4 de dezembro de 2003

Está um frio do cacete!

Li por aí alguém que se alegrava com estes dias de sol…
Mas qual sol? Onde está o sol?
Se está por aí, não o sinto.
Só sinto é o frio…
O frio que anda no ar, e me entra na boca, e me seca os lábios, e me greta a língua, e me prende as palavras.
O frio que me cerca a cabeça, que me endurece as orelhas, que me doi nos ouvidos e me embota o pensamento.
O frio que vem de frente, me bate no peito, me deixa tropego, que me tolhe os dedos.
O frio que sobe do chão, me gela os pés, me gela os ossos, me gela a alma, e me gela.
O frio que eu detesto.
Desde pequenino.
Este frio dum cacete...

Monsanto, Beira Baixa, 30/11/03

Há sítios que fazem bem à alma.




Monsanto, Beira Baixa, 30/11/03

Página de Diário (mais uma)

Os 3 problemas do SNS de saúde português, problemas aliás parecidos com os de outros sistemas nacionais, são estes:

manutenção de um órgão que coordena e defende o poder de mercado dos médicos contra aquilo que é mais útil na perspectiva dos seus clientes, isto é, contra a concorrência que faz baixar preços e aumentar a qualidade;

ideia errada de que quem sabe gerir um hospital é um médico: um médico sabe fazer aquilo para que estudou, isto é, curar ou tratar, um gestor é que estudou para saber gerir organizações;

ideia errada que as pessoas são melhor servidas por um hospital público que não precisa de prestar contas a ninguém por pior que seja a sua qualidade do que por um hospital privado que se for mau, pura e simplesmente não terá clientes.


Todos os especialistas sofrem quando encontram leigos a falar da sua especialidade. Ser psicanalista e ouvir os outros a falar de amor é irritante, ser historiador e ouvir os outros a falar de religião é cómico, ser advogado e ouvir os outros a falar de leis é entediante, ser economista e ouvir os outros a falar da qualidade dos hospitais ou da qualidade da televisão ou da inflação ou do desemprego ou de tudo o que é muito importante - é geralmente, de se puxar os cabelos.

Eu confio em especialistas desinteressados, tal como confio quando me dizem que sól sustenido e lá bemol não têm de ser a mesma coisa. Não confio é nos especialistas que sabendo muito mais do que eu em certa matéria acham que me podem enganar em assuntos que são transversais a todos os especialistas e a todos os leigos e que interessam realmente a todos. Essa atitude é ainda mais irritante do que aquela dos que acham que só por terem mais experiência do que os outros conhecem mais do que os outros. Entre ter experiência e ser capaz de produzir conhecimento válido a partir dessa experiência vai uma grande distância.

Por último, é terrível quando eles nos dizem que sabem mais dos nossos interesses do que nós próprios. Quem sabe dos interesses dos doentes não é nem a Ordem dos Farmacêuticos nem a Ordem dos Médicos, são os próprios doentes que sabem se querem remédio de marca ou remédio sem marca, se querem ser tratados pelo médico com muito prestígio que por tanto prestígio ter pode dar uma consulta e observar um cliente sem se levantar da cadeira ou se querem ser tratados pelo médico que não é famoso e se calhar até é imigrante ilegal mas cobra um preço mais barato e está muito empenhado em não perder o seu cliente.

Ricardo

Fixações

When one door closes another one opens; but we often look so long and regretfully upon the closed door, that we do not see the ones which open for us - Alexander Graham Bell

The Inspiration of Saint Matthew

Este ? um quadro que gosto sempre de ver.
Entro naquela bonita igreja de San Luigi dei Francesi em Roma e acendo a iluminação com a moedinha.
E fico sentada a ver.Quieta e calada.
Aquela luz dá cabo de mim.

