ou, de como a caminho dum objectivo se encontra um mundo

no sábado, depois duma apanha de avelãs, fui novamente a caminho de arranjar um medronheiro decente para crescer num vaso.
e voltar à demanda das trufas.
a meio da descida de fajão para a ponte, decidi parar na assentada para procurar por um terreno que era dos meus pais.
como estava alguém a apanhar umas castanhas naquela zona, lá perguntei ao que ia.
no estilo de humor muito fajaense, antes de obter a resposta, tive eu que responder quem era e ao que vinha.
inquérito respondido, lá vem a resposta:
'isso é ali a seguir aquele terreno. mas está impossivel de lá chegar. é tudo silvas... '
perante o meu ar entre o desconsolado e o 'lá terei que ir para o meio das silvas', indica-me o pedaço de terra mesmo abaixo de mim:
'é este aqui, que eu tenho tratado ainda do tempo do seu pai. são estas 3 filas de oliveiras'.

começo a ajudá-lo a apanhar castanhas (pelo gozo de as apanhar), e logo me diz que 'ali aquele castanheiro também é seu. até aquelas pedras'.
digo-lhe que queria apanhar uma azeitonas naquelas oliveiras para fazer a experiência de as curar (coisa de que não existe tradição em fajão, já que ali todas as azeitonas eram para azeite, embora hoje sejam mais para os pássaros...).
indica-me umas oliveiras com azeitonas em bom estado e colho uma imensidade duns 200 gramas de azeitonas para a experiência.
para começar a entrar na fase do 'mudar a água às azeitonas'...
e passa a mostrar-me o jardim, as culturas, a adega e a jeropiga ali feita que bebo... e uns lindísimos pimentos:

'leve, deixe secar e depois ponha as sementes na terra...'
depois dum pequeno saco com uns feijões, ovos, pimentos, malaguetas, uvas, azeitonas, castanhas e serpão para semear e secar, tudo em doses reduzidas mas suficientemente úteis, uma conversa longa sobre as memórias dos meus pais e das memórias deles, ainda tempo para mostrar um outro terreno que andava à procura de saber onde era.
'aquele pinheiro ali está a mais. devia deitá-lo abaixo para aquelas oliveiras crescerem melhor. e este castanheiro aqui devia ser desbastado....'
lá voltarei brevemente. prometo.
fajão tem uma mística especial, de facto.
um fim de semana é sempre muito mais que dois dias.
3 comentários:
Mais que dois dias, por vezes poderá ser uma vida...
Belo post, belas fotografias, Carlos
A costela de citadino que possui, nasceu em Lisboa, não tem terra, leva-o a pensar se o pinheiro impede mesmo o crescimento das oliveiras. O homem diz que sim e disso saberá ele... mas se pinheiro e oliveiras puderem coexistir melhor.
É reconfortante ler estas coisas, saber destas coisas, falar delas...
a questão é que eu nem quero as pinhas nem as azeitonas..
por mim ficam lá.
a menos que ele precise da madeira do pinheiro.
até porque pinheiros é o que mais por lá há...
No bornal dos respeitos, entre muitas outras coisas, colocaram-lhe as árvores. Um primo que tem um quintaleco nos suburbios, viu-se na obrigação de cortar umas acácias que tinha por lá - já invadiam a propriedade do vizinho, o polen... não sei quê... as crianças...
Nâo dormiu nessa noite e todos os dias olha o espaço onde as acácias se espreguiçavam.
Lembra o avô de Sramago que, pressintindo a chegada da morte, foi abraçar, uma por uma, as árvores que tinha em redor da casa.
Por muitos pinheiros que existam em Fajão, e ele sabe que há, o citadino que é, faz contas aos anos que um pinheiro leva a tornar-se árvore e arrepia-se ao pensar no eventual abate. Fica a torcer para que o homem dele não precise... já nos bastam os incêndios...
Abraço citadino, quiça egoísta.
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