte abraão (ambas antigas localidades da freguesia de queluz e desanexada aquando da passagem de queluz a cidade e a sua divisão em 3 freguesias.

as minhas dúvidas (que seguramente não assaltaram a unidade técnica) são:
1. a cidade de queluz vai ficar com duas freguesias em união de facto e uma terceira em união com uma outra localidade externa à cidade.
ou seja, metade da futura união das freguesias de queluz e belas vai pertencer à cidade de queluz e a outra metade não.
não existindo, imagino eu, a actual divisão territorial, até onde passaremos a considerar o território da cidade  de queluz se a antiga linha de divisão da freguesia deixa de existir?
2. aquela unidade territorial conhecida como massamá norte tem cerca de 90% do seu território na freguesia de belas.
de acordo com o novo mapa, massamá vai continuar a estar dividida em duas freguesias: a de massamá com a sua parte sul e uma pequena parte do norte, e a imensa maioria da parte norte na outra ponta, em queluz ou belas.
3. reorganizar o território devia significar: reorganizar.
afinal apenas significa juntar coisas, mesmo que as antigas coisas não fizessem sentido, como no caso de massamá norte.

a minha conclusão só pode ser que esta gente pensa com os pés...

a reunião do governo na clandestinidade

os governantes portugueses perderam as estribeiras.
diria mesmo que estão loucos varridos.
não porque o relvas tenha ido passar o fim de ano ao copacabana palace com o dias loureiro e se encontrou com paulo maluf (que em tempos esteve preso por corrupção e está na lista the grand corruption cases database project, organizada pelo banco mundial e a onu). 
afinal, e como diz o relvas, a vida privada dele é com ele (a ideia de sentido de estado que esta gente tem está próxima daquela que teria uma criança de 5 anos).
isso são amendoins, como diriam os americanos.
aquilo só custa numa noite o que a maioria dos portugueses com trabalho não ganha num mês, e a crise não tem que ser para todos, que isto não é uma democracia.
aquilo que me espanta hoje (sim, este governo ainda me consegue espantar!!) é terem organizado uma conferência que parece a cópia de uma reunião da comissão política do comité central  dum partido na clandestinidade.
um partido clandestino tem medo que a polícia lhe entre pela porta dentro e levem todos presos.
este governo parece ter medo que o povo lhe entre pela porta dentro e lhes faça ver que o mundo real é mundo diferente do que aquelas mentes acham no seu cérebro de power point.
fazer uma conferência com o suposto propósito de 'refundar' o estado, mas esconder a discussão dos portugueses é o mesmo que dizer que não querem que saibamos como nos querem tramar.
mas que podemos ter a certeza que nos vão tramar, e muito.
fazer secreta uma reunião que devia ser o tema central de discussão de TODOS (sim existem maiúsculas no meu teclado) não é apenas um absurdo, é UM CRIME !!!
eu até imagino que o que ali se vai dizer valha o mesmo que aquilo que eu aqui estou a escrever.
aquelas cabecinhas já sabem o que querem e estão apenas à espera de um relatório qualquer encomendado a uns consultores para eles não terem que dar a cara (ou aquilo que tecnicamente se chama cara).
mas não precisam de ser tão descarados quanto ao desprezo a que votam os portugueses.


(o ministério do vitor gaspar ter a suprema lata de vir dizer hoje que afinal até recebemos mais todos os meses não chega a espantar-me: a lata dele é tanta como a sua incompetência e são ambas incomensuráveis.)


