"The Constant Gardener" ("O Jardineiro Fiél") está nos cinemas e é um filme muito bom. Sem exagero, e já a frio, é um filme muito bom.
As palavras e expressões “genial”, “excelente”, “muito bom”, “imperdível”, etc. são a maior parte das vezes utilizadas de forma exagerada e sem levar em conta que, em entertenimento, aquilo que é bom para nós pode não ser bom para os outros.
Neste caso concreto, “The Constant Gardener” é sem exagero muito bom.
É uma produção anglo-germânica a partir de um livro de John Le Carré. É realizada por Fernando Meirelles, o mesmo da “Cidade de Deus”.
Fernando Meirelles: é um realizador muito bom, tem muito bom gosto. Neste filme, em que havia potencial para muita e pesada violência, foi extremamente moderado. (Na “Cidade de Deus”, a violência não foi excessiva: foi real e foi necessária, pois o tema também era a própria violência e esta, infelizmente, é parte essencial da realidade das favelas).
A fotografia é também muito boa.
Este filme teria sido completamente estragado se tivesse sido feito “à americana”: ter-se-ia exagerado no sentimentalismo lamechas num filme que também é sobre os afectos mas não só; ter-se-ia exagerado na espectacularidade da acção num filme que se pretende sério e real e que, embora tenha acção, não é especificamente de acção; ter-se-ia exagerado nos rebuscados da intriga quando o filme de facto é mais saboroso ao não recorrer a surpresas previsíveis nem a joguinhos com o espectador; não se teria conseguido tratar de um tema ético e afectivo (o filme é sobre a fidelidade) sem recorrer a cenas clichés e a discursos explícitos enquanto que no filme a temática é como um fluir secreto, constante e suave; não se teria conseguido filmar África sem cair em clichés anti ou pró historicistas; não se teria conseguido falar de política sem ser politicamente correcto; não se teria conseguido filmar uma actriz maravilhosamente bela sem explorar o seu corpo.
Ainda bem pois que este filme não é americano pois também é pelo facto de recusar tudo o que é a forma típica de nos EUA se fazer cinema que foi possível fazer um filme tão bom, com tão bom gosto, tão belo e complexo: afectos sem lamechice, acção sem fogo-de-artifício, violência sem choque, política sem “correctness”, África sem filtros, beleza sem exploração.
“The Constant Gardener” é um filme muito bom.
Sem comentários:
Enviar um comentário