24 de outubro de 2009

COISAS & LOISAS

Dizia-lhe a avó que são as pequenas coisas que definem o carácter das pessoas.
Com João de Deus Pinheiro nunca ficou esclarecida uma trapalhada com uma manta num avião da TAP.
Agora, eleito deputado pelo ciclo de Braga, no dia da tomada de posse, manteve-se deputado o estritamente necessário para pedir a recusa: meia-hora.
Para tão “surpreendente” decisão invocou “problemas de saúde”. Mas os jornais da má-língua foram dar com ele, na véspera, a dar umas tacadas de golf em Vilamoura.
“Tem-se especulado tanto que já houve quem me perguntasse se seria alguma coisa cancerígena. Felizmente é a necessidade absoluta e imperiosa de descansar”, justificou Deus Pinheiro ao “Correio da Manhã”
Mas os verdadeiros motivos passam antes por questões de vaidade e presunção.
Se o PSD tivesse ganho as eleições Deus Pinheiro seria, segundo promessa da Drª Manuela Ferreira Leite, o presidente do parlamento. Não acontecendo, o homem tem um ego demasiado elevado para ser um simples deputado da nação.
O ex-ministro Marçal Grilo, num livro que intitulou “Difícil é sentá-los”, desenhou um diagnóstico sobre os deputados da nação: “No Parlamento não se pensa muito”, que nos 230 deputados há de tudo: “miúdos, ignorantes e tolos” e de todos esses deputados “talvez 50 sejam pessoas de boa qualidade”.
O retrato é claro: os deputados são preguiçosos e incultos.
Isto não é o Joca a falar ali no café em tempo da bica e do bagaço – “não fazem nenhum, querem é tratar da vida deles, são todos iguais, andam todos ao mesmo, quando for crescido quero ser deputado” - é alguém responsável que, por experiência, sabe do que fala.
São pois os próprios deputados que fornecem para o cidadão comum a péssima imagem de que desfrutam, de que estão apenas por ali para ganhar o seu e a única capacidade que demonstram é a de se levantarem e sentarem nas cadeiras. As discussões roçam a ordinarice, o insulto e transformam o parlamento numa chicana.
Ao longo dos anos a Assembleia da República tem coleccionado um imenso rol de histórias rocambolescas que revelam que, por ali, ética na política é coisa que não existe.
Numa célebre entrevista Almeida Santos referiu que, entre outras razões, um deputado da província, vindo três ou quatro vezes por semana à capital permite uma liberdade, nomeadamente, conjugal., que é bastante sedutora.”
Alberto Martins, para faltar ao plenário no dia em que o F.C. do Porto jogou a Taça UEFA em Sevilha, invocou como justificação “trabalho político” Nesse dia, juntamente com ele, estiveram mais 30 deputados, por convite do ilustre Jorge Nuno Pinto da Costa, e todos em “trabalho político”. Acrescem escândalos como as viagens fantasma e ea m 2006 falta de quorum em debates e votações importantes para irem passar a Páscoa ao Algarve, ou à aldeia. A mudança de horário do plenário para assistirem ao Portugal- México para o Mundial de 2006
E não é difícil apurar quantos deputados exercem em full-time o cargo para que foram eleitos. Sabe-se que grande parte exerce actividades paralelas em áreas onde os escritórios de advogados ou a gestão de empresas privadas ocupam especial destaque. Há quem apareça de manhã, marque o ponto, beba um café, dê dois dedos de conversa e arranca para a vidinha.
Não é apenas um má vontade dos portugueses em relação aos deputados algo que levou a Drª Manuela Ferreira Leite, face às criticas aos parlamentares dizer que os deputados “são as pessoas mais mal-amadas do país.” São os próprios deputados que criam essa imagem. Atitudes como a de Deus Pinheiro estão aí para o provar.
Pior ainda saber o quanto custa aos portugueses a eleição de um deputado: os ordenados, os diversos subsídios, as diversas compensações, as reformas, tudo!
Só uma mudança de mentalidade por parte dos deputados poderia fazer a populaça mudar de opinião, o que se afigura muito difícil, quase impossível. Bem poderemos esperar sentados.
Porque já o Eça, no seu longo desfilar dos conselheiros acácios falava da degradação do Parlamento e da política. Está lá tudo!

1 comentário:

teresa disse...

«Os deputados são preguiçosos e incultos» e aqui recordo o escritor Alberto Ferreira , professor de Cultura Portuguesa na FLUL e as palavras que um dia lhe ouvi:«a política e a cultura raramente andam de mãos dadas»...