
(fonte: Gaspar, Nuno e Miguel, Um passeio de Cintra até ao mar )
Faz parte do trajecto quase diário a estrada estreita e sinuosa de onde se avista magnífica paisagem e que liga a Vila Velha à Ribeira de Sintra. Logo no início do caminho, não consigo deixar de lançar um olhar de desalento ao hotel Netto. Construído em oitocentos, o tempo e a incúria deixaram-no chegar a um estado de avançada degradação.
Situa-se o edifício em frente a uma unidade hoteleira mais recente. Este último hotel , aquando da sua construção em 1980, gerou polémica por se desenquadrar da paisagem. Refiro-me ao Tivoli Sintra edificado no terreno do Hotel Nunes, mencionado por Eça de Queirós em Os Maias e sobre o qual deixarei um dia registo.

Voltando ao Hotel Netto, evoco uma passagem pela cidade do Porto durante o Verão. Tendo conhecido por lá um amigo comum de provecta idade, fiquei apreensiva quando este senhor me referiu ter passado uma única vez por Sintra durante a infância. Acompanhado então pelos pais, tinha almoçado no Netto um arroz de amêijoas que – passo a citar – lhe «soube pela vida». Logo a seguir à memória gastronómica partilhada, afirmou: «o hotel certamente ainda existe». Já há cerca de duas décadas, a minha resposta limitou-se a um triste sorriso de imediato compreendido. Todas as localidades e memórias merecem cuidados, mas a situação torna-se particularmente gravosa quando envolve espaços ou construções integrados no centro histórico de uma vila agraciada com a menção de património da humanidade.