Dias esvoaçantes de sol

Os dias sucedem-se. Parece um crescendo até ao Natal...
O Santana já nos fez o favor de inaugurar as iluminações. Gosto de ver as luzinhas.
Estou com a consciência tranquila dos presentes comprados, mesmo os imprevisiveis.
Amanhã é sexta....estas semanas assim ficam aligeiradas...
Continuo os meus estudos sociológicos deambulantes no metro.Muito divertido até agora.
Hoje perguntaram-me por onde se saia para a Columbano...e eu não fazia a mínima e estava a tentar ajudar...lembrei-me do post do Ricardo...e por acaso do destino acertei na informação.
Mas acaso terei eu ar de saber onde ficam saídas e entradas? eu???
A grande vantagem do metro é a leitura. E a observação. Há lá gajos muito mas muito giros.
E ouvir as conversas alheias. às vezes repete-se a mesma página, mas não faz mal.enriquece-se a leitura com o cruzamento das vidas dos outros.
Hoje sai e vi a Rzinha muito direitinha a comandar o pelotão a uns bons 3oo metros de dianteira e a uma velocidade supersónica. Devia ir atrasada:))))
Eu ainda estava a tentar comprar tabaco....para não ser assim tão saudavel, que isso já me enerva:)
beijos:)




3 de dezembro de 2003

A propósito de nada

De repente descobriu-se que faltam centenas de médicos, que nos próximos anos faltarão milhares, que todo o sistema nacional de cuidados de saúde está em risco de colapso, e que são precisas mais faculdades e muitos mais alunos de medicina. E parece que tudo isto foi descoberto de repente, como se nos últimos anos tivesse acontecido algum cataclismo.
Como de costume, os dados conhecidos são insuficientes e confusos. Como de costume, servem qualquer opinião.
Ora desde que sou médico, e já lá vão mais de uma dúzia de anos, todos os anos cresce o número de médicos, em todo o lado: não houve, nem haverá nos próximos anos, nenhuma diminuição real. E este aumento não ocorre, como se faz crer, exclusivamente à custa de médicos espanhóis: eles ainda são uma minoria, apenas amplamente visível por fazerem o trabalho que mais ninguém quer, os balcões das urgências.
Também nestes doze anos melhoraram, de forma notória, os meios à disposição da prática de medicina. Quer as instalações hospitalares, quer os equipamentos técnicos.
Mas é um facto que, em muitas áreas, a qualidade dos serviços prestados não melhorou de forma proporcional ao aumento do número de médicos e da melhoria dos equipamentos. Persistem as listas de esperas para operações banais, persiste a dificuldade de acesso a diversas consultas, as urgências continuam caóticas.

Em minha opinião isto reflecte, essencialmente, a nossa falta de saber organizativo, em três campos distintos, mas que se complementam. E que se devem melhorar:
Melhorar a organização da circulação dos doentes no sistema. Melhorar, desta forma, quer os miseráveis cuidados de saúde pré-SNS (lares, instituições, escolas, familias...), quer o acesso a consultas de cuidados primários e secundários, afastando, ao mesmo tempo, os doentes das urgências.
Melhorar a organização da distribuição médica. Isto implicaria melhor distribuição regional (forçando a mobilidade médica), melhor distribuição por especialidades (forçando que a formação, nos internatos, não se faça ao sabor de vaidades locais) e melhor distribuição dos médicos intra-instituição (forçando que, nas funções individuais, prevaleça o interesse comum sobre a conveniência pessoal).
Melhorar a organização da actividade médica. E é aqui que estará o maior problema: a quase total incapacidade dos médicos organizarem o sua actividade diária, a muito precária comunicação inter-pares, a quase nula capacidade de gestão de equipas (médicas e de outros profissionais). Para o trabalho de um, são precisos dois ou três.

E é esta a minha opinião.
Parece-me que, com os actuais contigentes de alunos em formação, o número de médicos será um problema menor.
Parece-me demagógico catalogar esta opinião como corporativista.
Assim como me perece demagógico realçar as guerrinhas de capelinhas dos pediatras lisboetas, como se traduzissem todos os males do SNS.
E estranho que se continue a esquecer a falta, essa sim grave e real, de outros profissionais de saúde: enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, paramédicos, etc, etc..