15 de janeiro de 2013

A República das Piiiiiiiiiiiiiii


























Sexta-feira li no Público um artigo de que gostei bastante, intitulado ‘A República das Piiiiiis’ de João Magueijo , o 12º da série ‘Que Valores para 2013?’.
O artigo fez-me pensar.
É uma visão da situação portuguesa/europeia quase coincidente com a minha. Vejamos:
“Como Skvorecky notava, as "piiiiiis" que tinham antes vendido o seu país aos nazis eram as mesmas que agora acolhiam os soviéticos (e mais tarde, muito depois de o livro [A República das Piiiiiis] ser publicado, acolheriam o capitalismo selvagem, sem que ele o soubesse). O mesmo se passa no nosso caso: não tenham dúvidas de que em tempos de fascismo os nossos primeiros-ministros teriam sido rapazes de sucesso. Mas de certa forma estamos a bater no ceguinho. Se eles (e nós, por extensão) fizeram figuras tristes e agora estamos a pagar por isso, houve quem fez pior e se está agora a rir. Os usurários mundiais nem sequer construíram túneis inúteis: construíram castelos de valores inexistentes, que continuam a crescer e a alimentar a sua ganância. Até isto se resolver falemos de tourada, porque não faz muito sentido discutir o estado da nossa sociedade, e o demais, em 2013.”
E continua:
“Sim, éramos um país de pobres que passou temporariamente a um país de novos-ricos. Mas agora somos um país de novos-pobres: miúdos cheios de talento desempregados há dois anos, pessoal de ponta a emigrar para o estrangeiro, médicos educados cá a colmatarem as faltas de sistema de saúde inglês... um desperdício óbvio de uma geração. Em vez de usarmos estas fontes de rendimento, deixámos os tanques financeiros entrar pelo país, para aumentar os impostos e baixar os salários, já de si entre os mais baixos da Europa.”
E conclui:
“Muita da nossa dívida, e consequente austeridade, não é legítima, em perfeita analogia com as dívidas contraídas pelas prostitutas, e que as mantêm nas malhas dos seus donos. Se a nível mundial algo tem de ser feito para refrear os chulos financeiros, a nível nacional um corte com o passado seria um primeiro passo. Ou então que se dê o Prémio Nobel da Economia à Dona Branca. E viva a República das Piiiis.”
Infelizmente a versão online do artigo está reservada a assinante.

12 de janeiro de 2013

Bowie, «The next day»: uma história de bastidores



                 Foto: Bowie com a mulher, Iman /Andrew H. Walker/Getty Images para a DKMS

Uma das maiores surpresas musicais dos últimos tempos é, sem dúvida, a gravação do tema «Where are we now?», faixa do álbum «The Next Day», tudo em completo sigilo. Tony Visconti, o produtor, conta o que sucedeu, revelando alguns dos planos de David Bowie. Nos anos 70, o cantor trabalhava com uma equipa de cerca de 45 elementos, hoje só conta com um colaborador, no seu escritório de Nova Iorque. Não tem um «manager» pessoal. Afirma uma fonte próxima do cantor «ele sabe ser discreto e ficar nos bastidores, quantas vezes, nos últimos 10 anos, viram fotografias de David? Talvez as de dois ou três paparazzi... Bowie não é um recluso, mas só aparece em público quando bem entende». Rob Stringer, presidente do grupo Sony Music Label, teve conhecimento do trabalho deste músico de 66 anos há apenas um mês, quando foi convidado a ir ao estúdio para a audição algumas faixas. Afirma Tony Visconti «Bowie é um apaixonado pela História da Inglaterra Medieval e pela História Russa Contemporânea o que fornece excelente material para uma disco de rock». Sigilo absoluto foi a exigência desde o primeiro momento, a par de diversas mudanças de estúdio, sempre que os proprietários deixavam escapar informação sobre quem lá se encontrava a gravar. Terá o secretismo influenciado o trabalho? «Sem dúvida, falávamos enquanto grupo, partilhando a nossa experiência de insanidade e frustração, enquanto David se limitava a sorrir, impávido e sereno, o que conduziu os restantes a um completo estado de neurose». De momento, encontram-se 29 temas gravados, embora a edição de luxo possua 17 faixas. A surpresa, quando se pensava que Bowie se havia retirado da cena musical, foi  a revelação sobre o seu próximo álbum, a sair dentro de dois meses. Fonte: The Guardian (adaptação livre)


10 de janeiro de 2013

A criançada não engana...




Ontem, 9 de janeiro: Merkel  na Chancelaria em Berlim, a ouvir cânticos do Dia de Reis/fotógrafo: John MacDougall/AFP (com legenda da escriba)

5 de janeiro de 2013

Misturas

Os riscadinhos e a malhinhas. Lentamente vão ficando amigos. Encostar manchas e riscas é que ainda não. São puristas, o nossos gatos.

O arco e a casa

Gosto da ideia de atravessar o arco para chegar a casa.


