19 de abril de 2009

Palhaços



Eu sempre quis bem aos palhaços. Aprendi a querer-lhes naquelas tardes longínquas da infância, tardes de matinée no Coliseu com entrada gratuita para os miúdos e chocolates em bandejas nas primeiras tentativas do "bombon" lusitano. Queria-lhes bem porque eles eram para mim as divindades do meu riso claro, uns seres fora do mundo , vindos a ele para meu divertimento, como se fosssem os bonecos maiores do meu arsenal de petiz.
Mais tarde, quando já lia Kropotkine e ardia no meu cérebro um incêndio generoso, amei-os como símbolos de justiça , da única justiça feita no mundo sem quebras nem cegueira. Eles eram sempre dois; um vinha sempre recamado de lantejoulas com grandes flores bordadas nas vestes e chapins lustrosos de verniz da Rússia, o outro era pobre, ridículo, andrajoso, de penante acochichado e botas cambadas e alheias. Mas o pobre era sempre mais arguto e vencia o outro, o ricaço pintalgado e estúpido...(...).




Crónica por Castelo de Morais e desenhos de José Lemos

Notas: Gostei da escrita do autor, geração dos modernistas decadentistas (?) e talvez a Teresa saiba contar-nos mais sobre ele.

Fiquei encantada com os desenhos do José Lemos que igualmente não conhecia, tendo solicitado a confirmação da sua identidade a um expert na matéria, que gentilmente o fez.
Encontrei esta crónica num Magazine Bertrand de 1930.

9 comentários:

teresa disse...

Olá T!
Estaremos a falar de Raul Brandão? Não estou certa... até fui ter a um espaço para o qual dei um modestíssimo contributo há uns 12 anos e que acabou por não ser publicado, como prometido, mas sim e-publicado, trata-se do dicionário de termos literários online, mas eu "foi mais" padre António Vieira e ficaram para outros mais conhecedores da época as "modernices decadentes"...
Comentários (relativamente à margem)
1- texto bonito
2- imagens lindíssimas
3- a opinião pessoal quanto aos palhaços: gostava em pequena do seu sentido de humor (hoje já surge como pouco elaborado),mas não tolerava quando começavam aos tiros com pistolas de fulminantes , (mal sabia eu que iria presenciar "ao vivo e a cores" algumas situações de guerra que nos anos 80 ainda não estava extinta):(

T disse...

Não sei Teresa. Era um pseudónimo? Está por fazer um dicionário quanto a esses anos.
Quanto aos palhaços desde pequena que não gosto deles, estou como tu.

Natércia disse...

Serviço público é o que está a ser feito por si. Obrigada.

teresa disse...

Ooops! Agora é que vi que a crónica é de um tal Castelo de Morais que desconhecia... sorry, tanta leitura e escrita andam a fazer mal, já nem leio as coisas até ao fim!:) Finalmente vou respirar por um dia ou dois para repor os índices de sanidade mental...

T disse...

Está a ser feito por todos, cara Natércia. Volte sempre.

M disse...

O livro de José de Lemos Histórias de Bonecos é um dos meus livros de estimação. A minha história favorita é a dos dois meninos que não gostam de tomar banho, até que a mãe os dá à empregada para ela os lavar juntamente com o resto da roupa da casa. E ela assim faz, tal e qual, chegando ao ponto de os pôr a secar na corda da roupa! É um autor/ilustrador que vale a pena conhecer. :) Estas ilustrações nunca as tinha visto, são lindas! Não há nada como o modernismo.

http://artistasportugueses.blogspot.com/2009/03/jose-de-lemos-1910-1995.html

Ricardo António Alves disse...

O Castelo de Morais foi de carne e osso, mas sei quase nada sobre ele.
Os desemhos do José de Lemos são óptimos.

T disse...

Decidido então: Vou postar mais José de Lemos. Disseram-me que andam muitos desenhos dele em leilão aliás.

E quem descobrir o escritor apite!
Já vi coisas dele na Ilustração Portugueza,ali da vizinha Mariana, quando o googlei:)

Anónimo disse...

Com a quantidade de palhaços que por aí andam, não é de estranhar!