"Não Sei", "Não"

Fiquei a saber este ano que o guia turístico da Lonely Planet para Portugal diz que não se deve pedir direcções a portugueses porque estes (nós) quando não sabem NUNCA dizem que não sabem. O que fazem é dizer sempre qualquer coisa mesmo que nada ajude. A boa intenção vale mais do que evitar confusão e perda de tempo a quem pergunta.

No Verão passado 4 dos meus amigos internacionais confirmaram-me que nunca um português lhes havia dado como resposta nem "não" nem "não sei" mas que isso nunca os tinha ajudado por aí além (antes pelo contrário).

Então, eu próprio comecei a olhar para mim mesmo e para as minhas atitudes a tentar descobrir se também dava uma resposta qualquer quando não sabia. Eu já sabia que tinha muita dificuldade em dizer não fosse a quem fosse a respeito do que quer que fosse. Mas ainda não tinha reparado na minha atitude quanto ao "não sei". O resultado foi que ainda não sei se costumava ou não declarar o "não sei" aos outros.

Este ano decidi por experiência e por eficiência começar a usar as respostas "não" e "não sei". Tenho utilizado essas respostas com os meus clientes. As conclusões (ou os resultados) apresento-os de seguida.

Admitindo que os meus clientes são uma amostra representativa da população portuguesa, o uso da resposta "não" deixa os portugueses em estado de choque ou então deixa-os perplexos. Num país em que nada são dificuldades e em que há solução para tudo, a resposta "não" tinha necessariamente de ter este efeito: a estupefacção, o não querer acreditar no que se acaba de ouvir.

A utilização do "não sei" deixa as pessoas (portuguesas) confusas e incrédulas. Em geral os portugueses não acreditam que se lhes possa responder um "não sei" com seriedade. Esta tarde, por exemplo, uma cliente minha colocou-me uma pergunta e respondi-lhe "não sei". Ela repetiu a mesma pergunta de quatro maneiras diferentes mas a minha resposta continuava verdadeira desde o princípio. A verdade era esta: "não sei".

As pessoas mais velhas e muito idóneas em matéria de educação (estou agora a pensar em pessoas que amo) disseram-me que pelo menos devia acrescentar ao "não" um "desculpe mas" ou um "lamento que". Não concordei: no acrescentar desse quase pedido de desculpa vai implícito que dizer "não" é em si algo menos próprio, menos correcto ou até ofensivo. E aí reside o problema das pessoas portuguesas: é pensarem ou sentirem que um "não" é, em última análise, qualquer coisa de hostil e que, portanto, ou não se aceita, ou só se aceita acompanhado de um pedido de desculpas.

Aquilo que os portugueses não sabem é que o "não" é tão necessário e tão provável como o sim (excepto para os optimistas, aqueles que dispõem da magia de transformar os "nãos" em "sins"), e que o "não" ou o "não sei" permite poupar muito tempo - sobretudo a quem pede informações ou deseja encontrar sapatos 43.

Nas culturas mais assertivas e mais pragmáticas ninguém se ofende com um "não": todos reconhecem que o tempo dos outros deve ser respeitado e que portanto não se deve criar falsas expectativas com "talvezes" infundados e "parece-me que" desnecessários. Mas não é só o respeito pelo tempo que é mais importante para essas culturas. É a noção de que a minha liberdade de expressão permite-me negar e que essa atitude é tão razoável e normal como a de concordar. E é ainda a noção de que não estar de acordo não tem de ter relação nenhuma com ser hostil. E é, finalmente, a noção de que se ganha tempo e de que é bom ser franco e directo.