4 de janeiro de 2013

De mãos atadas ou os rankings das escolas




L. tem quinze anos e não consegue concluir o 6.º ano. O pai regressou de longa emigração, trazendo na bagagem uma doença que passa à mãe, e os confina a um espaço doméstico insalubre . O irmão mais velho do jovem evidencia comportamentos de risco, receando-se que lhe venha a servir de modelo. A informação chega, qual murro no estômago, a par do pedido de algumas horas de apoio individual, na escola. A técnica de serviço social (sim, em finais do passado século era um recurso existente), ao assistir à reação da docente de apoio, deixa escapar um «se ficas nesse estado de cada vez que há miúdos sinalizados, passas a depender de apoio clínico e acabas em casa por tempo indeterminado, tens de ganhar juízo…».
S.,  uma rapariga da mesma idade, não consegue sair do 5.º ano: cuida dos irmãos mais novos, falta às aulas, parece viver diversos papéis que lhe não deveriam caber. De forma casual, é uma manhã encontrada pela professora, a vaguear pela vila, a 10Km de casa, há quase 14 horas sem alimento «fugi a uma sova sem motivos, dormi na estação de comboios e roubei uma manta de um estendal, para não gelar». Fica a promessa – foge-se aqui à regra – de que, caso o risco se repita, a miúda telefonará à professora de uma cabine junto à porta de casa, com chamada a pagar pelo destinatário, pois a estação ferroviária é, durante a noite, local deserto e inseguro.
A escola pública é mais do que isto, caso contrário, cair-se-ia numa daquelas reportagens televisivas plenas de chagas sociais e ávidas de audiências, mas os estabelecimentos oficiais são também o que aqui é retratado, com respeito pelo anonimato dos protagonistas nos retalhos verídicos  em resumo. Ao longo destes (e de tantos outros processos) foram visitadas instituições oficiais para acolhimento, encaminhamento profissional, cuidados de saúde. Poucas portas se entreabriram, outras revelaram-se em plena ineficácia, as famílias pouco ou nada cooperaram… Duvida-se que caiba à escola a resposta para problemas de tamanha complexidade … Tudo leva a crer que não, embora se torne impossível fechar os olhos e agir como se a função – e como isso seria aliciante – se limitasse a cumprir os programas oficiais das disciplinas, sem obstáculos e com vista ao sucesso nos exames nacionais.
Sem vitimizar – tantos jovens com sucesso nos estudos e sem transferência de problemas pela sua inexistência – descobre-se que são diversos os que escapam às little boxes , os que não conseguem passar pela vida sem sobressaltos.
Fugindo ao apelo fácil do desestruturado, surge a reflexão a propósito da notícia de jornal que hoje informa – o que era mais do que imperativo ao longo de tanto tempo – a medida de passarem os rankings das escolas a contemplar a variável «contexto social» (acrescentaria afetivo, cultural, de origem geográfica…). Insiste-se, uma vez mais, que só isso não basta: resultados relativos a estabelecimentos inseridos em zonas de tecido social complexo ou em isolamento  virão comprovar o que muitos já suspeitam ou conhecem, importante seria quebrar o ciclo e  - visionarismos à parte – delinear estratégias na tentativa de instaurar a equidade, despindo-a do vazio do conceito.

Imagem: do blogue territorioteip

A sul

a caminho do sul, espreito as paredes desta pequena e alta cidade. Fica-me esta inscrição em pedra.

2 de janeiro de 2013

Guardando


A vila, de seu nome «Entradas»




Quando se entra numa localidade desconhecida, de modo inesperado, mudam por completo as sensações, sendo irresistível imaginar o quotidiano das gentes. Na surpresa da diversidade, é agradável o enquadramento, o que não passa de súbito rasgo visionário. Cai-se de súbito na realidade, não se conseguindo ter a mínima noção da vivência diária nesta localidade bonita, cuidada, onde  limpeza,  brancura e sossego formam as primeiras impressões. Por aqui, o tempo parece ter parado.

Agonia
dos lentos inquietos 
 amarelos, 
 a solidão do vermelho 
sufocado, 
por fim o negro, 
fundo espesso, 
como no Alentejo 
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade