Em arrumações de livros, deparei-me com uma obra sobre o linguajar típico de Minde.
Este registo em calão trata-se de “uma linguagem de prevenção e defesa” tal como “as gírias usadas em certas comunidades fechadas como as dos estabelecimentos prisionais, internatos e quartéis[…]” . Com eles pretendendo os seus utilizadores “defender os seus interesses, dar recados ou transmitir mensagens e avisos diante de estranhos sem terem de dar a sua vida a saber”.
Quase caído em desuso, a obra foi editada na tentativa de perpetuar esta fala.
Agradecendo ao Pedro, à época professor de Música na localidade, a oferta deste livro, divulgo um primeiro texto em minderico e, seguidamente, a sua tradução livre:
FALTA DE REGATINHA NO TRASTAGANO
Num dos planetas da quarta sesta do Margaceiro o Penostra de Belém andou de peneireiro a mirantar as didezas causadas pela falta de regatinha das carrancudas nas terrujas do trastagano.
Devido à trilha ser muito teodorinha para os do Noé na dos sete palmos daquelas terrujas há muito pasmados sequeiros e houve até alguns que encolheram os mirantes por causa da âmbria.
Há quase dois meses que, apesar de estarmos nos passos dos planetas didis e do arrepia não se mirantavam carrancudas.
Chegou mesmo a haver crestado rancho demais para os planetas destes passos.
Que o Treme-terras não seja para nós Gualdino e nos jorde cópia regatinha para que esta não seja teodorinha nos meses do crestador.
In “Jornal de Minde” nº 423
E agora, a tradução:
SECA NO ALENTEJO
Num dos últimos dias de Março o Presidente da República andou de helicóptero a ver os prejuízos causados pela seca nas terras do Alentejo.
Devido à falta de pastagens naquela região, o gado bovino encontra-se em estado de grande magreza havendo até casos de animais que morreram devido à fome.
Há quase dois meses que, apesar de ser Inverno, não se vêem nuvens.
O calor chegou mesmo a ser exagerado para esta época do ano.
Que Deus não se esqueça de nós e nos mande muita chuva para que a água não nos falte nos meses de Verão.
Piação dos Charales de Ninhou, Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro
6 comentários:
o leite de vasconcelos escreveu um pouco sobre isso.
devo ter lá no buraco negro de lisboa
minderico, acho que se chamava
... é isso mesmo, Carlos, "minderico" que, aliás, é também a designação dada aos naturais de Minde (terra Natal do artista plástico Roque Gameiro).
Adorei!
Curiosamente, trata-se de uma linguagem figurativa e, por isso mesmo, é divertido comparar o texto em minderico com a tradução "livre" que vem a seguir:)
O "Treme-terras" é o meu favorito.
Até amanhã se o Treme-terras quiser!
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