Ricardo

Metro (ou metrô para o Orlando)

Confesso que odeio andar de metro.
Ultimamente tenho feito um esforço de começar a andar nessa coisa.
É rápida a barata .
Mas devo dizer que só iniciei ontem essa tentativa. Hoje ainda se mantém:) Digo eu...
E tenho a acrescentar a solidariedade das minhas queridas amigas R e Lu, que amavelmente me conduziram mesmo à entrada do terminal para...para...Telheiras? Muita confiança na minha atenção. Até mandei uma sms às mãezinhas quando cheguei a casa, Mãe cheguei, tudo bem, breve volto.
Senti-me um soldado no Ultramar, como antes do 25 de Abril.
Ontem uns putos aí de 18 aninhos começaram a desejar feliz Natal a toda a gente e a gritar Vivas aoamor e à paz.Fui a única pessoa que me ri. e olhei. As outras ficaram apavoradas.
É normal isto no metro? Não se pode olhar e rir? Temos que fixar os olhos no chão com ar aterrado?
Tanta aprendizagem metral que tenho que fazer:)
Agradeço as simpáticas e VOLUNTÁRIAS postadoras de ontem. (graças ao ameaçador coelho)
E a Lau sugeriu..porque não fazer um jantar da gente?
É uma ideia boa, acho eu. Que tal?
Beijos


dias que nao voam

Queria poder contar coisas interessantes sobre mim…mas não há.
A minha vidinha é sempre a mesma, alunos práqui e alunos práli….
E continua a sensação irritante de que estou sempre desadequada.
Aiaiaia, e como sempre, hoje sinto-me assim

eu é até aos 37...

Isto assim não pode ser... prometo escrever alguma coisa que faça (algum) sentido. Mas por favor... não me chamem mais namoradeira e frequentadora de mircagem. Lá se vai a minha reputação. Grunf.

A verdade é que os meus dias têm voado mais que o que seria desejável. Não há papagaio que lhes conduza a vontade. Pronto pronto. E agora, para acabar em beleza (ou talvez não):

"Então até que idade pensas divertir-te?" Vocês não ficavam incomodados quando ouviam isto na TV?

2 de dezembro de 2003

Estórias da minha infância (7) – O Zé Gordo

Foi numa manhã fria de Dezembro.
Saí de casa para ir reparar a “burra”, um furo que teimava em persistir, acho eu. Saí de casa, ufano, com a minha primeira nota de vinte “paus”, verdinha, quase nova, com o Santo António de ar beato. Era, de facto, a primeira vez que tinha podido ficar com o dinheiro que a minha avó me tinha dado, no Natal.
Logo na rua de baixo, encontrei o Zé Gordo que foi comigo e, juntos, deixamos a bicicleta no senhor Zé. Foi nessa altura que ele me perguntou: Que vamos fazer agora?
Já não sei quem foi tendo as ideias mas fizemos muitas coisas. Primeiro comprámos boleimas na padaria da esquina, e comemo-las todas. Depois fomos ao senhor Faustino comprar cromos do futebol e algumas pastilhas. Enquanto comprávamos algumas pastilhas, roubávamos muitas mais. Depois, fomos à tasca do Marmelo, e comprámos tabaco: ele comprou um maço de Kentuky e eu, um de Provisórios. Descemos a azinhaga e fomos para a tapada junto ao campo de futebol. À medida que fumávamos cigarros furiosamente, empoleirados nos muros de pedra e em árvores variadas, atirávamos pedradas às galinhas das redondezas.
Era meio-dia e estava despachada a manhã. Com ela, tinha ido todo o maço de tabaco e quinze dos meus preciosos vinte escudos. Ao chegar a casa, não comi quase nada ao almoço: estava enjoado de tanto cigarro e apavorado que me perguntassem pelo dinheiro!
Assim começou a minha aventurosa adolescência.
Passados anos fui estudar para Lisboa. O Zé Gordo arranjou um bando, assaltou casas e foi preso.

É Natal

"O Natal é feliz, não é só as prendas que interessam, é feliz porque passamos ele com a nossa família.
É quando o Menino Jesus nasce…
Quando a alegria se espalha.
Natal não é um dia que se recebe prendas especiais, é o aniversário do Menino.
Quando o pai Natal dá as prendas, alguns pensam que é o Menino, e outros os pais, mas eu não sei.
Menino Jesus nasceu em 25 de Dezembro em Blem, ao pé de São José, Maria, e vaca e o burro."


