24 de outubro de 2009

O afinador de silêncios

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Gosto do silêncio, mesmo sob risco de ouvir aos mais próximos que me estou a tornar anti-social.
Penso que muita gente lhe foge por não conseguir conviver com pensamentos e sempre se tornou difícil entender quem tem como necessidade premente manter o televisor ligado não para assistir a programas, mas só “porque faz companhia”…
Será complexo, a título pessoal, imaginar nas valorizadas pausas de recolhimento ter gritarias de concursos ou jingles publicitários como pano de fundo.
Ainda há menos de uma semana e em dia de boa vontade, prontifiquei-me a responder a um destes inquéritos telefónicos realizado por uma empresa credenciada no mercado. Apesar da boa intenção, acredito ter-me convertido em total frustração para o senhor do outro lado da linha: é que não me lembrava de um único anúncio televisivo a que fazia referência.
O facto de fazer o jantar a ouvir Haydn , lembrado pela estação de rádio que evoca diariamente o bicentenário da sua morte, também não foge a esta regra de sossego… é que esta música parece melhorar o sabor dos cozinhados, tendo ainda o dom de, aos poucos, ir repondo alguma paz de espírito perdida ao longo do dia...
E tudo isto me levou ao livro que só agora estou prestes a terminar. Desde que a escola recomeçou, o ritmo de leitura por mero prazer foi ficando irregular, sendo aproveitadas as escassas viagens de comboio para lhe dar andamento.
Nas últimas páginas de Jesusalém, livro iniciado há mais de um mês, acabo por confirmar que o mais apelativo em Mia Couto são as livres associações de filósofo de um quotidiano partilhado, superando essa ‘estética da palavra e das ideias’ a trama da narrativa ( e aqui que me perdoem os discordantes).

Eu era um afinador de silêncios.
- Venha meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.
Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda.[…]. Depois, ele inspirava fundo e dizia:
- Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.
Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.


Mia Couto, Jesusalém

6 comentários:

almariada disse...

Também gosto tanto de silêncio! e de Mia Couto! :)

teresa disse...

Mas há quem só se sinta bem na confusão, almariada.

... e agora, na calha e quando puder celebrar esse tão importante silêncio, as próximas leituras 'recreativas' serão A corte da Rainha D. Maria (livro amavelmente oferecido pela T) e o Barroco Tropical do Agualusa, oferta da minha mãe na passada semana:)

T disse...

E do Afinador de pianos também gosto:)

Aurora disse...

Que lindo...

Realmente, o silêncio é um tema que suscita muitas opiniões diferentes.

Eu, gosto de silêncio mas não em demasia porque não suporto muita solidão. Mas um pouco de ausência de som só faz bem... principalmente às dores de cabeça ;)

Bjs

gin-tonic disse...

Silêncio.
Um amigo que nunca nos trai.
Poderemos escrever o silêncio?
Ou aquela parábola, vinda não sabe de onde: “Se a palavra que vais dizer não é mais bela que o silêncio, não a digas.”

teresa disse...

Eu também gosto do afinador de pianos no sentido literal do termo: da última vez que cá esteve - e mora longe - verifiquei que era mesmo boa pessoa e bom pianista... vai zangar-se quando descobrir o piano outra vez tão desafinado:)

O comentário da Aurora fez-me sorrir (no que diz respeito às dores de cabeça);

... e o do gin-tonic ao perguntar 'podemos escrever o silêncio?'trouxe-me à memória John Cage e ainda telas pintadas de branco e livros com páginas não impressas:)