
(fotografia de Robert Doisneau)
A senhora Emília era a porteira no Areeiro. Viver em Lisboa era então como viver nos subúrbios, mas com mais gente… para além do jardim da praça em frente à entrada do prédio onde havia um lago com peixes vermelhos, outro local eleito era a morada desta senhora, espaço onde existia um pátio calcetado . Partilhávamos brincadeiras com o seu filho, um miúdo sardento e de cabelo cor de cenoura. Um dia, fomos surpreendidos pela nossa mãe a comer pão escuro com rodelas de cebola no intervalo de um passeio de triciclo no pátio da porteira. Ainda hoje a mãe se refere ao flagrante por lá em casa serem norma teimosias alimentares comparáveis a uma greve da fome (em visão subjectiva materna). Uma côdea dura, entre brincadeiras infantis, torna-se melhor manjar do que qualquer fofo pão de leite, dificilmente mastigado no encerramento de uma sala de jantar com janela para a cinzenta avenida... Tempos em que se tratava por avó a vizinha do primeiro andar que nos mimava com chocolates e bolos de pastelaria de claras moldadas em forma de pássaro.
2 comentários:
As porteiras, os páteos, quintais de Lisboa onde se brincava com liberdade...tinham cheiro de infância segura.
Os bolos com claras em forma de pássaro (Passarinhos) que a minha mãe nos trazia para o lanche, ainda se encontram com relativa facilidade, por exemplo na Lido da Rua Morais Soares.
Imaginei que os tais bolos ainda existissem, B. No entanto, a novidade da descoberta que só a infância traz (e sem saudosismos, que belas infâncias em que se vivia ao ar livre, mesmo na cidade)parece que lhes conferia um sabor único. Acrescento ainda os pastéis de nata, quando se comia primeiro com uma colher de chá o recheio e, no final, a massa folhada, coisas de criança:)
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