Este poderá ser um futuro colaborador deste blog.
Chama-se Manel, tem 8 anos.

1 de dezembro de 2003

Coração Vermelho (7) - Não, não sou o único...

Ofereço-vos, como se fossem minhas, as palavras de António Lobo Antunes em entrevista a Sara Belo Luís, na Visão:

“...
...Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiram são aqueles que agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
Parava a guerra?
Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação um bocado estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disso acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um sócio do Benfica?
Não vou por isso na entrevista...
Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?
...”

Panorama espacial dos animais como se fossem vivos.

Como boa colectora que sou, guardo todos os papelinhos que para mim têm significado. Empilho-os em caixas.
Esta frase do do titulo do post, foi escrita pelo meu sobrinho Miguel, tinha ele uns 9 anos. Guardei-a, está em letras decalcadas, num cartãozinho de papel.
Sempre me fez pensar o que uma criança quereria dizer com aquilo. Ou viu em algum lado?
De qualquer mesmo que a tenha copiado, foi porque de alguma maneira o impressionou.
Nessas arrumações encontrei caderninhos meus com comentários a livros que lia. Espantoso o que eu sabia sobre Platão, Gramsci e outros tantos mais.
Onde estará esse saber arrumado? Dentro da minha cabeça, claro.
Às vezes ponho-me a pensar como será o meu panorama espacial. Estarei viva?
Ou incluo o se na pergunta?
Estes últimos meses deram para remexer coisas antigas. O passado está sempre presente, é um facto.
Incomodam-me quando me perguntam quais são os meus sonhos, o que desejo para o futuro. E eu penso, sei lá, que pergunta idiota.
Ou para mim é uma pergunta supérflua.
Anos e anos agi como se nada na minha vida fosse mudar. Quando mudou adaptei-me.
E agora tenho esta dificuldade de tomar as coisas como certas. Não estou a falar apenas no aspecto amoroso, mas em tudo.
Nem comprar casa me apetece comprar. Penso sempre e se quiser mudar?
Já me disseram várias vezes que sou radical e exagerada:)
Pois seja.
E que sinto demais as coisas. Ai , pois sinto.
Mas continuo a prezar desafios. Isso sim, faz-me estar viva:)
Não vos chago mais:)
Té já:)
(claro que volto a chagar)

Quando Eu For Grande

Quando eu for grande... Quando era miúdo, pensava muitas vezes nesta frase. A maior parte das vezes era tipo: "eles vão ver!". Achava que ser grande era assim um passe geral para a boa vida, para todas as coisas proibidas.
Cresci sempre com pressa de ser grande. Via-me como que numa eterna fila, em que a maior parte das pessoas passavam à minha frente.
Na escola primária, só queria chegar à 4ª classe, porque eram os mais velhos. Podiam fazer tudo (pensava eu). E não apanhavam porrada dos colegas.
No liceu, queria depressa chegar ao 12º ano. Eram os mais velhos, logo, os mais importantes.
Na faculdade, queria depressa ser finalista. Eram os mais importantes. Até tinham direito à cartola.
No estágio, queria depressa chegar ao fim, perder aquele "estagiário" a seguir ao tracinho, sinal de eterna menoridade, de segunda categoria.
E eis que, chegado aos quarenta anos...
Não, ainda não cheguei àquilo de querer que o tempo volte para trás. Se calhar, só lá para os setenta é que me vai dar essa mania.
Realmente, o tempo é uma coisa gira.
Não tem nada a ver, mas lembrei-me agora de outra coisa. (Aturem-me, ora. Não me dessem entrada aqui no blog. Ahpoizé!)
Quando tinha aí 18 ou 19 ano, achava que quem tinha 30 ou mais era VELHO. Achava, pois. As miúdas, só as achava giras aí até aos 20 e poucos. Depois disso, eram velhotas.
O tempo foi passando, e tal e coisa, e depois a certa altura já gostava das cachopas de 30 e poucos. Também gostava das mais novitas, mas as de trinta e picos... Ai, ai...
O tempo foi passando, e eis senão quando dou comigo a deitar o canto do olho para as de quarenta.
No outro dia, dei por mim a olhar para uma de cinquenta e tais. E de achar que ela até era gira.
Valha-me ao menos isso. Quando chegar ao lar de terceira idade, vou andar a correr atrás das velhotas todas. De andarilho, se calhar, e com a garrafa do soro...

