17 de dezembro de 2008

NÃO ME DEIXES...



O Natal não tem apenas o seu lado brilhante. Há um pedaço de rua onde reinam as sombras e a solidão. Há uma frase de Maria Judite de Carvalho: “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta, tanta gente Mariana ,e ninguém vai fazer nada por nós.”
Está sempre a ouvir que as pessoas se habituam a tudo, só não se habituam à solidão. Uma canção de Brel, deixa-me ser a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão, mas não me deixes.
Dizia-lhe que antigamente chorava, agora chora pouco e, por isso, a solidão tornava-se mais incompleta. Arrastava-se tentando administrar a sua solidão. São muitos e não imaginamos. A solidão não pára de crescer.
A remexer no baú de Natal deparou com o envelope com notícias de jornais. Notícias de desesperos, notícias de suicídios. Hesitou, não sabe bem porquê, em tocar no assunto. Por fim, resolveu-se. Porque o Natal não tem apenas o seu lado brilhante.
O recorte é do “Diário de Lisboa” de 27 de Dezembro de 1976 e a notícia é proveniente do Porto:
“António Manuel, de 14 anos, no dia de Natal, lançou-se de uma janela do Coliseu do Porto, tendo sido conduzido ao Hospital de Santo António sem fala e com várias fracturas.
O jovem, que é natural do lugar de Idanha, encontra-se numa fase de recuperação, tendo começado já a articular algumas palavras”
O jornalista fechava assim a notícia:
“De acordo com estatísticas mundiais, a quadra do Natal regista sempre uma subida de tentativas de suicídio, que alguns psicólogos identificam com uma maior acuidade em relação à solidão em dias que a maioria das pessoas se reúne para confraternizar.”.

3 comentários:

Anónimo disse...

Antes de ler este texto tinha acabado de ler a noticia de que a linha do Estoril esteve ontem á tarde interronpida devido a um atropelamento de uma senhora com cerca de 60 a 70 anos .
O natal também têm o seu lado escuro sem dúvida .

Carlota Joaquina

teresa disse...

Penso que é da "solidão acompanhada" de que nos fala Maria Judite de Carvalho. Pessoas que vivem no meio da multidão, mas sentem o abandono e há alturas do ano mais propícias a isso.
Não tem a ver com a solidão que se procura para repor alguns níveis de sanidade e conseguir pensar, essa é bem-vinda, sendo uma "amiga" e um "doce hábito" como se lhe refere Moustaki numa canção.
Soube há pouco do falecimento súbito do pai de uma grande amiga e, sabendo que ela sempre viveu intensamente o Natal, dou comigo a pensar como o irá ela viver no presente ano.

Anónimo disse...

Para reforçar a ideia da Teresa: Numa entrevista perguntaram ao Alexandre O'Neil: "Podemos falar de solidão?" O O'Neill respondeu: "A procurada é boa, a não procurada às vezes é chata."
Sobre o problema que a sua amiga vive, entramos em campo de matéria sensível e muito delicada. Cada um de nós enfrenta a morte de amigos e familiares de maneira diversa. Falará apenas do que sobre o assunto, variadas vezes, o pai lhe disse: "não quero lutos. Os lutos ofendem-me. Terão que arranjar forças para que tudo o que for festas, as façam como se eu também lá estivesse. Se assim não fizerem, venho por aí abaixo e desato à bofetada".
Foi este o recado. Qualquer dia passará o discurso aos filhos...
Não é fácil...