décadas após a morte de josé cardoso pires continua a ser uma das vozes mais lúcidas e rigorosas da literatura portuguesa contemporânea.
cardoso pires tem tido, regularmente, estudos académicos, biografias e colóquios dedicados à sua obra, sinais de reconhecimento e de respeito pela sua obra.
mas este reconhecimento contrasta com uma evidência desconcertante: a dificuldade de encontrar os seus livros nas livrarias e nas plataformas digitais, onde quase nada do seu trabalho está disponível.
cardoso pires é autor de obras fundamentais da nossa literatura e construiu uma uma obra cheia de lucidez e ironia, que desmonta os mecanismos do poder, da hipocrisia e da linguagem convencional.
a sua escrita exige-nos atenção e inquietação, qualidades raras num tempo dominado pela pressa e pela distração.
não é estranho que o mercado literário, cada vez mais moldado por lógicas de marketing e consumo rápido, tenda a esquecer autores que desafiam em vez de seduzirem.
mesmo na kobo, uma plataforma digital onde os livos não ocupam volume nem gastam activos das editoras, o cardoso pires só aparece em 2 estudos sobre a sua obra e nem um único livro seu se la encontra.
(estão a ver o meu problema em fajao, onde tenho pouquíssimos livros e quase tudo o que leio é em formato digital?)
em comparação com um seu contemporâneo, luiz pacheco, a atenção dada a este no seu centenário, que este ano também se comemora, tem sido muito mais divulgada, não obstante a importância das obras ser de galáxias diferentes.
mas neste caso parece que a leitura rápida e as caralhadas funcionam como um bom chamariz.
o esquecimento editorial é comemorativo não apaga a vitalidade da sua obra.
a força de cardoso pires está precisamente na capacidade de atravessar o tempo e de se renovar na leitura de cada geração.
ele próprio parecia antecipar esta condição quando afirmou, numa entrevista:
“Os livros ficam. Morrem por dias. Depois levantam-se por épocas. Redescobrem-se. É essa consciência que vale ao escritor, para não se sentir ostracizado.”
esta frase resume o seu entendimento da literatura como uma forma de resistência à morte e ao silêncio.
cabe-nos a nós, os que amam a sua escrita, manter vivo esse legado, garantindo que a sua obra não fique confinada às notas de rodapé ou às bibliotecas especializadas.
redescobrir o josé cardoso pires é mais do que um ato de memória — é um dever cívico e literário.
num tempo em que o ruído tende a abafar a lucidez, relê-lo é um gesto de claridade: uma forma de reafirmar que a literatura, quando é verdadeira, não se esgota na época em que foi escrita, mas continua a interpelar as épocas seguintes.
cardoso pires é um autor cheio de futuro

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