O dilema

Há tempos, encontrei o parafuso que há muito tempo tinha perdido.
O problema é que não sei onde, nem como, voltar a enroscá-lo.
E o dilema é que nem sei se quero...
Assim guardo-o, religiosamente, no bolso direito das minhas calças.
E todos os dias o olho, o toco, lhe falo, carinhosamente.
O meu parafuso perdido!

Ida e Volta

Ora cá estou eu de volta!
A viagem correu bem, obrigado.
Por cá, vou vendo que está quase tudo na mesma, felizmente...



E que descobri em Munique?
Que tem um rio chamado Isaar e um museu chamado Pinakoteka.
Que tem Strasse’s sombrias e Platz’s luminosas.
Que faz frio, frio a sério e, à noitinha, cai neve quase sem se notar, que logo desaparece nas ruas molhadas.
Que é habitada por alemães, muitos alemães,... que falam alemão.
Que enchem as ruas geladas, os mercados de natal, as pistas de gelo... e falam em alemão!
Que se sentam nas cervejarias, onde estão sempre a comer salsichas e pernis, Strudell’s e Schnitzel’s. E a beber cerveja, muita cerveja, claro... e a falar alemão.
Que, afinal, sorriem como nós!

PP: Ao vir para baixo, fui "interceptado" por um dos famosos Subarus da brigada: está-se a tornar um mau hábito! O pior é que desta vez, além da paulada económica, não me devo safar da inibição de condução. Aiii!

30 de novembro de 2003

Não o diem

Toca a campainha. É um senhor. Mais de sessenta, certamente. Moreno. Traz um avental azul, desbotado, um pouco puído; e uma enxada.

- Quer que eu dê uma carpida aí no mato?

Cresce um matinho nas rachaduras da calçada aqui em frente; ultimamente tem chovido, tem feito calor, as folhas se espicham e se espalham.

- Não quero pedir. Quero trabalhar.

- Tá certo. Quanto você quer?

- Dois reais (uns setenta centavos de euro), e se o senhor me der uma sacolinha eu ajunto o mato e ponho ali na sua lixeira.

- Feito.

Dou os dois reais e a sacolinha. Ele carpe.

* * *

Às vezes vêm pessoas pedir comida. Não dinheiro: comida.

- O que o senhor tiver já ajuda.

Dou. Sempre dou. Negar comida é o fim do mundo. De outra vez é uma mulher, com uma menina de colo:

- Só um real, senhor, pra eu pegar o ônibus.

Dou o real. A menina, limpa, ri e me faz festinha.

- Como é o nome dela?

- É Mariana.

- Que linda que você é, Mariana!

E a gengivinha sem dentes se arreganha, rindo até em cima. Quando vai embora, dou "tchauzinho", e ela ainda ri, tentando devolver o gesto com os dois braços - coisa de nenê.

* * *

Dir-se-á que se pode fazer muito mais do que isso. Mais: que se deve fazer muito mais do que isso.

Concordo. Não me orgulho desse pouco, nem me defendo. Faço o que posso, vou até onde consigo, ando com as pernas que tenho.

Não acredito em Deus, ou deuses. A menos que os dias, que se sucedem, façam-lhes as vezes.

Sou, como todos, menor que tudo.

29 de novembro de 2003

dias de olho pisco

Pois estou como a minha avó Nené.
Olho pisco.
Cansada e surpreendida.
Desatada e amarrada com tarefas.
Desapegada e livre.
Saudades dos ausentes daqui.
Jb e tinto com fartura.
Amigos a serem lenitivo risonho de um dia de merda.
Beijos.