17 de março de 2014

Um abraço a Milão


Por vezes são as cidades que nos escolhem e não o contrário, o que sucede quando são situações a conduzir a destinos. Uma nova visita a Milão, não a cidade italiana de maior fluxo turístico, mas aquela onde se é conduzida por circunstâncias. A primeira surpresa prende-se com o número escasso de transeuntes, mesmo os que aparentam trabalhar nas imediações. O ponto mais movimentado é o que ladeia a  catedral gótica, com turistas japoneses e grupos de estudantes em visita escolar. O alojamento é uma surpresa, um prédio antigo de condomínio, com o interior totalmente remodelado, em decoração minimalista . Os gestores são um jovem casal que, na primeira manhã, fazem questão em saudar com simpatia à porta do edifício e referir as qualidades do treinador Mourinho. A rua é sossegada e, ficando distante do ruído da cidade , situa-se perto de uma diversidade de transportes públicos. A noite traz a surpresa de uma iluminação – já o havia esquecido – obscurecida. Num restaurante , a empregada fala-me em Português. É de S. Paulo e vive em Milão há oito anos “os italianos têm muito ‘estresse’, sinto saudade do meu país”. Reparo que fala num italiano perfeito, sem sotaque, o que é fácil para os falantes de línguas românicas, pois todos os filmes continuam a ser dobrados e os italianos falam muito e depressa... Nos subúrbios próximos da universidade , os transportes são escassos, interrogo-me como farão os estudantes estrangeiros a frequentar o estabelecimento. Existe um elétrico a conduzir ao centro, após uma viagem de três quartos de hora. Tento comprar o bilhete no veículo, o que não é permitido. Uma simpática italiana diz num encolher de ombros “isto é Itália!” e indica-me uma tabacaria onde se pode adquirir , a preço módico, um título de transporte válido por 24 h, também permitido no metro e no autocarro. No transporte cheio, observo os passageiros de semblante pesado. Uma jovem senhora, a falar ao telemóvel, informa que dentro de hora e meia deverá chegar a casa . Vejo , na montra das imobiliárias, os preços de aluguer e entendo que só os muito desafogados poderão viver na cidade.





No sábado, uma ida ao Lago de Como, comboio apanhado na estação de Cadorna, a dez minutos de distância do alojamento. A viagem demora uma hora e, da janela, avistam-se extensos campos de cultivo, alternando com subúrbios menos cuidados. Vale a pena chegar ao lago e avistar, ao longe, as montanhas ainda cobertas de neve.




Na manhã que antecede o regresso a casa, uma caminhada pelo Parque Sempione . Já se sente a chegada da primavera, a beleza das árvores em flor , as tartarugas amontoam-se nos lagos e um parque de diversões agride os ouvidos com a música estridente que se vai diluindo, com a chegada de um saxofonista, concentrado na melodia apelativa com que brinda os domingueiros. A cidade não aparenta acolher muitos imigrantes precários, a não ser os que  tentam, com insistência, vender uma rosa a quem passa.

4 comentários:

Inês Rocha disse...

Os pequenos pormenores fazem a diferença nesta descrição. Adorei!Deu-me vontade de fazer as malas... :)

teresa disse...

As viagens são (a título pessoal) isso mesmo, um mergulho nos locais e a observação das pessoas,o pulsar das cidades :)

Luísa disse...

Eu acho que as iluminações de rua fortes são coisa mesmo de Portugal. Como aqui também é tudo meio escuro já me habituei, mas se estiver de férias em Portugal e regressar... é um choque!
E, infelizmente, parece-me que o descuido é por toda a Itália. Há uns anos, um italiano do Sul dizia-me "ah lára para o Norte são mais certinhos e arrumadinhos", mas depois da passagem de ano em Génova (com passagem meteórica por Milão) percebi que o "certinho" deles está muito longe do meu.
No entanto... uma viagem é sempre uma viagem e a Catedral... faz-nos esquecer qualquer detalhe menos bom. :D

teresa disse...

Estranha-se a iluminação, sim, Luísa, mas trata-se de um pequeno detalhe, tudo o resto é agradável :)