Tom Waits é rapaz é muito cá de casa.
Uma voz que, segundo a revista “Rolling Stone”, “tem alcatrão suficiente para asfaltar uma auto estrada inteira.”
Gosta de todos os seus discos e tem sempre muita dificuldade em explicar como este “cúmplice da noite” lhe provocou a doce mania de ficar dependente das suas canções. “Só tenho problemas com o álcool quando já não tenho mais nada para beber.” E põe-se denunciar o piano, em alto e bom canto, que é ele que está bêbado e mais ninguém . Ou dizer com uma voz, condoída de noites sem sono, de que “nunca conheci uma mulher como tu “ e a gente, do lado de cá do gira-discos, a saber que ele já conheceu mais de mil.
Tanto quanto sabe Tom Waits não tem um disco de Natal e que bem que isso lhe assentaria. Mas conhece duas canções, pelo menos, que a sua boa vontade vai considerar serem de Natal.
Uma é “Innocent When You Dream” do álbum “Franks Wild Years” e que faz parte da banda sonora de “Smoke”, filme de Wayne Wang e Paul Auster. Outra é “Christmas Postcard From A Hooker In Minneapolis”, do álbum Blue Valentine”
Desta se transcreve a letra, com tradução de João Lisboa” para o livro “Nocturnos” da Assírio e Alvim:
“Postal de Natal De Uma Puta Em Minneapolis”
“Olá Charley, estou grávida
E a viver na rua 9
Mesmo por cima de uma livraria nojenta
À beira da Euclid Avenue
Deixei de meter droga
E parei de beber Whisky
O meu homem toca trombone
E trabalha no caminho de ferro
Ele diz que gosta de mim
Ainda que o bebé não seja dele
Diz que o vai criar como a um verdadeiro filho
Ofereceu-me um anel que a mãe costumava usar
E sai comigo para dançar
Todos os sábados à noite.
E Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo numa bomba de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
E ainda tenho aquele disco de Little Antony e os Imperials
Mas roubaram-me o gira-discos
O que é que se há-de fazer?...
Olha Charley, quase dei em doida
Quando o Mário foi de cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com os meus velhos
Mas toda a gente que eu conhecia
Ou morreu ou estava presa
Então voltei para Minneapolis
E desta vez penso que vou ficar por cá
Sabes Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece-me que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar em droga
Comprava um parque de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente em cada dia
A condizer com a maneira como me sentisse
Oh Charley, por amor de Deus, queres saber toda a verdade?
Não tenho nenhum marido
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar ao advogado
E, olha, Charley, devo sair com pena suspensa
No dia de S. Valentim”.
1 comentário:
e uma excelente tradução/entrevista do joão lisboa :)
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